Peças e Jogadores

1 Capítulo Unico - A velha


- Vossa Majestade, mandarei arrumar seus pertences para a viagem. – Uma mulher disse se retirando da sala.

Ele permaneceu em seu lugar ainda sem entender o que estava acontecendo. O decreto vindo de seus pais de Lisboa mandando-o de volta para casa havia o deixado pela primeira vez em muito tempo sem palavras. “Como podiam estar tirando de suas mãos tudo o que lhe deram?” Era inacreditável para ele.

- Já estava na hora. – José Castanhos, o capelão do castelo, disse olhando pela grande janela da sala privada. – Mesmo de dentro do castelo ainda posso sentir o cheiro de pecado nessas pessoas. Inaceitável, inaceitável. Não tem como civilizar essa gente, nem se eu orasse por anos.

A vinda da família real para a colônia tinha feito grandes mudanças. Bibliotecas e teatros, lugares de lazer e um pouco mais de civilidade. Onde antes só havia vilas, agora se via verdadeiras cidades, talvez com o tempo e com um pouco de esforço poderia transformar tudo aquilo em uma nova Lisboa. Porém vontade de investir naquele lugar era o que faltava a metrópole.

- Abandonar o Brasil e voltar para Lisboa, eles disseram. – Finalmente Dom Pedro arranjou forças para falar. – Se é isso que desejam, façam os preparativos para a viagem.

- Querido, não podemos esperar até que nossos filhos estejam em idade de viajar? – a duquesa trajava um grande vestido azul e branco com mangas que quase alcançavam o chão e um espartilho. – São muito jovens para uma viagem tão longa e acho que posso estar esperando outro.

- De mesma forma que estava esperando outro há dois meses? – Ele berrou em fúria. Já havia um tempo que a senhora sua esposa vinha fazendo-se de “grávida”. – Você não está mais grávida agora do que esteve das ultimas três vezes!

- Não, agora é diferente, eu juro. Não me vem o sangue no dia que deveria.

- O Corte ordenou que voltássemos e é isso que faremos. Assim que estiver tudo pronto para a viagem, entraremos naquele navio e iremos para casa. Sem mais.

- Mas...

- Deixem-me. – Ele disse interrompendo-a. Todos na sala saíram, ele era o príncipe regente e sua palavra era ordem sem volta ali.

A sala ficou vazia em um minuto e a porta foi fechada. Ele se aproximou da janela, o vento lhe atingiu o rosto e ele respirou fundo, como se aquele fosse o ultimo momento de sua vida. E seria. O ultimo momento como rei, depois disso voltaria a ser só um príncipe em uma corte esperando o dia em que seus pais morressem.

- Então você realmente pretende nos deixar? – Uma senhora sentou-se a mesa no canto da sala.

- Você não deveria entrar na sala privada do rei sem ser chamada, sabia disso? Eu posso ter lhe ouvido uma vez, mas, isso não quer dizer que lhe dei autoridade sobre nada.

Ele se virou para olhar aquela pobre criatura de pele murcha e um olho cego. Suas unhas já passavam os dez centímetros e se curvavam nas pontas dos dedos. Usava um vestido negro que se unia a um capuz que tampava a cabeça calva onde alguns ralos cabelos brancos e quebradiços se escondiam. Estava tão acabada que poderia dizer que tinha mais de duzentos anos e qualquer um acreditaria facilmente.

- Se você quiser posso sair, querido, guardarei para mim os sonhos que tive. – Ela disse com uma voz rouca terminada em uma tosse de gato engasgado.

- Que tipo de sonho? – Ela já tinha os tido antes e isso evitara grandes problemas. Uma vez sonhou que ele morria comido por peixes e o barco em que viajaria para o sul afundou no dia seguinte, sorte dele ter ouvido-a e ter desistido da viagem.

- Achei que eu não fosse convidada, irei sair e voltar quando for chamada. – Ela se levantou da cadeira com dificuldades e se dirigiu silenciosa para a parede. Conhecia cada passagem secreta do castelo.

- Fique, bruxa, eu estou lhe ordenando. Sente-se e comesse a falar antes que eu me arrependa e mande eu arranquem sua língua.

- Imagino que seja com essa mesma graciosidade que conquistou tantas mulheres. Quantos filhos já possui mesmo? 13? – Ela começou a caminhar de volta a cadeira, porém não se sentou, ficou dando voltas na sala. – Treze é um número bom, sabia que o chamam de número do azar em alguns lugares? Talvez isso signifique algo.

- Pare de enrolar e vá direto ao assunto, como sempre, já deve saber que estou voltando a Lisboa. Tenho ordens a cumprir.

- Um rei que recebe ordens não é nada mais que um servo, meu querido, você ainda é jovem, mas, já deve ter compreendido que é só uma peça nesse jogo. – Ela se aproximou e olhou nos olhos, aquilo lhe deu um arrepio, algo no fundo do olho branco parecia se mexer. – Como vai a gravidez de sua mulher?

- Apenas mais uma gravidez falsa como as outras. Talvez eu tenha chegado ao limite de filhos. Deus está impedindo que eu faça mais herdeiros para um trono que nem tenho. – Ou que não tenho mais, pensou, mas, manteve para si.

- Um trono que nunca terá se voltar a Lisboa. – Ela disse tateando os dedos pelos livros na estante.

- O que quer dizer com isso? – Não poderia perder o trono, ele era o herdeiro legitimo e isso era ao que ele mais queria. — Foi o seu sonho?

- Seu irmão lhe espera no palácio para lhe receber com um grande abraço, toda sua família estará lá, festejará a reunião da família, todos estarão alegres, mas, de seus olhos sairão lagrimas, as ultimas lagrimas. Se voltar a Lisboa estará tudo acabado.

- Eu vou morrer? Não há chances de isso acontecer, há guardas pelo castelo, só entram pessoas de nossa confiança. Se necessário dobraremos a segurança.

- Não vai adiantar. Seu irmão lhe espera no palácio para lhe receber com um grande abraço e com esse mesmo abraço ele lhe enfiará uma faca nas costas.

- Miguel nunca faria isso, ele é meu irmão, jogamos juntos, sempre fomos unidos. – Sua mente estava rodando. Primeiro recebera noticia de que deixaria de ser o regente do Brasil e agora a velha Bruxa tentava o convencer que seu irmão era um traidor.

- Se você voltar para Portugal quem será o próximo na linha de sucessão do trono? Pense um pouco meu querido, não espere que os peixes se alimentem de você para me dar ouvidos.

- Saia daqui agora e não volte nunca mais! – Ele disse furioso, como poderia uma velha bruxa abrir seus lábios para chamar seu expurgado irmão de assassino.

- Eu tentei lhe avisar, mas, pelo que parece você insiste em permanecer como peça nesse jogo. Aqueles que não são capazes de se quer ver a verdade na frente de seus olhos não poderão nunca chegar a ser jogadores na vida, serão sempre peças.

Ele retirou um livro da prateleira e colocou-o dentro da capa, deu de costas para o príncipe e começou a andar vagarosamente em direção a parede. Uma pequena porta estava escondida atrás do grande quadro na parede. Ela caminhou pelo longo corredor escuro com seu sorriso nos lábios. Um sorriso de poucos dentes e os que ainda estavam ali já estavam amarelos ou cariados.

- Ouviram do Ipiranga as margens plácidas, De um povo heroico o brado retumbante. Hm hm hm hm hm hmmm – Ela cantarolou pelo túnel a dentro. – Maldita musica que não sai da minha mente, eu deveria ter contado tudo a ele? Talvez.

E continuou a caminhar até sumir na escuridão do velho túnel de fuga que levava para fora do castelo enquanto deixava para trás um príncipe em fúria em sua sala. Os pensamentos rodavam em sua cabeça e uma pequena guerra travasse em sua mente entre: acreditar que seu irmão poderia mata-lo ou confiar nele, acreditar em Miguel, seu mais antigo amigo.

As noites se seguiram na mais tortuosa tormenta. Todas aas noites sonhava com sua morte de um jeito diferente, mas, seu irmão estava sempre ali, sorridente e feliz, brindando o seu fim. Em uma noite Miguel o matava com uma facada no peito, em outras afundava seu navio antes de chegar em casa e em uma em particular, a mais horrível, ele sufocou lentamente.

Depois de um tempo não foram só os seus planos que se tornaram suas preocupações. As revoltas começaram e a plebe fazia filas gigantes para reclamar com o príncipe regente sobre sua saída do país. Ele já deveria esperar isso, não tinha como uma noticia de tal magnitude ter permanecido em segredo.

E todos sabiam exatamente o que significava a saída da família real da colônia. Tudo voltaria a ser como era antes, apenas um lugar de trabalho, sem diversão alguma e o crime seria bem maior do que antes afinal agora a colônia havia se tornado ponto de exílio para os indesejados de Portugal.

- O prazo vem chegando ao fim, você ainda pode voltar atrás. – A voz da velha volta e meia rodava a sua cabeça.

Dom Pedro amaldiçoava a cada minuto a velha bruxa que o enfiara naquilo tudo. Ele sabia. Sabia bem quem tinha espalhado a noticia pro ovo e incitado as revoltas. O povo estava furioso e tentavam impedir a partida do príncipe regente de qualquer maneira. Destruíam navios que poderiam servir de partida, gritavam aos portões do castelo e até fizeram uma abaixo assinado gigantesco.

- Um trono aqui ou um tumulo lá, só há duas escolhas, vossa majestade. – A voz da velha volta e meia rodava a sua cabeça.

Depois de um tempo começou a enlouquecer, ouvia ela em todo canto e só pensava nisso. Uma tarde se pegou conversando com um duque sobre como um irmão poderia matar o outro e no dia em que sua esposa revelou-lhe que não estava mais grávida, ele não chorou, só pensava na ida para Portugal.

- Um abraço de nosso país ao rei ou um abraço de seu irmão assassino. – A voz da velha volta e meia rodava sua cabeça.

E por fim se rendeu a loucura. Via seu próprio corpo morto em todo lugar. Via-se degolado no lustre sob a mesa do jantar. Via-se morto por veneno em um canto do quarto. Via-se degolado durante o banho. Via-se assassinado onde quer que fosse, com olhos fechados ou abertos. Via seu tumulo no jardim do castelo.

- O tempo passa meu querido, seus pais lhe esperam em Lisboa, entre no navio e vá. – A voz da velha volta e meia rodava sua cabeça, mas, dessa vez ela estava realmente ali.

- Vai embora, é uma ordem. – Ele gritou sem se virar para encara-la. – Eu vou voltar para o meu lugar como foi me ordenado e você não pode impedir isso.

- Então entre naquele navio e vá. – Ela disse calmamente. – Nós teremos uma longa viagem juntos. Espero que continue gostando de ver os corpos, é um presente meu, vossa majestade.

- Você? Você fez isso? Eu não estou enlouquecendo, é tudo você, bruxa! Retire isso de mim agora! É uma ordem.

- Você escolheu voltar, não é mais rei de lugar algum, é só um príncipe esperando um trono que nunca terá.

Eles ficaram alguns minutos se encarando. Pedro começou a recordar de cada noite mal dormida, cada pesadelo, cada corpo morto que via e cada tormento que passou. Se aquilo fosse continuar não havia como sobreviver, iria ficar louco. Se não fosse morto por Miguel, seria morto pela própria loucura.

- Você não pode ficar para sempre dependendo da morte dos seus pais meu querido, você tem clara duas opções... – Ela disse chegando mais perto e tocando seu rosto de leve. A mão enrugada escorregou pela pele rosada e pela barba grossa. -... Independência ou morte?

- Eu fico. – Ele disse engolindo aquela verdade em seco. – Apenas pare isso, deixe minha mente em paz, suma da minha vida.

- Se você disser que fica eu parto, temos um acordo?

- Faça com que as revoltas parem, eu sei que foi você quem começou tudo, diga ao povo que fico, diga que parem.

- Eu não tenho esse papel meu querido, eu li nas estrelas e vi no fogo. – Ela se afastou rumo a sua saída de sempre. – Sou apenas uma velha bruxa que gosta de conversar com um jovem rei. Cabe a você o papel de mostrar ao povo o novo tempo.

Ela caminhou pelo corredor escondido atrás da estante e foi a ultima vez que ele a viu. Ainda pode ouvir ao longe o cantarolar lento da velha bruxa, a mesma musica de sempre a qual não lembrava se já teria ouvido. Ela não voltou a lhe visitar e ele não voltou para seu país. Foi assim que finalmente declarou ao povo: "Como é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto. Diga ao povo que fico" e ficou, mas, para sua própria felicidade e saúde mental.

Notas finais
Deixe um comentariosinho dizendo o que você achou, afinal de contas você já gastou tempo lendo tudo mesmo, o que custa :3

xoxo
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!