Phaesea

3 Um conversível, uma bruxa e dois sequestros


Notas iniciais
Esse capítulo trouxe bastante diálogos, o que talvez compense a ausência deles no anterior. Enfim, boa leitura! E lembrem-se: todo detalhe não está ali por acaso.

No rádio, a música “Don’t Cry”, da banda Guns N’ Roses tocava. Alex cantarolava enquanto dirigia pelas estradas da Carolina do Sul em um conversível vermelho:

Give me a kiss before you; tell me goodbye.

Mas foi só no refrão, quando Alexandra gritava “Don't you cry tonight” que Samantha acordou. Ela soltou um berro de susto altíssimo.

— Bom dia, Sam!

— Onde nós estamos? — Perguntou a filha de Quione, desesperada.

— Em direção a Beaufort.

— Você me sequestrou!

— Só achei que você iria gostar de um passeio, para espairecer, sabe? — Alex abaixou um pouco o volume do rádio. — E, além do mais, acredito que lá vamos encontrar a solução para seu sonambulismo.

— Poderia ter me avisado antes!

— Você não teria concordado, e é bem possível que fosse pedir a autorização de Quíron, ele iria ou proibir, ou nos impedir de usar um carro. Sem contar aquelas profecias que só servem para colocar medo em todos! Resumindo: um desperdício de tempo.

— Isso foi inconsequente da sua parte! — Sam vociferou. — Quíron vai nos matar!

— Eu deixei um bilhetinho para ele, sabe. Saí bem cedo para que não fôssemos pegas.

— Bilhetinho? Puta merda viu Alex, o que eu tenho na cabeça de te tolerar ainda? — Samantha cruzou os braços, indignada.

— Não adianta ficar brava comigo agora. Já estamos quase no nosso destino e, além do mais, eu explico a situação para nosso centauro favorito, ele vai entender que você não teve culpa.

— Bom mesmo! — Falou Sam, ameaçadora.

Algum tempo depois, um pouco mais calma, Samantha disse:

— Eu tive outro sonho.

— Já me perdoou? — Alex perguntou.

— Não! E esse não é o assunto. — Sam respirou fundo. — Esse sonho era diferente dos outros. Antes, eu sentia uma magia, uma presença diferente. E agora posso ver que aqueles não eram sonhos naturais. Esse, eu tenho certeza, foi um tipo de lembrança.

— E como foi?

— O cenário era o mesmo dos sonhos anteriores. A diferença, como eu acabei de falar, era a ausência dessa magia e também, a de Hécate e Noah. Era apenas eu e Lanna. — Sam engoliu em seco. — Ela segurou o meu pulso, com olhos arregalados e... e então... ela entrou em combustão. Ela literalmente começou a pegar fogo, queimar viva! Foi horrível.

— Imagino que tenha sido. Você tem alguma noção do significado?

— Não faço a mínima ideia, porém, isso me assustou. Talvez seja um aviso do meu subconsciente, sei lá.

— Não se preocupe com isso. — Alex tentou acalmá-la. — Diga-me, se você visse a mansão dos pesadelos, seria capaz de distingui-la, certo?

— Eu sonhei três vezes com isso, então, acredito que sim.

— Ótimo, pois estamos chegando em Beaufort.

***

A cidade de Beaufort era pequena, contudo, chamava a atenção devido às várias mansões e casas bonitas que haviam ali.

Alex dirigia devagar enquanto Sam olhava para cada canto a procura da misteriosa mansão.

— Como você conseguiu esse carro? — Perguntou Samantha.

— Dez anos sem ser reclamada, vivendo no chalé de Hermes... sabe como é. — Alex respondeu, simplesmente.

As duas ficaram rodando por Beaufort durante cerca de uma hora e meia, passaram várias vezes pelas mesmas ruas.

— Estamos andando em círculos. — Concluiu Sam.

— Então vem você dirigir. — Falou Alex.

— Vou mesmo, você tá cansada.

As duas inverteram os lugares e, em menos de dez minutos, chegaram a uma rua parecida com a do sonho de Sam. Pararam próximas a uma mansão branca, cujo portão estava aberto. Elas desceram do conversível, atravessaram o grande jardim e entraram.

— Isso não é invasão de propriedade? — Indagou Alex.

— Deve ser. Mas você me trouxe para isso, não? Então vamos em frente. — Sam respondeu e entrou.

O interior era idêntico ao pesadelo de Sam, sem tirar nem por. A única diferença é que ali estava de dia. Aparentemente, não havia ninguém.

Samantha continuou a contemplar o hall de entrada e todos os seus detalhes.

— É estranho estar aqui pessoalmente. Sinto arrepios só de pensar no que vem a seguir. — A filha de Quione disse, no entanto, ela não ouviu uma resposta sequer.

Quando Sam se virou, percebeu que Alex não estava ali, em canto algum. Aflita, ela chamou por seu nome. Nada.

Começou a bater nela um certo desespero a ponto de faze-la gritar, todavia, não adiantou. Então, a única coisa que passou pela cabeça de Sam foi que Alex podia ter sido pega por Hécate. Ao cogitar essa possibilidade, Samantha não teve outra escolha a não ser subir as escadas e fazer o mesmo caminho que em seu sonho.

Enquanto isso, Alex estava perdida. Achando que estava sendo acompanhada por Sam, ela subiu a escadaria e, agora, andava desnorteada. Todas as portas davam em um corredor exatamente igual. Andou bastante, chamou por Sam, e nada.

— Maldita deusa dos caminhos! — Praguejou a respeito de Hécate.

Alex perdeu a noção de quanto tempo passara ali. Talvez minutos, horas ou dias. O tour pela mansão só terminou quando Alexandra chegou em um quarto e deu de cara com uma mulher de três corpos. Era ela.

— Olá, Alexandra.

— Hécate, quanto prazer em te encontrar. — Cumprimentou Alex, com ironia.

— Eu tenho uma proposta a te fazer. — A deusa mostrou um frasco com um líquido azul dentro. — Chamei Samantha até aqui para que ela desfizesse o feitiço que ela lançou sobre minha filha, que a condenou à um sono profundo.

— Você não é a deusa da magia? Então, por que não o desfez sozinha? — Perguntou Alex.

— A questão é que eu não tenho domínio sobre a magia usada por Abigail. — Respondeu Hécate, relutante. — Eu tentei diversas vezes, no entanto, sua magia é de uma natureza diferente.

Alex arqueou as sobrancelhas. Pensou em provocar a deusa, entretanto, ela havia ficado curiosa com aquilo. Como podia Abigail ter uma magia diferente? Era estranho. Além do mais, isso descartava a possibilidade de ela ter sido filha de Hécate.

— Vejo que ficou surpresa. — A deusa abriu um sorriso. — Como vê, eu sei de muitas coisas. Poderia lhe revelar tudo o que precisa saber. Você encontraria sua origem, encontraria quem você é no mundo. Por isso, te proponho que pegue este frasco como recompensa. — A deusa moveu-se para o lado, revelando uma cama. Sobre ela, estava um garoto. — Ou você pode escolher o Noah, que mal conhece.

— Acredito que Sam queira conhecê-lo. — Disse Alex.

— Certamente! Mas ela nem imagina que esse menino está vivo, e pode continuar sem saber, se você não contar nada.

— Não saberia viver com isso. — Alex respondeu com dificuldade. Estava tentada a aceitar a poção, todavia, isso seria como trair Sam.

— Você tem certeza? — Hécate perguntou. — Quando Lanna acordar, Noah acordará também, pois eu liguei os dois. Eu posso desfazer a ligação, matá-lo e lhe entregar a poção, não é perfeito?

Alexandra ficou em dúvida.

***

Samantha estava no quarto, andando de um lado para o outro, buscando uma solução.

— Ok... não se desespere... — murmurou para si.

Sam pensou durante um bom tempo. Meditou, berrou e chegou até a chorar. Ela não fazia ideia de como resolver aquilo.

Fitou Lanna e pensou em repetir a cena que via em seu sonho. Aproximou-se da ruiva, se ajoelhou ao seu lado e colocou a mão em sua testa. Sam respirou fundo e fechou os olhos.

Nada aconteceu.

A filha de Quione xingou baixinho e, então, lembrando-se dos seus pesadelos, murmurou — ou, pelo menos, tentou — as palavras que ela mesma dizia no sonho. Novamente, sem reação.

— Eu nunca vou conseguir — disse, frustrada, para si mesma.

Porém, Samantha sabia que estava ali por algum motivo. Ela tinha quase certeza que, caso a menina acordasse, seus pesadelos terminariam e, caso contrário, algo realmente grave poderia acontecer.

Suspirou e buscou encontrar concentração. Pensou no medo que sentia todas as vezes que era acordada por alguém durante seu sonambulismo.

Pensou em Josh, o menino que salvou sua vida mesmo tendo perdido a dele, que mesmo estando destruído por dentro, ainda encontrou forças para ajudar uma pessoa.

Pensou em Alex, que procurava tanto suas origens, sua família e viu na história de Lanna uma maneira por mais mínima que fosse de se conectar ao seu passado.

Pensou em Noah, aquele por quem ela buscou durante tantos anos. Aquele que mexia com ela mesmo sem nunca ambos houverem se encontrado.

— Abigail?! — Uma voz suave de garota, que soava surpresa, assustou Sam.

Por reflexo, abriu seus olhos e afastou a mão da testa da ruiva rapidamente. Só aí percebeu que havia um líquido escorrendo por sua face. Havia chorado enquanto se concentrava,

Ao olhar para a cama, a viu. Agora, ela estava acordada. Lanna.

— Deu certo... — constatou Sam — deu certo! — Reafirmou, em tom de comemoração.

— O que deu certo? Estás a enlouquecer, Abigail. — Lanna falou, com um sotaque tipicamente inglês.

Não demorou muito para que Hécate, juntamente com Alexandra e o desorientado Noah adentrassem o quarto.

Ao ver o antigo amor, Lanna empalideceu e buscou esconder o corpo com as mãos, sem sucesso.

— Noah! Pelos deuses, eu estou indecente! Em trajes de dormir! Não olhe, por favor. — A ruiva vociferou, escandalizada.

Samantha não pôde conter o riso.

— Fala sério! Você está com uma camisola que lhe cobre os tornozelos!

— Eu estou vulgar! Zeus me perdoe por um vexame como esses. — Lanna cobriu-se com um lençol. — Oh, meus deuses, me ajudem. Não deixem que espalhem calúnias sobre mim! Não deixem que me vejam como uma devassa! Por favor, lhes imploro...

Hécate sentou-se na cama, junto da filha.

— É visível que minha filha não está habituada ao mundo moderno, no entanto, eu irei ajuda-la com isso. Está tudo bem, minha querida. — A deusa acariciou os cabelos de Lanna enquanto falava com voz suave. — E vocês três — apontou para Alex, Sam e Noah — fora já daqui. O trabalho dos pirralhos chegou ao fim. Vão embora antes que eu pulverize vocês.

***

— Alex, acha mesmo que isso tudo é necessário? — Samantha perguntou. — Vão achar que sequestramos ele.

Alexandra havia colocado fita adesiva na boca de Noah e o amarrava ao banco de trás do conversível.

— Não dá pra aguentar ele gritando igual louco. Sério, se o deixarmos solto aí que vão desconfiar, a porra do seu namorado não cala a boca. — Alex respondeu. — E outra, já sequestrei uma pessoa, o que é outra a mais?

Desde que foi liberto, Noah não parava de perguntar o que havia acontecido, chamar as duas de maluca, chamar Hécate de maluca, sem contar as crises desencadeadas por não saber seu próprio nome nem nada de sua vida. É claro, chamou a dupla de sequestradoras até Alexandra perder a paciência.

— Desse jeito ele não vai confiar na gente, só irá se assustar mais. — Afirmou Sam.

— Quanto mais medo ele sentir de mim, melhor. — Alexandra falou, maleficamente. — Você que se vire para conquistá-lo quando chegarmos ao acampamento.

Sam revirou os olhos, entretanto, não se pronunciou mais, apenas entrou no carro e Alex iniciou a viajem de volta.

Notas finais
Estou aberta a críticas construtivas e correções. Até mais!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.