Phaeleh I

28 Capítulo 28 – Coração Desordenado


Notas iniciais
Miky: Olá meus amores *--* Aqui está o capítulo de Phaeleh, bem recheado hoje... Segurem seus coraçõezinhos ♥ Boa leitura!

Aricin sentia o frio incrustado em seus ossos, atravessando sua estrutura, fazendo-o tremer e se encolher. A fome o corroía tanto quanto a sede e a dor de seu machucado. Não conseguia se mover sem gemer. Seu estômago parecia tão fundo, tão oco, que se enrolava em torno de sua espinha. Tinha certeza de que estava secando, esvaindo-se, morrendo. A dor na região da bacia o estava matando.

A escuridão o abrangia em sua totalidade, tragando-o para aquele vórtice de terror e dor, afundando-o em um lamaçal de sofrimento. Estava assustado – sozinho, com o silêncio zumbindo em seus ouvidos, as punhaladas cortantes em seu machucado o fazendo rezar aos deuses para que alguém se lembrasse de que ele existia.

Mas quem lembraria?

Wray era o único que notaria sua ausência e se encontrava tão irremediavelmente debilitado que jamais poderia sequer se recordar de algo que não fosse sua doença. Aricin estava fadado a morrer no esquecimento – era apenas um escravo. Um escravo que não falava e que estava sempre se escondendo ou fugindo dos visitantes. Não era como se ele fosse a preocupação de qualquer um. Ninguém realmente pararia para pensar onde está Aricin?

E isso era o que mais o atemorizava – a morte pelo esquecimento.

Seus dentes rangeram pelo frio. Gelo parecia atravessar sua carne em aguilhoadas.

Quanto tempo mais resistiria?

Algo frio tocou a curva de seu pescoço, afastando mechas de seu cabelo. Aricin estremeceu, assustado pelo pensamento de ser um rato – ratos famintos podiam facilmente devorar pessoas. Seu antigo mestre já lhe mostrara o quão efetivos eles poderiam ser – mas não havia energia em qualquer recanto de seu ser que o fizesse se mover. Estava totalmente exaurido.

–- Aricin – a voz retumbante de Svan ecoou em seus ouvidos, mas ele tinha certeza de que era mais um de seus sonhos enquanto beirava em uma tênue linha entre a inconsciência e o despertar completo. – Precisamos removê-lo.

Houve uma fungada em seu pescoço e algo macio tocou com a sutileza de penas a sua pele.

–- Ele pode estar ferido, Van.

Meine? Por que o escravo albino estava em sua alucinação?

Aricin estava esperando a qualquer momento ouvir a voz de seu antigo tratador. Ou sentir suas mãos em seu corpo. Ou a dor do látego em suas costas. Esperou e esperou, mas ela não veio. Estranhando a calmaria que o cercava, forçou-se a erguer as pálpebras e não se lembrava de já tê-las sentido tão pesadas e duras em sua vida. Pestanejando com dificuldade, deparou-se com um mundo enevoado, turvo, com formas disformes e dançantes em um mar de sombras indecifráveis.

A escuridão era tão densa quanto o frio. As imagens sobrepostas e irregulares começaram a se fundir ou a se afastar, até que revelaram a figura pequena e preocupada de Meine. O garoto estava ajoelhado diante de sua face e sua expressão destilava a mais genuína dor, como se lhe machucasse ver Aricin ferido. O que era impossível, pois ninguém, de fato, preocupava-se com ele, exceto Wray.

Algo macio e quente afagou suas costas. Os olhos de Aricin se arregalaram quando um uivo cortou o silêncio do cômodo, ressoando pelas paredes e retornando a ele como uma arrastada lamúria. Seu coração disparou no peito pelo terror de que lobos estivessem se aproximando. Era uma presa fácil demais, sequer lhes ofereceria resistência.

–- Aricin – Svan disse suavemente e sentiu um toque suave em seu ombro – Vou levantá-lo, então, seja forte.

Meine abriu um sorriso encorajador e triste ao mesmo tempo, empurrando-o com leveza para que se deitasse sobre suas costas, caindo sobre um par de musculosos braços, que o seguraram pelos ombros e pela curva interna de seus joelhos. Seu mundo gravitou e escureceu abruptamente quando Svan se ergueu e a dor em seu quadril fez seus lábios se entreabrirem em um grito mudo.

Svan observou o rosto do escravo de Wray com certa quantidade de condolências – o rapaz gritava sem emitir um único ruído, os olhos fortemente fechados e as sobrancelhas franzidas. Estava pálido como a neve e parecia prestes a desabar em lágrimas pelo simples fato de se mover. Atrás de si, Skoll franziu os lábios, expondo os caninos afiados enquanto as narinas dilatavam ao farejar. Suas garras arranharam o piso quando circundou o líder dos Berserkers para inalar o cheiro dos cabelos do rapaz.

Aricin tremeu, pressionando os lábios com tamanha força que eles perderam a cor. Sua cabeça caiu contra o peito nu de Svan e uma exalação sufocada foi liberada – seu equivalente a um gemido de dor, provavelmente.

Meine se dirigiu para as escadas e Svan o seguiu, alternando a atenção entre seu elfo e o escravo humano. Eles subiram o mais cuidadosamente possível na intenção de arrefecer as dores do garoto, mas pareciam ser esforços em vão, pois Aricin tremia e enrijecia, a respiração tão acelerada quanto o próprio trote de seu coração assustado. Quando emergiram fora da escadaria subterrânea, Svan estancou no corredor.

–- Onde o colocaremos?

Meine se virou para ele com uma expressão quase torturada. Svan podia ver sua mente trabalhando em busca de respostas – não podiam colocá-lo com Wray. Com um grunhido, Svan caminhou para a sala. Eles não possuíam suporte para tratar do humano. E tendo Wray isolado para sua própria recuperação, era mais aceitável que o deitassem sobre a mesa retangular das refeições.

E foi o que fez.

Pousou a pequena criatura atormentada sobre a superfície plana de madeira, acomodando-o o mais gentilmente possível. Aricin teve a face deformada por uma careta. Skoll, em sua forma de lobo, aproximou-se, fitando intensamente com olhos incrivelmente dourados a forma frágil sobre a mesa.

–- Van – Meine choramingou, os olhos ainda mais brilhantes que de costume pela dor de ver alguém próximo sofrendo. E pela impotência de nada poder fazer. – Van, o que faremos?

Aquela era uma pergunta maravilhosa.

Svan sabia que devia voltar para discutir com Darius na casa de Alasd, assim como também deveria forçar Meine a lhe contar o que merda estivera fazendo lá horas atrás, entretanto, sua mente se perdera para a preocupação com um dos seus. Seu clã estava ruindo estrepitosamente diante de seus olhos sem que houvesse nada que pudesse fazer para impedir.

Sentia-se perdido, martirizado. Era a merda de um péssimo líder, não possuía dúvidas quanto a isso.

–- Meine – disse um tom firme e irredutível. O elfo ergueu os olhos para ele. Svan sentiu seu peito esquentar estranhamente em uma sensação acolhedora e... Deliciosa. Havia uma emoção cálida em seu interior quando seus olhares se encontraram e se prenderam. Era como se correntes os prendessem, ligando-os, de forma que sequer pudesse pestanejar. Svan não entendia essa reação absurda de seu corpo e não queria se aprofundar nessa linha de pensamento. – Fique com Wray.

Meine nada disse, mas Svan viu – ele engoliu como se sentisse que sua voz o deixara e seus olhos estavam firmemente conectados aos de Svan. Eles estavam sob efeito da mesma maldição, ao que parecia. Depois de um longo momento de quietude, ele anuiu com a cabeça, molhando nervosamente os lábios e disparando a correr para o corredor.

O quão profundamente se afeiçoara a Meine?

Quando Meine desapareceu de sua vista, tentou focar sua atenção completamente em Aricin, mas sua mente ainda teimava em retornar para a face de Meine. Ele ouviu um grunhido e um rosnado, mas não se prendeu aos sons. Tão logo os ignorou, Skoll estava em sua forma humana, completamente desnudo, com seu membro pendendo entre as pernas orgulhosamente. Assim como os Berserkers, os Ulfhednar não sentiam vergonha da nudez. Eles cultuavam o corpo e aceitavam sua forma sem constrangimento.

Skoll se aproximou mais da mesa e seus olhos pousaram sobre Aricin.

–- O que se pode fazer por ele? – perguntou.

–- Não sei – Svan grunhiu. – Sugestão?

Skoll agitou a cabeça em negação.

–- Não sou curandeiro, tampouco conhecedor das artes curativas.

Svan concordou com um aceno de cabeça, avaliando o corpo sobre a mesa especulativamente, buscando a origem de tanta dor.

–- Aricin – grunhiu. O garoto respirou fundo e se forçou a abrir os olhos, parecendo temeroso e prestes a fugir – Onde está machucado?

Ele abriu a boca, os lábios articulando palavras que Svan não entendeu. Então, em um movimento que pareceu machucá-lo ainda mais, extraindo dele uma energia que não possuía, apontou para o quadril. Svan semicerrou os olhos para a região, mas não conseguia ver nada fora do lugar.

–- Devo chamar o curandeiro? – Skoll perguntou.

–- Sim.

–*-*-

Niels se recostou contra as paredes da tina na qual se banhava em seu quarto, fechando momentaneamente os olhos pelo cansaço que o embargou. Levantar a aldeia não estava sendo fácil e eles praticamente não estavam tendo progresso algum. Alguns aldeões decidiram partir para um lugar menos inóspito e mais seguro, o que diminuía a quantidade de mãos funcionais. A maioria estava ferida ou incapaz e os que sobraram se dividiam entre patrulhar as terras, reconstruir as casas, ajudar a tratar os atingidos pela catástrofe e reunir previsões para o inverno. Quase tudo havia se perdido para a chuva e eles estavam completamente vulneráveis.

Se algum clã os atacasse, estariam todos mortos.

Um suspiro escapou involuntariamente. Os músculos de seus ombros pulsavam dolorosamente e os dos braços e pernas estavam retesados. Suas costas estavam tensas. Ele provavelmente nunca trabalhara tanto na vida – não daquela forma. Seus ofícios sempre foram outros. Mesmo a água morna parecia incapaz de lhe extrair todo o estresse do corpo e da mente.

Niels ouviu a porta do quarto abrir e fechar, e seus ouvidos reconheceram a cadência dos passos de Rurik – suaves, porém ruidosos para um Berserker bem treinado como ele. Isto foi antes do aroma amadeirado de almíscar chegar ao seu nariz. Ele nunca tinha notado o quanto apreciava aquele cheiro, não até fechar os olhos e se deixar levar pelos sentidos.

Niels abriu parcialmente os olhos, observando discretamente seu escravo caminhar o mais silenciosamente que um humano era capaz. Ele se dirigiu para seu habitual tapete aos pés da cama – desde que Niels fora estúpido o bastante para quebrar o coração do menino com palavras que seu coração reprovava, a relação deles mudou – Rurik ainda cuidava dele, ainda lhe dedicava sorrisos. A diferença? Os sorrisos eram tão forçados que seus olhos pareciam vítreos, empurrando-o para fora de sua sinceridade. Ele não o seguia mais aonde quer que fosse e buscava manter a maior distância física possível. Rurik se esforçava para não ter de conversar com ele.

Ser um escravo era fazer tudo o que seu amo desejasse sem objeções. Escravos não possuíam vontade, consciência ou mesmo racionalidade. Eram criaturas medíocres e inferiores, nascidas com o propósito de servir. Mas, de todos os escravos do clã, Rurik era o único que trabalhava com um sorriso, como se o satisfizesse estar ali. Como se o agradasse servir Niels.

Aquela cálida luz desaparecera por trás de uma couraça insondável e intransponível.

Rurik ficou unicamente de calça, sentado diante do fogo. Cada músculo de suas costas era marcado por vergões de antigas cicatrizes e ele curvou os ombros para frente como se também se sentisse exausto. Havia arranhões em seus braços – ele trabalhava arduamente na reconstrução, o que implicava em passar o dia inteiro carregando materiais, indo de lado a outro, erguendo peso. Mesmo as roupas não serviam de muita proteção.

Ele passou a mão pelo despenteado e rebelde cabelo ruivo, fazendo as mechas apontarem para todos os lados em total desordem.

–- Rurik – Niels murmurou. Foi aborrecedor assistir as costas de Rurik se esticando em tensão.

–- Sim, amo?

Merda. O garoto sabia como cutucar a besta. Niels se forçou a engolir o nó em sua garganta.

–- Venha e esfregue minhas costas.

–- Como desejar, amo – ele podia sentir na voz de Rurik as farpas de irritação contida.

Rurik se levantou de seu local e atravessou o quarto a passos resolutos. Marchou para detrás do biombo, colocando-se atrás de Niels. Quando ele se curvou, passando os braços aos lados de sua cabeça para molhar as mãos na água morna, Niels se surpreendeu com o súbito pensamento que surgiu em sua mente – ele queria que Rurik o abraçasse.

Que merda era essa que se passava com ele?

Sentia o calor do humano se infiltrando por suas costas, tocando sua pele. Rurik recuou infimamente, apenas o bastante para obter a distância que desejava. Então, suas mãos ásperas e calosas apertaram seus ombros tensos e Niels gemeu. Ele acertara exatamente em um nó de tensão e a pressão de seus dedos fortes arrancaram uma onda de prazer e relaxamento de seu interior.

Ah, aquilo era uma delícia.

As mãos apertavam sabiamente o caminho dos seus ombros, a curva do pescoço, voltando pelo mesmo caminho. Ele apertou seus bíceps.

Oh, Odin. Era prazenteiramente irresistível. As mãos de Rurik não eram suaves ou andrógenas – eram mãos de homem. E elas eram fortes como deveriam ser. Quando ele apertava seus músculos, como se adivinhasse onde era necessário oferecer carinho ou força, Niels simplesmente amoleceu e gemeu, entregue. Ninguém nunca o havia tocado daquela forma.

Abriu a boca para elogiar, mas tornou a fecha-la, impedindo-se de alimentar o ego de seu escravo.

Rurik tirou as mãos de seu corpo e ele sentiu cada célula sua urrar um protesto de ódio pela interrupção do melhor momento de sua vida. Então, o ruivo se curvou novamente para frente, seu peito nu, de músculos delgados e férreos, empurrando a cabeça de Niels, molhando seus cabelos.

Maldição. Fodida maldição.

Rurik juntou as mãos diante do rosto de Niels em concha, enchendo-as de água. Ele se afastou e derramou lentamente o líquido sobre seus cabelos, em seu rosto, em sua nuca. Niels suspirou.

O silêncio entre eles se estendia desconfortavelmente, pairando entre eles como um muro de gelo com espinhos de aço impedindo qualquer um de adentrar em seu mundo. Bom, que merda. Niels não rastejaria por um escravo jamais. Rurik se chateara com suas palavras? Problema dele. Era bom que superasse e entendesse que a realidade era essa – a relação deles era e sempre seria de amo e escravo. Nunca mudaria. Então, era melhor que tragasse sua indignação por orgulho fútil e aceitasse o que ele era e o que teria por toda a eternidade.

Fim.

Rurik tocou suas costas, empurrando-o suavemente adiante, fazendo-o curvar-se. Deslizou os dedos pela linha de sua coluna, utilizando os nódulos para aplicar pressão na espinha, forçando cada ponto circularmente. Então, jogou água novamente sobre sua pele.

–- O sabão – Niels redarguiu.

Rurik pegou a pedra de sabão dentro de um balde na tina e a esfregou nas costas de Niels com um pouco de força. Ele espalhou a coisa com cheiro de ervas por toda a extensão de seu dorso, descendo até mergulhar os braços na água. Niels ergueu os braços para que lhe esfregasse as axilas e os bíceps. Quando terminou, Rurik jogou a pedra no balde e tornou a banhar Niels, enchendo a água de espuma.

–- Meu peito.

Rurik suspirou. Estava ficando impaciente? Reação interessante, porém, muito tola. Ele se abaixou novamente para pegar o sabão e se moveu, ficando ao lado de Niels agora, de forma que pudessem se ver com a nitidez oferecida pelo fogo aprazível da lareira do outro lado da habitação. O jogo de sombras oferecido pela parca iluminação não foi o bastante para ocultar o rubor que coloria as bochechas do ruivo. Ele observou cada movimento do escravo e olhava seu rosto fixamente quando ele estendeu as mãos para esfregar o sabão em seu peito molhado e desnudo. Rurik limpou sua pele, ensaboando-a para usar a outra palma em concha para lava-lo. Ele cuidou de seus ombros, de seu pescoço. E foi quando começou a descer por baixo da água, o rosto sendo engolido pelo carmesim desde o pescoço até as pontas das orelhas.

Seus dedos rasparam suavemente os mamilos de Niels sem querer, e Rurik não pareceu ter notado. Talvez fosse pelo longo tempo com abstinência sexual, mas Niels sentiu certa pressão em seu ventre e um calor líquido descendo lentamente para seu eu inferior. Isso pareceu despertar a fera faminta em Niels e, automaticamente, seu corpo inteiro se mostrou mais sensível a cada toque, mesmo o da brisa que perpassava a janela.

Rurik movia as mãos circularmente. Niels fechou os olhos, recostando-se contra a tina, e sua mente trabalhou indecorosamente – cada círculo, cada esfregar dos dedos em sua pele... A palma esfregou seu mamilo novamente, totalmente molhada e áspera, e um gemido subiu por sua garganta – sufocou-o e engoliu-o.

Sentiu uma estranha vontade forte de tocar a si mesmo e se dar prazer. Rurik desceu as mãos por baixo da água, por seu estômago. Por seu umbigo.

Uma imagem pulou diante de seus olhos fechados – Rurik segurando seu pênis na mão e bombeando-o, acariciando sua glande e brincando com sua fenda. Seu membro inchou ante a imaginação, mostrando sua aprovação, seu desejo.

Não estou excitado por Rurik. Escravos não são excitantes. Estou ereto porque preciso ter um orgasmo, não importando se a mão é dele ou é a minha.

Deuses, mas imaginar Rurik se debruçar sobre ele, tocando seu pênis e gemendo por também se excitar...

–- Porra! – Niels gritou consigo mesmo, abrindo os olhos com um rosnado, esmurrando a água. Quando pararia de tratar Rurik como diferente? Quando entenderia que ele não deveria ser posto em um pedestal, não quando era escravo?

Mas Rurik não sabia disso, e seu grito o assustou a ponto de o garoto pular para longe como um gato, os olhos muito abertos pelo medo. Seu peito subia e descia rapidamente e logo viu que as mãos dele também tremiam.

Niels abriu a boca para se desculpar, pois não havia sido sua intenção assusta-lo. Não era nada além do estresse diário e de sua inapetência em lidar com sua libido selvagem que o estava pondo enervado. E a maldita distância de Rurik o punha louco.

–- Posso terminar sozinho – disse rispidamente. Não. Não é isso. Perdoe-me, Rurik. Eu não queria assustá-lo – Ah, e me faça um favor – sorria novamente para mim – Peça a um dos escravos para vir aqui. – voltem palavras. Voltem – Você pode dormir nos estábulos por hoje.

PORRA! QUE INFERNO HAVIA DE ERRADO CONSIGO?

A única reação de Rurik foi cerrar os punhos. Por um longo momento, ele esteve parado. Congelado, os olhos muito abertos e os lábios pressionados a ponto de ficarem pálidos. Então, suas narinas dilataram ao inalar profundamente e seu pomo-de-adão subiu e desceu quando engoliu em seco.

–- Como desejar, Niels – a voz de Rurik soou grave e rouca, mas trêmula.

Niels se levantou, a água ondulando com tanta violência na banheira, que transbordou. Seu corpo estava encharcado e sua ereção apontava para o alto orgulhosamente como um mastro, pulsando pelo desejo, por... Por um toque. E, quando os olhos de Rurik se arregalaram ainda mais ao fitá-la fixamente, sua excitação ascendeu e o pênis oscilou levemente. O frio em contato com a sensível pele quente quase o fez gemer e o membro gritava toque-me, chupe-me. Niels sentiu uma irrefreável vontade de tocar-se, de pedir a Rurik que o levasse em sua boca. Que o lambesse.

Mas notou que o que havia no rosto de Rurik não era prazer – era horror. Era uma dor tão grande que não parecia caber em seu corpo. Seus olhos se encheram de lágrimas e...

Isso fez com que Niels, pela primeira vez, sentisse vergonha de seu corpo nu. Ninguém jamais se aterrorizou ante ele por sua nudez – não naquela situação. Sempre recebera olhares de aprovação e desejo. Mas Rurik estava assustado como se o demônio apontasse sua cabeça por entre as pernas de Niels.

–- Eu... E-Eu vou chamar alguém... para... para resolver seu problema.

Seu problema.

Oh, merda, aquilo o desgostou.

Rurik saiu correndo, batendo a porta atrás de si.

Ele não queria ver Niels. Não tinha forças para isso. O Niels, que o protegia e o tratava como precioso, repentinamente se tornara distante e petulante – era o mesmo Niels que sempre esnobara escravos. Que agia como seu amo anterior. Como todos os amos, na verdade. Ele entendia que não era culpa dele por não amá-lo de volta e que os homens que treinaram Svan, Wray, Sky e Niels tinham infundido em suas mentes a realidade daquele mundo – escravos existem para servir. Simplesmente. Não são sequer humanos.

Ele pensara que Niels mudara um pouquinho. Que Niels o estava vendo como precioso pela forma como o tratava e cuidava em retorno. Mas era uma mentira – Niels, além de lhe mostrar qual era seu lugar na hierarquia, também provara o quanto ele era insignificante. Jogara seus sentimentos de volta e sua face como um aríete atingindo a fortificação de um castelo, destruindo impiedosamente seu coração.

Mesmo que tentara se afastar para preservar a si mesmo desde sua dolorosa rejeição, aquilo doeu incomparavelmente muito mais – Niels lhe dera sua resposta sobre seus fúteis sentimentos. Ele não queria saber o que Rurik sentia – era um escravo. Seu amor ou simpatia não importavam.

Rurik esbarrou em um rapaz na cozinha – um dos que serviam tanto nos trabalhos domésticos como sexualmente – e precisou esfregar as palmas fortemente no rosto enquanto aprumava os ombros e forçava um pedido de desculpas. Mas olhar aquele rapaz apenas o fez sofrer mais, pois sabia que teria de mandá-lo ir transar com seu amor.

Seu amor, que não se importava com ele o bastante para vê-lo como ser humano. Seu amor, que estava excitado ante o pensamento de transar com qualquer um. Seu amor, que o desprezava completamente, que o iludira com suas ações.

–- Ni-Niels quer... quer você – gaguejou. Limpou a garganta, aprumando os ombros. Com as lágrimas escorrendo pelo rosto, adquiriu uma postura régia e orgulhosa, empinando o queixo e não se dando o trabalho de ocultar o quão machucado seu coração estava – Niels quer que esquente sua cama.

Um sorriso de escárnio repuxou os lábios do rapaz e ele arqueou uma escura sobrancelha. Seu corpo musculoso era dourado pelo sol e cada parte de seu ser parecia dizer sou puro sexo selvagem. Rurik engoliu em seco.

–- Ele não te quis? – redarguiu o rapaz, olhando-o de cima a baixo com desdém – Te chutou de lá porque quer algo além de uma coisa vermelha e sardenta? – ele riu baixinho, e punhaladas de gelo atravessaram o coração de Rurik quando as palavras cruéis assentaram em sua mente – É, eu entendo. Essa bunda pálida certamente não é muito bonita aos olhos – ele passou por Rurik, batendo a palma em uma nádega sua. Rurik se virou com o punho erguido para socá-lo, mas ele saltou para longe, rindo no mais hedonista prazer. Ele piscou para Rurik, saindo da cozinha. – Não se preocupe, lindo, cuidarei bem do Berserker.

Rurik bufou sua raiva e sua dor, cerrando os punhos tão fortemente que as unhas escavaram as palmas.

–- Aproveite a merda toda – grunhiu.

Definitivamente, ele mataria aquele amor para sempre.

Continua...

Notas finais
Miky: ♥ Não me matem, please-q Obrigada por ler ! Até a próxima segunda! Beijinhoos