Quando Nico se despediu de Olívia, ele percebeu que não havia chorado naquela última hora, mas sentia que seria algo muito provável.

Apenas quando ele e Bianca entraram no carro novamente, a garota perguntou como havia sido.

Nico deu de ombros. Não havia nenhuma mensagem nova em seu celular.

— Você está bem? — Bianca perguntou.

— Você pode me deixar na casa do Jason? Eu quero falar com ele.

— Nico, eu não sei se...

— Eu não vou cortar meus pulsos se vocês me deixarem um pouco sozinho, sabe.

Ele viu a irmã apertar os dedos no volante do carro, então se arrependeu do que havia dito.

— Eu não disse isso. — ela murmurou.

— Desculpa.

— Como foi a consulta? Me dê uma resposta decente.

— Legal.

— Legal?

— É. Merda. Eu não sei. Ela quer que o pai vá na próxima vez.

— Ela quer conversar com nosso pai? Por quê?

— É. Não sei.

— O que ela disse?

— Bianca, eu não vou te contar sobre o que eu falei com a porra da minha psicóloga.

— Desde quando você fala tanto palavrão assim?

Nico não respondeu. Ao invés disso, apoiou a cabeça no vidro do carro e fechou os olhos.

— Desculpa. — ele ouviu a irmã dizer. — Eu só quero que você saiba que pode conversar comigo quando quiser.

— Eu sei.

— Qualquer coisa.

— Tá bem.

— Mesmo.

— Tá.

— É sério, Nico.

— Eu sou gay.

— Eu sou hétero.

— Bianca...

— Meu namorado é bi.

— Você tem um namorado?

— Sim. Brandon.

— Ele é da Itália? Ele é legal?

— Sim e sim.

— Legal.

— Você tem um namorado?

— Que? Não.

— Você gosta de alguém?

Bianca.

Nico sentiu seu rosto ficar vermelho. Ele deu graças à Deus por estar em frente à casa de Jason, finalmente, então desceu do carro sem responder a pergunta.

Precisou tocar a campainha duas vezes até que Jason atendesse a porta.

Os dois se encararam por muito tempo até Jason dar espaço para Nico entrar.

Eles continuaram a se encarar mesmo sentados no chão do quarto de Jason.

— Por que você nunca me contou?

A pergunta pegou Nico um pouco desprevenido.

— Não sei. Eu não sabia como fazer isso, acho.

E ali estava o silêncio de novo. Não gostava disso. Não havia silêncios constrangedores entre Jason Grace e Nico di Angelo. Era simplesmente errado.

— A gente pode não falar disso?

— Eu sou um amigo tão ruim assim?

— O quê?

— Por que você nunca me contou? Você não confia em mim?

— Não é assim que funciona, Jason.

— Merda, Nico, eu sei. Eu devia ter reparado. É por isso que você usa todas essas pulseiras, não é? Ou porque praticamente só usa blusa de manga longa.

O silêncio de Nico foi a resposta.

— Agora tudo faz sentido. — Jason comentou.

— Desculpa.

— Nada disso é sua culpa.

— Não tenho muita certeza.

— Quem mais sabe?

— Ah. Meu pai. Bianca. E... Will. Só.

— Will?

— É. Ele viu.

— Como Will sabia e eu não?

— Eu não queria te incomodar.

Nico desviou o olhar e encarou a parte da parede do quarto de Jason onde havia fotos coladas. A maioria delas era de Jason com Nico, mesmo que Nico odiasse tirar fotos. Nunca havia reparado nisso.

Havia uma foto do primeiro aniversário de Nico em que Jason esteve ao seu lado, aos treze anos. Depois, fotos de quando Jason tentou ensinar Nico a andar de skate. Nico e Jason com glacê verde no rosto todo, na festa de quinze anos de Jason. Nico e Jason com máscaras do homem aranha — Nico lembrava desse dia em especial. Foi quando conversou com o amigo, pela primeira vez, sobre ser gay. Se não fosse pela máscara, seria possível ver os olhos vermelhos de Nico por culpa do choro. Lembrava de Jason ter feito aquilo apenas para tentar acalmar Nico, que naquela época ainda estava entendendo o que não ser heterossexual significava.

— Você não precisa se incomodar com isso, Jason. Só queria que soubesse. Eu cansei de ficar escondendo toda hora.

— Nico. — Jason o chamou. — Você é muito burro as vezes, sabia?

Nico sentiu medo. Talvez aquele momento tivesse chegado; o momento em que alguém iria rir dele por fazer o que fazia. Tinha medo disso. Sabia que era algo ridículo se machucar, mas não queria ninguém rindo dele. Não saberia o que fazer caso acontecesse. Sabia que algumas pessoas achariam engraçado ou diriam que ele era apenas um emo e queria chamar atenção.

Deus, Nico nem ao menos gostava de receber atenção em excesso.

Por alguns segundos, ficou em silêncio, até que Jason disse:

— Você sabe que é meu melhor amigo, não sabe?

— Leo é seu melhor amigo.

— Não, não é.

Nico olhou para Jason.

— Leo é um bom amigo. — Jason disse. — Mas uma pessoa só pode ter um melhor amigo. O meu é você.

Nico não respondeu. Não sabia que Jason pensava daquela forma.

Jason era o melhor amigo de Nico. Isso era um fato. Por muito tempo, foi a única pessoa com quem Nico teve coragem de falar abertamente sobre a própria sexualidade.

— Você pode me contar, Nico. Você nunca incomoda.

Era bom ouvir aquilo.