Picture Perfect

2 Capítulo 1


Notas iniciais
Música: https://www.youtube.com/watch?v=lM5GNZR0szE (Just The Way You Are - Bruno Mars)

Nico estava quente. Confortável, deitado na sua cama. Sentia um cheiro desconhecido, mas agradável. Seus braços envolviam algo que não teve certeza do que era. Mas aquilo estava muito aconchegante, tão gostoso que ele não quis sair daquela posição.

Sentiu algo estranho fazer cócegas no seu rosto e abriu um sorriso. Foi a primeira vez em semanas que abria um sorriso, desde que Will começara a se afastar. Conseguia sentir uma coisa na sua barriga que lhe fazia bem, sem entender o porquê. Mergulhou a cabeça na coisa fofa que estava na frente do seu rosto.

Com as mãos, apertou o que segurava e trouxe para mais junto do seu corpo. Tocando com as pontas dos pés, percebeu que era algo grande. Estava começando a ficar confuso, mas seu sono e preguiça eram tamanhos que nem importou-se. Só queria permanecer no seu canto, com aquele calor emanado do objeto que tanto abraçava.

E então percebeu que ele começava a se mexer. Devagar, mas se mexia. Tentava soltar-se do seu aperto para depois afundar-se ainda mais nele. Tocou a sua pele delicadamente e pareceu encolher-se. Nico continuou naquela posição, de olhos fechados, e sentiu algo deitar-se no seu peito. Poderia deixá-lo lá, mas então percebeu que beijaram seus lábios e enfim abriu os olhos.

Seu coração deu um salto ao ver um rosto fino envolto por fios vermelhos ondulados com os olhos fechados, em paz. O garoto só soube que Sara não dormia por conta do sorriso de lado que deixava estampado na sua face. Tentou levantar-se da cama com pressa, mas acabou caindo com força no chão. Com dor na cabeça por conta do tombo, ergueu-se e gritou:

– Fora do meu quarto!

Ela abriu os olhos verdes e ficou encarando-o. Verdes? Nico podia jurar que no dia anterior eles pareciam muito azuis. Talvez estivesse ficando daltônico, não tinha certeza. Mas todas as outras cores (do seu quarto, das suas roupas) pareciam estar certas, só a daqueles olhos – nossa, e que olhos! – estava errada. Mas apagou esse pensamento da sua mente e concentrou-se em apenas encará-la de volta.

– Vai – murmurou, pausadamente – embora.

– Ahn – ela respondeu – Bom dia para você também, flor do dia.

– Eu mandei você sair.

Sara espreguiçou-se devagar, bocejando. Ficou sentada na cama, deixando a preguiça transparecer no seu rosto. Fez biquinho e inclinou a cabeça para o lado, fazendo o cabelo vermelho cair pelo seu peito.

– Você não vai embora? – ele perguntou, impaciente.

– Não pretendo ir agora, querido.

– Mas, bem, esse quarto é meu e você o invadiu, tomou a minha cama e me beijou. Vá.

– Esqueceu um detalhe, amor. Quem cedeu-me a cama foi você e não eu que a roubei. Você que invadiu o meu espaço durante a noite, murmurando, e me agarrou.

– O quê?

– Ah, agora não se lembra – e riu alto – Mas eu sim, meu caro. E se eu quiser ficar, ficarei. Ainda estou com sono. Mas, se você estiver com tanta vontade de me tirar daqui, é só pedir com carinho.

Nico bufou de raiva. Ela o chamava de amor e querido, e isso lhe dava nos nervos. Não gostava de que lhe dessem apelidos, ainda mais carinhosos. Nico certamente não era carinhoso.

– Saia do meu quarto ou eu ergo mortos para te tirarem daqui. Por favor.

– Bem melhor.

Sara tirou as pernas de cima da cama e pegou os tênis para calçá-los. Enquanto os colocava nos pés, Nico tentou não olhar para seu decote que mostrava um pouco mais do que deveria. E percebeu que em seu pescoço pendia um colar prateado com pingente de estrela. Desistiu de ficar em pé e sentou-se ao seu lado.

Ela estava com a coluna curvada, o que provocava ainda mais Nico. Ele tentou não pensar nisso também e mexeu no cabelo dela. Sara ergueu-se e o encarou com firmeza, cruzando os braços, o que dava mais volume para os seus seios. Suspirou e disse:

– Não mexa no meu cabelo.

E, olhando-se sabe-se lá onde, ajeitou as madeixas e levantou-se. Nico apressou-se para também ficar de pé.

– Olha – ele falou – Me desculpa por ter sido tão rude. Mas, se você quiser, posso apresentar-te o acampamento e só isso. Ou chamo meus companheiros mortos para te levar junto com eles.

Sara riu, lindamente, e cruzou as pernas em pé, o que a deixou com um ar meio sexy. O coração de Nico acelerou e ele sentiu algo abaixo se mexendo.

– Amor, tá vendo esse cordão?

Ele pegou o pingente nas mãos, aproveitando para tocar um pouco naquela parte de pele que ficava à mostra pelo decote dela.

– Para de tocar no meu peito, cara – Sara falou, dando um tapa na mão dele, fazendo-o soltar – Bem, esse cordão foi um presentinho que recebi. Foi abençoado por praticamente todos os deuses e não me concede apenas a magia que já é natural de uma cria de Hécate. Posso controlar todos os elementos sobre os quais cada olimpiano tem poder. Como você acha que eu te curei ontem? Por que você acha, Nico, que eu consigo voar?

Ainda com as pernas cruzadas, ela ergueu-se alguns centímetros do chão e começou a flutuar pelo quarto. Deu algumas voltas e acabou mergulhando de volta pro piso, desacelerando um pouco para não bater com força.

– Então – ele falou – é como se você fosse filha de todos os deuses?

– Mais ou menos. O único defeito disso é que não possuo imunidade. Se caio na água, eu me afogo. Se me jogam no fogo, me queimo. Mas, fora isso, é perfeito.

– E por que eles te deram isso?

– Uma missão que me foi dada, sabe? Até completá-la, não posso contar. Bem, vou embora.

Andou até a porta do chalé, a abriu e saiu.

Nico não sabia se deveria ficar bem por finalmente estar sozinho de novo ou triste por tê-la deixado ir. Mas não pôde pensar muito nisso pois naquele momento, Kayla falou de novo em sua cabeça.

“Ela é incrível, né? Vi a maneira como a olhou. Nico, você está indo muito bem, hein?”

– Dá o fora – ele sussurrou.

“Não depois dessa. Vamos virar cunhados, que legal, né? Porque você sabe que eu sou filha de Hécate e tudo mais. Awn, que bonitinho, Nico.”

– Você também tá envolvida nisso?

“Nisso o quê?”

– Minha maldição.

“Ah, não. É uma outra deusa que está fazendo isso. Uma olimpiana. E, nossa, você confia neles. E os seus amiguinhos também.”

– É, sim. Falando nisso, vou ver como eles estão.

“Está bem, então. Estarei te esperando. Vá em paz.”

E o silêncio foi predominante na cabeça dele novamente. Correndo, saiu do chalé e foi ao refeitório. Sentou-se sozinho na mesa de Hades e no seu prato surgiu um pequeno hambúrguer. Ele o pegou com as duas mãos e começou a comer, concentrado.

Nos últimos dias, Nico estivera mais solitário que nunca. Seus amigos estavam em uma missão, menos Will, que já nem fazia tanta diferença. Por alguma razão, o filho de Apolo começara a se afastar, deixando o outro perguntando-se se havia feito algo de errado.

Claro, não era a primeira vez que Nico ficava sozinho por muito tempo. Ele já deveria estar acostumado a isso. Mas é que ele tinha começado a confiar neles, pelo menos em Percy, Annabeth e Will. E isso só criava um peso grande no seu peito.

Terminou seu lanche e virou-se, pronto para ir a qualquer lugar longe do refeitório. Mas ali, bem atrás dele, estava o tal cara em quem vinha pensando mais do que o normal. Will abrira seu sorriso branco e grande e puxara Nico pela mão.

– E aí, cara – falou – Tudo bem?

Nico o encarou, firme. Depois de um tempo, respondeu:

– Nunca, e você?

– Tô legal.

Estavam andando entre os chalés, cumprimentando os campistas por quem passava. Iam rápido, como se Will quisesse chegar ao seu destino com pressa.

Quando percebeu, Nico estava dentro da arena, observando Sara lutar com uma filha de Ares.

– Conhece Sara? – perguntou Will – Ah, claro que sim. Todo mundo a viu saindo do seu chalé hoje.

E riu, alto.

– Todo mundo viu? – perguntou Nico.

– Sim. Afinal, o que ela estava fazendo lá?

– Longa história.

– Olha só, di Angelo. Você consegue ficar com uma cor que não seja branca.

E Nico sentiu seu rosto queimar ainda mais, fechando a mão com força. Suas unhas perfuraram suas palmas.

Tentou parar de pensar nisso e concentrou-se na luta que acontecia à sua frente. Sara atacava e defendia como se tivesse feito isso a vida inteira. Chegou a cair, mas usou essa queda para desarmar a oponente e apontar sua espada para o peito da outra.

O coração de Nico acelerou.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Esse capítulo ainda faz parte da introdução ahuahua