Phaeleh I

41 Capítulo 41 - Chegada ao Reino dos Elfos


Notas iniciais
Miky: UFA... kkk finalmente consegui postar o/ Olá amores, espero muito que gostem do capítulo! Enfim estou de férias uhuuuu o/ Boa leitura!

Svan acordou antes mesmo que amanhecesse, então não conseguiu dormir mais.

Entretanto, ter Meine em seus braços, tão bem aconchegado depois de uma crise emocional na noite passada, realmente fez-lhe pensar um monte de coisas. Apenas permaneceu ali abraçando-o ternamente enquanto Meine dormia tranquilamente.

Ele o tinha visto bisbilhotar a pequena reunião que tivera na noite passada, onde Niels perdera suas estribeiras e o ancião ditou a ele partes da profecia que Rurik havia dito incontáveis vezes quando tomava sua posse de oráculo.

Contudo, Svan nunca tinha visto Meine tão frágil e quebrado como ele tinha estado dessa vez. Ele nunca tinha pensado nisso, mas agora via que o garoto realmente parecia que estava sofrendo tanto quanto ele com todos esses problemas do vilarejo, acreditando que era culpa dele, que tudo realmente era porque ele queria que acontecesse, mas não era verdade.

Os deuses estavam castigando os Berserkers, e Meine não tinha qualquer culpa disso. Ele apenas era aquele a ser protegido, além de que nunca tinha feito qualquer mal a ninguém. Ele apenas tinha sido bondoso, gentil e seu sorriso derretia o coração de Svan.

As feições do albino se contorceram enquanto estava acordando. Svan admirou cada detalhe de sua face, desde seus cílios brancos, suas sobrancelhas bem desenhadas, um pouco mais escuras do que seu cabelo, algumas pequenas sardas e sua boca bonita, lábios cheios e vermelhos. Não resistiu em inclinar-se e beijá-lo ternamente, provocando-lhe um pequeno gemido. Quando Svan afastou-se relutantemente, Meine estava sorrindo, e sua mão veio para acariciar o rosto do Berserker, de modo que sempre deixava Svan com o coração inchado.

— Eu estava querendo muito um beijo seu, desde ontem. — Meine murmurou baixinho e riu consigo mesmo. — Beije-me mais, Van.

Svan inclinou-se e beijou-o mais intenso, suas mãos puxando Meine para o seu corpo, moldando-o em si. Os pequenos suspiros de contentação e o sabor daqueles lábios de mel eram como a ambrósia para Svan.

— Tão bom... — Meine murmurou assim que os beijos do líder desceram para o seu pescoço. Suas mãos pequenas acariciaram-lhe sobre seus cabelos e seus ombros fortes.

Svan se afastou com relutância outra vez. Se pudesse, certamente estaria a beijá-lo o dia inteiro.

— Eu não quero ser mais um escravo. — Disse o garoto albino, o que fez Svan olhá-lo incrédulo. — Deixe-me ser livre, Van.

— Mas... — Svan não sabia como responder a isso. Ele se sentou e Meine continuou a olhá-lo com esperança.

Ele tinha medo de tornar Meine um homem livre e então ele ser tirado de debaixo de sua responsabilidade, não sendo mais propriedade sua.

— Por quê? — O guerreiro perguntou suavemente depois de voltar a se deitar ao lado de seu companheiro. A determinação que encontrou nos olhos do elfo, foi completamente diferente do que ele costumava ver em Meine. Estava aprendendo sobre lados de seu pequeno escravo albino que ele não conhecia, se sentia como uma vitória para Svan.

— Porque... — Meine mordeu seu lábio inferior adoravelmente. — Eu só não quero mais que as pessoas me vejam assim... eu não me importo de ser seu escravo quando estiver com você Van. E... eu queria poder ajudar em algo, quero fazer parte do seu grupo também.

Svan pensou muito sobre isso, e por uma fração de segundo, ele imaginou como seria o seu clã se não existissem os escravos, ou se eles não fossem realmente escravos. Os humanos cresceriam para cima dos Berserkers e iriam querer comandá-los, como o Jarl fazia.

Ele pensou que Meine seria diferente, o que certamente era verdade. Ele não era um humano, era um elfo lindo, pequeno e adorável que abalava o coração de Svan. Ele não iria assumir a liderança, muito menos serviria de ameaça para qualquer Berserker no clã.

Apesar de que Svan não tinha noção do poder que havia em Meine.

Olhando-o assim tão de perto, ele apenas queria beijá-lo e abraçá-lo. Seu corpo reagia tão bem à calma e tranquilidade do garoto, embora Svan — sempre– se sentisse tão excitado para estourar suas calças pelo desejo de tomar o albino da forma mais pecaminosa possível. Transformá-lo em um pequeno demônio sexual...

Seus olhos se arregalaram. Como diabos ele estava pensando uma coisa dessas? Meine era seu para manter. Era seu para ser cuidado — assim como o ancião lhe dissera — apenas sendo alimentado com seu amor e carinho. E Svan estava mais do que disposto em oferecer tudo isso e muito mais aquele que amava. Ele era tão pequeno, não queria machucá-lo com seu tamanho gigantesco e desengonçado.

— Posso te fazer uma pergunta? — O elfo indagou. Svan anuiu, recebendo mais uma vez a mão de Meine em seu rosto, acariciando-lhe ternamente. — O que significa copular?

Svan ergueu uma sobrancelha.

— Como assim você não sabe o significado disso?

Meine corou. — Eu nunca ouvi essa palavra antes. — Ele deu de ombros.

Svan deu-lhe um sorriso divertido e se inclinou muito próximo, oferendo-lhe um beijo instantâneo. Amava esse lado inocente de Meine, a vontade de corrompê-lo era tão grande.

Aproximou-se de seu ouvido, beliscando-o suavemente com os dentes, sentindo-o estremecer em seus braços.

— Copular é... — Não queria ser um grosseiro, mas tudo o que tinha em mente eram palavras sujas. — É o mesmo que acasalar...

A compreensão rapida chegou a Meine dessa vez e seus olhos cresceram de tamanho.

— A-Aquilo que você... fez comigo daquela vez? — Sua voz saiu entrecortada. Svan notou que Meine não se afastou dele como imaginou que faria.

— Você confia em mim agora, não é?

— Hum. — Ele assentiu, todavia parecia preocupado. — Isso vai salvar o vilarejo?

— Eu espero. — Svan não podia dar certeza de nada.

— Então eu quero fazer isso com você. — Meine derrubou o Berserker sobre o colchão e se deitou sobre ele. Embora Svan estivesse muito duro, Meine apenas corou e nada disse sobre isso. — Quero que faça amor comigo, Suvan. Eu vou ser forte dessa vez, eu não vou chorar.

O líder sorriu, tomando o rosto de Meine e beijando-o. Quando se afastaram, o albino estava trêmulo contra seu corpo. Ele ainda tinha medo.

— Você tem certeza disso?

— Sim. — Não hesitou.

— Quero que converse com Wray hoje e diga a ele. — Svan não sabia por que, mas sentia que Meine precisava de algumas poucas orientações de Wray, principalmente Svan. — Tenho muito para resolver hoje e nem mesmo irei parar para o almoço... no entanto, esteja pronto para esta noite.

Meine assentiu, e quando Svan sorriu, ele retribuiu com carinho.

Svan esperava de fato não perder o controle da sua besta e atacá-lo como da última vez. Não saberia como as coisas poderiam ser drásticas caso não desse certo.

–*-*-

Rurik sentiu uma espécie de euforia descomunal preencher seu espírito quando a cidade dos elfos se fez vista através dos altos conjuntos de árvores que os cercaram por tanto tempo de viagem. O espaço se abriu para um extenso gramado verdejante, que se movia sob o sopro do uivante vento. Uma montanha se elevava do chão como um gigante de terra e cada metro seu era ocupado por construções de pedra branca em formato de colmeia. As casas eram todas próximas umas das outras, cercadas pela natureza por todos os lados. Elfos vestidos com diáfanos tecidos brancos e transparentes transitavam entre as habitações. Rurik viu um rapaz estender o braço para uma árvore e o galho descer para ele, tocando-o em reverência como se ambos fossem amigos de longa data. Aos pés da montanha havia um lago de águas cristalinas que desaparecia no horizonte, refletindo a luz do sol lindamente. E no alto de toda aquela beleza branca havia uma fortaleza – um castelo também de pedras alvas, com torres que se erguiam de cada lado como lanças para protegê-lo.

Cervos pastavam tranquilamente, sem medo de serem caçados, e sequer titubearam ante a presença deles. Rurik só soube que foram notados porque viu suas orelhas se moverem em reconhecimento. Os animais se espalhavam por todos os lados, tão relaxados pela exorbitante segurança que os envolvia que não faziam nada além de olha-los com curiosidade. Mas o que mais atraiu Rurik foi o tamanho assustador dos cervos – eram tão altos quanto cavalos, com um porte imperioso e músculos férreos por debaixo dos pelos castanhos. As galhadas eram largas e majestosas, abrindo-se largamente e esticando-se para o alto em sinal de força e supremacia. Rurik jamais vira animais tão grandes, tão belos e tão perigosos.

— Os cervos de Frey são animais de luz – disse o rei Darius e Rurik pulou em seu assento pelo susto. A sela de couro o incomodava pelo tempo longo da viagem e suas pernas doíam. Ele queria muito apear, mas seria um desrespeito para com o rei. Como lhe diria que era sua primeira vez à cavalo e que aquilo machucava após tantas horas? – Eles são fortes e rápidos – Darius sorriu quando Rurik o olhou – Nós os montamos para lutar. Acredito que são mais confortáveis do que os cavalos.

O olhar solidário fez Rurik pensar que o rei entendia seu desconforto por estar montando. Como escravo, ele não tinha o direito de estar sobre um cavalo, a não ser por ordem e companhia do amo, o que nunca aconteceu.

— Eu... – ele corou e olhou para os cervos ao longe. Desejou ser como eles: imponentes, fortes. – Poderia aprender a montá-los?

— Claro. Lembre-se, rapaz, aqui você não é um escravo. Na verdade, nunca mais será e não concerne ao Conselho decidir isso. Não importam as leis dos humanos, você é um Oráculo. Nem mesmo os imundos Berserkers têm o direito de tocá-lo.

Rurik quase abriu a boca para defender os Berserkers, mas engoliu as palavras. O rei Darius estava sendo muito gentil com ele e não fizera nada além de expressar suas crenças – para os elfos, os Berserkers eram irracionais. Bestas dominadas pelo instinto, pela fúria. Como animais que mereciam nada mais que uma singela simpatia. Rurik compreendia. Em comparação aos elfos, os Berserkers eram arcaicos. Criaturas de mente obsoleta que viviam em regressão.

Isso o fez pensar em Niels.

Assim que a linha de pensamento se dirigiu ao cabeça-quente Berserker, ele a balançou de lado a outro como se assim pudesse expurgar as memórias ruins. Niels já tivera o bastante de seu coração para merecer mais e Rurik decidira que, a partir daquele dia, ele mudaria. Seria mais forte, tanto física quanto psicologicamente, e enterraria seus sentimentos. Caso conhecesse algum elfo que mexesse com ele... Investiria nessa nova relação. Não se permitiria prender.

Assim sendo, eles cavalgaram a passos lentos e tranquilos para o sopé da montanha, com Darius emparelhado a sua montaria e lhe fazendo apontamentos a respeito de seu povo – o sol tocava cada pedaço da montanha, energizando-a e garantindo que os elfos absorvessem sua luz. Foi quando reparou que as pedras brancas também absorviam aquela energia e milhares de raios coloridos eram refletidos sutilmente em suas superfícies, como se as rochas abrigassem infindáveis arco-íris. Era a coisa mais linda que Rurik já vira.

A entrada da cidade possuía dois totens de madeira com várias cabeças de animais – ele reconheceu o cervo, o lobo, o urso e a coruja. Entre ambos os pilares havia um homem vestido em uma túnica branca transparente com mangas boca-de-sino longas a ponto de cobrirem suas mãos com detalhes dourados e uma calça na mesma cor, folgada e presa nos tornozelos. Ele estava descalço, os dedos escavando a grama. O cabelo era branco como o de Meine e Rurik arregalou os olhos – seria este o pai de Meine? Não... Ele parecia muito jovem para ser pai. Talvez um irmão? Ou primo? Ele também lembrava um pouco Wray, talvez pela compleição magra e musculosa – suas mechas chegavam aos joelhos. Sua pele era pálida e um padrão intrigante de tatuagens negras o marcavam – três triângulos cujos cumes apontavam para o maxilar, sob um olho. Padrões intricados e rústicos de runas desciam do queixo e pelo pescoço até o colo pálido. Ele possuía uma beleza etérea, magnífica.

Eles pararam os cavalos diante daquele impressionante homem. Alasd e Hayliel foram os primeiros a apear e vieram de imediato até Rurik para auxiliá-lo no momento de desmontar. O rei Darius, por sua vez, foi capaz de fazê-lo sozinho e com movimentos de tamanha elegância que Rurik se sentiu envergonhado ante sua magnificência. Alasd e Hayliel flanquearam Rurik, cada um pondo uma mão em sua coluna, oferecendo-lhe apoio para o caso de cair.

Ele estava se sentindo uma criança.

Com o pé no estribo, pulou para o chão e os dois homens se prontificaram para agarrá-lo quando caísse. Graças aos deuses, isso não aconteceu.

— Estou bem – Rurik disse firmemente.

Hayliel sorriu.

— Como foi para a sua primeira vez?

Foi quando a onda de dor irrompeu por seus ossos, atacando vorazmente os músculos, subindo das coxas para as costas, fazendo dobrar seus joelhos. Rurik ofegou, rapidamente levando a mão a um ombro de Hayliel, que apenas sorriu e segurou seu braço.

— O quê...?

— Horas de cavalgada – interrompeu Alasd, pragmático.

Hayliel assentiu.

— Você vai sentir um pouco de dor, mas logo melhora.

Assim ele esperava.

O rei Darius trocava sussurros com o estranho pálido e vez ou outra olhavam para Rurik. Ele acreditou que falavam do fato de ele ser Oráculo e apenas os deuses sabiam por que ele possuía esse dom – ou maldição. Então, ambos os elfos se dirigiram para onde eles estavam. Quando estiveram próximos, Rurik notou que o desconhecido possuía os mais belos olhos heterocromáticos – um dourado como ouro derretido e o outro branco-prateado como as estrelas que salpicavam o céu. Aquelas írises díspares saudaram Hayliel solenemente e pousaram em Alasd em avaliação. Suas sobrancelhas se arquearam brevemente, talvez não esperando a presença de um Berserker. Então, após um breve aceno de cabeça correspondido, ele fitou Rurik.

— Oráculo Rurik – disse o rei Darius. Rurik empertigou os ombros instantaneamente, oscilando o olhar entre ambos, sem saber ao certo a quem encarar – Este é Fyren. Ele é meu Oráculo e sobrinho.

Os olhos de Rurik se abriram ante a informação. Ele não sabia o que o surpreendia mais – se eram os olhos diferentes, se era por ele ser Oráculo ou se era por ele ser sobrinho do rei. Talvez as três se mesclaram em sua cabeça e o atingiram com a potência de mil cavalos trotando sobre sua cabeça. Se olhasse atentamente, notaria que o rapaz era sutilmente similar ao soberano dos elfos, mas não se poderia afirmar que eram parentes, afinal, todos os elfos eram tão semelhantes.

Fyren, o elfo e Oráculo, fechou os olhos para acenar com a cabeça em reconhecimento a Rurik. Não houve qualquer toque, sequer uma palavra de cumprimento.

— É um prazer – Rurik disse, baixando a cabeça em subserviência.

Fyren o olhou – não apenas olhou, mas olhou. Tão intensamente que Rurik se sentiu trespassado, revelado, como se o elfo pudesse ler todos os seus pensamentos, como se pudesse sentir o que havia de mais escondido em seu coração. Aquela vulnerabilidade o deixou desconfortável e ele não soube exatamente como reagir. Como se portar. Sentiu-se sujo demais para ir adiante.

Era humano, e um humano sujo.

O escrutínio de Fyren o fez enrijecer – o que ele estudava? O que se passava em sua mente naquele momento? Estaria reprovando-o? Rurik não se importava com aquele rechaço. Ele queria saber mais do que era ser um Oráculo, mas não era o bastante para se incomodar caso o Oráculo elfo o repudiasse.

Então, para surpresa e confusão de Rurik e do Berserker, Fyren estendeu a mão – não para tocar em Rurik, mas... Como se as pontas de seus longos e elegantes dedos fizessem contato com algo que ninguém mais via. Algo que envolvia Rurik como um halo invisível. Rurik recuou, olhando para suas cercanias, mas não avistava o fantasma que o elfo observava. Então, ele abriu um diminuto e ilegível sorriso.

Seria ele louco?

— É uma bela cor – sussurrou. Sua voz era absurdamente rouca e suave. Recolheu a mão e se afastou um passo de Rurik, agora olhando para Darius, que apenas sorriu.

Do que ele estava falando?

Rurik não entendeu, mas também não perguntou.

— Majestade – Alasd murmurou, avançando com os ombros baixos em submissão e respeito – Eu devo partir.

— Seu cavalo deve descansar primeiro ou morrerá de exaustão – disse o rei – Hayliel, arranje-lhe uma montaria e provisões para a viagem. Dois dias em sela é muito tempo para ficar sem comer.

— Sim, senhor – Hayliel disse prontamente. Ele e Alasd intercambiaram um olhar que a Rurik pareceu enigmático e o elfo se afastou, tendo o Berserker em seus calcanhares como uma sombra.

— Oráculo – o rei Darius disse, virando-se brevemente na direção dos imponentes totens – Acompanhe-me. Fyren já providenciou suas dependências.

Rurik olhou timidamente para o belíssimo elfo.

— Obrigado – murmurou. Fyren apenas moveu a cabeça, reconhecendo suas palavras.

–*-*-

— Meine me disse que queria falar comigo.

Svan ergueu os olhos do potro que acabara de nascer em seus estábulos e o encarou. Wray apenas sorriu, já sabendo do que se tratava. Svan, por sua vez, parecia irrequieto, enervado, como se seu nervosismo fosse tão grande que não coubesse em seu gigantesco corpo.

Wray ficara satisfeito ao ver Meine em sua casa quando chegou para almoçar. Estava suado e com as vestes imundas por ter passado o dia patrulhando as fronteiras e foi uma surpresa agradável ver Aricin de pé dando passos hesitantes com Meine e Skoll, em sua forma de lobo, ajudando-o. Meine estava a sua frente, estendendo as mãos para o caso de ele cair, como uma criança que começava a aprender a andar. Skoll, por sua vez, estava deitado com a cabeça sobre as patas, fingindo dormir, com as orelhas em pé e um olho semiaberto, atento aos dois rapazes. Ele velava por ambos com muita atenção, como se fossem membros de sua matilha.

Mas sua surpresa, de fato, foi após a refeição, quando Meine lhe chamou para uma conversa em particular. Ele apreciava a intimidade que possuíam – ele e Svan eram seus melhores amigos. Seus irmãos de coração – mas nada o preparara para a perplexidade que o assaltou quando Meine lhe disse que Svan queria que soubesse que aquela era a noite. A confiança depositada nele o regozijou. Ainda assim, os detalhes da relação de seus amigos eram totalmente dispensáveis – era constrangedor. Ele sentiu uma grande alegria – alegria proveniente da superação de Meine ao aceitar Svan novamente. Alegria por Svan ter treinado paciência e carinho o bastante para trabalhar com seu companheiro para superar seus medos. Alegria por eles admitirem seus sentimentos com sinceridade. Wray só foi capaz de abraçar Meine – e o faria posteriormente com Svan. Estava satisfeito, como se tivesse cumprido uma árdua missão.

Ele queria parabenizá-los, mas só o faria quando concretizassem o ato em si. Meine poderia se assustar ou Svan, perder o controle. Caso desse errado, Wray sabia que poderiam sempre tentar novamente. Mas, então, ele começou a se perguntar por que seu amigo e líder fez questão de que soubesse dos planos de ambos para mais tarde. Ele ponderou, tentando ver com nitidez as possibilidades, até que algo lhe ocorreu – conselhos. Wray era quem os ajudara durante todo o trajeto da relação e seu serviço jamais acabaria. Portanto, após o almoço, buscara Svan por toda a aldeia, até encontrá-lo nos estábulos assistindo o tratador de cavalos ajudar uma égua a parir.

A tensão no ar era palpável, densa – não pelo glorioso e saudável nascimento, mas porque Svan irradiava nervosismo. Wray tinha certeza de que seu amigo estava ansioso e animado ante a ideia de transar com seu amor, entretanto, ainda havia a insegurança de a besta tomar o controle novamente. Se isso acontecesse, Wray acreditava que Meine não se recuperaria tão bravamente como o fizera em sua primeira e terrível experiência. Ele tentou sorrir para serenar Svan, e mesmo sua calmaria contagiante não foi capaz de atingi-lo naquele momento.

— Venha comigo – Wray disse baixinho. Virou-se para sair do celeiro e Svan o seguiu, silencioso, tão introspectivo que não se assemelhava ao amigo que outrora preferia falar para desanuviar sua tensão.

Wray decidiu que aquele era o momento para levar Svan ao seu santuário secreto. Aquele era um lugar que transmitia uma paz de espírito colossal, cercado pelas boas energias da natureza que os abraçava. Talvez por ter sangue élfico, sentia-se tão embalsamado ao avistar a paisagem natural, onde o sol tocava a relva como beijos de calor e vida, revigorando-o ternamente. Ele não costumava levar ninguém para lá e Meine fora a maior das exceções.

A aldeia estava em rebuliço pelas atividades – Svan ordenara que construíssem uma casa grande, muito grande, de pedras e único andar, cobrindo o teto com gramíneas e folhagem, para que assim se assemelhasse a uma caverna, com quatro camaratas capazes de abrigar, cada uma, oitenta pessoas. A oficina de carpintaria já funcionava na construção de alicerces para a habitação comunal, enquanto os idosos e as crianças trabalhavam na construção de confortáveis catres para a estadia. As mulheres, tanto as jovens quanto as mais idosas, dividam-se em grupos para costurar roupas para o inverno com a lã e o couro que restaram e para cozer alimentos para as refeições. Se sobrava legumes, eles faziam caldo. Não havia desperdícios – não podiam ter esse luxo. Os adolescentes participavam de grupos de caça para armazenarem alimentos para o inverno enquanto os mais velhos se ocupavam de proteger o clã. Apesar de sua ameaça de abandonar a liderança, Svan permanecia responsável e zeloso por todos eles e dera o aviso de que ficaria como chefe apenas até o final do gelo.

Wray sabia que, mesmo que Niels realizasse um bom trabalho liderando-os, ninguém era melhor que Svan.

Eles rumaram para a casa de Wray primeiramente para pegar um corno com vinho e uma bolsa de couro com pão preto e uvas. Quando Wray esteve satisfeito com o que recolhera, seguiram para o conjunto fechado de árvores que se agrupavam atrás de sua habitação. Svan ainda permanecia quieto e Wray achou aprazível o silêncio, quebrado apenas pelo cantar esporádico dos pássaros, do farfalhar dos galhos quando tocados pelo sibilante vento gélido. Havia uma fina camada de neve sobre o chão e flocos diminutos caíam das nuvens pálidas como pequenos e rodopiantes cristais, gravitando sinuosamente em torno de si mesmos.

Wray amava aquele lugar. Ele amava a floresta. Se pudesse, jamais sairia dali, mas o futuro, sempre tão inconstante, já anunciara a eles que, se não fossem fortes o bastante, teriam de buscar outras terras. Talvez buscar Vinland, uma terra mítica para vikings.

Quando a mãe de Svan era viva, costumava lhes contar muitas histórias. Uma delas era a de Vinland, que ela dizia haver sido descoberta por seu avô, um Berserker norueguês que raramente parava em casa. Estava sempre em constantes viagens para o além-mar, realizando excursões nas terras dos anglo-saxões, dos escoceses indômitos e dos ilhéus selvagens de Skye. Em uma de suas peregrinações, ele alegou ter encontrado Vinland.

Ah, aquela terra mágica que as crianças ansiavam por conhecer! Mesmo ela não era tão perfeita para Wray quanto sua terra natal. Quanto o cheiro de família, de lar, que impregnava aquele lugar.

Eles caminharam por entre as árvores, saltando troncos caídos e contornando rochas que se interpunham em seu caminho. Wray o guiou por um longo tempo, encabeçando a caminhada, até que, enfim, as árvores se abriram para o formoso riacho que trouxera Meine há tanto tempo. Wray se voltou para ver a reação de Svan e sorriu ao vê-lo arregalar os olhos verdes em admiração. Svan parecia estar diante da própria Vinland – o perfeito lugar de climas amenos e terras férteis. Aquilo encheu Wray de orgulho, pois aquele era seu recanto preferido.

Svan deu passos hesitantes para mais perto da cercania das pedras, contemplando o cair da pequena cascata sobre a piscina de água cristalina. Ele estava embevecido, hipnotizado por tamanho resplendor. Wray tinha certeza de que as palavras, naquele momento, esvaíram-se da mente de seu amigo.

— Wray – foi tudo o que disse. Havia uma nota carregada de admiração em sua voz.

— Lindo, não é? – Wray sorriu, entrelaçando as mãos atrás das costas, ouvindo a água cascateando para baixo. Era tão delicioso estar ali. O vento, a água, os pássaros, as folhas... – Esse é o meu paraíso.

Svan estava com os lábios entreabertos, os olhos com o típico pícaro brilho de uma criança ao encontrar seu quartel-general secreto na floresta. Isso o fez sorrir para si mesmo, pois as lembranças da infância o abordaram com uma sensação cálida no peito. Eles quatro – Svan, Wray, Sky e Niels – usando cavernas como esconderijos, escalando árvores e fazendo de simples galhos de carvalhos uma fortaleza, um castelo. Tábuas de madeira eram galeras poderosas de guerra, que usavam para navegar e desvendar terras desconhecidas. Eles eram travessos e enérgicos, completamente intratáveis. E Wray viu tudo isso nos olhos de Svan quando seu irmão de coração oscilou o olhar maravilhado entre ele e a água cristalina.

A emoção da infância, da liberdade descomedida, da irresponsabilidade e da curiosidade. Oh, era tão maravilhoso!

— Por que está me mostrando isso agora?

Wray não respondeu de imediato. Ele sabia lidar com as palavras e costumava ter um ponto de vista claro e pragmático a respeito das situações. Era bastante argumentativo e expressivo, mas, naquele momento, ele queria que Svan se acalmasse, que pensasse tranquilamente, que também sentisse a maravilhosa energia que os cercava.

O vento soprou seus cabelos pálidos para detrás das costas, acarinhando sua face.

— Porque chegou a hora de você conhecer. Tire as botas, Svan.

Svan franziu o cenho em sua habitual carranca.

— Por quê? – grunhiu.

Wray revirou os olhos, tratando de retirar seus próprios calçados. Enquanto o fazia, notou que Svan hesitou momentos antes de segui-lo.

— Confie em mim – Wray jogou as botas a um canto, sob a sombra de uma das árvores que os cercavam. Svan logo fez o mesmo e se postou ao seu lado, separando levemente as pernas, apoiando as mãos o quadril e semicerrando os olhos ameaçadoramente para a natureza. Wray riu – Tire essa postura combativa, você não lutará contra a água.

— O que pretende fazer?

Wray estendeu a mão e segurou a de Svan, puxando-o suavemente para uma rocha alta cuja metade estava em terra e a outra, na água. Galhos se esticavam sobre ela, oferecendo uma sombra fria e parcial. Wray se desvencilhou de Svan e habilmente a escalou, como um gato saltando para um muro. Ele esticou, então, a mão para ajudar Svan. Seu amigo grunhiu, aborrecido, e subiu sozinho. Wray se sentou, apoiando o peso do corpo nas palmas e esticando as pernas, cruzando-as na altura dos tornozelos. Svan, por sua vez, cruzou as pernas em lótus ao se colocar ao seu lado, cravando os cotovelos nos joelhos e encarando a paisagem adiante. As sombras dançavam sobre seu rosto antipático e seu cabelo cor de trigo serpenteava ao vento. Wray o observou por um longo minuto – Svan possuía uma beleza selvagem, rústica, como uma fera em corpo humano. Cada pedaço de seu corpo indicava um homem bruto e perigoso.

Wray ficou calado, apenas absorvendo a calmaria do ambiente. Aquela era uma das melhores sensações que já tivera.

— Eu sempre venho aqui para pensar – disse distraidamente, erguendo o rosto para o vento e fechando os olhos – Eu me acalmo. Consegue sentir essa paz?

Svan não respondeu, e Wray permitiu que a quietude pairasse entre eles – não era um silêncio desconfortável. Na verdade, era bastante tranquilizante. Wray sentiu que seu corpo relaxava e a tensão do trabalho se esvaía lentamente, aliviando-o.

— Sim – Svan murmurou – É um bom lugar.

— Esta é minha Vinland, Svan. Meu lugar perfeito.

Quando Wray abriu os olhos, notou que Svan havia cerrado as pálpebras e respirava fundo o ar fresco da floresta, também se deixando levar pelas sensações. Ele estava absorvendo a energia do lugar e se deixando ser absorvido, tendo suas preocupações arrancadas de sua mente. Eles viviam constantemente estressados, ter um momento como aquele era muito raro. Então, Svan abriu os olhos e fitou Wray com complacência.

— Há quanto tempo não nos sentamos apenas assim, despreocupadamente, meu amigo?

Wray sorriu.

— Muitos anos, talvez.

Svan se jogou para trás, deitando apoiados nos cotovelos, olhando para o paraíso que os cercava.

— Eu sinto falta dos nossos dias de paz – Svan murmurou com um suspiro cansado. Wray estendeu a mão e lhe afagou ternamente os cabelos como costumava fazer com Meine. Ele soube que Svan instantaneamente relaxou, permitindo que visse um lado vulnerável seu que ninguém mais via. Aquele não era o Svan, líder dos Berserkers. Era Svan, seu melhor amigo. Wray gostou de ter aquela intimidade novamente com ele. Desde que Svan assumira a chefia do clã, fora forçado a se distanciar um pouco e as ocupações de ambos impossibilitavam que relaxassem mais frequentemente. Tornar-se adulto era muito difícil, muito cheio de responsabilidades. – Você ainda tem a mão mais amável do clã, Wray.

Wray sorriu novamente. Recordou-se de quando eram meninos e Svan ia até ele em acessos de fúria por algum desentendimento com o pai. Wray o forçava a deitar a cabeça em seu colo e brincava com seu cabelo até que dormisse, exausto. Ou eles simplesmente conversavam. Ele era capaz de acalmar a fera de Svan naquela época, quando não sabiam que ele podia se transformar completamente em urso. Um terrível urso negro que assombrava os pesadelos de muitas crianças.

— Está mais calmo? – perguntou em um sussurro.

— Sim – Svan fechou os olhos – Eu estou preocupado.

— Eu sei. Você pode me contar ou pode simplesmente pensar a respeito – Wray puxou a cabeça de Svan para suas pernas e o Chefe de clã permitiu, relaxando a ponto de parecer que dormitava. Mas Wray sabia que ele estava muito desperto, e muito tenso. Eles ficaram quietos por um longo momento. Sempre que Wray ficava em silêncio, parecia despertar na pessoa que estava em sua companhia a necessidade de lhe revelar tudo que havia em sua mente. Certamente, Wray seria uma pessoa perfeita para realizar interrogatórios. Não havia uma única pessoa capaz de manter um segredo seguro em sua presença tão serena.

— Eu e Meine decidimos tentar ir até o final hoje – Svan admitiu, enfim.

Wray não lhe diria que já sabia; Svan provavelmente já estava ciente disto.

— E então?

— Eu... – as palavras pareciam se acumular em um bolão na garganta de Svan, obstruindo a passagem da voz. Era muito difícil para alguém tão taciturno quanto ele se abrir com tamanha confiança – Eu tenho medo de machucar Meine novamente.

Wray assentiu com a cabeça, dando tempo às palavras.

— Você o ama?

— Muito mais do que posso expressar – confessou e Wray gostou de ver suas bochechas adquirirem um leve rubor – Mas minha besta muitas vezes foge do meu controle.

Wray ergueu o rosto, olhando para os galhos acima de suas cabeças, vendo a dança das sombras e diminutos feixes de luz perpassarem a proteção das folhas. Observou os traços do céu pálido por entre as hastes da árvore.

— A sua besta também é você. Aceite-a ao invés de lutar com ela.

— E se eu machucar Meine? Nós trabalhamos tão duro para conquistar a relação de agora...

Esse Svan inseguro e temeroso era alguém que ninguém deveria ver. Wray protegeria aquela imagem como sempre o fez desde que eram meninos.

— Então, trabalhem juntos novamente. – disse com simplicidade, brincando com as macias mechas de cabelo de Svan – Sabe, Svan, para fazer amor é necessário ter muita confiança no seu parceiro. Entregar seu corpo não é algo que se faz por fazer.

Svan ficou quieto.

— Eu entendo.

— Meine confia muito em você. Ele te ama há muito tempo. Você não deve enfrentar esse medo sozinho, Svan. Isso é algo que vocês devem trabalhar em harmonia, em conjunto. É isso o que significa ser companheiro.

Svan abriu os olhos e encarou Wray com tamanha intensidade que parecia querer paralisá-lo no lugar.

— Como eu acalmo minha fera?

Wray se inclinou e beijou a testa de Svan.

— Confie em Meine e se entregue em resposta.

Svan franziu o cenho.

— Me entregar? Significa que terei de deixá-lo... – ele semicerrou os olhos – Me penetrar?

Wray riu baixinho.

— Eu não disse isso. Mas que problema teria? Você o vê menos homem porque vai estar dentro dele?

— Não – Svan sequer hesitou, o que agradou Wray – Mas não entendo como quer que eu me entregue.

Wray suspirou.

— Você é um homem cheio de barreiras, Svan. Apesar da sua sinceridade, você ainda se esconde dentro de uma fortaleza. Quando deixar cair sua armadura, vai entender do que estou falando.

E Wray esperava que fosse o quanto antes, para o bem de Meine.

Continua...



Notas finais
Obrigada por ler Phaeleh! Desculpe se houve qualquer errinho ao longo do capítulo... Duas considerações a fazer: Sobre Sky, não se preocupem, logo ele aparecerá! E sobre a continuação, acabei de chegar a uma conclusão que haverá uma segunda temporada somente com a minha escrita, ainda há muito para fazer acontecer e resolver nessa história ;D Porém, até acabar essa temporada ainda haverá uns 5 ou 6 capítulos, portanto, não se preocupem ♥ Muitos beijinhos e boa semana!