Peões de Guerra
2 Nico di Angelo
Notas iniciais
—Não se preocupe. As pessoas estranham mesmo ter outra filha de Poseidon, principalmente por você ter ficado escondida esse tempo todo e a profecia...
Lorena franziu a testa, e por um momento, parou de olhar em volta e focou em Percy.
—Profecia?
Quando Percy sentou Lorena no próprio beliche, ficando de pé à frente dela e andando em círculos, ele já havia tido 20 minutos para pensar no que diria.
—Lorena... No ano passado... nós tivemos uma guerra. – explicou, tentando soar conciso e desimportante.
Os olhos da garota reviraram, e ela cruzou as pernas sobre a cama, deitando-se de costas. A voz saiu com um tom de sarcasmo.
—Eu sei, Percy. Não é porque eu estava no fundo do mar que estava numa bolha.
—Então como você não sabe da profecia? – Percy falou rápido, de forma embaralhada e confusa.
—Que profecia, caralhos. – Lorena colocou os braços atrás da cabeça num movimento pesado e largado.
—A profecia do semideus filho dos Três Grandes que teria o poder de arrasar o Olimpo.
A garota se sentou na cama rapidamente, os olhos arregalados:
—O QUÊ?
—É, foi essa a profecia da Guerra ano passado, Lorena.
—Explica isso direito. – apoiou os cotovelos nos joelhos, apertando as mãos uma contra a outra em sinal de nervosismo.
—Ahh... bom... tinha essa profecia que dizia que o filho de um dos Três Grandes teria o poder para... como era mesmo...
—O Olimpo preservar ou arrasar. – completou Annabeth, que acabava de entrar no chalé, deixando a porta semi-aberta às suas costas e sentando na cama ao lado de Lorena, que a esta altura já estava enrolando mechas de cabelos nos dedos.
—Isso levou à Guerra?
—É, mais ou menos. – disse Annabeth.
Percy se sentou na própria cama, mordendo os lábios de leve e olhando pela fresta aberta da porta, enquanto a namorada continuava:
—Cronos já estava se erguendo e isso tudo. A profecia só definiu que, esse semideus citado, teria que fazer uma escolha que definiria o futuro do Olimpo, no meio da confusão de guerra toda.
Lorena assentiu com a cabeça, e Percy murmurou algo como “odeio profecias” antes de Annabeth prosseguir.
—Percy escolheu entregar a minha faca à Luke.
—Luke?
—É o semideus que organizou o reempoderamento de Cronos.
Lorena virou a cabeça para Percy bruscamente:
—Por que você fez isso?
—Acreditei nele. – Percy deu de ombros.
Lorena bufou, sem conseguir acreditar que alguém entregaria armas ao inimigo no meio de uma guerra.
—Foi a escolha correta, por isso vencemos a guerra. – finalizou Annabeth.
—Não me parece muito lógico. – reclamou Lorena, a voz com um toque de desdém.
—Mas espera... você não sabia de nada disso? – perguntou Percy.
A irmã negou com a cabeça, os olhos percorrendo o ambiente nervosamente.
—Papai não havia me contado. – pausa. – Acho que eu vou andar um pouco. – se levantou e saiu rápida e sutilmente, fechando a porta atrás de si.
X-X
Lorena estava nos campos de Morangos quando Annabeth correu até ela, mais tarde. Havia ficado ali desde que saíra do chalé e já havia comido mais morangos do que poderia aguentar.
—Lori! Lori!
Ao ouvir seu nome, a garota virou-se na direção da outra, mas não disse nada. Quando Annabeth a alcançou, despejou as palavras:
—Eu sei que você acabou de chegar mas tem Caça Bandeira hoje e vamos fazer o planejamento no meu chalé depois do almoço.
A outra mal teve tempo de processar. Após alguns segundos, balançou a cabeça em compreensão
—Certo, mas o que é Caça Bandeira?
Annabeth se sentou ao lado dela, pegando um morango e mordendo.
—É uma competição que teremos hoje à noite. Os chalés se aliam a outros chalés – são duas bandeiras, e cada time precisa proteger a sua e pegar a do inimigo. Quem cruzar a linha primeiro com a bandeira vence.
Lorena assentiu.
—Estarei lá.
Não era nada pessoal, mas Lorena adorava competições. Principalmente quando envolviam lutar. A ideia de que estaria num time à noite, defendendo seu lado... Era tão agradável que ela comeu mais dois morangos. Annabeth já estava se levantando para ir embora quando perguntou:
—Annabeth? Você acha que dá tempo para aquela parede de escalada?
A filha de Atena sorriu largamente e estendeu a mão para ajudar Lori levantar:
—Duvido que seu tempo seja melhor que o meu.
X-X
—Okay, vai primeiro. Eu não sei como essa coisa funciona. – Lorena pediu, o tom de voz divertido, alto e despreocupado.
Annabeth correu até a parede e se preparou, alisando o cabelo para trás no rabo de cavalo e contando baixinho até três antes de começar a subir correndo, atravessando rapidamente a parte menos íngreme e se apoiando com destreza nas rochas. Chegou ao topo em menos de um minuto, e sorriu para a outra lá de cima:
—40 segundos.
Lorena não perdeu tempo. Se dirigiu à parede também, analisando onde as melhores pedras ficavam com o olhar. Assim que Annabeth deu o sinal, se jogou contra a parede, subindo como uma aranha, apoiando de forma veemente o peso nas mãos e nos pés. Na parte mais inclinada – que pode ser considerada a mais difícil – a mão direita escapou e o antebraço se chocou violentamente com uma pedra, prejudicando um pouco o desempenho, mas Lori só percebeu o ocorrido ao chegar no topo, esfregando a parte machucada com a outra mão.
—44 segundos – anunciou Annabeth, o tom de vitória transparecendo. — muito bom para uma primeira vez.
Após descerem, Annabeth foi guiando-as até o refeitório para o almoço.
—Me fale mais sobre esse Caça Bandeira. – pediu Lorena.
—Bom... é uma tradição, fazemos constantemente. No momento, a bandeira está com Atena. Na última, me uni à Ares e tomei a bandeira de Percy, que havia tomado de Apolo.
Lorena acompanhava Annabeth, fazendo acenos de cabeça para indicar que havia compreendido e olhando-a atentamente, sem querer perder nada. O conhecimento a respeito poderia ser importante depois.
—Os principais detentores são esses: Ares, Atena e Apolo, mas ocasionalmente Percy e Nico também vencem. Apesar disso, é sempre preferível deixar que um chalé com mais pessoas atravesse a linha, porque é mais fácil que ele mantenha a posse.
Lorena assentiu, e ambas pararam na entrada do refeitório para finalizar a conversa antes de terem que ir para suas respectivas mesas.
—Estamos aliados com Hefesto, Hermes e Deméter agora.
—Isso é bom?
—É ótimo. Os filhos de Hefesto são muito fortes, e os de Hermes tem trapaç... estratégias muito boas. Teve uma vez que...
Antes que Annabeth pudesse completar, Percy abraçou-a pelas costas.
—Já está enrolando minha irmã, Sabidinha?
Annabeth sorriu de lado:
—Estou explicando sobre o Caça Bandeira.
Percy riu, beijando-a na bochecha.
—Pare de enaltecer seu chalé. – soltou a namorada e foi até a irmã, pegando-a pelo ombro e guiando-a até a mesa, continuando a falar em voz alta, provocativa: — Nós, de Poseidon, somos uma puta arma secreta, sabe?
Annabeth riu e deu-lhe um tapa na cabeça ao passar pelos dois em direção a sua mesa.
X-X
O chalé de Atena estava literalmente caótico. Havia campistas por todos os lados – em pé, sentados nas camas e no chão. Annabeth, de pé entre todos, anunciou:
—Time! A estratégia que eu e Malcolm montamos, aprovada pelos meus irmãos e pelos capitães dos outros chalés, Percy, Jake e Katie, é a seguinte: posicionamos o chalé de Atena na defesa. Os filhos de Hermes colaboraram com várias armadilhas que já indiquei para meus irmãos onde estão. Ficaremos espalhados linearmente ao redor do local onde estará a bandeira: o carvalho do riacho. Todos entenderam?
Um misto de concordância e aprovação ecoou por alguns segundos.
—O centro será ocupado por Hermes e as laterais, por Deméter. Vocês tem a função de segurar quem quer que eles coloquem no centro – seja Afrodite, Apolo ou Ares. Isso é fundamental para que a defesa não seja esmagada como um rolo compressor, visto que somos em menor número e mais espalhados. Certo?
Novamente, os semideuses presentes acenaram com a cabeça e murmuraram “uhnhums”.
—Por fim – prosseguiu Annabeth – Hefesto será responsável pelo ataque. É extremamente importante que Hefesto ataque violentamente a defesa deles, seja quem for. Vocês são praticamente armários de tão grandes e fortes. Por fim, Percy, Connor Stoll e Chris Rodriguez são os responsáveis por um ataque mais sorrateiro no início da luta. – finalizou, respirando fundo. – Todos entenderam suas posições?
Lorena ergueu a mão lentamente.
—Ahm... eu faço o quê?
Annabeth sorriu ao responder:
—Você é mais que bem-vinda na defesa.
A outra sorriu de volta. Era muito boa nessa área.
X-X
Eram dez horas da noite e o gosto na boca de Lorena era de vitória antecipada. Ok, e um pouco de frango do jantar. Annabeth havia dito que ela seria a última defesa, e devia barrar qualquer um que passasse através da linha de Atena. Ah, e estava acompanhada de um pirralho que parecia não saber o significado de “silêncio”.
—Então, Annie me disse que você é muito boa.
—É.
—É verdade que você estava escondida sob o oceano esse tempo todo?
—Uhnhum.
—Você vai lutar só com esse sabre?
—Tem uma faca na minha bota.
Lorena estava de roupa de combate de novo. Era uma roupa de couro, que consistia numa regata e calças. O couro não significava muito, mas era bastante resistente contra armas, o que garantia um bônus extra.
—Você é boa de armas, Annie deu a entender.
—É, eu treinei muitas modalidades.
—Imagino que não tivesse muito pra fazer sob o oceano, realmente.
—Quantos anos você tem mesmo?
—11.
—Explicado.
—O que?
—Explicado porque você não consegue parar de falar.
—Eu já vou parar. Assim que derem o sinal. Falar muito pode entregar sua localização, sabe?
—Claro que eu sei.
Os dois chegaram até a bandeira, e o garoto tirou uma corrente do bolso da jaqueta. Devia ter cerca de 1 metro e tinha dois pesinhos de metal nas pontas. Lorena mordeu o lábio. Tinha sido uma escolha perfeita. Ela conseguia entender porque ele era filho de Atena. Para qualquer um tão pequeno, a escolha da arma é crucial na hora da batalha. E ele havia acertado em cheio.
—Você sabe lutar com essas?
—Não muito. – admitiu, praticamente envergonhada.
A conversa não continuou – o sinal havia sido dado, e o Caça-Bandeira começaria.
Ambos mantiveram-se em alerta – parados ou, quando precisavam andar, fazendo-o da forma mais silenciosa possível – e empunhando as armas. Passaram-se cinco minutos. Nada. Dez. Aos quinze, o som da batalha um pouco mais a frente já era alto – metal se chocando, vários líderes gritando ordens ao mesmo tempo. Pouco antes dos 20 minutos, alguém apareceu.
Era uma campista desajeitada, porque os dois guardas já haviam ouvido sua chegada pelos passos correndo. Parecia ter a idade de Lorena, talvez um pouco menos, e empunhava (da forma errada, deve-se esclarecer – o dedão não pode ficar torcido daquela forma em torno do cabo – é preciso firmá-lo perto da base da lâmina para sustentação!) uma faca.
A própria invasora parecia muito surpresa com o feito.
—Nossa eu... eu estou aqui?
Ninguém respondeu. O filho de Atena mais novo – Lori havia esquecido de perguntar seu nome – se prontificou a cuidar da nem-mesmo-ameaça. Com o mais simples dos movimentos girou sua correia em torno da arma da garota, que tentou reagir, erguendo o braço, mas quando notou, já havia sido desarmada. O menino pegou cordas e segurou suas mãos para trás, prendendo-as.
—Vou leva-la até os outros capturados. Já volto. – falou tão baixo que Lorena praticamente só viu seus lábios mexendo. Fez que sim com a cabeça.
Porém, cerca de 10 minutos depois, percebeu que havia algo de errado. O menino não havia retornado. Ela iria atrás dele em outra situação, porém, agora a prioridade era proteger a bandeira. Será que haviam armado para o garoto? Parecia plausível, mandando aquela garota até lá. A defesa certamente a deixara passar, visto que ela não conseguiria fazer nada e... Mas, ele era um filho de Atena, não era? Ele teria pensado nisso, com certeza teria...
Um ruído. Muito suave, muito baixo, quase imperceptível. Lorena virou imediatamente a cabeça na direção do som, porém quase que imediatamente ele pipocou de outro lugar. Um garoto havia aparecido em sua frente. Ele era muito pálido e tinha cabelos muito pretos – era contrastante de uma forma absurda. Estava usando uma camiseta preta apenas, e empunhava a espada, suado. Já havia enfrentado alguém – o que era bom, porque estaria mais cansado que ela.
Novamente seus pensamentos foram interrompidos. O garoto sumiu de sua frente e reapareceu a cerca de três metros da bandeira, no lado oposto ao que ela vigiava.
—Porra, você é um filho de Hades! – a garota sussurrou, rapidamente, chocada, enquanto erguia um cilindro oco de água do riacho em torno da bandeira para protegê-la.
—Bem observado, – ele fez um aceno suave de cabeça, muito expressivo, e sua voz era suave e calma — não estava sequer ofegante. Olhou em volta, planejando seu próprio ataque, com um risinho leve e sarcástico no rosto.
Não teve tempo. Quando viu, Lorena já estava em cima dele e ele precisou movimentar a espada longa e fina o mais rápido possível para conseguir se defender do golpe. Ela não parou por aí – continuou, uma série de golpes firme e rápida, visando atordoa-lo. Não conseguiu.
Ele só precisava de um segundo para olhar em volta e descobrir para onde ir. Mas, se desviasse os olhos dela, corria o risco de ser atingido, então continuou armando suas defesas, procurando brechas em seus ataques para realizar os próprios. Se qualquer um dos dois pudesse usar seus poderes, a luta estaria ganha. Mas bastaria um desviar de concentração para fazê-lo e a derrota bateria à porta.
Lorena mordia os lábios, ardilosamente, e sequer olhava o rosto do inimigo. Apenas seus braços, seus movimentos corporais – apenas seus ataques. Era simples – aquele que encontrasse uma brecha na segurança do outro primeiro conseguiria acabar com a luta.
Foi Nico quem o fez. Ele investiu num golpe aplicando muita força, sabendo que sua espada ia se chocar com a da oponente, e ela demoraria um segundo para conseguir defender e retribuir. Nesse segundo, desviou o olhar para a lateral e avistou o que precisava: um galho alto em uma árvore bem próxima. Foi para lá que se transportou.
Quando se viu lá em cima, foi muito simples se jogar para dentro do cilindro que a outra havia erguido em torno da bandeira e pegá-la.
Em choque com o ataque do filho de Hades, Lorena imediatamente parou de sustentar a água, que ensopou tudo – ele, a bandeira e o chão, espirrando água para todos os lados, o que retardou a corrida que ele certamente planejava por tempo o suficiente para que ela se jogasse em cima dele, segurando-o com todas as forças, porque caso ele viajasse nas sombras de novo, não teria como não levá-la.
O que ela não contava era com o borrão enjoativo. Assim que chegaram no outro lugar – qualquer que seja que ele tenha escolhido – ela não teve forças nem para se levantar, muito menos para impedí-lo de qualquer coisa.
E foi assim que Nico di Angelo venceu o Caça-Bandeira.
X-X
—Você mentiu pra mim! – os olhos da garota estavam escurecidos, o rosto contorcido numa careta agressiva. A praia, à noite, só aumentava a ferocidade dela, e as ondas do mar se quebravam muito mais violentamente do que fariam normalmente.
—Eu estava te protegendo. – o deus dos mares já sabia que esse momento ia chegar e estava muito calmo para alguém que estava sendo colocado contra a parede.
—Você estava se protegendo, pai! Não a mim! Era meu direito saber da profecia! – gritou.
—Eu te mantive segura, não mantive?
—Segura e ignorante, muito obrigada pela contribuição. – revirou os olhos, sarcástica. – Sabíamos que Percy seria o mais velho de qualquer forma. Por quê mentir pra mim sobre isso?
No fundo, Lorena estava desesperada. Precisava entender. Seu pai sempre fora a pessoa que mais confiava, e de repente... ele havia escondido tanto dela, que era difícil processar.
—Percy também só descobriu aos 16 anos. É melhor, para evitar que tomem decisões precipitadas... Profecias não são mentalmente saudáveis.
—Não ligo para Percy. Acha que eu não sou capaz de lidar com uma profecia, pai? EU LIDEI COM UM TITÃ INVADINDO SEU REINO, caso não se lembre. EU ESTAVA LÁ.
—Eu sei, filha. Mas profecias são diferentes, elas... não são boas, Lorena.
—Não interessa. Essa profecia só não foi minha por 2 anos. Isso é muito pouco. Eu precisava saber disso, quem sabe eu poderia... ajudar.
—Não é assim que profecias funcionam, Lorena. Você não pode simplesmente ajudar. A profecia ocorre como foi profetizada, independente de você. Por isso eu não quis que soubesse.
—Não importa! Era uma profecia que poderia ter sido sobre mim em milhões de situações possíveis. Eu precisava saber! Foi o motivo de toda uma guerra, e você nunca pensou em me contar! Me explicar!
Poseidon tentou estender a mão para tocar a garota no ombro, mas ela recuou bruscamente. Os atos de afeto entre os dois eram extremamente raros, e a recusa tinha um significado muito maior do que parecia.
—Vá embora. – murmurou, os dentes cerrados e os punhos fechados.
O deus tomou um minuto, suspirou e olhou para os lados. Então, decidiu dar tempo à filha para entender os acontecimentos. Ela entenderia. E então, desapareceu.
Lorena chutou a areia, levantando uma onda em sentido lateral no mar sem sequer notar. Urrou de nervosismo, enquanto voltava pela areia até onde todos estavam.
Ao olhar em volta, viu uma sombra na fronteira da floresta com a praia. Estava encostado no tronco de uma árvore, em pé, e bem camuflado na noite. Lorena olhou-o nos olhos.
Era Nico di Angelo.
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