Picks of a Heart
24 My Tsunami
Notas iniciais
Haviam muitos fios soltos.
O que pode acontecer comigo enquanto eu recobro a memória?
Que tipo de pessoa era a Ignis que o Loki tanto ama?
Que tipo de pessoa pode amar o Loki?
Por que eu não me lembro de nada?
O que eu devo fazer agora?
A resposta para a última pergunta eu pensava ter.
Terminei minha sessão com Loki, pedi a Fury um carro emprestado e ele avisou que minha moto já estava me aguardando. Apesar de odiar pilotar de vestido, não insisti por um carro, pois no fundo eu sentia falta da minha moto.
Durante o curto trajeto até meu apartamento, deixei-me deliciar pelo frescor que era o vento batendo em meu corpo e resfriando-o. Apesar das voltas que minha cabeça dava, das ideias que eu arquitetava, tentei me manter sã e pura, ao menos até chegar em casa e acordar para a realidade.
Estacionei a moto na garagem logo atrás do Bien e segui caminho até a cafe-teca bem lentamente, tentando aproveitar o momento.
Eu sabia que, no segundo em que colocasse os pés dentro do Bien Sûr, teria de tomar novas medidas, e uma delas seria demitir uma certa funcionária.
As luzes no Bien estavam apagadas, apesar de ainda ser oito horas da noite. Talvez Jocelyn desistira do trabalho e Sophie percebeu que não era bem vinda.
Destranquei a porta e entrei de pressa, sem me importar com o vizinho que passou acenando.
─ Oi. ─ uma voz soou no fim do 1º pavimento e eu senti meu coração quase pular para fora do peito com a surpresa.
Virei-me lentamente em direção a voz e, utilizando minha visão apurada, consegui enxergar o seu dono.
─ Steve? ─ minha voz soou fraca quando coloquei meus olhos no homem.
Dei curtos passos em sua direção direção. Ele estava sentado na última mesa e me encarando de modo conspiratório. Quase que seu terno e gravata passaram despercebidos por mim por conta da intensidade que era seu olhar. Quase.
─ Perdeu a festa. ─ comentei tentando parecer calma enquanto acendia a luz do 1º pavimento. A frente de Steve, sobre a mesa, estava um enorme buquê de peônias brancas que prendeu meu olhar por um longo tempo.
─ Fui ver uma amiga. ─ quando ele disse aquilo, senti meu coração martelar por ciumes, mas me controlei ─ Procurei por concelhos em relação a uma certa mulher.
─ Pelo jeito ela levou muito tempo para conseguir te aconselhar. ─ soltei as palavras sem pensar, achando que iria o magoar, mas me enganei, como quase sempre. Ele deixou escapar um sorriso rápido parecendo contente com minhas palavras.
─ É. Na verdade... eu... cheguei faz duas horas. ─ ele revelou e me deixou um pouco surpresa ─ Combinei com os outros que iria chegar aqui às seis, mas... parece que perderam a hora.
Não contaram para ele sobre minha conversa com Loki.
─ Minha culpa. ─ admiti.
─ Não faz mal ─ ele se levantou e começou a caminhar em minha direção segurando em mãos o buquê ─, fico feliz que tenha aproveitado a festa.
Soltei um longo suspiro ao perceber a aproximação eminente.
─ Se eu soubesse que você estava aqui, teria trazido um pedaço de bolo. ─ tentei sorrir, mas a presença de Steve vestido daquele jeito naquele instante pareceu-me demais para um dia só.
─ Lilly eu gostaria de... ─ ele deu mais um passo e logo estávamos cara a cara.
O tipo de energia que fluía entre nós era quase que mágica. A cada momento em que estava perto de Steve, conseguia captar uma nova sensação que me atordoava e confundia feito tsunami. Era isso o que Steve se tornara em minha vida, no fim das contas. Meu tsunami particular sempre está disposto a bagunçar minhas percepções e ideias.
─ Imagino que as flores não sejam para sua amiga. ─ forcei as palavras, já que ele se calara e criara um silêncio constrangedor entre nós.
Como é possível que Ellizabeth Fury esteja constrangida?
Ele ofereceu-me o buquê, sem dizer uma palavra se quer. Peguei o buquê e cheirei por costume um botão aberto mais próximo de mim.
─ Há muito tempo venho planejando lhe comprar flores. ─ assim que soltou as palavras, lembrei-me vagamente de uma noite no bar que um dos agentes da S.T.R.I.K.E. contou ter visto Steve em frente a uma floricultura ─ Mas... preciso dizer que peônias não são tão comuns nas bancas de flores que costumo encontrar por Nova York.
─ Sinto muito se tenho um gosto diferente. ─ deixei escapar um leve sorriso enquanto abraçava meu buquê ─ Mesmo assim, fico agradecida pelas flores...
Quais são suas intenções comigo, Capitão Rogers?
─ E então... O que sua amiga te orientou sobre a mulher? ─ me dei o direito de abraçar as flores por mais uns segundos até decidir que era hora de colocá-las em um jarro. Caminhei em direção ao jarro de violetas que estava próxima ao caixa, retirei-as e as substituí por minhas peônias.
─ Ela disse para que seguir em frente. ─ sem esperar que ele continuasse, tomei minhas conclusões de que a amiga dele era uma vaca, mas arrependi-me da decisão quando ele voltou a falar ─ Que eu seguisse em frente ao lado dela. Brigou comigo por ter perdido meu tempo ao lado dela durante essa tarde, afinal eu deveria estar comemorando o aniversário dessa mulher. Mulher que... preciso dizer... incendiou meu coração.
Fitei-o tentando controlar minhas emoções enquanto ele tornava a se aproximar de mim em passos lentos. Forcei-me ao máximo para não deixar escapar um sorriso.
─ Preciso dizer que sua amiga não está em sã consciência. ─ consegui proferir as palavras antes que ele se aproximasse o máximo que pudesse de mim.
─ Eu não concordo com isso. Acho que esse foi o melhor concelho que recebi em anos. ─ sua mão pousou levemente em minha cintura e puxou-me para mais perto ainda de seu corpo.
─ Seria um bom momento para conversarmos sobre o que aconteceu há quatro dias atrás? ─ o ar quase me faltou, mas consegui dizer.
─ Não. ─ foi tudo o que ele disse antes de seus lábios seguirem de encontro aos meus.
Eu poderia forçar o assunto, poderia negar-me beijá-lo e conversar sobre minhas mais recentes descobertas, as mais recentes decisões, porém todo meu ser mostrou-se igualmente nivelado no quesito responder a altura um beijo feito aquele. Todas as vezes que nos beijávamos, eu quase conseguia sentir meus pés flutuarem enquanto ele mostrava-se decidido a tornar-me sua. Nossas línguas brincavam provocantes em uma dança exótica que já completava milênios na terra, assim como nossos lábios findavam-se consumados e conformados com nosso amor.
Eu amava Steve. E como amava. Jamais houvera e haverá homem neste Terra ou fora dela que pudesse consumir tanto amor assim de uma mulher. Mulher dito cujo não acreditava no amor antes de prová-lo e torná-lo real em seu coração.
Poucas palavras foram ditas depois que Steve deixou de me beijar.
─ Você gostaria de dançar comigo? ─ somente após aquelas palavras, que pude compreender toda sua intenção desde o início.
A pergunta roubou-me um sorriso e uma confirmação monossilábica que foi tudo o que Steve precisou para colocar para tocar o disco de The Temptations e a música My Girl soar por todo o Bien.
Steve puxou-me até o segundo pavimento e fez uma leve mesura antes de tomar-me como seu par. Pousei minhas duas mãos atrás de sua nuca, deliciei-me com seu ombro ao encostar minha cabeça nele enquanto nossos pés se movimentavam lentamente de acordo com a dança. Apesar de ser apenas uma dança, percebi que Steve parecia ainda mais tenso que o normal quando suas mãos deslizaram por minhas costas e descansaram em minha cintura de forma formal demais. Porém minha desconfiança desfez-se no momento em que suas mãos voltaram a puxar-me para mais perto e encostar sua testa em minha cabeça.
Eu perdi a conta de quanto tempo ficamos dançando. Só tivemos de interromper nosso momento graças ao disco que acabou parando de tocar. Assim que o silêncio retornou ao nosso salão de dança particular, deixei o conforto do ombro de Steve para encarar e me perder no fundo de seu oceano azul. Nossos lábios não proferiram uma palavra se quer, mas não poderia dizer o mesmo de nossos olhos.
Ele foi embora não muito tempo depois ─ apesar de minha insistência para que ficasse ─, com a promessa de que voltaria no dia seguinte.
Eu levei um tempo para subir até meu apartamento, e um tempo ainda maior para decidir o que fazer enquanto subia as escadas.
Antes de me encontrar com Steve e passar por todo esse momento, a ideia de voltar a Asgard brincava em minha mente, causando-me confusão e uma vontade incontrolável de fuga.
Mas agora... Depois do momento em que tive ao lado de Steve, senti-me na obrigação de repensar no assunto.
Ir ou não ir? Ficar ou não ficar? Correr ou não correr? Amar ou... não amar?
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