Peças de Cerâmica
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Para quem não me acompanha, eu vou logo falando que eu amo escrever sobre Franada (OTP, gente!!), e quero me especializar em fics só deles!~~
Sobre a fic: Por eu fazer faculdade de Artes, e ter aulas de cerâmica na minha grade, eu resolvi trazer um pouco desse meu universo para vocês. Eu adoro as minhas aulas de cerâmica, e o modo como eu tento relatar na fic algumas coisas, é o modo como eu me sinto em relação à elas. Espero que gostem!
Pena que não encontrei nenhuma imagem do Matthew trabalhando com cerâmica... ÇuÇ
OBS: No decorrer da fic, vocês verão palavras ou expressões que usamos em cerâmica em relação à alguma ação ou objeto, e elas vão está marcadas com asteriscos (*) e um número em cima, e nas notas finais eu explico o que elas significam, ok?
Boa Leitura!
Era uma chuvosa tarde de sábado. Matthew se encontrava em pé, frente ao *torno de mesa*¹ onde estava trabalhando em mais uma peça de cerâmica que tinham encomendado. O tempo estava o ajudando dessa vez, coisa que raramente acontecia. Aquela umidade era muito boa para não deixar a sua peça ressecar, fazendo com que não ficasse o tempo todo com o vidro de spray d’água em mãos.
Matthew se sentia relaxado ao trabalhar com a argila. Ele adorava aquela sensação do orgânico em suas mãos. As vezes se perdia tanto moldando uma peça que nem percebia o tempo passar. Isso era terapêutico. Começava a olhar todas as peças que tinha produzido, as quase finalizadas e os projetos que estavam rabiscados em papéis jogados em cima de uma outra mesa.
“Me sinto tão bem...”
Pouco a pouco, a peça começava a ganhar mais forma e mais estatura, e com o mudar da peça, o sorriso de Matthew ia aumentando. Criar coisas vindas da argila era algo que exigia paciência, mas que no fim, valia muito à pena. Matthew lembrava da época em que sua querida professora de cerâmica lhe falava que “peças são como filhos”. No início ele nem entendia bem o por quer daquela analogia, mas com o tempo, ele foi compreendendo.
Do mesmo modo que uma mulher gera o filho, nós criamos uma peça de cerâmica. Paciência e amor. Se você se apressar demais para criar uma peça, ela pode quebrar ou ficar torta. E se você não souber criar um filho, ele vira uma pessoa totalmente diferente do que você imagina.
A analogia era estranha, mas fazia sentido!
Mesmo que Matthew não tivesse realmente um filho, ele cuidava e criava as suas peças como tal. Independente se elas eram encomendadas ou não. Mas ele não cuidava delas totalmente sozinho. A pessoa mais especial em sua vida o ajudava nessa difícil tarefa. Afinal, ele não depositaria o bem estar de suas obras a qualquer pessoa.
“Nunca irei encontrar alguém como ele.”
Matthew moldava o protótipo de um vaso com um *rins de curva*² para que ele não tivesse tanto trabalho de moldar depois que a argila estivesse mais seca. Ele olhava forma primitiva de vaso que estava em cima do torno e começava a pensar em como ele tinha chegado ali. Algumas vezes o trabalho era tão automático que nem se lembrava mais de como tinha começado. Só sabia que tinha chegado no produto final.
-- Olá, Matthew! – Francis adentrava no ateliê segurando uma caixa.
-- Olá, Francis. – ele alargou um sorriso – O que temos hoje? – repousou o seus olhos na caixa que Francis segurava.
-- Bem, aqui chegou mais alguns *estecos de ponta e de corte*³. Acho que serão muito úteis já que os antigos estão muito gastos.
-- Que bom! E quem mandou esses dessa vez?
-- Foi aquele seu amigo chinês simpático. O que só trabalho com porcelanas.
-- Yao? Que bom que ele me mandou esses. – começou a soltar uns risinhos – Deve ser bem interessante trabalhar com o material chinês. Até hoje eu não entendo como ele consegue trabalhar com porcelana! *Coisa ruim de modelar!*4
-- Já deve ser muito tempo nesse ramo.
-- Só pode.
Francis nada mais era do que um assistente de Matthew em relação ao seu trabalho como ceramista. Mas na vida pessoal, e mais especificamente, na vida amorosa, Francis era o ser que cuidava e o amava como se aquilo fosse o fato mais importante de sua vida. Aqueles braços fortes o abraçando era muitas vezes, tão reconfortante quanto ficar no ateliê fazendo as peças. Mas ele simplesmente não poderia escolher entre os dois. Afinal, cerâmica foi o meio que ele encontrou de ser mais reconhecido por todos. Além dele explorar o seu talento, ele poderia divulgar isso para os outros e até conseguir uma renda com isso.
Matthew não precisava de mais nada fora Francis e sua arte com cerâmica. Aquilo o mantinha vivo, estável e mantendo a mente longe dos problemas.
“Eu só precisava encontrar o amor... em diferentes formas.”
Ele olhava fixamente para o companheiro que estava a organizar os recém chegados estecos em uma outra caixa. Ele admirava a paciência que Francis tinha com ele em relação ao seu trabalho. Era um pouco complicado aturar um ceramista. Muitas das vezes, as peças exigiam mais atenção do que as próprias pessoas. Ele sabia que *os tempos de secagem de uma peça para outra variava*5, e que por causa disso, ele vivia enfurnado naquele ateliê. Mas Francis parecia não se importar com isso.
Visivelmente, ele parecia sempre calmo e feliz. Mas será que ficar trabalhando todos os dias naquele cubículo não o estressava? Talvez ele devesse tirar essa dúvida. Já que estava a alguns anos com ele quem nem sequer tinha pensado nessa possibilidade, mas agora que ela surgira em sua mente, isso o incomodava.
-- Francis...
-- Sim?
-- Você se sente bem aqui?
-- Como assim? – o maior parou o que estava fazendo para encarar Matthew.
-- Sabe... depois de tanto tempo aqui... eu pensei que você já estivesse...
-- O que?
-- Sei lá... que você estivesse... saciado de tudo isso.
-- Saciado?
-- Sabe... não é o sonho de ninguém viver para sempre ao lado de um ceramista... – Matthew começou a ficar um tanto deprimido com isso.
Francis o encarou por um curto período de tempo, e logo em seguida, ele soltou um suspiro e ajeitou o cabelo. Ele estava com uma expressão estranha, e aquilo preocupava Matthew.
“Ele é tão bobo... ♥ ”
Francis começou a soltar inúmeras gargalhas que fizeram o jovem loiro se assustar um pouco com a ação repentina. Ele realmente não tinha compreendido aquilo. Foi um “finalmente você percebeu isso” ou “que papo é esse?” que ele estaria esboçando com essas gargalhadas?
-- Eu nunca deixaria essa vida por nada. – Francis respondeu ao parar com o ataque de risos.
Matthew queria chorar. Ele não sabia realmente por qual motivo ele sentia isso, mas queria chorar. Um choro de felicidade, um choro de alívio. Aquela realmente era a pessoa da sua vida. A pessoa que ele amava. A pessoa que não se importava com o fato que esse trabalho as vezes o consumi-lo demais. A pessoa que sempre viria ao ateliê com um sorriso no rosto para alegrar o seu dia.
-- Francis... eu te amo.
-- Eu também de amo... meu doce ceramista.
Matthew sorriu e para o companheiro que logo retribui o gesto com outro sorriso. Ele então tentou se concentrar mais uma vez no vaso, que praticamente, já estava quase do jeito que ele queria, porém, foi surpreendido com um par de mãos segurando sua cintura e uma curta barba roçando seu pescoço.
-- Você deveria *polir aquelas peças*6 ao invés de ficar aqui atrás...
-- Eu faço isso depois... Eu quero sentir o seu cheiro agora...
-- Cheiro de argila molhada? – Matthew riu.
-- É o seu melhor cheiro.
Francis segurou o queixo de Matthew e o fez virar um pouco a sua cabeça para que ele pudesse beijá-lo. Com certeza, ele não queria pensar em uma vida diferente ou como ele poderia melhorar a vida dele. Aquilo era perfeito. Ele não carecia de mais nada. Matthew era seu, e isso era o que importava.
O beijo foi interrompido com o apitar do despertador avisando que as peças que estavam dentro do forno estavam prontas. Logo eles poderiam visualizar aquelas lindas *peças alaranjadas*7 e deixa-las na entrada do ateliê para que esfriassem. E mais uma vez, os dois se entreolharam e distribuíram sorrisos, fazendo com que ambos entendessem que não careciam de mais nada fora a companhia um do outro e das peças de cerâmica.
Notas finais
Tentarei sempre trazer conteúdo do meu mundinho para vocês. Ou seja, vai muita coisa relacionada à arte!!!
Espero que isso seja realmente bom para o Nyah...
Até alguma próxima fic!~~
(notas gigantes...)
NOTAS:
(1)*torno de mesa* - É uma base com mesa giratória que usamos para colocar a argila por cima e facilitar na hora da moldagem. Existem inúmeros modelos e dos mais variados tamanhos. Mas o torno de mesa é manual, ou seja, não confundam com o torno elétrico (que é a mesa gira quando pressionamos o pedal) ou com o torno estático (que é nada mais nada menos que uma placa de madeira).
(2)*rins de curva* - Em cerâmica, não usamos somente as mãos para moldar. Também temos a ajuda de pequenos objetos de madeira ou plástico que se denominam Rins. Se você lembrar de uma casca de coco partida ao meio, seria algo mais próximo que se chegaria ao formato de UM DOS TIPOS de rins existentes. Ou você poderia lembrar de um quadrado pequeno feito de madeira que não passasse da espessura de uma régua. Esse já seria outro tipo de rins. Mas o que eu usei, o formato dele é como se fosse uma pequena placa de madeira que em um dos lados, ao invés de ser reto, teria a forma de "C". Isso ajuda a levantar a peça, que é uma das formas de molde. E independente da quantidade (ou um, ou vários), o nome sempre será pronunciado no plural, rins.
(3)*estecos de ponta e de corte*- Sim, o nome é esse mesmo: ESTECOS. Mas pode ser chamado de ESTACAS. São objetos que ajudam na hora de retirar excesso de argila ou na hora de retirar algum sedimento indesejável na hora do molde (as vezes pode existir alguma pedra no meio do argila, e ela não serviria para a peça, então necessita ser retirada sem agredir o o seu progresso na peça). A forma deles é bem variada, mas se você imaginar um palito de dente, você pode dizer que ele seria um ESTECO DE PONTA. E muitas das vezes, o esteco de ponta pode servir para fazer o trabalho de incisão (fazer gravuras na superfície da cerâmica) na peça.
(4)*Coisa ruim de modelar!* - Essa frase foi mais uma curiosidade. A porcelana possui um componente em sua composição chamado SÍLICA. A sílica ajuda a peça ficar muito resistente depois que a peça é queimada, o porém, com muita sílica na argila, a modelagem se torna mais difícil, pois o aspecto é como se você estivesse modelando areia umedecida, e a frequência de algo quebrar durante o processo é grande. Sem falar que a porcelana, propriamente dita, tem um grau específico na hora da queima. Por isso que a cerâmica chinesa é tão popular e muita das vezes, cara! Eles modelam uma peça finíssima (coisa fina e ruim de modelar!) e que precisa ser queimada no grau certo.
(5)*os tempos de secagem de uma peça para outra variava* - Nenhuma argila é igual a outra quando está úmida. Nenhuma peça é igual a outra quando está úmida. Ou seja, o tempo de secagem delas também não é. A água dentro da argila ajuda a deixar ela úmida para poder ser maleável. Mas devido ao grande tempo que ficamos trabalhando em uma peça (jogando água para que ela não seque e que não seja ruim modelar), a água vai se acumulando. A secagem, dependendo de inúmeros fatores atribuídos à peça, pode leva de dias à semanas para secar totalmente antes de ser levada ao forno.
(6)*polir aquelas peças* - Quando uma peça seca totalmente e ganha um certa coloração antes de ir para o forno, é muito bom polir a peça. Isso já é um gosto pessoal do ceramista, mas quando você poli a peça, ela ganha um aspecto liso e brilhoso depois da queima. Quando ela não é polida, ela fica com uma aparência rústica e um tanto porosa.Você pode usar sacolas plásticas, lâmpadas, colheres, pedras bem lisas ou até mesmo os dedos para polir uma peça.
(7)*peças alaranjadas* - Muita gente pensa que as peças de cerâmica são alaranjadas desde o princípio. Mas na verdade, para quem já viu uma argila, sabe muito bem a cor dela. Aquele tom terroso é evidente em vários tipos de argila. Ela só ganha o tom alaranjado depois que é queimada. E se você quiser mudar a cor de uma peça, você precisa misturar um certo tipo de pó antes (infelizmente eu não estou lembrada do nome desse pó, mas é encontrado em casas de materiais de construção) da queima. Você mistura esse pó com a argila, e depois vai moldando-a normalmente, mas depois de queimada, ela ganhará a cor que você desejava. Ou você pode pintá-la depois de queimada mesmo, mas não fica com um aspecto natural.
EXTRA: A cerâmica só é considerada realmente cerâmica depois de queimada. Antes disso, ela é só um molde em argila. E você nunca deve jogar água numa peça que ainda não virou cerâmica depois que ela secar! A peça racha e volta a ser só argila. Ou seja, se você fez um jarro, vaso, cuba ou qualquer outra coisa com argila e esperou secar, você não deverá colocar nenhum líquido dentro dela pois ela vai rachar e desmanchar!
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