Picks - Brittana
4 Capítulo 4
Notas iniciais
A voz de Rachel me acordou.
— Brittany S. Pierce, tire seu traseiro dessa cama e vá salvar seu GPA¹. Pelo amor de Deus, se eu deixar um cara jogar fora meu amuleto acadêmico assim, eu nunca ouvi o final de tudo.
Eu fiz um som desdenhoso de debaixo do edredom antes de espreitar para ela.
— Que amuleto acadêmico?
Com as mãos nos quadris, ela estava enrolada em uma toalha, fresca do banho.
— Ha. Ha. Muito engraçado. Levante-se.
Funguei, mas não me mexi.
— Eu estou indo bem em todas as minhas outras matérias. Não posso simplesmente reprovar nessa?
Sua boca caiu aberta.
— Você está ouvindo a si mesma?
Eu estava ouvindo a mim mesma. E eu estava tão indignada com meus sentimentos covardes quanto Rachel, se não estivesse mais. Mas o pensamento de me sentar perto de Sam para uma hora de aula, três dias por semana, era insuportável. Eu não podia ter certeza de que o seu recente status de solteiro significaria em termos de flertes abertos ou contatos, mas seja o que isso significasse, eu não queria encará-lo de frente. Imaginar os detalhes foi ruim o suficiente.
Se ao menos não tivesse o pressionado a fazer uma aula comigo neste semestre. Quando nos registramos para as aulas de outono, ele perguntou por que eu queria fazer Economia, um curso não obrigatório para o meu diploma de Educação Musical. Eu me perguntei se ele tinha percebido, até então, que era onde iríamos acabar. Ou se ele tinha sabido.
— Eu não posso!
— Você pode e você vai! — Ela roubou o edredom. — Agora se levante e entre naquele chuveiro. Eu tenho que chegar na aula de Francês a tempo ou Monsieur Sue vai me questionar sem misericórdia no passé composé². Eu mal posso fazer o tempo passado em Inglês. Deus sabe que eu não posso fazer isso en français³ a essa maldita hora da manhã.
Cheguei fora da sala de aula exatamente às 09h00min, sabendo que Sam, habitualmente pontual, já estaria lá. A sala de aula era grande e inclinada. Deslizando pela porta de trás eu o reconheci, sexta fila no centro. A cadeira à sua direita estava vazia, a minha cadeira. Dr. Schuester tinha passado pela sala um mapa de assentos na segunda semana de aula, e ele o usava para anotar presença e dar créditos pela participação na aula. Eu teria que conversar com ele depois da aula, porque não havia nenhuma maneira de me fazer sentar lá novamente.
Meus olhos percorreram as fileiras. Havia dois lugares vazios. Um era três linhas para baixo entre um cara apoiado em sua mão, geralmente dormindo, e uma garota bebendo um tipo de café e tagarelando sem parar com seu vizinho. O outro assento vago estava na fileira de trás, ao lado de uma garota que parecia estar rabiscando algo na margem de seu livro. Eu virei nessa direção, ao mesmo tempo em que o professor entrou por uma porta lateral abaixo, e a artista levantou a cabeça para verificar a frente da sala de aula. Eu congelei, reconhecendo minha salvadora de duas noites atrás. Se eu pudesse me mover, eu teria me virado e fugido da sala de aula.
O ataque veio como uma inundação. O desamparo. O terror. A humilhação. Eu me enrolei em uma bola na minha cama e chorei a noite toda, grata por Rachel me mandar uma SMS dizendo que ela estava com Quinn. Eu não tinha contado a ela o que Finn tinha feito, em parte, porque eu sabia que ela se sentiria responsável por ter me feito ir, e por me deixar sozinha. Em parte porque eu queria mesmo esquecer o que tinha acontecido.
— Se todo mundo estiver sentado, vamos começar. — A declaração do professor sacudiu-me do meu estupor, eu era a única aluna de pé. Eu fugi para a cadeira vazia entre a garota tagarela e o cara sonolento.
Ela olhou para mim, nunca parando sua confissão sobre seu fim de semana de como ela esteve mal e onde esteve e com quem. O cara abriu seus olhos apenas o suficiente para perceber quando eu deslizei na cadeira aparafusada entre eles, mas fora isso, não se moveu.
— Este assento está ocupado? — Sussurrei para ele.
Ele balançou a cabeça e resmungou:
— Estava. Mas ela está atrasada. Ou deixou de vir. Tanto faz.
Puxei um caderno da minha bolsa, aliviada. Tentei não olhar para Sam, mas o assento angular fazia disso um esforço desafiador. Seu cabelo louro sujo perfeitamente arrumado e a familiar camisa de tecido liso e botão, puxavam meus olhos a cada vez que ele se movia. Eu conhecia o efeito daquele xadrez azul ao lado de seus impressionantes olhos azuis. Eu o conhecia desde a nona série. Eu o observei alterar seu estilo de um garoto que usava bermuda de malha e tênis todos os dias para o cara que enviava suas camisas sob medida para serem passadas, mantinha seus sapatos livres de arranhões, e sempre parecia como se tivesse saído da capa de uma revista. Eu já tinha visto mais de uma professora virar a cabeça quando ele passava antes de repreender seu olhar para longe do corpo dele, perfeito e inacessível.
No primeiro ano, tivemos Inglês pré avançado juntos. Ele se concentrou em mim desde o primeiro dia de aula, mostrando seu sorriso de covinhas em minha direção antes de tomar o seu lugar, convidando-me para participar de seu grupo de estudo, perguntando sobre os planos para o meu fim de semana e, finalmente, tornando-se uma parte deles. Eu nunca tinha sido tão confiantemente perseguida. Como nosso presidente de turma, ele era conhecido por todos, e ele fez um esforço conjunto para se familiarizar com todos. Como atleta, ele era um acréscimo para o time de beisebol. Como estudante, sua situação acadêmica era dez por cento superior. Como membro da equipe de debate, ele era conhecido por argumentos conclusivos e um recorde imbatível.
Como um namorado, ele foi paciente e atencioso, nunca me pressionando muito além ou muito rápido. Nunca esquecia meu aniversário ou o aniversário de namoro. Nunca me fez duvidar de suas intenções para nós. Uma vez que ficamos "oficiais", ele mudou meu nome, e todo mundo fez o mesmo, inclusive eu.
— Você é minha Britt! — Ele me disse.
Ele não tinha parente. Seus pais eram apenas estranhamente políticos, e também tinham divergências um com o outro. Ele tinha uma irmã chamada Stacey e um irmão chamado Stivie.
Três anos se passaram desde que eu tinha deixado de ser Brittany, e eu lutava diariamente para recuperar a parte original de mim mesma que eu deixei de lado por ele. Não era a única coisa da qual eu tinha desistido, ou a mais importante. Era apenas a única que eu poderia recuperar.
CONTINUA...
¹ GPA — Grade Point Average – Média de pontos dos exames nas faculdades americanas
² Passado composto.
³ Em francês.
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