Phaeleh I
43 Capítulo 43 – A proposta de Asgard
Notas iniciais
A morna luz do amanhecer se infiltrou pelas frestas da janela, tocando a face de Meine e fazendo-o despertar. Suas pálpebras tremularam antes de serem erguidas e ele pestanejou, arrastando a mente do nevoeiro entorpecente do sono para a realidade – havia uma dor incômoda entre suas nádegas e pontadas dolorosas por toda a linha de sua coluna. Ele sentia aquele lugar íntimo e sensível seu pulsando e ardendo e mesmo seu membro estava formigando-o, trazendo, então, as lembranças da noite anterior – finalmente havia dormido com Svan.
Aquela realidade ainda o surpreendia. Parecia surreal, como um delicioso sonho do qual não queria jamais sair. Ele nunca imaginou que Svan pudesse ser tão terno, tão… amoroso. O mesmo Svan indomável e irritadiço que o desprezava quando se conheceram.
Quando as coisas mudaram tanto? Quando seus sentimentos mudaram e cresceram?
Ele se esticou, gemendo pela dor no corpo de uma noite inteira de sexo. À medida na qual despertava, foi-se dando conta do que o cercava, do mundo que o abraçava – um braço pesado de Svan o envolvia, prendendo-o de encontro ao corpo musculoso, fazendo repousar sua cabeça sobre o peito amplo.
E, ah, era tão bom ouvir o bater daquele coração. Meine se deixou perder naquela pulsação rítmica e intensa, embalsamado pela melodia que fazia. Era tão reconfortante, tão familiar. O calor daquele corpo de guerreiro irradiava para o seu, expurgando qualquer frio, qualquer medo. Svan exalava segurança, como se toda a sua estrutura gigantesca fosse uma fortaleza de pedra intransponível que guardava Meine entre suas grossas paredes, impossibilitando qualquer um de alcançá-lo, de lhe fazer dano.
Uma perna de Meine estava jogada sobre as de Svan e seu braço estava largado sobre seu estômago, abraçando-o sonolentamente. Ergueu os olhos para fitar o Berserker, encontrando seu rosto com uma expressão serena que não parecia pertencer a ele. As sobrancelhas relaxadas, os lábios levemente entreabertos. Parecia incrivelmente satisfeito e cansado. Meine sorriu ante a imagem da claridade tocando os cabelos claros, a pele bronzeada. Svan era a imagem mais bela que já vira e lhe enchia o peito de orgulho ser o único a observar seus traços ao alvorecer. Principalmente após as extenuantes atividades da noite. Ele se esticou sobre Svan e plantou um beijo em seus lábios, aninhando-se contra ele. De início, não houve resposta. Então, as narinas do Berserker dilataram quando inspirou, farejando o ar que o cercava. Meine sorriu, orgulhoso. Os olhos verdes se revelaram, fitando-o por entre pálpebras semicerradas.
—Bom dia – disse Meine alegremente.
Nunca pensou que perder a virgindade fosse deixá-lo tão feliz. Ainda mais com outro homem. E que esse homem fosse Svan.
Meu Svan.
O peito do Berserker vibrou quando grunhiu preguiçosamente, rolando Meine para o lado para cobri-lo com seu corpo. O peso de tantos músculos sobre ele o fez arquejar e rir ao mesmo tempo, pois não era sequer remotamente capaz de suportar a montanha que era o homem.
— Meine – ele enterrou o rosto na curva do pescoço do elfo e inalou fundo, arrepiando-o dos pés à cabeça. Quando Meine estremeceu, Svan roçou o nariz contra a região sensível, como um gato manhoso buscando carinho. Se Svan ronronasse, Meine não se surpreenderia. Ele abraçou o homem, deslizando as mãos em uma terna carícia pelas costas tesas.
— Van – riu. Svan mordeu a curva de seu pescoço, sugando-a entre os lábios. Meine engoliu o gemido de prazer em sua garganta. A ereção matinal de ambos estava endurecendo e, apesar de ele desejar fazer amor novamente, sabia que não tinham tempo. A aldeia já despertava e eles nunca paravam de trabalhar, de fiscalizar, de avaliar. Svan desabou pesadamente sobre Meine, esmagando-o debaixo de si, espremendo-o contra o colchão – Van, vai me sufocar!
Svan apenas grunhiu e aninhou o rosto no pescoço de Meine.
— Não podemos passar a manhã na cama? – resmungou em um rosnado aborrecido.
Meine sorriu. Como não sorriria? O homem que amava estava ali, lutando contra tudo e todos para tê-lo, para aproveitar cada segundo que possuíam juntos, amando-o e velando por ele. A noite anterior havia sido uma mistura de amor terno e selvagem. Sua primeira vez, de fato, fora aquela, e não… a outra na qual sofrera tanto. Ele estava se esforçando para esquecer aquele capítulo desesperador de sua vida, portanto, decidira esquecer a parte ruim de seu relacionamento. A primeira vez que Svan o reivindicou, eles foram amorosos, dedicados, pacientes, lentos. Foi um momento de declarações silenciosas, de entrega, de palavras trocadas pelo olhar, por cada toque, cada gemido e grunhido. A segunda vez, os olhos de Svan estavam tão dourados que brilhavam perigosamente na penumbra e a força de suas investidas no interior de Meine foram mais fortes, mais duras, mais rápidas. Eles gozaram muito rápido, ficando totalmente sem fôlego.
O que ele sabia era que era tão insaciável quanto o Berserker. Eles se conectavam, entendiam-se, uniam-se. Foi uma das melhores experiências de sua vida e ele quase enlouqueceu pelo ascendente prazer que o escaldou a fogo lento.
Svan beijou sua pele, seguindo uma linha imaginária do pescoço ao maxilar, mordiscando suavemente, para então exibir a língua e lamber sensualmente a orelha pontuda de Meine. Suas costas arquearam em resposta e ele soltou o ar por entre os lábios em um gemido arrastado – Svan sabia o quão sensível ele era naquele ponto. A orelha de elfo era uma de suas zonas mais erógenas e delicadas. Quanto mais a língua traçava o padrão em formato de U, mais a ereção de ambos crescia, inchando, enrijecendo.
— Van – Meine gemeu, abrindo as pernas para acomodar o guerreiro. Svan se apoiou nos cotovelos e se encaixou entre suas coxas, pressionando o próprio membro contra o colchão, buscando prazer, gemendo pela fricção levemente áspera do tecido abaixo de si. – Van, nós… nós…
Svan soprou sobre a umidade deixada no contorno da orelha pontuda, satisfeito e excitado ao ver Meine tremendo abaixo de si e ondulando o quadril para atritar sua masculinidade contra o ventre do Berserker.
— Meine – disse baixo, a voz cavernosa e retumbante ecoando por todo o corpo do albino, fazendo seu coração dar um solavanco de excitação no peito – Eu quero te devorar, Meine. Quero te comer por inteiro, ter-te só para mim.
Meine arranhou levemente as laterais do corpo de Svan, sentindo-o tremer e se arrepiar de prazer.
— Então, consuma-me – sussurrou, o rosto esquentando pela vergonha de suas palavras. Mas, Wray lhe dissera para ser sincero, para dizer o que queria e o que não queria fazer. Não era uma ofensa, não era vulgar. As palavras simplesmente fluíram, de forma tão natural e inequívoca que, parte de seu constrangimento era apenas por sua habitual timidez e o calor da expectativa. Se Svan queria comê-lo, bom, Meine sentia o mesmo. Sentia que tudo em Svan nunca seria o bastante e, ao mesmo tempo, era o suficiente para satisfazê-lo, para fazê-lo feliz. Que ele queria mais. Incansavelmente mais.
Se eles fariam amor novamente, teriam de ser rápidos, antes que Niels fosse buscar o Chefe Tribal para trabalhar.
—*-*-
A fúria com a qual atacava seu parceiro de treino era tamanha que o pobre rapaz se encontrava alarmado, incapaz de recuar ou de contra-atacar. Niels sempre se orgulhou de ser ponderado e tranquilo, mas, nos últimos dias, tudo o que vinha sentindo era uma puta dor dilacerante no peito, que o deixava irrequieto como um leão aprisionado em uma jaula, completamente sufocado, restringido e irritadiço. Seu temperamento estava cada vez mais similar ao de Svan de meses atrás e ele não tinha força, tampouco vontade, de refrear-se. Ele queria atacar, queria liberar aqueles sentimentos conflitantes. Queria destruir alguma coisa. Ele avançou implacavelmente, atingindo a espada do oponente com uma intensidade desmedida, sentindo o vibrar do impacto reverberar por todo o seu braço. Avançou em uma estocada e, quando o rapaz esquivou sua lâmina para a lateral, ele mudou a base dos pés e o atingiu com força no estômago com a planta do pé esquerdo.
O jovem se desequilibrou para trás, perdendo os próprios alicerces. Niels atacou sem sobreaviso, girando nos calcanhares e desferindo um corte descendente em diagonal. As armas se chocaram com força e a espada do rapaz saiu de suas mãos, atingindo o chão com um tinido agudo. Quando o soldado caiu sentado, arregalando os olhos como se visse a Morte lhe mandando beijos, Niels cortou o espaço entre eles e apontou a folha prateada para sua garganta.
Não entendia o que havia de errado consigo. Não importava o quanto pensasse, tudo o que havia em seu interior era um nó de emoções inclassificáveis que se entrelaçavam em um estrangulamento agonizante.
— Por favor… por favor, não me mate, senhor.
Ele grunhiu para o rapaz e lhe deu as costas, embainhando a espada em sua cintura. Suor escorria por seu peito desnudo, a pele estava quente, mesmo que fizesse frio. Algumas mulheres do clã ousaram relancear um olhar para ele de cobiça e tudo o que ele fez foi rosnar. Não se desculpou com ninguém por sua hostilidade e não planejava fazê-lo. Não possuía a obrigação de ser agradável com ninguém, certo?
Passou a mão pelo cabelo e se dirigiu para um arroio próximo, que ficava alguns metros após a cercania das árvores. Neve estava caindo desde o amanhecer, cobrindo todo o chão com uma mortalha de branco. Sabia que não devia se afastar muito, pois era seu dever como braço direito do Chefe treinar os mais novos e coordenar os guerreiros. O problema era que, pela primeira vez em sua vida, não queria trabalhar. Queria jogar a merda para o alto, desvencilhar-se de todas as obrigações e se entregar unicamente ao… nada. Porque era isso o que o esperava. Um grande vazio. A mesmice do dia a dia o estava enlouquecendo – acordar, dispersar ordens, comer, patrulhar as terras, dormir.
Argh! Era muito irritante!
A água corria rapidamente, margeada por declives acentuados e cortada por uma raiz que saía da terra de um lado e penetrava do outro, formando uma espécie de ponte inútil. Ele ouviu o cantar dos pássaros e mesmo isso o aborreceu. Sentia-se como uma criança estúpida que precisava da repreensão dos pais por suas atitudes irresponsáveis.
E era exatamente isso o que estava sendo.
Ele desceu o declive com cuidado para não escorregar e se abaixou, ficando de cócoras, para então encher as mãos em concha de água e levar o conteúdo ao rosto.
— Niels?
Ele enrijeceu e se voltou rapidamente na direção do som. Tal qual foi sua surpresa ao encontrar Wray montado em um imperioso semental de guerra entre as árvores, olhando-o com curiosidade e… aquele irritante olhar de quem sabia de tudo, de quem possuía um conhecimento que ia além da compreensão divina. Se um dia fosse eleger alguém para ser um Oráculo, escolheria Wray – a expressão lacônica, as palavras de sabedoria infindáveis, o olhar sereno, a maldita capacidade de arrancar informações das pessoas sem o emprego de argumentos. Ele deu as costas a Wray e encheu as mãos de água novamente, agora sorvendo o líquido enregelante.
— Não deveria estar em seu posto?
— Estou bebendo água.
— Oh, está chateado?
Como merda divina ele sabia disso?
— Estou chateado por que bebo água? – replicou rispidamente. Ele apenas ouviu o resfolegar do cavalo quando Wray apeou. – Não venha aqui, Wray. Pode escorregar e…
Ele ouviu os passos se aproximando e, quando se ergueu, Wray já estava ao seu lado, o cabelo pálido recolhido em um rabo-de-cavalo por uma tira de couro, revelando o rosto ovalado e muito belo. Ah, não havia dúvidas – Wray era o homem mais lindo do mundo. Tudo nele era uma indescritível mistura equilibrada de beleza, masculinidade, delicadeza e vigor. Sua altura chegava a ser quase a de Niels, apesar de não possuir um porte tão avantajado. E ali estava ele, usando uma calça branca, uma camisa de linho e um gibão de pele, com o arco atrás das costas, a aljava de flechas no quadril e um olhar amigável e sereno que em nada reforçava sua imagem de guerreiro. Niels apenas o olhou, incerto sobre o que dizer. Wray o encarava de volta, intrigado.
— Que tal cavalgar um pouco comigo?
Niels se sentiu um pouco desconfortável. Quer dizer, ele não queria falar sobre si mesmo e sabia que acabaria cedendo se Wray permanecesse em sua companhia. Talvez se afogar no trabalho fosse uma melhor aposta, pois assim descarregaria sua irritação em alguém que não tentaria dialogar com ele.
— Não quero – ralhou, subindo o aclive a passos pesados, deixando as marcas impressas das botas no chão.
O tempo estava muito frio e tendia a piorar. Mesmo possuindo uma pele grossa de Berserker, ele sabia que as pinicadas gélidas lhe queimariam em breve. Wray o seguiu, ignorando sua advertência para que ficasse longe, como se nada do que Niels dissesse ou fizesse pudesse atingi-lo de algum modo. Quando subiram a inclinação, Wray se dirigiu ao seu garanhão e Niels rumou pelo mesmo trajeto que efetuara anteriormente para chegar àquele lugar.
— Espere por mim, Niels. — Wray apenas guiou o seu cavalo para segui-lo, o mesmo parecia tranquilo e obediente, como se as ordens de Wray fossem um pedido pessoal. — Quer dizer que esta chateado? Eu meio que tenho minhas suspeitas pelo motivo.
O rosnado de Niels fez Wray se encolher quando a carranca foi direcionada a ele.
— E que maldições você pensa que seja? — De verdade Niels sabia que Wray era um conhecedor, que sua sabedoria era muito superior, porém agora, ele não queria que esse conhecimento fosse direcionado a ele. Não quando estava passando por uma fase tão ruim, onde seus sentimentos estavam uma verdadeira bagunça, se não uma tragédia. Sentia-se em um amontoado de lixo e podridão.
Ele não podia admitir esse tipo de coisa.
Wray o seguiu em silêncio por um momento, no entanto Niels parou na metade do caminho e seu amigo fez o mesmo.
Ele não queria trabalhar. Não queria voltar ao vilarejo, lidar com seu irmão, ou qualquer um dos outros guerreiros. Desejava estar sozinho, mas de alguma forma pensava que a solidão neste momento iria engoli-lo se não fosse pela presença de Wray ali.
— Você está sofrendo. — Wray afirmou.
Niels olhou para ele vencido. Certamente ele estava, e, com certeza, confuso. Sua mente batalhava internamente com o coração, onde seus sentimentos enterrados em seu mais profundo, lutavam para serem libertos.
Os olhos de Wray eram gentis, e claro, ele estava estudando-o como costumava fazer sempre quando tinha um problema. Ele sabia que podia confiar em seu amigo, no entanto de alguma forma, ele não tinha sequer forças para dizer qualquer coisa a respeito do que sentia.
— Eu posso sentir daqui como está chateado. O seu sofrimento está além de palpável. — Wray deixou o seu cavalo livre, então se aproximou do grande guerreiro. — Você não gostaria de se abrir? Talvez se me contar o que está havendo contigo, eu possa ajudá-lo. Ou apenas ouvi-lo. — Ofereceu.
Niels soltou um longo suspiro. Tinha ganas de simplesmente voltar para sua casa, trancar-se em seu quarto e vegetar em sua cama, em sua deprimente dor que o assolava. Ele optou por sentar-se em um tronco caído, inclinado para frente e seus cotovelos sobre os joelhos. Seu olhar era perdido, contudo tomou o foco de Wray sentando-se bem pertinho dele.
— Eu sei que nossa amizade não é a mesma como a que eu tenho com Svan, porém eu sempre o considerei muito, Niels. — Ele olhava fixamente para frente, onde sua montaria estava distraída e explorando próxima a uma árvore centenária. — Nós crescemos juntos e você sabe bem que pode confiar em mim. Mas acredito que a confusão esteja tão ruim dentro de você que mal possa entender ou dizer em palavras o que sente.
A sabedoria de Wray era assombrosa.
— Tem a ver com Rurik, estou certo?
Niels suspirou e virou a face para o lado oposto de Wray.
— Eu não vou falar sobre isso.
— Você pode não querer me dizer. Escolher guardar tudo isso para si mesmo e sofrer em silêncio. Ninguém irá entendê-lo, ninguém irá ajudá-lo. E você morrerá pouco a pouco. — Wray tinha um sorriso singelo quando Niels olhou-o assustado. — É assim que funciona quando não se aceita a ajuda sincera de um bom amigo.
— Qual é o seu problema?
— O problema é você que não quer desabafar quando se está explodindo! — Wray gesticulou e suspirou resignado.
Niels também soltou um longo suspiro. Ele se inclinou para frente e suas mãos envolveram em seus próprios cabelos, puxando-os como se ele mal estivesse aguentando a si mesmo.
— Eu estou desesperado, Wray.
Os olhos de seu amigo não o fitaram, contudo ele permaneceu em silêncio, apenas escutando.
— Eu não sei o que vai ser de mim. Eu não quero trabalhar… sinto que matarei alguém se continuar treinando os novos guerreiros. Eu não posso estar perto de Svan, pois quero esganá-lo por… — Niels olhou para frente e fixamente para um ponto no meio de uma árvore. Ele não teve raiva neste momento, mas a dor… essa era profunda, e pela primeira vez em tanto tempo, ele realmente quis chorar.
Ele era um guerreiro tão forte, grande e poderoso. Tinha um poder naquele vilarejo tal qual seu irmão tinha também. Ele mesmo poderia ser um chefe tribal futuramente caso Svan desistisse de seu posto. Porém, desta vez, nada lhe importava. Nada material, nada familiar, nada que realmente estivesse ao redor dele. Sua dor, apenas sua dor, era a que envolvia sua alma e parecia sufocá-la a cada instante, a cada maldito pensamento.
— Você sente falta dele? — Wray perguntou baixo e sereno, agora com os olhos focados nele, estudando-o impetuosamente.
Niels encontrou o seu olhar. Ele não disse, mas tinha certeza que seus olhos fizeram.
Sim, eu sinto falta de Rurik. Daquele sorriso amplo e branco, onde seus olhos refletiam-no com um brilho especial, do qual Niels um dia se perguntou o que era. Aquele homem que o confundiu desde o início, que conquistou cada grama de seu ser apenas por trabalhar tão empenhado, tudo sem pedir algo em troca, mas que parecia ser tão feliz apenas por fazer as coisas por ele. Sentia falta de ter sua lareira crepitando, de vê-lo sobre o tapete nas noites, escorado por um braço enquanto permanecia pensativo. Onde Niels tinha a oportunidade de observá-lo, decorar os traços de suas costas, as cicatrizes que marcavam toda a sua pele e como suas curvas suaves e seus traços eram belos contra a iluminação do fogaréu. Até mesmo sentia falta de seu sono interrompido, quando tinha mais outra oportunidade de ver Rurik dormir.
Foram poucas vezes em que seu escravo dormiu tão próximo a ele. Tinha sido uma sensação estranha, mas tão boa. Niels o tinha admirado, aproveitando para sentir o seu aroma rico e refrescante, além de compartilhar o calor em uma mesma cama. Sentia tanta falta.
Lembrou-se do beijo. Aquele cujo qual ele não podia esquecer, que fora o ponto que quebrou-o em um mar de confusão. Que fez a mente de Niels louca e que enlaçou o seu coração.
— Eu quero que ele volte. Eu fui um idiota. Eu sou um idiota. — Niels se estapeou mentalmente, retirou a espada da bainha, segurou-a com as duas mãos e penetrou a si mesma, tudo em sua imaginação, de forma que a dor parecia real e ele realmente se contorceu. — Se for para ele ser um Oráculo, que seja ao meu lado.
— Você é um idiota Niels. — Wray jogou contra ele sem hesitação. — Aliás, idiota é pouco, talvez você precise de mais uma surra do urso de Svan, ou prefira ser socado por mim. — Wray mostrou o punho e tinha um sorriso bobo quando Niels olhou-o com uma sobrancelha erguida. — Falo sério.
— Estou assim, tão ruim?
— Você está terrível. De verdade, eu penso que precise tomar uma atitude. Necessita entender a si mesmo e chegar a um acordo antes de agir. Mas não deixe que se afunde em depressão, Niels. — Wray colocou uma das mãos sobre seu ombro, oferecendo-lhe um aperto suave de conforto. — Com certeza te fará mal, e você não precisa disso. Apenas lembre-se: você é livre para suas escolhas, não precisa se debater tanto interiormente pelo que lhe foi ensinado. Você não depende dos outros, você é um homem inteligente, um guerreiro astuto. Não se perca por que as coisas estão difíceis, mas crie coragem e seja decidido. O Niels que eu conheço não é um homem que se deixa cair da forma como faz agora.
Niels olhou bem para Wray, reconhecendo o sentido daquelas palavras. Os conselhos de seu amigo eram aquele tipo de conselhos que penetravam a alma e a mente e lhe fazia compreender um monte de coisas.
Ele sabia o que queria. Ele sabia o que lhe causava tudo isso. Qual era o seu problema?
Sim, sou eu mesmo. Um idiota.
Seu irmão estava melhor do que ele cuidando daquele elfo albino e amando-o. Dessa vez Niels compreendia o que Meine significava para Svan. Ele estava sentindo o mesmo.
— Pare de se torturar tanto. — Wray se levantou e bateu as mãos em sua roupa. — Eu vou deixá-lo sozinho. Pense bem no que te disse, você é inteligente, vai encontrar em breve as respostas que precisa.
Seu amigo foi de encontro ao seu cavalo, que prontamente galopou até ele. Wray montou o animal e então deu um último olhar a Niels antes de sair em retorno por onde ele tinha vindo.
Niels estava abalado pelas palavras de Wray, e sabia bem ele, de que os conselhos do amigo eram verdadeiros e preciosos. Ele tinha que entender a si mesmo antes de tomar qualquer decisão. E Niels não voltou para o vilarejo até o fim da tarde, onde ele realmente passou todo o tempo pensando.
—*-*-
Em poucos dias Skylar estava se sentindo muito melhor e mais disposto. Isso, porque Heike estava lhe dando os melhores remédios através de chás medicinais, e ele odiava tomar chá, mas engoliu para o seu próprio bem.
O elfo, ou sabe-se lá o que ele era, estava muito mais próximo dele. Não por que Skylar queria, mas por que aquela criatura simplesmente parecia ter algum interesse no Berserker. Quanto a vovó e aquele senhor, eles eram muito tranquilos, porém deprimidos na maior parte do tempo em seus cantos.
Agora ele podia andar e podia se mover, talvez com algumas poucas limitações – afinal ele tinha quebrado uma porção de ossos e rompido as articulações. No entanto, agora, tão bem quanto poderia imaginar, ao menos podia comer por si próprio e caminhar lentamente.
— Eu sabia que Berserkers se curavam rápido por conta da raça, mas não imaginei que fosse tão rápido assim. — Heike comentou um monte de vezes a mesma coisa, e ele sempre, sempre estava tomando chá quando fazia.
No entanto, não fora o rapaz que lhe preocupou, mas sim a senhora redondinha que estava definhando cada vez mais em sua própria tristeza. Skylar nunca teve coragem de perguntar por que, mas então em uma noite, ele não resistiu.
— Qual é o problema dela? Está assim por que perdeu o neto? — Sussurrou para Heike, que olhou em direção a Mona.
— Não apenas a criança, mas todo o vilarejo. — Heike olhou para ele, sério. — Acredito que todos estejam mortos.
Sky não se sentiu surpreso. Ele já tinha visto tragédias piores, como sua própria tortura da qual lhe fez desejar a morte, ou as guerras terríveis em que participou no passado. Ele assistiu pessoas queridas sendo mortas, pessoas perdendo membros do corpo ou sendo dilaceradas. No entanto, ele entendia bem aquela dor.
Fez se lembrar de Wray. Da saudade imensa que sentia. De sua preocupação para com o rapaz que tinha o seu coração.
— Não há nenhuma forma de sairmos daqui? — Perguntou a Heike.
— Não para nós. Eu sou um fae, você é um Berserker e eles, humanos. — Apontou para os dois que estavam na sala de estar. — As únicas criaturas capazes de andar livremente nesta parte da floresta são animais e, bem… eu apenas acredito que talvez elfos possam.
— Por que elfos e não faes? — Skylar ficou dividido. Estava sentado à mesa com suas pernas esticadas e seus braços sobre a tábua de madeira. Sentia-se tão malditamente entediado. — Eu não entendo.
— Não é como se eu tivesse certeza. Sei que no tempo em que estive neste lugar, vi animais ir e vir normalmente. Eu adotei uma vaca, também uma cabra e alguns outros, que milagrosamente apareceram. É assim que eu tenho queijo todos os dias. No entanto, nós, faes, não pertencemos a Saranmir, pelo menos não o meu sangue, então para esta floresta, sou como um humano intruso. Entretanto, elfos são os verdadeiros donos de Saranmir, ainda mais neste lado da floresta, os únicos que conseguem modificar naturalmente a mata sem perturbá-la. Digamos que os elfos sejam aqueles que trazem vida a toda essa vegetação.
Skylar não estava entendendo bulhufas enquanto Heike gesticulava dramaticamente a sua resposta.
— Enfim, eu nunca vi um elfo nestas bandas, por isso não tenho certeza. — Ele se acalmou, olhando em Skylar com um sorriso. — Mas afinal, tem uma pergunta que eu sempre quis te fazer… por que deixou o seu povo? Como foi parar nas mãos de meros humanos e ser torturado?
O Berserker rosnou em advertência. Este assunto estava fora de cogitação, entretanto sentiu a necessidade de se defender do pensamento de ser um fraco facilmente raptado por meros humanos podres.
— Eu estava com problemas. Fui pego desprevinidamente enquanto bebia. Não lembro de muito até me levarem ao galpão e me torturarem.
Heike não tinha um olhar de pena. Era mais como malícia.
— Problemas? Problemas com uma namorada?
Skylar rosnou novamente, nada satisfeito com as perguntas.
— Por que quer saber?
Heike pestanejou e tossiu.
— Apenas curiosidade.
— Você quer saber se eu estou namorando? — Sky estava abismado.
— O que tem demais nisso? Estou apenas curioso. — Rebateu.
Skylar olhou-o fixamente por um longo momento, sendo vencido pelo olhar nada envergonhado do jovem fae. O rapaz realmente sabia provocá-lo, embora não fosse um inimigo em nenhum aspecto para o Berserker agora que o conhecia bem. Ou pensava que conhecia bem. Ele não tinha ideias de suas origens, apenas noção de sua personalidade e forma de agir.
— Não. Eu não tenho uma namorada.
— Alguém que você goste? — Insistiu o fae.
Sky apertou os lábios juntos. Ele não tinha mesmo esperança que sairia daquele local. Pelo menos agora ele podia admitir que amava Wray, sem culpa.
Sentindo-se derrotado, ele disse:
— Eu gosto de alguém que é assim como eu.
— Alguém como você? Um Berserker?
De certa forma Heike pareceu decepcionado por ele ter admitido.
— Sim. — Pelo menos ele achava que Wray fosse um completo Berserker, embora suas características fossem um pouco duvidosas. — E um homem.
— Oh. — Heike arregalou os olhos, então corou um pouco. — Eu também gosto… hum, de homens. — Ele ergueu seu olhar para o Berserker, que apenas ergueu uma sobrancelha para ele. — Você sabe que não verá mais quem você ama. Eu sei que é cruel ouvir isso de mim, mas… talvez… hum… — Enroscou-se.
Skylar ergueu ambas as sobrancelhas em surpresa. Não podia ser!
Ele estava se oferecendo?
Abriu a boca para respondê-lo, como se o ‘não’ estivesse bem na ponta da sua língua. No entanto, uma minúscula parte de seu cérebro lhe fez frear e não dizer nada. Ponderando sobre isso.
Sem Wray, sem ninguém mais. Ele ficaria solitário? Seu corpo exigiria dele em algum momento. Apesar de que ele soube evitar bem ter parceiros enquanto esteve próximo a Wray, ainda assim tinha vezes em que ele não resistia. Arranjava alguém disposto e ia para a cama.
Heike era bonito, talvez belo demais para um homem. Não parecia nem um pouco com Wray. No entanto, ele era atraente, era carismático. Um pouco louco, mas Sky não teve aversão a ele desde que o encontrou.
Entretanto, ele queria Wray. Sua mente estava dividida entre a realidade e o seu coração sentimental.
Heike não pronunciou nada mais, ele tinha suas bochechas mais coradas do que antes e realmente desviou o olhar e fingiu fazer outra coisa.
Eu não posso… eu não posso… A mente de Skylar repetia. Ele realmente não queria. Não estava namorando com Wray, mas a questão era: ele nunca teria o arqueiro para si da forma em que desejava? O pensamento o fez suspirar e sentir-se cada vez mais deprimido.
Eu queria, pelo menos, tentar. Mas os deuses não estavam ao seu lado.
—*-*-
Yusuf sentou-se elegantemente em sua poltrona almofadada com as estruturas de madeira muito bem-talhadas. Seu olhar estava perdido e preocupado, enquanto seus lábios se retorciam com o rumo em que seus pensamentos estavam levando-o. Suspirando bem fundo, ele encarou bem Asgard, seu oráculo e também grande amigo.
Os olhos brancos, os cabelos negros e longos, a aparência fantasmagórica, mas ainda sim bela, eram características que Yusuf realmente gostava. Ele tinha um carinho sem tamanho por seu melhor amigo. Além do mais, Asgard era protegido unicamente por ele e era um progenitor, embora fosse tão poderoso quanto qualquer um poderia imaginar, ele aceitava a proteção de Yusuf. Ele não era bobo de dizer-lhe não.
— Então… e agora? Viu algo? — Perguntou pela trigésima vez.
Asgard olhou para ele com certo humor, seus lábios se retraindo para um sorriso.
— Eu sempre vejo a mesma coisa, mestre. Os deuses não querem mostrar-lhe muito. Sabe que eles não fazem nada fácil para nós. Para ninguém na verdade.
Yusuf engoliu quando seus olhos arderam novamente. Ele não podia chorar, pois para um líder, um rei como ele era, seria uma desonra se fizesse. Além de que era humilhante deixar as lágrimas tomarem conta dele por sua tristeza.
Ele contou com a ajuda de Asgard desde que perdeu o seu filho. Foi então que ele realmente se apegou ao outro elfo, sendo reconfortado pelo apoio de seu amigo. Claro que não tinha sido suficiente para ele, mas ainda sim foi especial o bastante para fazê-lo se sentir melhor.
Queria que os deuses lhe dissessem onde seu filho estava… o que havia acontecido com ele. Pelo menos vê-lo mais uma vez. Doía tanto o peito que ele tinha ganas de chorar a cada vez em que pensava sobre isso.
Yusuf tinha um vazio tão grande dentro de seu ser.
— Não se sinta mal… eles dizem que tudo tem seu tempo e nada é por acaso. Tudo tem o seu propósito. — Disse Asgard.
E seu coração doía cada vez que ouvia essas palavras. Olhou para seu oráculo duramente.
— Tudo tem seu tempo? Ter de esperar mais de dez anos para ver o meu filho? Eu não posso me acostumar com isso… não importa quanto tempo passe. A minha tristeza nunca finda.
Alguém bateu à porta, interrompendo-os. Yusuf fez um gesto ao seu oráculo, que prontamente puxou as duas grandes portas de carvalho abertas. Lá estava Dain, seu guerreiro mais forte e menos confiável. Yusuf olhou-o com olhos semicerrados, estudando-o a partir de quando ele entrou em sua sala no palácio.
— Diga-me se não foi um fracasso. — Disse entre os dentes.
As comissuras dos lábios de Dain se ergueram em um esboço de um sorriso zombeteiro.
— Pela primeira vez… — Ele murmurou divertido. — Eu não pude me aproximar muito. Aquele elfo, ele realmente soube bloquear o vilarejo.
Yusuf não gostou. Claro que ele não gostou desse fracasso. Dain era o seu melhor guerreiro em termos de ter o serviço executado. E tendo-o pela primeira vez em tantos anos, falhado, isso realmente o decepcionou.
— O que foi que eles fizeram?
— O Phaeleh agora está sob os cuidados de três dos melhores guerreiros de Darius, ainda o vilarejo dos Berserkers está sob a proteção de um escudo de bloqueio élfico. Eu juro que tentei, mas o maldito elfo florzinha de Darius me atrapalhou no caminho.
— Deixe a sala. — Yusuf não suportou mais olhá-lo, envergonhado daquela derrota. Dain fechou sua expressão e então deixou a sala a passos pesados. Quanto a Asgard, esse olhou para seu mestre – inexpressivo –, porém no fundo, preocupado.
— Eu irei por minha própria conta.
— Não pode, mestre. — Asgard se aproximou, ainda mais preocupado. — Seria muito arriscado. Não digo pelos Berserkers, mas pelos elfos de luz que estão protegendo o Phaeleh.
— Phaeleh me pertence. — Era como um mantra para si mesmo dizer isso.
— Sim, mestre.
— O que me recomenda fazer então? — Ele não precisava de opiniões, contudo, a de Asgard seria importante para ele e talvez a aproveitasse.
O jovem de olhos brancos, porém não cegos, fitou o longe pelas grandes janelas do palácio.
— Eu posso consegui-lo.
O silêncio predominou por um instante. O Líder dos elfos das trevas torceu suas mãos juntas por debaixo do queixo enquanto se inclinava para frente pensativo. Era claro. Ele já tinha pensado sobre isso antes, mas arriscar a única pessoa capaz de fazer-lhe companhia sem que fosse um completo farsante, isso parecia como estar assinando um contrato de morte.
A verdade era que Asgard tinha uma força suprema, uma magia capaz de surpreender qualquer um, até mesmo ele, o Rei. Ele seria o ideal para buscar Phaeleh.
Tomar essa decisão foi tão difícil quanto foi sua separação com Darius.
— Vá e traga-me o Phaeleh.
— Sim, mestre. Eu farei. – O oráculo tocou em seu braço tão leve e suave como pluma, então simplesmente deixou o salão.
Yusuf deixou suas costas caírem contra a poltrona e suspirou cansado.
Talvez – apenas talvez – se ele possuísse o Phaeleh, poderia reencontrar o seu filho com os seus poderes. Os deuses lhe disseram uma vez através de Asgard, que Phaeleh o salvaria. E esta era sua única e maior esperança para continuar vivendo.
Continua…
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