Phaeleh I

30 Capítulo 30 – A luz do Phaeleh


Notas iniciais
Miky: Olá meus amores *--* Finalmente mais um capítulo... Este está bem legal hehe Espero que gostem ♥ Apreciem a leitura!

Svan deixou Meine dormindo depois de o consolar por horas. Não era como se seu elfo albino realmente dormiria depois de um pesadelo daqueles, mas sabia que Meine estaria cuidando muito bem de Wray.

Eram tantas preocupações. Estava tentando entender como todos os problemas resolveram se rebelar todos ao mesmo tempo lhe deixando à beira dos nervos. Svan estava tentando o seu melhor em fazer tudo o que precisava ser feito e calcular soluções para o vilarejo.

Ele com certeza era um péssimo líder. Não importa o que fizesse, nunca seria o bastante.

Agora o corredor estava livre o suficiente para passar sem desvios. Assim que chegou a sala de estar, encontrou Skoll em seu modo canino, o mesmo farejando-o próximo e se metarmofoseou em sua aparêcia humana.

– Qual foi o problema?

Svan cruzou os braços sobre o peito e suspirou. — Pesadelos.

As sobrancelhas do líder Ulfhednar subiram e ele voltou a olhar para onde o escravo de Wray estava situado. Havia um tapete de pele de urso próximo à lareira, que Svan sabia ser o local aonde Aricin costumava dormir. O garoto estava nu e apenas coberto por cobertores felpudos, além de uma almofada sob a cabeça.

– O curandeiro já se foi? — Notando que o idoso já não se encontrava mais na sala.

– Sim, ele enfaixou Aricin e pediu para que eu ficasse de olho nele. Ele teve sorte por ser apenas uma fratura simples, não precisará usar tala, mas deve permanecer em repouso por alguns dias.

Svan notou o olhar fixo de seu amigo no escravo.

– Você quer que eu chame alguém para ficar de olho nele?

Skoll olhou para ele e sorriu levemente.

– Não por agora. Eu vou passar a noite aqui e ficarei de olho nele e nos outros. Mas se não se importa de chamar alguém pela manhã. — Sentou-se em uma das poltronas antigas de Wray.

– Eu vou resolver uns assuntos agora e volto antes do amanhecer. — Disse e se virou para sair do chalé. Havia sempre algo em Skoll que lhe transmitia confiança. Ele era um líder exemplar e realmente tinha um bom coração.

Svan saiu pela noite, notando que realmente nem todos no vilarejo estavam dormindo, grande parte dos Berserkers trabalharam em reconstruir aquilo que fora perdido com as terríveis chuvas dos dias anteriores. Estavam indo para o quinto dia... E ele não tinha visto Skylar desde então. Era verdade, em nenhum momento seu amigo ruivo tinha vindo para lhe consultar, o que era um tanto estranho desde que Svan estava acostumado a falar com ele quase todos os dias. Na verdade interagia com todos e Skylar era o único que andou de fora.

Antes que chegasse em casa, pelo caminho em que estava andando, por trás de um moinho de vento, estava um dos celeiros próximos a sua residência. Resolveu dar uma última verificada antes de entrar em casa. Seus cavalos estavam dormindo e alguns se agitaram com sua presença, felizes porque o conheciam.

Svan não pode deixar de notar que o escravo de seu irmão também estava dormindo ali, sobre um monte de palha seca.

Se perguntando por que diabos Rurik não tinha ido dormir com Niels, ele se virou para sair, a fim de ir direto a seu irmão perguntá-lo. Mas parou no momento em que um dos cavalos relinchou assutado acordando aos outros e praticamente foram relinchos atrás de relinchos de medo. Svan estava tentando entender o porque do temor dos animais, imaginava se por acaso havia entrado algum animal selvagem nos estábulos, até que notou que Rurik estava em pé, cabeça baixa onde seus cabelos cobriam-lhe o rosto e o ar em torno deles tornou-se gélido como uma brisa sobrenatural que atingiu diretamente Svan.

– Líder dos Berserkers, Svan.– A voz de Rurik estava misturada com uma outra que Svan não soube identificar. Era tão grossa e forte como trovão. Quando o rosto de Rurik se ergueu para fitá-lo, não havia expressão alguma, mas seus olhos estavam focados em Svan.

Svan engoliu em seco. Ora se não era assustador, e ainda estava escuro e realmente, relampejou lá fora de forma que clareou todo o ambiente diversas vezes.

– A profecia somente será cumprida quando houver uma escolha. Esta escolha pertence apenas ao Phaeleh, aquele que foi criado com o intuito de equilibrar o bem e o mal.– A voz de Rurik fora mudando até que agora era uma voz feminina que tomava a sua própria. — Os deuses decidem pelos seres humanos, decidem pelos Berserkers e por qualquer ser vivo sobre a terra. Os deuses decidem que Svan será o seu protetor, não por ameaça, não por ser concreto, mas pelo seu amor por Phaeleh.

Svan estava tentando absorver aquelas palavras, estando tão abismado como nunca antes.

Agora a voz de Rurik havia se tornado novamente grossa e impiedosa.

– Apenas o Líder Berserker, aquele escolhido pelos deuses para ser o protetor, será aquele a despertar os poderes do Phaeleh.

Agora Svan teve seus olhos arregalados.

– Mas como? Como eu posso despertá-los?!

Os olhos de Rurik se tornaram vermelhos como sangue.

– Você saberá o momento certo.

Então o escravo ruivo de Niels fechou os olhos e caiu de qualquer jeito sobre o feno, soltando um ronco, antes de se aninhar e voltar a dormir.

Svan continuou parado, quase não acreditando no que se passara. O que diabos estavam tentando lhe dizer? Ele já não tinha problemas demais para resolver?

No momento em que pisou os pés para fora do estábulo, iniciou-se uma chuva sem igual, como se cascatas pesadas jorrassem do céu, assim como granizo atrás de granizo. Svan correu o máximo que seus pés permitiam e entrou em casa pela porta dos fundos, assustando várias escravas que estavam aos pés da janela amedrontadas.

– Fechem todas as janelas e se protejam! — Gritou no mesmo momento em que as mulheres entraram em pânico e correram para todos os lados até desaparecerem.

Svan se aprofundou em sua própria casa, trombando pelo corredor sem luz de cara com Niels que amadiçoou ao encontrá-lo.

– Céus, Svan! Onde diabos você estava?! — Seu irmão gritou em um mar de irritação.

Svan deu-lhe um empurrão e o prendeu contra a parede de forma que até mesmo Niels se assustou.

– Olhe aqui! O que maldições divinas o seu escravo está fazendo no estábulo quando você vive me dizendo que ele sempre tem que dormir contigo? E para onde raios enviou Skylar?

Niels piscou.

– Estamos prestes a ser bombardeados com uma terrível chuva! Eu não sei mais o que fazer, droga! — Svan abaixou a cabeça contra o ombro de seu irmão e suspirou muito profundo quando seus nervos estavam no mais alto nível de preocupação como nunca antes estivera. A agonia estava lhe matando por dentro, pouco a pouco. — Estou ficando louco!

Niels apenas estava paralisado. Até que se tocando do que realmente estava acontecendo, ele segurou os ombros de Svan e o afastou o suficiente para olhar fixamente para os seus olhos.

– Olhe aqui você! Primeiro que eu fui um tremendo idiota e expulsei Rurik do meu quarto por sabe-se lá o motivo! — Ele fez uma careta estranha. — E eu não faço ideia de onde Skylar foi parar! Não vá ficando louco se é o líder, vá logo resolver isso!

– Como?! Não posso parar uma tempestade! — Ele se empurrou para longe, batendo as costas contra a parede.

Os trovões estavam cada vez piores e estrondeantes. O chão tremia e os relampagos reluziam o tempo inteiro em descargas elétricas sem fim pela janela.

Foi-se apenas uma tempestade capaz de fazer tantos estragos em seu vilarejo, mas foram-se noites seguidas da mesma forma. Depois do que Svan pensou ter melhorado e agora apenas esperando pelo inverno, novamente veio chuva.

– Claro que pode, apenas vá e fale com aquele escravo albino! É ele o responsável por tudo isso!

E pela raiva da qual Niels havia dito isso, Svan se perguntou se seu irmão tinha mesmo algo contra Meine. Afinal fora Niels que lhe dera de presente, como Meine poderia ser responsável por tudo o que estava acontecendo lá fora?

– Líder! Líder! — Hilda correu para os dois Berserkers, acompanhada de mais duas escravas. — Olhe pela janela! Está nevando!

Svan se agarrou a janela e abriu a vidraçaria com o sopro chicoteando o seu rosto. Ainda ventava muito e o céu da noite estava avermelhado, porém a chuva torrencial havia cessado, dado lugar para uma ventania tremenda e muita neve. A visão do vilarejo e da floresta estava toda embaçada.

Seria mesmo Meine o responsável por todo esse clima louco?

Besteira.

– Eu vou à casa de Wray e cuidar das coisas por lá. Mantenha as janelas e portas fechadas, e protejam-se. — Svan foi até a porta da frente com Niels em seus calcanhares. — O que foi?

– Vou atrás de Rurik. — Disse ele em uma preocupação que Svan nunca tinha visto antes em seu irmão. Ele notou um pouco mais longe que um dos escravos, um rapaz que costumava fazer favores sexuais ao próprio Niels e a outros guerreiros, os olhava muito chateado. Se perguntou o que diabos havia acontecido.

Svan deixou seu irmão parar no estábulo e continuou em meio ao gelo, suas botas se afundando e dificultosamente atravessando o caminho. O clima havia mudado drasticamente, de algo frio para algo estremamente gélido. E aquela tempestade de neve parecia estar apenas começando.

Quando ele estava próximo ao chalé de Wray já havia nevado mais de um metro e meio de gelo, e Svan estava completamente coberto com uma camada de cristais. Imediatamente abriram a porta para ele e Meine correu para fora, sendo engolido pela neve e caindo todo desajeitado em meio ao gelo.

A tempestade cessou.

Os trovões se calaram, acabaram os relampagos e as nuvens deixaram de serem avermelhadas para dispersarem-se lentamente. Ainda fazia muito frio, no entanto.

– Meine! — Svan gritou e envolveu um braço em torno de Meine se afogando na neve e o levou como um boneco para dentro da residência, fechando pesadamente a porta.

– Van! — Meine estava tremendo horrivelmente. — Vo-Você vi-virou ge-gelo! — Ele gritou com a voz entrecortada. Svan apenas sacudiu-se como um cão e neve foi para todos os lados. Skoll em sua forma animal correu para recebe-lo, mas sua cauda não balançava. Parecia um cão velho e mal-humorado no ver de Svan.

Apenas espanou Meine com as mãos para espantar a neve dele e então envolveu-o com o xale da poltrona.

– Está tudo bem por aqui? — Perguntou ao mesmo tempo que olhara pela janela, completamente assombrado que a tempestade havia realmente parado, ou melhor dizendo, as estrelas estavam aparecendo.

Ele olhou em Meine, ponderando sobre as palavras de seu irmão.

Não, Meine não tinha culpa. Olhar para ele e se deparar com aquele rostinho infantil e aquele olhar tão inocente. Não era possível que Meine provocasse catastrofes. Ao menos que ele... Fosse a chave para acabar com tudo isso.

Svan ficou um tempo indeterminado apenas olhando para Meine. Pensando sobre um monte de coisas que o envolviam.

– O que foi, Suvan? — As bochechas do elfo foram coloridas com escarlate. — Te-Tem algo errado em mim?

Svan ergueu uma sobrancelha e um canto de seu lábio subiu. Meine ainda não conseguia pronunciar o seu nome, até quando seria isso?

Aproximou-se e tomou o rosto pequeno em suas mãos, então se inclinou o suficiente para que suas respirações se chocassem, seus olhares quentes um no outro.

Alguém tossiu várias vezes. Svan se afastou e notou que Skoll estava do outro lado da sala de estar, já vestido e um pouco desconcertado.

Meine estava vermelho até as orelhas e Svan engoliu em seco em como bonito se parecia.

– Vocês realmente têm esse relacionamento, hum. — Skoll sorriu, então cruzou os braços sobre o peito. Svan notou algo de decepção em seu olhar.

Se ele por acaso estivesse com qualquer interesse em Meine, seria um homem morto. Sinto muito.

– Sim, por quê? — Ele ergueu uma sobrancelha para Skoll que apenas soltou um suspiro.

– Van. — Meine chamou-lhe a atenção.

Atenção que valia a pena.

Por que Svan estava pensando uma coisa dessas? Ele quis se descabelar, mas seus cabelos se arrepiaram por vontade própria.

– Sim.

– Sabe, tem algo que eu preciso te contar, mas... — Ele olhou em Skoll que estava observando-os com certo interesse. — Tinha que ser a sós. — Sussurrou.

Svan puxou Meine para o seu ombro como um saco de batatas, o levou em direção ao quarto de Wray e fechou a porta.

– Vamos, agora diga-me...

Ele não conseguiu terminar suas falas quando Meine se ergueu em seus pés e o beijou.

Foi um selinho, mas fora demorado e com saudade. Svan o puxou para seus braços e envolveu sua cintura com firmeza, aprofundando o beijo para algo mais intenso, cheio de desejo. Sentiu-se imediatamente reagir, porque seu coração inchou com um sentimento gostoso, além de seu baixo ventre esquentar como brasa em uma fogueira.

– Van... — Meine se afastou relutante, mas fez. — Eu ainda preciso te contar algo...

Svan voltou a beijá-lo. Sua língua se aprofundando e provocando gemidos abafados de Meine.

Oh que presente depois de um dia tão horrível como aquele. Dias horríveis na verdade. Estava tão estressado, tão acabado com toda essa merda que sentia-se inútil, sentia-se em um poço sem fim. Mas ali estava sua salvação, seu Meine.

Agora não importava bulhufas se ele era um escravo, qual sua posição, se era o Phaeleh ou qualquer que seja. Apenas que era o Meine, o elfo albino mais fofo do mundo inteiro, mais meigo e adorável, que beijava Svan com saudade, que o esperava em casa com ganas de vê-lo, e que corria contra a neve para dar-lhe as boas vindas.

Svan se sentia emocionado, porque de alguma forma ele sentia o amor dessa criaturinha. E ele...

Ele amava Meine.

O choque de descobrir isso o fez afastar-se relutante. Deleitando-se com a expressão de puro prazer de seu elfo depois daquele beijo afoito.

Meine lambeu seus lábios como se fosse um gosto saboroso neles, e olhou-o com suas bochechas rubras.

– O que eu tenho para te contar... Hum...

Svan ainda estava assustado consigo mesmo. Ele teve que se sentar porque de repente suas pernas tremeram. E ele era um Berserker, o frio não lhe fazia qualquer dano. Apenas sua pele que era muito grossa e todos aqueles músculos.

– Eu tive um evento estranho na floresta esses dias... Bem, eu... Ouvi uma voz, Van.

Svan olhou-o com certo interesse.

– Uma voz? — Era um pouco engraçado a expressão pensativa de Meine e fazia Svan querer sorrir. Mas ele evitou ser tão fácil.

– Sim, era a voz de uma mulher. Uma voz muito bonita.

– E quem era essa mulher?

Meine mordeu seu lábio inferior. Svan não resistiu em puxar sua cintura e o aproximar de seu corpo, abraçando-o. Seu elfo era tão pequeno, que mesmo Svan estando sentado à beira da cama, ficavam quase da mesma altura.

– Frigga.

Silêncio.

Svan ergueu seu olhar para Meine que parecia com medo do que ele iria achar, seu olhar denunciava isso. Mas ele não podia acreditar em algo assim. Definitivamente não.

– O que está me dizendo? Que a deusa Frigga falou contigo? Não seria alguma mulher com seu mesmo nome? Você sabe que as vezes os pais nomeiam seus filhos com os nomes dos deuses na esperança de que se tornem grandes adultos.

Meine balançou a cabeça.

– Eu não sei, Van. Por que... A voz, ela... Ela vinha da minha cabeça. Não vá dizer que eu estou louco, porque não estou! — Ele se afastou com as mãos em punhos de cada lado de seu corpo.

Svan se apoiou em seus joelhos, olhando para suas próprias mãos.

Isso era tão grandioso. O pior é que ele acreditava em Meine. Tinha como não crer em alguém que não sabia mentir?

– Você já mentiu para mim alguma vez?

Meine travou no lugar, seus olhos como pratos e ele tremeu. Svan se ergueu furioso dessa vez.

– Meine!

– E-Eu... Eu só não queria que você... Brigasse com sua família!

Svan agarrou os ombros de Meine e o sacudiu como um boneco.

– Diga-me qual foi a mentira! — Ordenou de forma que Meine não poderia ir contra. Ele não seria louco de desafiá-lo.

– Eu... Eu não posso dizer... — Meine resmungou enquanto era sacudido. — Você vai me deixar enjoado!

Svan parou de sacudí-lo e bufou como um gigante raivoso.

– Você disse "brigar com a minha família", o que quer dizer? Está falando de Niels? — Ele olhou em Meine que abaixou a face e tocou sobre seu olho esquerdo que estava quase bom.

O reconhecimento que veio à Svan naquele momento foi terrível. Foi uma dor que ele nunca antes havia sentido, diferente de todas as outras. O ódio tremendo levou a besta de um Berserker a queimar o fogo do inferno em terras santas. Svan torceu os punhos com o ódio da besta torcendo seus nervos e ele foi ficando vermelho. Meine olhou-o com horror.

– Eu disse! Eu não podia te contar... Eu não quero que vocês briguem! Niels teve razão... Tudo... Todo esse estrago foi por minha culpa e...

Svan tinha ouvido isso hoje de seu irmão.

– Mas ele tinha que te bater?! Por que ele fez isso? — Svan não sabia como diabos ele estava se controlando.

Meine foi se aproximando e ele temeu que pudesse machucá-lo porque estava muito nervoso. Ele se afastou e derrubou o que estava sobre o criado mudo.

– Não foi por culpa dele, Van... Niels estava muito nervoso, assim como você está agora. Foi quando a chuva estava tão forte e o vilarejo estava destruído. Ele tinha que culpar alguém e... — As lágrimas encheram os olhos de Meine. — Infelizmente a culpa é minha... Hoje eu entendo. Por que sou o Phaeleh.

Foi tão bizarro como Svan de repente sentiu uma onda de calma e conforto atravessá-lo. Foi no momento em que uma mão de Meine tocou justamente sobre seu peito.

Meine estava reluzindo.

A besta de Svan tinha se deitado para dormir, enquanto ele tinha praticamente esquecido o que seu irmão havia feito.

Meine continuou reluzindo, e no momento em que Svan o puxou para seus braços, para abraçá-lo, seu pequeno elfo albino se tornou tão luminoso que clareou todo o quarto. Apertou-o forte em seus braços e Meine apertou-o também. Queria entender o que estava acontecendo, mas foi tão lindo, tão sem explicação.

Os olhos de Svan cresceram enormemente no momento em que pegou o reflexo no espelho antigo do outro lado do quarto. No reflexo, Meine não usava as mesmas roupas, e Wray na cama, ele... Parecia que algo negro estava saindo de seu corpo. Uma fumaça que somente no reflexo era possível notar, esvaiu tanto e ela simplesmente saía pela janela e desaparecia. E foi por todo o tempo em que o abraço durou. Ao fim dele, Meine desmaiou em seus braços.

–*-*-

Hayliel suspirou. Fazia já algum tempo desde que se sentira tão letárgico, dormente para a dor que o assolara. A magia branca de Darius se infiltrava em sua pele, deslizando pelos músculos para os ossos, irradiando de célula em célula, até embalsama-lo em uma doce e cálida sensação de paz. O mal estava sendo suprimido, o veneno de Dain, enfim, sendo escoado de seu corpo. Sua força retornava lentamente, inflando-o em vida e saúde, e tudo o que ele podia fazer era sorrir ao seu rei por estar tratando de seu corpo enfermo.

Darius estava sentado ao lado da cama, as mãos estendidas sobre Hayliel, envoltas por uma fina linha de luz bruxuleante e branca. Entoava em silvos as palavras dos Antigos da Raça, em um nórdico tão primitivo que mesmo Hayliel desconhecia seus significados. E a cada entonação, uma onda de calmaria e prazer varria o sofrimento para longe, acendendo em seu peito um calor morno e agradável, que se espalhava por seus membros.

Naquele momento, ele estava convicto de que jamais em sua vida seria capaz de deixar o lado de Darius – não que alguma vez a ideia perpassou sua mente, mas ele nunca teve uma certeza tão inexorável – sua vida era de Darius para pertencer. Ele o serviria para sempre, pois a dívida que tinha para com ele nunca seria paga até seu último dia de servidão. Darius tinha sua inabalável lealdade. O rei possuía um altruísmo digno dos deuses.

Ele olhou para as feições centradas de Darius – os olhos semiabertos e focados nos pontos onde direcionava sua magia branca de cura, totalmente alheio ao seu redor, como se o mundo houvesse deixado de existir pelo simples fato de ele estar exercendo o ofício curativo.

–- O Phaeleh – Hayliel murmurou a um fio de voz – É a coisa mais bela que já vi, meu senhor. – Darius não esboçou qualquer reação, mas Hayliel sabia que era ouvido e que cada palavra dita era absorvida e ponderada por Darius – É uma alma pura e jovial, no auge de sua inocência. – Hayliel pausou por um momento, tentando não se esforçar para que se recuperasse mais rapidamente. Ele queria estar forte o bastante para se levantar e procurar o Phaeleh novamente. Queria... Precisava vê-lo. E... ainda havia um assunto pendente com Alasd. O Berserker não era uma besta irascível como fora levado a crer ao longo dos anos pelas histórias narradas por sua espécie e Hayliel também lhe devia sua vida. Alasd arriscara muito mais por ele do que ele teria esperado mesmo de um amigo. A vida era algo precioso demais para que ele abrisse mão da sua para salvar a de Hayliel. Aquele gesto... Tão nobre, tão despropositado... Fez seu coração se condoer por ele e se ligar a ele em um afeto que jamais esperou existir – Meu senhor... – Darius encerrou o cântico e deixou as mãos caírem sobre suas coxas enquanto a luz élfica findava. Hayliel respirou com alívio e vivacidade, sentindo-se preenchido e forte como um titã – O Phaeleh...

–- Também preciso vê-lo – Darius o interrompeu, a voz sempre imperiosa, agora demonstrando matizes de cansaço – Como ele é?

Hayliel não saberia descrever o Phaeleh. Era uma criatura etérea, bela. Infundia em seu ser o instinto básico de protegê-lo e velar por sua segurança, além de simplesmente fazê-lo desejar parar o tempo para contemplar sua beleza. As palavras do vocabulário de Hayliel se apagaram subitamente, deixando-o diante de uma tela em branco. Ele era incapaz de expressar sua opinião em minuciosos detalhes, como se a língua pesasse demais para que conseguisse articular palavras.

Seu momento de confusão rendeu a Darius um tempo para descansar a mente do esforço utilizado para curar seu soldado e grande amigo e o rei se recostou no respaldo da cadeira, parecendo, pela primeira vez, incontáveis anos mais velho.

–- Há quantos séculos nosso povo espera por seu nascimento? – Darius retrucou, espremendo a ponte do nariz entre o indicador e polegar – Ouço suas histórias desde quando era menino, Hayliel. Meu pai costumava me dizer. O Phaeleh é o ser com a alma mais pura, e absorve as energias benignas do mundo e de seus habitantes, de forma que se fortalecesse e se banha em luz. Ele é a salvação e é a esperança. Dentre todas as criaturas, é o que tem a maior ligação com a natureza e os espíritos da floresta.

Os olhos de Hayliel se abriram ante as palavras do rei.

–- É exatamente isso o que senti quando o vi, meu senhor. – disse, deixando entrever sua perplexidade.

Darius apenas moveu a cabeça em concordância.

–- É meu dever cuidar dele. É dever dos elfos mantê-lo em segurança e lhe ensinar a usar seus dons divinos. – o punho de Darius se fechou e havia uma mescla de raiva, indignação e mágoa em seus olhos que preocupou Hayliel – Não posso permitir que Svan dos Berserkers o mantenha.

–- O que faremos, meu senhor?

Hayliel estranhou o temor que repentinamente se acendeu em seu coração.

–- Falarei com Svan. Caso ele se negue a aceitar minha proposta... – Darius se levantou, a expressão endurecendo subitamente – Declararemos guerra.

Continua...

Notas finais
Miky: Obrigada por ler ♥ Até a próxima!!