Phaeleh I
3 Capítulo 3 - Atribulações
Notas iniciais
Capítulo 3 ~
Mas era claro que Wray não iria deixar com que Meine se virasse. As vezes lidar com seu amigo Svan era uma dor na bunda. Nunca tinha conhecido alguém antes que fosse tão cabeça dura como seu líder era. E mesmo assim Wray gostava dele. Só de lembrar daquela carranca, ele sorria. Svan tinha sido seu amigo por muitos anos, e o considerava grandemente.
Ele se surpreendeu quando encontrou Meine cercado por crianças da comunidade. Ele estava sentado em um banquinho fora da casa principal, e as crianças todas em torno dele em uma gritaria sem igual. As meninas principalmente estavam coradas e afoitas, e os meninos todos em pé, apenas observando-o com curiosidade.
– Ei garotos, o que está havendo aqui? – Perguntou, jogando as mãos para trás e se aproximando.
– Wray! — As crianças gritaram, todas felizes em vê-lo. Pelo jeito, ele era bem querido por elas.
– Olá, meus lindos! — Ele abraçou a maioria deles e beijou os rostos das meninas.
– Quem é esse garoto tão branco?! — Uma das meninas perguntou, a mais animada delas.
– Oh... — Wray olhou para Meine com um sorriso, e Meine o retribuiu corado. — Ele é um albino. Um jovem elfo. Vocês nunca tinham visto um antes, não?
As crianças balançaram suas cabeças, agora ainda mais animadas do que estavam antes. Todos correram, até os meninos, para tocar Meine. Apertando suas bochechas, puxando seus lábios ou alisando seus cabelos. Wray teve de rir de como eles eram um bando de curiosos sobre Meine, porque era divertido, sendo que, dentre as crianças, a maioria, ou era de loiros ou de ruivos, e Meine era uma figura diferente de todos por ser albino.
– Ei, pequenos! — Skylar correu para o lado de Wray, suado provavelmente por ter estado fazendo algum trabalho pesado. Usava um grande casaco de pelugem cinza, ainda que com seu peito exposto por baixo. — Ah, oi, Wray!
– Sky. — Wray sorriu timidamente. Ele era apenas alguns centímetros menor que Skylar, porém, seus corpos detinham uma grande diferença. Sky era robusto e tão grande quanto Svan, enquanto Wray era um loiro esguio e alto. — As crianças estão conhecendo Meine e já ficaram apaixonadas.
Skylar olhou Wray por alguns segundos, até que algo fizesse algum sentido em sua mente. Ele, então, olhou para Meine que parecia estudá-lo e isso o assustou um pouco, como se o garoto albino estivesse vendo através dele.
– Crianças, vamos logo, que suas mães estão preocupadas! Hora do treino! — Skylar gritou para eles. Então se voltou para Wray. Abriu a boca a fim de dizer algo, mas ficou sem palavras. Ele apenas deu um aceno de despedida e correu atrás dos meninos, que saíram todos resmungando.
Meine se livrou da última criancinha que beliscava suas bochechas. Ele estava corado — como era de se esperar de alguém que corava fácil por qualquer emoção — então se levantou para falar com Wray.
Wray olhou para ele de cima. Era como Svan havia dito: Meine era uma "coisinha", mas era uma coisinha linda.
Foi então que surgiu um pensamento em sua mente "Svan cairá rápido por essa pequena coisa apaixonante".
– Ah, eu não vejo a hora de isso acontecer... — Murmurou ele, olhando fixamente para algum ponto no topo da cabeça branca de Meine.
– Acontecer o que, Wray? – Perguntou, curioso. — Você está divagando?
– Oh... — Ele sacudiu a cabeça para os lados, tentando limpar sua ladainha. — Desculpe, não é nada. Meine, há algo que preciso conversar com você. Vem comigo?
O garoto assentiu e seguiu Wray de volta para casa. O arqueiro pegou o olhar invejoso de Hilda e das outras mulheres no corredor sobre Meine. Pelo jeito, iria ser um inferno para o menino se não tivesse Wray com ele. Isso, às vezes, colocava seu coração apertado, pois tinha medo do que elas poderiam tentar com ele... Sentia no fundo de seu peito, um sentimento ruim sobre elas. Definitivamente não gostava "dessas" mulheres, pois as outras, mães de família com suas filhas adoráveis, sempre foram muito gentis com Wray e nada descaradas, além de serem divertidas.
Wray não tinha gosto por mulher, a não ser por sua amizade. Ele já chegou a pensar que isso talvez fosse parte de seu problema de saúde... Preferia não pensar sobre isso agora.
Quando ele chegou ao quarto de Svan, foi sorte que ele já tinha fechado a porta atrás de si, porque veio lhe aquela maldita crise de tosse que ele pensou que iria perder um dos pulmões pela boca ali mesmo. Meine tinha vindo a ele sem saber o que fazer quando Wray segurou firme para seus joelhos não cederem quando a crise parecia não ir embora e ele teve medo de dar lhe ânsias. Mas, por alguma sorte muito boa, a mesma tosse desapareceu quando um toque suave de Meine veio afagando suas costas.
– Calma... Passou? — Meine estendeu-lhe algum lencinho que ele tinha encontrado em algum lugar. Wray estava pálido, porém arrancou o lenço rapidamente de Meine e enxugou o sangue que havia cuspido em sua própria mão.
– Passou... Obrigado.
– Não há de que. — Meine olhava para ele, com aqueles olhos como se estivesse estudando-o. Ele não ousou dizer nada, e Wray também não permitiria, por mais que quisesse.
Voltou a se recompor, então sorriu para o menino albino.
– Vamos lá. – disse, esquecendo o fato anterior. — Sente-se na cama, vamos ter uma conversa séria agora.
– Tudo bem! — Meine correu para a cama e se jogou sobre ela infantilmente, para então rapidamente jogar suas sandálias para o tapete e se sentar com as pernas cruzadas.
Wray sorriu e se sentou ao lado dele, tomando uma das mãos do garoto para as suas e a massageando gentilmente. Meine ficou olhando para sua mão sendo massageada por um tempinho, até que Wray começou a dizer.
– Você deve estar confuso, não é mesmo?
Meine assentiu.
– Eu acho que posso compreender como se sente… Não sei como foi sua história antes daqui, Meine. Mas sei de uma coisa: agora que está em nossa família, você deve entender sua posição e fazer jus a ela.
– Minha posição? — O albino fitou-o com os olhou fendas. Wray apertou suas mãos sobre a dele.
– Sim, sua posição. — Olhou diretamente em seus olhos. — Você sabe para o que foi comprado… Que deve servir diretamente a Svan para o que ele desejar, não sabe?
Embora Meine assentiu com cuidado, Wray pode ver que seus ombros tremiam, provavelmente porque ele sabia o que Wray iria dizer.
– Você precisa aceitar… Pois vou te dizer uma coisa: Svan não é um mau homem; ele só é para aqueles que são seus inimigos, dos quais não tem pena. Ele pode ser um homem dócil, é só você saber lidar com ele. E tem outro detalhe: se você não agradá-lo, Meine, Svan não vai querer mantê-lo, afinal, será mais uma boca para alimentar. Ele não é a favor de pessoas inuteis… E, quanto aos outros cargos, já estão todos preenchidos… O que quer dizer…
O albino estava encolhido em seus ombros, olhando para sua mão a ser massageada entre as mãos quentes de Wray.
O arqueiro sabia que estava sendo muito franco, muito sincero, mas Meine precisava saber o que estava passando e como decidir o que fazer, pois não seria fácil, porém não havia muitas saídas para escolher. Ele não queria deixar que seu pequeno novo amigo elfo, sofresse ainda pior do que agora, ou passasse por piores humilhações e, quem sabe, não sobrevivesse.
– O que quer dizer que Svan vai querer trocá-lo por outro e você encontrará, talvez, um dono pior… Que fará maldades com você.
Dessa vez, Meine levantou o rosto e as lágrimas já estavam escorrendo abaixo de suas bochechas. Wray olhou-o com uma dor incrível no peito, mas não era por seus pulmões fracos, e sim por ver seu amigo chorar tão inocentemente.
– Não… Não deixe que ele me troque… Não quero que me machuquem… — Disse ele, choramingando a Wray.
Foi complicado, mas o arqueiro simplesmente puxou seu amigo elfo para seus braços em um abraço de consolo.
– Eu não queria te dizer essas coisas, Meine. Sei que está sem saída, mas as coisas podem se tornar melhores para você, apenas se você cooperar.
Dessa vez o albino se afastou um pouco para olhá-lo nos olhos.
– Cooperar como?
– Não fuja… Não seja inimigo de Svan e não diga não a ele. Apenas aceite o que ele quiser fazer com você… Eu te digo, ele não irá machucá-lo, ele não faria tal maldade. — Wray deixou a mão de Meine e então embalou o rosto pequeno dele em suas mãos. A pele de Meine era incrivelmente macia, como algodão. — Confie em mim…
Meine sentiu o carinho bom em seu rosto e sorriu entre as lágrimas. Ele realmente não queria ir embora agora, não queria fugir, não quando havia se apegado tão fácil a seu novo amigo.
Havia este defeito, que era confiar tão fácil nas pessoas, porém seu coração raramente se enganava e dizia agora a si que Wray era um amigo valioso. Que suas palavras eram para ajudá-lo e não, prejudicá-lo. Então, seria mesmo o certo ter de aceitar sua situação? Simplesmente deixar ser um escravo sexual para Svan?
Ele não respondeu, mas se afastou quando a porta se abriu.
Svan entrou em seu quarto, agradecendo a si mesmo por ter vindo para cá. Ele pegou Wray e Meine sentados em sua cama e ponderou sobre qual assunto estavam conversando. Porém não disse nada e apenas fechou a porta atrás dele.
– Acredito que irá precisar de instruções sobre o que fazer para agradá-lo, não é? — Wray murmurou com uma piscadela e Meine corou suas bochechas como morangos. — Mais tarde virei vê-lo.
O albino ainda segurou no braço de Wray para não deixá-lo ir, entretanto, o mesmo teve de afastá-lo. — Eu tenho que ir…
Meine imediatamente começou a tremer ao ver Svan se aproximar. Wray deu um olhar ao seu lider e amigo, então saiu, fechando a porta.
– Você e ele se tornaram próximos. — Disse Svan com indiferença.
O menino olhou para cima, vendo o peito nu do berserker. Svan tinha sua expressão de sempre – sobrancelhas franzidas, lábios curvados para baixo e sendo muito intimidante.
– Wray é meu amigo. — Murmurou de volta.
O lábio de Svan de repente subiu em um sorriso torto que o fazia mais intimidante. Ele estava debochando do pequeno elfo.
– Esteja preparado, pois esta noite eu provarei você. — Rosnou entre os dentes, largando sua atenção de Meine, para procurar algo em sua arca de madeira.
Meine olhou para ele aflito.
– Me provar? Como…? — Perguntou com a voz entrecortada. Svan parou por um momento, não acreditando nas falas do mais novo.
– Não entendeu o que eu disse?
– Não… O que quer dizer com me provar? — Meine perguntou inocentemente.
Svan pareceu se bater mentalmente, não acreditando até onde a inocência de Meine ia. Ele deixou as roupas que havia pegado do baú e então se aproximou da cama, notando grandes olhos medrosos sobre ele. Olhos de um azul marinho intenso, brilhantes, e praticamente a única caracteristica escura na aparência do albino. Era um contraste bonito, ele tinha que admitir.
Svan aproximou-se o suficiente e se inclinou o bastante para suas mãos estarem sobre a cama, de cada lado do quadril de Meine, seu rosto perigosamente perto do de Meine, que se encontrava paralisado, o temendo. Svan sentia o cheiro de medo em ondas saindo do pequeno elfo loiro e, de alguma forma, isso o tinha irritado.
– Eu vou te dizer o que significa isso, coisinha. — Enfatizou seu apelido irônico. — Eu vou experimentá-lo esta noite… Comer você… Devorar você… Está entendendo?
Meine balançou a cabeça negativamente.
– Você é um homem… — Disse ele com sua voz trêmula. — Você não pode fazer nada comigo… Você… Seu doente canibal! — Meine empurrou Svan, e pegou-o de surpresa porque o mesmo não tinha suposto que seria atacado. Embora o empurrão de Meine não lhe fez efeito, ele o tinha atacado de novo em um momento de pânico e arranhado o rosto do líder. Um longo arranhão no lado esquerdo da face, que até sangrou.
Meine se encolheu na cama, se empurrando para mais longe dele, até que percebeu o que havia feito.
– Qual é o seu problema? Você não entende a minha língua, é isso? — Svan gritou contra ele, irritado de verdade agora, e Meine se encolheu, com medo de verdade agora.
– Seu doente! — Meine gritou contra ele quando uma migalha de coragem lhe veio. Imediatamente se arrependendo e começando a chorar. — Eu não vou deixar você me devorar… Me enganou! Wray me enganou sobre você!
Svan perdeu a paciência, ele empurrou Meine na cama e prendeu seus braços no alto da cabeça, usando o peso do quadril para prender a parte inferior de seu corpo.
– Do que você está falando, Meine? — Svan olhava para ele indagando. — Não sou um canibal, se é isto o que sua cabecinha oca pensou. Sou apenas um berserker e isso não faz parte do nosso costume, como você já deve saber…
Meine deslizou o lábio inferior para fora em um beicinho, o que fez Svan erguer uma sobrancelha. O elfo tinha lágrimas não derramadas em seus olhos brilhantes e passou a choramingar enquanto seu rosto fervia em vermelho.
– Eu apenas estou querendo alguma diversão com você! Que problema há com isso?
Meine arregalou os olhos e olhou diretamente para o outro, emoção dançando em seus olhos.
– Sério, Van?
Svan ergueu uma sobrancelha. — É Svan.
– Suvan?
– É Svan! — O líder grunhiu.
– Savan? — Foi a primeira vez que Meine achou engraçado a carranca do líder berserker. — Não consigo dizer o seu nome, minha língua prende.
– Como raios não consegue? – Perguntou, frustrado.
Meine puxou o “s” uma porção de vezes, mas não conseguia dizer o nome de Svan, ou talvez apenas tinha se tornado divertido de repente deixar Svan nervoso com seu próprio nome mal pronunciado.
O líder soltou os pulsos de Meine e apenas se colocou em seus cotovelos, olhando para o rosto angelical do garoto albino.
– Alguém já lhe disse quão alvo você é?
– Sim. Uma porção de vezes. — Meine sorriu, se sentindo um pouco menos medroso agora.
Svan notou isso, mas decidiu não amedrontá-lo.
– Todos os elfos são assim?
Meine olhou divertido e um dedo seu fora tremulamente tocar o queixo de Svan, em sua barba de três dias. Espetava, mas era uma sensação boa.
– Eu não sei… Eu nunca vi alguém como eu antes. Na vila em que eu vivia, todos diziam que eu era filho de algum deus, porque eu não era normal. — Meine estava olhando para o queixo de Svan. — Eu não tenho barba como você.
– Você não tem? — Svan perguntou curioso. — Por que?
– Deve ser essa coisa de ser elfo. Eu já tenho dezenove e ainda não nasceu barba em mim.
Svan arregalou os olhos com a idade que Meine tinha. Dezenove? Ele não podia ver isso, imaginava que Meine tivesse quinze ou menos pela sua aparência inocente e seus olhos grandes e brilhantemente infantis. Quanto ao fato de ele não ter barba, isso devia estar relacionado ao que seu irmão Niels havia lhe dito, Meine tinha o dom de procriar, uma coisa de elfos.
Apenas permaneceu olhando para Meine por algum tempo, foi um sentimento estranho enquanto o dedo trêmulo dele acariciava seu queixo e depois passou a cutucar sua bochecha, onde ele havia arranhado.
– Desculpe, Suvan… — Meine murmurou quando sua expressão caiu ao tocar sobre onde ele havia ferido o homem grande. — Eu não queria machucá-lo…
O líder agarrou o pulso de Meine e o prendeu ao lado de sua cabeça, sendo que a outra mão branquinha de Meine ele pegou em sua própria e a trouxe aos lábios. Foi algo tão simples, porém incomum para o menino, que no momento em que Svan olhou de volta para ele, viu-o enrubescer e seus olhos dançarem de novo em emoção.
O coração de Svan se inchou de um sentimento bom, pela primeira vez em anos. Ele então se levantou e suspirou.
– Se prepare para esta noite. Eu vou usá-lo.
–*-*-
Wray convulsionou com mais uma onda de tosse, os ombros tremendo, a garganta queimando. Lágrimas indesejadas deslizaram por suas bochechas pálidas pelo ataque. Ele esticou a mão em busca da mesa de sua cozinha para se apoiar, mas não foi capaz de medir a distância e seus dedos atingiram uma terrina de barro, derrubando-a no chão. Desequilibrado, tombou para frente em seus joelhos, agarrado as arestas da mesa.
O ar não lhe vinha aos pulmões e a ardência era forte. Ele sentia que daquela vez morreria.
Em geral, era capaz de suportar bem suas crises e mesmo disfarça-las diante do clã. Ele não podia ser fraco ou defeituoso, tampouco desejava ser visto entre os seus como um receptáculo demoníaco. Ele apenas estava... muito doente.
Há muito, muito tempo.
Quando as tosses findaram – gradativamente, decrescendo sua intensidade até que ele sentisse o quanto doía seu corpo – pestanejou, vendo a marca de sangue sobre o tampo de carvalho, sentindo a umidade no canto dos lábios e no queixo. Ofegava, débil, as pestanas pesadas. Respirava acelerada e cansadamente pela boca, ouvindo o inalar estalado e molhado.
Estava piorando. Quanto tempo ainda tinha antes de alguém descobrir sua maldição?
A dor corroía seu corpo trêmulo, tanto por fora quanto por dentro, e era incapaz de encontrar forças em si mesmo para se erguer e ignorar o que acontecera. Estava tonto e mal conseguia respirar. Era como se seu corpo fraco rejeitasse o oxigênio. Caiu sentado no chão, as costas contra o balcão do lavabo. Passou a mão pelo cabelo muito longo, sentindo as mechas lisas grudando na testa e nas têmporas pelo suor frio que lhe enregelava a pele.
Quando era ainda um menino, podia se lembrar com clareza das expressões de seus pais quando o viram vomitar sangue pela primeira vez. Enquanto se consumiam em horror, ele estava aterrorizado. Até hoje não entendia por que era defeituoso, por que era... Quebrado.
– Wray?
Wray ficou tenso quando ouviu a voz penetrar o torpor da sua lamúria. Ninguém deveria nota-lo naquele momento de debilidade, tampouco descobrir sobre sua sina. Estava fraco demais para se mover – não encontrava energia para se levantar, mas a urgência da situação o urgiu a agir, forçando-o a mover os músculos enferrujados. Levantou-se dificultosamente, esquadrinhando o lugar em busca de um pano para limpar o sangue da mesa e do queixo...
Merda. Não daria tempo.
Passou a mão sobre a mesa, manchando a pala de vermelho e a esfregando na parte traseira de sua calça. Esfregou repetidas vezes, até não ver mais sujo na madeira. Usou a outra mão para limpar o queixo, ainda arquejando pela dificuldade em respirar.
– Wray, preciso da sua ajuda!
Ele rapidamente aprumou os ombros e estampou um sorriso na face quando a pequena figura de Meine se revelou ante ele, no marco da entrada da cozinha. Agradecia internamente aos deuses pelo garoto não possuir o olfato aguçado dos Berserkers, ou sentiria o odor metálico do sangue.
E, então, haveria uma torrente de perguntas que Wray não poderia responder.
– O que houve? – perguntou em um tom sereno. Meine correu para ele, os olhos muito abertos, a expressão beirando ao desespero. Parecia enérgico e bastante confuso, o que era uma combinação bastante engraçada em seu semblante.
– Preciso de... Preciso de um conselho.
Wray estava nervoso. Mesmo achando que Meine não desconfiaria de sua doença, em seu cerne temia que o pequenino descobrisse e se alarmasse. Wray gostava dele – era como se Meine fosse rodeado por uma energia benigna, que lhe transmitia certa paz. Ele não conhecia ninguém que lhe passasse uma sensação de tranquilidade que o fizesse esquecer-se de seu problema incurável.
Não poderiam ficar na cozinha. As paredes pareciam se fechar ao seu redor, como se a estrutura da casa desabasse sobre sua cabeça, enclausurando-o e sufocando-o.
– Venha comigo. – disse baixinho, dirigindo-se à porta dos fundos da cozinha – Conte-me o que houve.
Meine aquiesceu com um aceno de cabeça e galopou para o seu lado, deixando-o guiar o trajeto para o exterior da casa. Atrás da antiga construção com formato de colmeia, havia um espaço aberto de terra batida que usava para se exercitar longe de olhares curiosos e as árvores cercavam sua propriedade como um muro protetor, erguendo-se como grandes sentinelas. Wray se esforçou para caminhar até a rocha cinza e plana sob a sombra de um olmeiro. Meine o seguiu.
Wray se recostou na pedra fria, que o impedia de desmoronar. O vento frio soprou com uivo em torno deles, secando seu suor frio e refrescando-o. Sentia-se exaustivamente quente por dentro.
– No que posso ajudá-lo? – murmurou.
Meine franziu o cenho, tombando a cabeça levemente para o lado como se sopesasse algo, então, agitou-se em negação a si mesmo e respirou fundo.
– Eu e Van conversamos – disse baixinho. Aquilo despertou a curiosidade de Wray.
– Então? – instigou.
– Ele disse que queria me comer, mas que seria divertido. Wray – os olhos do menino pareciam absurdamente confusos e confidenciais – O que isso significa? Ele me garantiu que não é canibal.
Wray pressionou os lábios com força para não rir e o esforço para tragar a gargalhada levou lágrimas aos seus olhos.
Canibalismo?
Ah, ele queria tanto poder rir!
O que foi ensinado a Meine em sua tribo anterior?
O garoto parecia vir de outro mundo.
– Meine – disse, lutando para não rir, incapaz de dissimular o tom divertido na voz – Na sua tribo, os homens não passam pela iniciação da maioridade?
Meine arqueou as sobrancelhas. Logo sua expressão demonstrou certo pesar e negou com a cabeça.
– Nunca me permitiram participar porque sou diferente – sussurrou.
Wray não gostou do que ouviu.
– Então...
– Não fui maltratado – garantiu rapidamente, agitando as mãos como se enfatizasse cada sílaba proferida – Mas os rituais de iniciação não me eram permitidos porque acreditavam que desrespeitariam os deuses.
O que significava que foi mantido incólume.
Svan ficaria satisfeito em ouvir isso.
– Você sabe o que acontecia?
Meine mordeu o lábio inferior.
– Tenho... umas suspeitas.
Wray suspirou.
– Os rituais de iniciação da maioridade dos homens são muito importantes, Meine. É o momento no qual abandonamos a infância e no tornamos física e mentalmente capazes de assumir nossas responsabilidades.
– Ou seja...?
– É quando nossas famílias nos fazem transar pela primeira vez para demonstrar nossa virilidade.
Wray poderia ter rido do constrangimento e da curiosidade que assolaram Meine, contudo, em sua mente havia apenas algumas recordações da sua primeira vez. Skylar estava lá com sua parceira, assim como Wray com a sua...
Pestanejou, afundando em algum recôndito de sua mente as lembranças. Doía-lhe um pouco ainda, mesmo após tantos anos. Naquela época, já suspeitava de certos sentimentos que jamais poderiam ser levados adiante.
– Eu... Eu... – Meine parecia desejoso de falar, entretanto, não encontrava as palavras adequadas para se expressar – Wray, está me dizendo que... Provar e comer... Isto é...
– Svan vai transar com você – disse suavemente. Apesar da crueza de suas palavras, amenizou o tom para não parecer tão brusco. Não queria assustar o menino, mas a verdade era uma só, independente de como revelada. Meine empalideceu – Você é seu escravo sexual, Meine. É a sua função sacia-lo.
O garoto não parecia muito satisfeito com isso.
– Mas...
Wray negou com a cabeça.
– Não tenha medo. – Wray sorriu e, segurando o pulso de Meine, puxou-o na direção da casa outra vez. – Venha, vou lhe dar um material de estudo.
Meine arregalou os olhos.
– Há como estudar isso?
Agora, Wray riu.
– Sim.
Eles rumaram para o interior da casa e Wray o levou para o seu quarto, que consistia em um aposento pequeno e de arrumação simples, com uma cama espaçosa com dossel e cortinas brancas, uma arca ao pé da cama onde guardava as roupas e uma mesinha redonda ao lado da janela com uma terrina com água. No canto havia um biombo de madeira que ocultava a tina de cobre na qual se banhava ocasionalmente, uma vez que preferia banhos ao ar livre.
Wray foi até a arca e a abriu, vasculhando por entre as roupas. Sentia a inquietação de Meine emanando em ondas até ele.
– Wray, eu não sei se quero ter essa intimidade com Svan.
Wray entendia. Sexo para aqueles que não conheciam ou que não obtiveram prazer durante a primeira vez era uma perspectiva um pouco aterradora. Lançou um olhar de mútua compreensão a Meine por sobre o ombro.
– Você não tem escolha – disse com carinho – Mas, não tenha medo. Se algo o desgostar, diga a Svan. Diga quando gostar e diga o que lhe incomoda. Svan é gentil, não fará nada para machuca-lo.
Por fim, suas mãos encontraram a capa de couro do pesado volume de páginas amareladas entre a bagunça de roupas. Pegou-o e se ergueu, mostrando a Meine.
– O que é isso?
– Uma dádiva indiana. Tudo que quiser saber, encontrará aí.
O rosto de Meine adquiriu uma intensa coloração rubra.
– Por que você tem o livro do sexo nas coisas?
Wray se encolheu, sentindo a face esquentar pelo constrangimento.
– Skylar trouxe de uma das incursões pelo além-mar e eu... Tinha curiosidade. Então peguei. – Ele mal podia acreditar que estava emprestando o Kama Sutra a Meine. – Meine, este é um segredo só nosso. Ninguém deve saber que eu ou você pusemos as mãos nisso.
– Não verão com bons olhos, não é?
Wray bufou.
– O mundo é hipócrita.
Meine acenou em concordância.
– Não direi ou mostrarei a ninguém, prometo.
Wray assentiu.
– Bom. Agora, antes que a noite caia... Entenda um pouco do que vai acontecer naquela cama.
Continua...
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