Petite Etoile

2 One-shot - Parte 2


Se passaram 3 meses depois que eu falei para Paula aquilo. E eu não a tinha visto em nenhum dia daqueles 3 meses. Perdi minha melhor amiga e minha namorada. Eu me mostrava forte para o mundo, mas eu estava me sentindo um lixo. Pensei várias vezes em me matar, mas isso não era lá uma boa opção. E Também havia a questão do meu pai. Não queria decepcioná-lo. Ainda mais na fase que ele estava passando. Ele era cobaia de um novo remédio contra o HIV e não estava reagindo bem a eles.

Mamãe e Papai saíram e ficamos somente eu e meu irmão. Por pouco tempo tive sua companhia irritante, porque ele fora jogar vídeo-game na casa de um amigo. Me esparramei no sofá, pensando – como sempre – na Paula. Aquilo realmente estava me matando. Eu sabia que ela não ia voltar a namorar comigo mas... Ser ignorada era outra coisa. Eu precisava dela. Ela era meu porto seguro. Ouvi a música Alleine zu Zweit [Lacrimosa] tocando, me dei conta que alguém estava me ligando. Era mamãe.

- Alô? – Atendi.

- Vitória... Seu pai... – A voz da minha mãe era chorosa, não parecia estar nada legal lá. – Ele... er... faleceu.

- Ahn? COMO?!

- Bem, ele ficou doente, e você sabe que ele não pode pegar nem gripe. Pois é, os médicos disseram que ele estava com pneumonia.

- Porra! Mãe, diz que isso é brincadeira, por favor.

- Não é. Não brincaria com uma coisa dessa.

- Estou indo pra aí.

- Não, fica aí em casa. Cuide de seu irmão.

- Mas...

- Quieta e me obedeça! – Ficamos mudas por um tempo. – Tchau.

- Tchau... – Eu não acreditava no que minha mãe havia falado. Não tinha caído a ficha ainda. Eu sabia que tinha esse risco mas... Droga. A possibilidade do suicídio me pareceu novamente uma ótima saída. Mas pensei em minha mãe e meu irmão. E no que mais eles sofreriam.

Deveria ou não ligar para o Sebastian? Não... deixasse ele curtindo lá. Depois eu contaria. Se eu já estava no fundo do poço, agora começaram a jogar terra em cima de mim. Eu amava muito meu pai, ele sempre me fazia seguir em frente, não importava a situação. Obedeci ao seu pedido e contive minhas lágrimas. Me sentei e rezei para que ele estivesse em um bom lugar.

Passou alguns minutos, eu tentava colocar tudo em ordem na minha cabeça. Paula, papai, mamãe... Hm... quem cuidaria da casa? Não quero pensar nisso agora.

Meus pensamentos foram interrompidos pelo toque insistente da campainha. Me levantei, me perguntando quem era. Abri a porta e para minha surpresa, Paula estava diante de mim, com seu sorriso radiante. Ela usava um vestido florido e rasteiras. Abri mais a porta e dei um espaço para que ela entrasse. Sua aparição me deixou mais aliviada.

- Oie. – Ela disse.

- Oi. – Respondi, um sorriso involuntário apareceu em meu rosto.

- Clima pesado aqui. Que houve? – Como sempre, ela sabia o que acontecia comigo.

- Primeiro você. Como vai? Senti tua falta.

- Ah, eu não senti a sua. – Me encarou seriamente. – Tá, admito que um pouco. Mas só um pouquinho assim ó. – Gesticulou com os dedos.

- Que bom. – Ela abriu um sorriso maior. Ficamos em silêncio durante um tempo, até que ela o quebrou. – Na verdade... – Ela veio até mim e me deu um abraço confortável. Senti a mesma vontade de chorar. – Eu senti muito sua falta.

- Que bom pra mim.

- Qualé? Não tá feliz em me ver? – Se desfez do abraço.

- Tô sim. Muito. – tentei sorrir. – Mas é que... acabei de receber uma noticia não muito boa da minha mãe.

- Ah... E qual foi?

- Meu pai desencarnou.

- Oi?

- Ele marreu.

- Ah... eu... droga, desculpa.

- Por quê?

- Te importunei numa hora não muito boa.

- Ah, você veio na hora certa. Tô mais aliviada com você aqui.

- É. Mas eu só vim me despedir.

- Imaginei. Me contaram que você ia pra Londres.

- É, eu vou.

Por impulso, eu dei um selinho nela, me repreendendo em seguida. Ela apenas tocou os lábios com as pontas dos dedos.

- Desculpa. Eu precisava disso. Pelo menos o último.

- Ahn, tudo bem.

- Vai pra lá quando?

- Hoje à noite.

- Boa viagem. – Sorri e lhe dei um abraço. Eu estava desmoronando por dentro, mas... era a vida e eu ia superar. Ao menos ela tinha vindo me dar um adeus.

- Sabe, eu fiquei te esperando, mas você não apareceu lá em casa. Pensei que você tinha desistido de mim.

- Não. Eu pensei que você não quisesse me ver. Então, decidi não te atrapalhar. Afinal, você tinha suas razões pra querer isso.

- É, eu tinha. Mas não queria.

- Ah, por favor, paremos com essa emice.

- Ok, ok. Vai me visitar, não vai?

- Quando eu puder, irei. Só me mandar seu endereço. – Ela limpou uma lágrima que caiu do canto de seu olho.

- Vou te mandar. E quanto ao seu pai, não fique triste. Ele era um bom homem.

- Eu sei. – Respondi tristemente.

- Quer que eu fique aqui? Tenho até as seis.

- Não precisa. Você tem sua vida, eu tenho a minha.

- Certeza? – Ela perguntou preocupada.

- Não.

- Tá vai. Farei esse sacrifício.

Ela sentou no sofá e eu deitei minha cabeça em seu colo. Paula ficou ao meu lado até mais além do horário que podia. Me deu seu endereço e foi embora. Eu a visitaria, um dia. Mas não poderia ser em breve, eu ainda precisava dar apoio para minha mãe.

Dez anos depois da morte de meu pai, aqui estou. Com vinte e sete anos. Droga, to velhinha ein. Meu irmão se mudou para a Bahia quando mamãe morreu a 5 anos atrás. Ele estava com vinte e cinco anos, com uma namoradinha que parece ser legal. O visito com frequencia. Nesses dez anos, nunca visitei a Paula. Nunca tive coragem de dar as caras por lá. Mas tudo tem sua primeira.

Em Londres fazia muito frio. Marcamos de nos encontrar numa lanchonete qualquer. Eu estava ali fazia meia hora. Não que ela estivesse atrasada, eu que cheguei cedo demais. A lanchonete era simples. Me sentei em uma das mesas ali no frio e pedi um suco de maracujá. Paula havia me contado que tinha encontrado uma nova namoradinha, que era melhor que eu. Claro que não levei a sério. Ninguém era melhor que eu. Ok, ok. Parei com a brincadeira.

- Tá congelando não? – Ouvi uma voz familiar. Me virei e dei de cara com a Paula e uma garota um pouco mais alta que ela.

- Não está tão frio assim. – Paula vestia uma jaqueta e um casaco de peles[sintética né gente] por cima. Eu estava apenas com minha jaqueta preta. Nunca fui de sentir muito frio de dia. – Ah, falta de educação a minha. Hi.

- Vanessa sabe falar português.

- Tivesse me avisado antes. – Nós três rimos.

- Prazer, Vanessa.

- Prazer, Vitória. – Abracei as duas. – Sua namorada? – Perguntei arqueando a sobrancelha.

- Não, minha prima. – Olhei pra Vanessa e depois para Paula.

- Bela namorada você tem. – Observei.

- Ahn... brigado. – Ela respondeu timidamente.

- Tira o olho que ela é minha. – Paula agarrou Vanessa que corara um pouco mais.

Depois de algumas conversas, concluí que, apesar de formarem um belo casal, elas não iam durar muito. Vanessa era do tipo “Ui, olha lá, uma bunda!”. Notei várias vezes que ela olhava para todas as garotas que passavam e Paula a fuzilava com o olhar. Nos despedimos e anotei o endereço do hotel em que eu estava, entregando as duas.

- Até mais.

- Até.

É tenso quando você perde muitas coisas. Ainda mais quando se é jovem. Mas você supera, sempre. Claro que demora, mas né. A gente sobrevive. E como a vida é uma caixinha de surpresas,enquanto eu passeava em uma das praças de Londres, avistei uma garota que me chamou a atenção. Ela era linda. Loira, estatura média e branca. Uma típica européia. Ela não falava português, eu não falava francês então arranhávamos muito no Inglês, mas conseguimos nos comunicar. Para mim, ela era simplesmente perfeita. Desde então, eu moro em Londres, na mesma rua que Paula e agora namoro com Giulia, a garota Francesa. Paula e eu somos grandes amigas, porém, não mais que isso. Minha Giulia é ciumenta. Nesse momento, ela está se debruçando sobre mim, enquanto eu tento contar minha história e 3.000 palavras. E... sinceramente? Acho que não consigo. É tentação demais. Então, estou me despedindo agora. Agradeço a todos que tenham lido e gostado desse pequeno conto.

- Já estou indo minha Petite Etoile. – Ela riu e me puxou para a cama.

Notas finais
Heeey, mereço reviews? *olhar de cachorrinho abandonado*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!