Notas iniciais
Um Gruvia U.A., nossa! Não sou de escrever U.A. ou de ler, mas essa fanfic ficou me atormentando o tempo inteiro e mesmo que não seja o tipo de fic que eu goste de escrever, eu tive que escrever. Enfim, espero que o resultado tenha sido positivo. ♥ Obs: As partes em itálico são as situações do passado que Gray está lembrando; as com letra "normal", são as situações atuais.

Ele acendeu o cigarro entre os lábios, tragou-o, posicionou-o em meio ao dedo indicador e médio e retirou-o, expulsando a fumaça do tabaco de seu organismo pela pequena brecha deixada na boca.

Sentado no chão do antigo carrossel desgastado pelo tempo, Gray Fullbuster fitou o pequeno buquê de rosas brancas trazido que deixou ao seu lado meio minuto antes de encarar o céu azul do outono. Aquele era o sétimo ano que, naquela mesma data, desligava-se totalmente de seu atual mundo competitivo dos negócios e concentrava-se somente nela.

O homem deu outro trago e, diferente do anterior, expeliu, pausadamente, boa parte da fumaça esbranquiçada pelas narinas. Observou a massa de fumo disseminar-se devagar no ar, imergindo gradativamente sua mente no lago profundo de sua nostalgia e fazendo uma breve melancolia se propagar devagar em sua feição tantas vezes séria.

Há sete anos, reservava aquele tempo em tal lugar só para si e, novamente, para se deparar com suas velhas lembranças...

。。。

O Fullbuster praguejou.

Levantou a gola de seu sobretudo negro ao abaixar a cabeça em uma tentativa de evitar, ainda que pouco, os flocos de neve brancos que começaram a cair da grande nuvem fixa no céu, e colocou as mãos cerradas, agasalhadas pelas luvas, dentro dos bolsos da veste. Sentia-se irritado por não ter um guarda-chuva consigo no momento para se proteger, porém, ao menos era possível perceber esse leve aborrecimento quando o que sua feição realmente demonstrava era um pequeno sorriso vitorioso. Afinal, obteve êxito ao conseguir fugir mais uma vez de suas responsabilidades como empregado-aprendiz dos grandes negócios empresariais de seu pai, e agora, dirigia-se ao seu lugar de descanso para sair do mundo real por, pelo menos, duas horas. Um tempo curto, entretanto, precioso.

Ele deu os poucos passos que precisava para chegar ao terreno de um pequeno parque de diversões abandonado há quase dois anos — o local onde, felizmente, nenhum integrante de sua família se atreveria a ir. Andou pelo asfalto coberto de neve, deixando as marcas de suas pegadas pelo caminho, enquanto olhava com indiferença a roda-gigante, as xícaras giratórias, algumas barracas de jogos abandonadas e todos os outros brinquedos que, acabados e sob o domínio das plantas recentemente congeladas, faziam parte do antigo cenário pueril, até chegar ao coração do parque: o carrossel, um dos últimos brinquedos a ser reformado antes de o lugar definitivamente falir, e, por consequência, estar menos gasto do que a maioria.

Seu sorriso alargou-se satisfeito conforme se aproximava do brinquedo isolado que, para sua sorte, continuava perfeitamente menosprezado.

Ou era nisso que acreditava.

Diferentemente da solidão que aguardava encontrar todos os dias no local, quando a poucos metros do carrossel, enxergou a existência de uma pessoa; de uma garota deitada próximo à beira da plataforma circular. De imediato, aquilo o fez franzir a testa e desmanchar o sorriso, curvando o lábio para baixo em sinal de aborrecimento. Era inaceitável que uma pessoa tivesse invadido seu lugar ou que, por um instante, tivesse que dividir seu espaço com um alguém desconhecido que sequer lhe pedira permissão para ficar — ainda que não fosse aceitar.

Tal pensamento era egoísta, e ele sabia disso. Entretanto, ao mesmo tempo, necessário. Se sua família descobrisse que escapava de suas obrigações indo àquele parque, certamente, as consequências que enfrentaria seriam infelizes.

Ele tinha que protegê-lo.

Gray aproximou-se da figura deitada de costas para si e a encarou irritado.

— Oe! — chamou-lhe a atenção.

Ela não se virou ou o respondeu.

— Oe, garota, não está me escutando?! — abaixou-se, tocou-a no ombro, sacolejou-a e, continuando sem resposta, virou-a em sua direção. — Tsc, me resp...

Suas palavras foram imediatamente cortadas ao vê-la de frente. A jovem estava ligeiramente trépida, bastante corada, com o rosto levemente úmido do que achou ser suor e respirando pesadamente, pouco ofegante, além de ter uma trilha destacada de sangue escorrendo de uma das narinas.

Com aquela visão, seu olhar enfadado logo se tornou confuso. Ele rapidamente rasgou um pedaço de sua camisa para limpar o líquido rubro, retirou uma das luvas e encostou o dorso da mão na testa e no pescoço dela.

A febre estava altíssima.

— O-Oe, aguente firme! — pediu ele em um timbre nervoso ao retirar seu sobretudo para cobri-la e, seguidamente, levantar-se elevando-a em seus braços.

— C-Casa... — ela murmurou fraca ao entreabrir o que pôde dos olhos, segurando-se na gola alta da camisa masculina.

— S-Sim! — respondeu. — Mas, onde você mora?!

A garota de cabelos azuis balbuciou lenta e quase inaudível o endereço de sua residência nos últimos resquícios de suas forças, antes de desmaiar. Gray não conhecia bem o lugar que ela dissera ou a região, mas, de alguma forma, a levaria até lá.

。。。

O primeiro cigarro acabou, todavia, o agradável gosto do tabaco permanecia ocupando seu paladar.

Aquela também era a única data do ano em que fumava e apreciava o sabor da nicotina em sua boca e pulmões. Era como um grande conforto psicológico para seu ser e sua alma. E somado ao gole de whisky que desceu queimando por sua garganta, trazido na pequena garrafa de aço característica, fazia-o se sentir calmo. Não contente ou feliz como todo novo outono esperava estar, porém, aliviava-o de tal maneira que sua tristeza, naquele dia em especial, tornava-se tolerável.

O Fullbuster acendeu com dificuldade seu segundo cigarro ao colocá-lo entre os lábios, tendo seus cabelos revolvidos pelo vento.

。。。

— Merda... de novo?! — ele reclamou ficando perto da garota deitada no chão do antigo carrossel outra vez.

Há mal completadas duas semanas que aquilo se tornara parte de sua rotina. Todos esses dias, no mesmo horário em que se destinava ao seu estimado lugar, ela se encontrava desmaiada — agora devidamente agasalhada — no brinquedo com neve acumulada em sua superfície.

Gray encostou as costas dos dedos na testa e no pouco que conseguiu do pescoço coberto pelo cachecol branco. Não estava quente, igual aos dias anteriores. Segurou-a nos braços e mirou-a momentaneamente com uma expressão entediada, inclinada para a timidez.

Tornara-se cansativo e constrangedor ter que encarar diariamente os dois amigos que todas as tardes estavam na casa da tal jovem. A ruiva passou a fitá-lo com um olhar puxado cada vez mais para a desconfiança, e o outro de cabelos prateados, com desprezo e raiva. Ambos certamente induzindo diversos pensamentos maldosos que o condenavam, embora não fosse culpado de nada.

O Fullbuster revirou os olhos ao bufar, pouco nervoso.

— Se não aguenta o mundo, não deveria sair de casa — rezingou emburrado, relembrando-se dos olhares perturbadores que tornaria a enfrentar.

Ao se afastar quase cinco passos do brinquedo, escutou uma baixa risada acanhada ser proferida. No segundo ulterior, guiou seus olhos para a fonte do breve som e, como previa, ele veio da garota em seus braços. Inclusive, na feição dela, um curto sorriso curvava seus lábios e cortava as maçãs levemente rosadas — que sabia que não era de febre — da face sonhadora.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Oe, você se tornou uma péssima atriz — comentou ao parar de andar.

Tal frase fez o sorriso feminino se desmanchar e, vagarosamente, dois olhos curiosos se abrirem e se voltarem em sua direção.

— Por que não para de fazer isso, hã?! — exclamou ao descê-la de seus braços e fitá-la, irritado.

— Porque... — ela colocou as mãos enluvadas nas bochechas vermelhas e sorriu envergonhada, deixando o timbre de sua voz ainda mais romântico — ...É divertido...

— Isso não é divertido! — objetou mais impaciente.

A invasora soltou uma curta risada.

— Não farei de novo — assegurou olhando-o timidamente enrubescida. — Mas, por favor, deixe-me ficar aqui com você...

Gray estudou o pedido feito com cautela. Frequentava aquele lugar há um mês e, desde então, tinha o extremo cuidado de não o expor, fazendo, inclusive, caminhos alternativos para chegar. Compartilhá-lo com uma garota desconhecida de madeixas azuis e que vestia somente trajes brancos não fazia parte de seus planos. No entanto, diante daquele grande olhar cintilante e suplicante, em meio a vários pedidos insistentes que o deixava encabulado, mudou a direção de seu olhar para outro ponto, pouco rubro e acabou se rendendo e aceitando, o que a fez sorrir abertamente e proferir diversos comentários de felicidade.

— Desde que você fique calada e não me perturbe, pode ficar — finalizou voltando a se sentar na beira da plataforma poucos centímetros acima da camada de neve no chão.

。。。

Ele riu baixo ao lembrar-se de algumas frases que ela proferiu animada e que, na ocasião, fez questão de ignorar antes que se sentisse mais constrangido. Todavia, apesar do acordo proposto, a estranha garota não se deteve, e nos dias seguintes perturbou-o tanto que foi impossível não começar a responder a algumas de suas perguntas. Por fim, não só ela o conheceu melhor, como ele também descobriu diversas coisas sobre Juvia Lockser.

De início, descobriu que, embora arriscado, ela voltou àquele lugar no dia posterior ao "primeiro encontro" e simulou estar desacordada apenas para saber se o encontraria novamente, e ao obter uma resposta positiva, saía todos os dias de sua casa somente a fim de reencontrá-lo — informação que, de imediato, o encabulou. Também descobriu que, durante a infância, uma grave doença se manifestou nela e, desde então, mesmo que desacelerada, dia após dia devastava sempre um pouco mais de seu corpo. Soube que ela não gostava de viver enclausurada na própria casa, e quando não estava nos hospitais, estava sob os cuidados à tarde de seus dois únicos amigos enquanto seus pais revezavam entre a manhã e a noite para cuidarem dela e conseguirem trabalhar. Descobriu que a garota sentia falta de sentir as estações do ano em sua pele e de se ocupar com as preocupações normais que uma jovem de dezoito anos deveria ter.

Ele descobriu, principalmente, que aquela garota enferma sentia falta de viver.

Gray respirou fundo antes de dar mais um gole na bebida alcoólica.

。。。

— Como você veio parar aqui naquele dia? — questionou, fitando-a.

— Eu... fugi de casa.

— Fugiu?! — espantou-se.

— Sim — confirmou, sorrindo. — No meu aniversário, finalmente tive coragem e fugi.

— Mas era perigoso! — ele a encarou mais sério.

— Gray-sama...

— Dispenso o “-sama” — interrompeu-a.

— Gray... você não sabe o que é viver sentindo falta de um pouco de Sol, de algumas gotas de chuva, de uns flocos de neve ou do cheiro das flores. De fazer novas amizades ou... — o rosto dela corou antes de completar a frase — De se apaixonar...

Suas bochechas involuntariamente ganharam a pincelada de um tom mais vermelho com a última frase, o que o fez desviar seus olhos para um lado qualquer.

— Quer dizer que nunca deu uma chance àquele seu amigo?

— Que amigo? — devolveu.

— Lyon — tornou a fitá-la.

— N-Não, Gray-sama! Lyon e eu nunca tivemos nada! — negou, afobada. — Nós nunca fizemos algo! E-Eu nunca fui dele!

— Oe, o que você imagina que eu perguntei? — inquiriu baixo, estranhando o comportamento da outra.

— Mas se você ficou preocupado, isso significa... — ela juntou as mãos sobre o coração e o mirou com um olhar cintilante, sorrindo encantada — I-Isso significa que você ficou com ciúmes de mim?...

— Eu não fiquei com ciúmes! — contrapôs ainda mais ruborizado, vendo-a sorrir abobada.

— Ahhh... Isso me deixou tão feliz quanto quando consegui escapar... — suspirou fantasiosa com as mãos nas bochechas — Porém, infelizmente...

Durante três segundos, fez-se um incômodo silêncio. Nesse pequeno tempo, o sorriso havia diminuído para um mais fraco e Juvia, pausadamente, abaixou a cabeça.

— ...Meu corpo me traiu — sussurrou por fim, em um evidente timbre entristecido.

Ela usou mais três segundos para seu silêncio, antes que uma lágrima percorresse o lado esquerdo de sua face, enquanto Gray continuou a mirá-la com seriedade. Por mais que começasse a pensar, não sabia o que falar ou fazer para tentar tranquilizá-la. No entanto, dentre aquele choro que prosseguia quase mudo, a Lockser cessou seus soluços ao colocar uma das mãos na frente da boca e tossir várias vezes, tomando sua atenção.

— Você está bem? — ele inquiriu depois de vê-la desencostar os dedos trêmulos dos lábios, cerrá-los e abaixá-los de imediato, visivelmente assustada.

— S-Sim — sorriu fraco ao engolir sua saliva, pouco ofegante. — Não foi nada...

— Mentira — alegou vendo, mesmo que encoberto, o nervosismo exibido no olhar dela. — Deixe-me ver!

Gray a pegou pouco brusco pelo pulso, e ainda que ela reclamasse tentando impedi-lo e fazê-lo soltá-la, acabara sucumbindo à força usada e, involuntariamente, cedeu para que ele visse o que pretendia esconder.

As marcas de seu sangue.

— Gray-sama, i-isso... — hesitou ao fitá-lo, espantado, soltar seu pulso. — Não ache que...

As palavras dela de imediato foram cortadas com um imprevisto ato. A mão com a palma tingida com o líquido vermelho foi pega outra vez e limpa pelo outro que a passava na camisa azul de uma maneira indelicada.

— Hmph, se não tinha um lenço para limpar, era só ter me falado! — proferiu grosseiro pouco antes de notar os olhos dela novamente marejados. — O que foi?!

Ela lentamente voltou a sorrir ao ter a mão devidamente limpa, solta.

— G-Gray-sama... — gaguejou trepidante, tendo os estreitos caminhos úmidos de sua face outra vez marcados.

— Hã?!

— Obri... — soluçou — O-Obrigada!...

Ele franziu as sobrancelhas, confuso. Mas antes que pudesse expressar sua dúvida pelo agradecimento, foi abraçado de súbito pela garota que começou a chorar abertamente. Tal lamento o assustou, roubando todas as palavras que poderia ter pensado para aquela ocasião. Entretanto, ainda assim, acolheu-a, permitindo que ela o abraçasse.

。。。

O Fullbuster tomou mais um pouco da bebida forte olhando a trilha de fumaça que saía da ponta acesa do terceiro cigarro em meio aos seus dedos. Não se lembrava de muitas situações em que a Lockser chorou daquele jeito, porém, todas as vezes, independentemente do pranto ter sido alto ou baixo, era igualmente perturbador.

Entendeu o motivo daquele lamento em especial em poucos instantes. Sua colega pensou que ele iria se afastar igual a muitos de seus amigos que, em acessos de sua doença, a isolavam sem ao menos ajudá-la, ou quando ajudavam, logo passavam a evitá-la receosos, mesmo que soubessem que sua doença não era contagiosa. Contudo, outro fator também diferenciou aquele pranto dos demais.

Quando o choro diminuiu, escutou a jovem com a cabeça confortavelmente repousada na curva de seu pescoço, apaziguando-se com o calor de seu corpo, pronunciar, pela primeira vez, um “Eu amo você” sussurrado timidamente.

Lembrar-se daquilo sempre o fazia sorrir. Nunca soube administrar corretamente seus sentimentos e escutar uma declaração vinda de uma garota enferma enquanto chorava em seus braços, o deixou claramente nervoso. Afinal, somente há, aproximadamente, três meses e meio se conheciam, e apesar de achar que o sentimento dela fosse bastante precipitado, além de deixá-lo meio encabulado, aos poucos, também foi capaz de deixá-lo feliz.

Ele gostou de se sentir amado. E uma sensação singular fixou-se em seu peito de acordo com a vinda das próximas semanas. Não soube distinguir se começara a sentir um pequeno gostar diferente ou até mesmo amor por ela. Porém, conforme o tempo passava, essa nova emoção se mostrava mais presente a cada nova batida de seu coração até com o menor dos sorrisos que a garota esboçava.

No entanto, nestes mesmos dias, viu-a muitas vezes mais pálida do que de costume, mais fraca, com olheiras profundas, fatigada, e suspeitava, inclusive, de que estivesse febril. Em alguns encontros, Juvia até mesmo pedia para que fosse carregasse para perto de sua casa — já que ele fora advertido por ela de não voltar lá —, e, nesses instantes, quando a via pegar no sono durante os breves minutos em seus braços, sentia as fortes pontadas de um inexplicável medo incomodá-lo.

Ele tragou o cigarro de novo, demoradamente.

Em quase seis meses de encontros, lembrou-se de quando a garota faltou uma semana inteira. Ambas as ausências não eram incomuns; quando estava sob observação constante de seu pai no trabalho, era impossível escapar, e a Lockser já teria faltado uns poucos dias na mesma semana, no máximo três. Mas ela nunca faltou de tal jeito sucessivo, o que fez seus batimentos cardíacos palpitarem em um nervosismo anormal até o dia em que tornou a vê-la.

Aquela foi a primeira vez que sentiu o real temor de não a ter mais consigo.

。。。

— Aconteceu alguma coisa, Gray-sama? — ela perguntou sentando-se mais perto, curiosa com o comportamento sério.

— Por que não veio esses dias? — questionou evitando expor sua preocupação na voz grave.

Durante um instante, ela fez uma pausa.

— Bem, eu tive uma recaída e... — abaixou os olhos — ...Tive que ser internada.

Aquele retorno fez a garganta dele secar.

— Voltei para casa hoje de manhã. Ainda preciso ficar de repouso, mas não estava mais aguentando ficar sem vê-lo... — Juvia continuou, sorrindo encabulada. — Desculpe-me por isso, Gray-sama...

— Idiota!

— Huh?

Repentinamente, o Fullbuster a envolveu em um abraço forte, mesclado entre o possessivo e protetor, surpreendendo-a, e tirando todas as possíveis palavras.

— Sua idiota! — repetiu agressivo. — Você ainda está fraca, não está?! Não deveria ter vindo!

— Está tudo bem... — murmurou moldando um sorriso tímido.

— Se acontecer alguma coisa com você, como acha que...

— Eu estarei sempre com você, Gray-sama — interrompeu-o branda, calando-o. Ela se separou alguns centímetros e o mirou exatamente nos olhos ao repousar a mão onde o coração de seu amado latejava acelerado. — Aqui. Sempre que pensar em mim, estarei com você...

Seus batimentos se tornaram ainda mais fortes ao ter a sensação não-identificada importunando fortemente seu peito enquanto a encarava tão próxima.

— Saber que a pessoa que amo se preocupa comigo, me deixa muito feliz... — Juvia sorriu gentilmente, apoiando o lado direito de sua feição na clavícula do rapaz, e apertou suavemente o tecido sob seus dedos. — Eu amo você, Gray...

Um segundo foi o tempo que uma discreta lágrima levou para escapar do olhar da Lockser e cortar seu sorriso. E mais um segundo foi o tempo necessário para que Gray abandonasse sua timidez ao levar uma de suas mãos à bochecha da garota, se aproximasse e abaixasse o próprio rosto para capturar os lábios rosados com um beijo suave.

Aquele foi um ato imprevisto até para si mesmo, mas beijá-la e aprofundá-lo, ainda que notasse a dificuldade que ela tinha para correspondê-lo quando os movimentos dentro de suas bocas prosseguiram lentos, foi uma maneira confusa e estranha, contudo incrivelmente capaz, de acalmar seus pensamentos, dizendo-lhe, internamente, que aqueles dias sem ela não passaram de um pesadelo e que, na verdade, Juvia, felizmente, continuava ali consigo.

Tiveram que se afastar em alguns segundos por causa da incômoda falta de ar. A Lockser abaixou os olhos levemente arregalados e bastante ruborizada, coisa que o preocupou de imediato.

— V-Você está bem? — inquiriu olhando-a acariciar cuidadosamente os lábios avermelhados.

— G-Gray... — lentamente, um grande sorriso se fixou no delicado semblante rubro e dois olhos brilhantes passaram a encará-lo. — Gray-sama m-me beijou...

A alegria dela com tal atitude fora tão grande que seu próprio corpo não aguentou e Juvia acabou se entregando ao iminente desmaio — com o diferencial de manter um largo sorriso abobado —, o que fez o Fullbuster pouco corado se desesperar para socorrê-la.

。。。

Ainda lhe restava metade do whisky e alguns cigarros para acompanhá-lo durante a trajetória do restante de suas memórias. Bebia mais rápido naquele ano, todavia, igual aos outros, aquele último gole acompanhado daquela lembrança trouxe um resíduo do sabor do primeiro beijo que dera nela; um gosto amargo de hortelã com remédios nem um pouco saboroso. Mas recordava-se de que voltar ao seu mundo real com aquela sensação diferente na boca foi altamente satisfatório.

Outros beijos acabaram vindo junto às semanas. Primeiramente, eram acanhados, entretanto, logo abandonaram seus pudores e se renderam à tentação.

Esses mesmos beijos deixaram-no com mais dúvidas em relação ao que sentia por ela. Em alguns dias, achava que havia começado a realmente corresponder aos sentimentos amorosos de sua amiga quando não parava de pensar nela e se sentia ansioso para encontrá-la o quanto antes, tê-la em seus braços, beijá-la e contemplar os sorrisos ingênuos de felicidade exibidos. Porém, em outros, achava somente que se forçava a sentir algo por ela ou que talvez só a beijava por compaixão, e nesses dias de incertezas, evitava trocar as agradáveis carícias. Contudo, no dia seguinte, estava tão atormentado pela insana vontade de juntar seus lábios aos dela que, quando a reencontrava, passava boa parte das duas horas compensando o dia perdido — e ambos adoravam isso.

Aquilo que sentia logo não pôde mais ser classificado como um mero gostar. E sem que percebesse, havia se apaixonado por ela.

Gray bebeu mais um pouco antes de acender o quinto cigarro.

。。。

— Você nunca brincou em um parque de diversões antes? — ele questionou vendo por cima do ombro esquerdo a maneira infantil que Juvia se exibia sobre um dos cavalos remanescentes com a pintura corroída.

— Já. Mas como faz muito tempo, não me lembro — respondeu sorridente. — E eu sei que não vou viver o bastante para criar memórias novas.

— Tch, não fale esse tipo de coisa — rebateu irritado. — Você vai.

A Lockser negou calmamente com a cabeça, voltando a se sentar ao lado dele, perto da beira da plataforma circular do carrossel, e repousou as mãos em seu próprio colo.

— Hoje, escutei a conversa dos meus pais quando voltamos de um exame pela manhã. Fingi que havia pegado no sono e ouvi que minha doença, ao contrário do esperado, está progredindo rápido — seu sorriso tornou-se triste. — E é bem provável que... eu nem passe desse ano.

Os batimentos cardíacos do Fullbuster imediatamente bateram apertados.

— É claro que vai passar. Não seja pessimista! — ele contestou nervoso, o que a fez rir um pouco.

— Fico feliz por ainda acreditar em mim... — Juvia sorriu suave, mas que, aos olhos do outro, fora forçado, um segundo antes de abaixar o rosto e olhar para os próprios joelhos cobertos pela saia do vestido.

Seu amado elevou uma mão e tocou o rosto rosado e melancólico ternamente. Como resposta, ela apoiou uma das mãos sobre a dele e o fitou.

— Eu amo você, Gray... — balbuciou, deixando uma parte de sua tristeza aflorar sem permissão no tom de voz.

Gray deslizou os dedos da bochecha para a nuca, emaranhando-os em algumas mechas do cabelo azul e a aproximou, juntando sua boca à dela em uma tentativa de procurar apaziguar ambas as angústias com os toques serenos de suas línguas. Juvia deixou as mãos sobre seus ombros e o trouxe para ainda mais perto, consentindo para que sua outra mão se firmasse na cintura feminina ao inclinar-se na direção dela.

— Gray-sama... — ela gemeu baixo ao se separar alguns centímetros e engolir a saliva mesclada em sua boca — ...Eu não quero me afastar de você, Gray-sama. E-Eu não quero perdê-lo...

Ele a segurou mais forte ao mesmo tempo que os braços de sua amiga se envolveram em seu pescoço, abraçando-o.

Ouviu-a chorar baixo. Ouviu aquele som tão perturbador perto de sua orelha e, inclusive, o molhar das lágrimas no tecido que cobria seu ombro. Era deveras desagradável e tirava sua paciência saber que não era capaz de evitá-lo, especialmente quando ela tinha uma forte razão para derramá-lo.

Mas isso não significava que não deveria tentar acalmá-lo.

O Fullbuster respirou fundo após alguns segundos e a espaçou. Não disse uma palavra sequer; guiou a mão até pouco abaixo do olho direito e enxugou uma das lágrimas que corria pelo rosto corado. Sua colega o observou confusa, e antes que ela pudesse manifestar qualquer pergunta, tomou seus lábios outra vez com um inesperado beijo.

Demorou um instante até que ela correspondesse aos movimentos da mesma forma branda e que, devagar, transformavam-se em necessitados, como se estivessem dividindo naquele beijo, pela última vez, suas emoções de maneira recíproca.

— G-Gray... — arfou ao parar, levantando a cabeça conforme o outro lhe puxava os cabelos suavemente e a boca ofegosa aproximava-se de sua orelha.

Ele acarinhou a nuca gentilmente e escorregou a outra mão pelo braço da jovem, até entrelaçarem seus dedos enquanto palavras baixas saiam de seus lábios, igual ao murmúrio de um de seus segredos mais ocultos para que somente ela pudesse escutá-lo.

Não revelou seus sentimentos; ainda não tinha coragem o bastante para isso. No entanto, disse frases significativas o suficiente para conseguir, pelo menos, purgar toda sua tristeza naquele momento e fazer um singelo sorriso calmo se abrir nos lábios avermelhados.

Gray se afastou alguns milímetros ao terminar. Soltou seus dedos e a mirou.

— Obrigada, Gray... — ela agradeceu sorrindo afetuosa, o que também o fez sorrir. — Muito obrigada...

Somente mais uma lágrima escapou antes de levar os dedos aos ombros de seu amado, ao mesmo tempo que ele fixou as mãos na cintura fina e voltaram a se aproximar devagar.

Beijaram-se. E neste mesmo contato tranquilo, experimentaram junto ao agradável gosto de seus sentimentos, o aflorar mais forte de seus anseios como amantes sedentos por carinhos em sua última noite de amor.

Carinhos estes que não seriam mais satisfeitos apenas com beijos.

Conduziram-se mutuamente, sem que notassem, a se deitarem no chão do carrossel, tentando ao máximo sustentar mais dos viciosos beijos longos compartilhados. Entretanto, a extrema ausência de oxigênio terminou obrigando-os a parar. O Fullbuster ergueu o corpo, sustentando-se pelos joelhos e os braços estendidos sobre ela, e a encarou. Trocaram olhares, igualmente ofegantes. E diferente das vezes em que já ficara naquela posição, o olhar dela exprimia não só um pouco de pudor, todavia, semelhante aos seus, um leve enevoar de anseio.

Ele engoliu em seco. A Lockser elevou uma das mãos devagar e afagou sua bochecha rubra com ternura, tranquilizando-o. Escorregou os dedos sutilmente por seu pescoço até pará-los na gola da camisa branca e abriu um sorriso convidativo, trazendo-o devagar para si.

Juvia queria que prosseguisse. E ele atendeu ao seu pedido.

Abaixou-se devagar sobre a garota e roçou seus lábios nos dela, avançando pausadamente dentre beijos pelo queixo até alcançar a curva do pescoço e acarinhá-la com uma agradável lambida. Como resposta, escutou-a proferir um gemido baixo. Gray continuou depositando pequenos beijos e leves sugadas na região, mudando seu foco algumas vezes para mordiscar o lóbulo da orelha, conseguindo, assim, arrecadar mais daqueles sons sensuais ainda pronunciados com graciosa timidez. Levou uma das mãos pelo corpo delgado e, ao alcançar a coxa esquerda, segurou-a e a levantou para que a perna correspondente envolvesse seu quadril. Uma das mãos dela deslizou na direção de seus cabelos negros, deixando alguns dedos enroscados em suas mechas, e a outra se dirigiu às costas e arrastou devagar as unhas por cima da roupa, levantando-a aos poucos para que passeasse de maneira gentil diretamente em sua pele.

Os ruídos femininos de prazer não demoraram a ganhar mais liberdade, tornando-se belas melodias que, vagarosamente, ascendiam sua excitação e atiçavam seus instintos para que persistisse com as provocações impudicas. Sua mão percorreu as curvas femininas apalpando voluptuosamente cada centímetro da carne, parando mais vezes no quadril e no seio direito, onde o massageava libidinosamente sobre a veste para obter os gemidos envergonhados que sempre o instigavam mais do que os outros.

Estava adorando ser o maestro de tal sinfonia. Cada toque atrevido de sua boca ou de seus dedos na pele macia causava sons que, apesar de diferenciados, eram todos excitantes. Contudo, por mais que ansiasse continuar com os afagos e carinhos ousados que lhe causavam esse prazer, viu-se obrigado a parar após alguns instantes. Suas vestes haviam se tornando um grande estorvo, ainda mais quando somadas ao sol daquela tarde quente de verão que o deixava mais impaciente para retirá-las. Não só a ele, mas certamente Juvia também, que transpirava e fazia os fios curtos de seu cabelo certas vezes grudar nos brotos de suor da pele pálida e as próprias madeixas azuis colarem-se na face.

Gray levantou o tronco e retirou a camisa apressado, jogando-a ao seu lado. Curvou-se na direção da jovem e encontrou sua boca mais uma vez, desejando saciar sua sede com o sabor da saliva amarga. Levou as mãos às costas dela e ao enfim conseguir localizar o pequeno zíper, desceu-o com dificuldade. Novamente, ele se espaçou, porém, dessa vez, a pedido dela. A Lockser ofegante guiou as mãos aos ombros e abaixou a parte de cima de seu vestido devagar até que revelasse seus seios desnudos. Por impulso, cobriu o busto com o braço e fechou as pálpebras ao virar a face corada centímetros para o lado, envergonhada com o que oferecia.

Foi impossível para o Fullbuster não se sentir mais excitado com a visão do tentador e delicado atributo do corpo feminino sob o seu. Inclinou-se lentamente sobre ela e beijou a bochecha rosada, a orelha, o maxilar e cada parte vulnerável conforme retirava o braço que cobria os seios lentamente, tentando não deixá-la mais acanhada do que visivelmente já estava. Ao conseguir, segurou sua mão, e acarinhou o ombro com beijos gentis, cursando assim o caminho da clavícula até alcançar a mama direita. Rodeou a aréola com a ponta da língua e mordiscou o mamilo com suavidade, conseguindo como resposta um pequeno suspiro tímido de prazer e duas mãos sobre seus cabelos.

Ele prosseguiu com sugadas esfomeadas na região sensível, colhendo, além de mais sons lascivos, agradáveis puxões de cabelo que o empurravam, cobiçando mais de seus depravados carinhos contra o seio da vez. Revezava voltando ao pescoço em longas lambidas, arrepiando-a, e dentre uma dessas ocasiões, sua mão esquerda caminhou pela pele macia, apalpando-a, rumo à calcinha que foi prontamente invadida para tocá-la sensualmente no clitóris, pressionando-o assim que o encontrou e friccionando-o ansioso, o que fazia a jovem arfar ainda mais de deleite e o instigava indescritivelmente.

Seu coração batia mais acelerado a cada novo ruído; pequenas gotas de suor escorriam pelos músculos de seu abdômen e sua respiração estava rápida. A ambição de fazê-la sua dominava não só sua razão, mas também, o seu corpo, que se excitava com o aroma do tesão feminino exalado dos poros e o gosto do suor salgado em sua boca.

Logo, foi necessário se erguer de novo. Sustentou-se no chão com os joelhos, retirou o cinto, desabotoou e abaixou as calças e a cueca que continham sua ereção latejante com visível pressa, sem parar de fitar a Lockser que o observava ofegosa com um dos olhos entreaberto e o outro fechado. As pernas dela se dobraram unidas à frente do corpo, cobrindo também sua face, e compelindo-o a se curvar na direção dela caso quisesse continuar a encará-la.

Quando o Fullbuster fez, sorriu: Juvia mesclava em seu sorriso tímido de garota, uma pitada de sua excitante ousadia como mulher.

Gray conduziu as mãos às laterais da peça íntima feminina e a puxou seguindo o contorno das pernas juntas até deixá-la nos pés e ela mesma pudesse terminar de tirá-la. Separou os joelhos devagar e se pôs entre as pernas que se cruzaram de imediato em seu quadril assim que ficou a milímetros de penetrá-la. Ele buscou a mão e entrelaçou seus dedos com os dela, mirou-a, firmando a mão na coxa direita, e prendeu-se aos lábios em um beijo atrapalhado um segundo antes de, por fim, tornarem-se apenas um.

Seus movimentos começaram pausados; não queria machucá-la, mas ainda que tivesse essa cautela, os gemidos femininos que interromperam o beijo traziam consigo o som da dor aguda. As pernas o apertavam firmemente, dificultando bastante sua movimentação; dedos tornaram a se embaraçar em seus cabelos e a puxá-los enquanto ela segurava forte em sua mão direita, gemendo algumas vezes seu nome dolorosamente.

Fascinante era uma boa palavra para descrever a sensação que o controlava quando sentia a pressão da intimidade quente e tão estreita em seu membro. Todavia, apesar de querer introduzir-se com mais veemência, tinha que se conter e deveria continuar a ser paciente.

Tentou se mover ainda mais lento, pausando seus movimentos certas vezes para beijar o pescoço, a fim de relaxá-la. Demorou uns segundos até que o desconforto que a garota sentia fosse enfim diminuindo, e assim que reduziu, sua velocidade foi aumentada e os suspiros que passaram a ser proferidos estavam sempre mais densos de prazer. Os apertos em seu quadril tinham enfraquecido — embora continuassem a atrapalhar a penetração — e nas vezes em que abria um dos olhos para observá-la, a Lockser mordia o lábio inferior com os olhos fechados, tentando abafar alguns dos barulhos libidinosos que, inevitavelmente, eram libertados.

Suas estocadas logo ganharam um ritmo mais forte e veloz quando se sentiu mais próximo de atingir o clímax. O quadril feminino passou a mover-se airoso para recebê-lo quando a penetrava mais fundo; a mão antes em seus cabelos caminhava tortuosa por suas costas suadas, arranhando-as, e os gemidos secos que ambos pronunciavam se embaralhavam de acordo com o aumento do atrito de suas carnes excitadas.

Gray buscou o tecido do vestido próximo à coxa e o apertou com força ao se arrepiar no momento em que a adentrou com mais vigor, deliciando-se com as contrações vaginais ao redor de seu pênis enquanto roçava com insistência no pequeno ponto intumescido do sexo encharcado. Bastaram alguns segundos para que Juvia arqueasse o pouco que conseguiu de seu corpo, colando-se a ele, e liberasse arfadas demoradas no mesmo segundo em que estremeceu, também alcançando o cobiçado ápice que o fez se acomodar no ponto mais fundo da intimidade antes de se derramar.

Imóveis, procuraram se apaziguar da adrenalina escutando suas respirações bastante ofegantes. Ele somente pôde tornar a fitá-la quando recuperou uma pequena parte do fôlego perdido. O peito da jovem subia e descia rapidamente, as pernas trêmulas envolvidas em seu quadril lentamente folgavam, e na expressão corada, um grande sorriso saciado se destacava.

O sorriso mais lindo que já teria visto.

Gray beijou-a brevemente, acariciando uma das pernas que o soltava e se deitou ao lado da Lockser. Ficaram em silêncio e, sorridentes, continuaram a ouvir o som de suas respirações agitadas até se acalmarem.

— Gray-sama? — ela quebrou a calmaria após alguns consideráveis segundos.

— Hm?

— Você vai me visitar quando estiver internada? — indagou sem intervenções, em um timbre ligeiramente preocupado.

— Como?... — o Fullbuster franziu as sobrancelhas, sem entendê-la.

— Bem, a minha doença... ela está começando a afetar seriamente a capacidade de funcionamento de alguns órgãos... — Juvia disparou com calma, abaixando seu olhar para fitar seus dedos ainda unidos aos de seu amado. — ...E parece que os remédios que comecei a tomar não estão sendo muito eficazes para retardar isso.

Um batimento do coração dele falhou.

— Em alguns dias, as doses serão aumentadas, e, provavelmente, terei que ser internada logo. Ainda não sei quando, mas meus pais já estão procurando um hospital para mim... — concluiu em um tom entristecido.

Fez-se alguns segundos de silêncio até que ele processasse todas as informações proferidas com cuidado e chegasse a apenas uma conclusão.

— Então, foi por isso que você quis fazer? — Gray perguntou seriamente, fazendo-a fitá-lo. — Para nos despedirmos?

Ela soltou um breve riso gentil, despertando sua confusão no olhar com a afirmação questionada feita.

— Não. Eu quis fazer para me sentir totalmente sua mulher... — revelou abrindo um sorriso afável — ...E para carregar, pelo tempo que me resta de vida, a lembrança de que, a primeira vez que fiz amor, foi com homem que eu amo, e que para sempre amarei...

Tal explicação o fez corar e, automaticamente, abaixar o olhar, envergonhado. Porém, também o fez se sentir feliz.

— Gray-sama?... — chamou-o depois de mais alguns segundos de silêncio, deixando agora a mão sobre o peitoral masculino.

— O quê?

— Você... vai me visitar? — insistiu.

Ele fechou os olhos e respirou fundo, colocando cuidadosamente a mão por cima da dela e segurando-a.

— Vou.

。。。

Foi loucura fazerem amor naquele lugar! E pensar que tal momento íntimo com sua amada poderia ter sido descoberto por qualquer um que resolvesse aparecer naquele lugar ainda o deixava constrangido.

Gray pigarreou antes de dar mais um gole no whisky. Gostaria que momentos como aquele tivessem se repetido, que se tivessem transado mais vezes, porém, infelizmente, não pôde ter um envolvimento igual àquele novamente. E de acordo com a passagem dos dias que traziam o começo do outono e o oitavo mês, quando a Lockser comparecia, estava visivelmente mais cansada, febril, pálida, tinha mais acessos de tosse com sangue e estava fraca o suficiente para, às vezes, sentir tontura. Depois de mais alguns dias, ela passou a apenas repousar a cabeça em seu ombro para descansar silenciosa entre o sofrimento com seus enjoos, e estes, quando mais fortes, faziam-na rapidamente se afastar para vomitar em um lugar onde ele não pudesse enxergá-la.

Interpretou que tais reações fossem devido aos fortes medicamentos. No entanto, ainda assim, era bastante preocupante vê-la daquela maneira, ainda mais frágil. Arriscava-se a perguntar todas as vezes se Juvia aceitava que ele pagasse seu tratamento em um dos melhores hospitais do país; que pudesse comprar seus remédios, ou que pudesse fazer qualquer coisa para ajudá-la. Mas ela sempre recusava e dizia que o melhor tratamento que ele poderia lhe oferecer era ficando ao seu lado, fazendo companhia durante aquelas duas curtas horas.

Em poucos dias, as ausências de sua amada amiga tornaram-se mais constantes. E, em um momento de pleno desespero, quando ela faltou consecutivamente pouco mais da metade do nono mês, levantou-se do carrossel e seguiu à residência dela, mesmo que não devesse.

O gole que deu na bebida dessa vez foi maior, combinado ao trago dado anteriormente.

。。。

Apesar de ele não querer transparecer, ele estava aflito. Bateu à porta da moradia com o nervosismo pulsando mais forte a cada novo batimento cardíaco. Não se importava com a maneira na qual seria recepcionado pelos amigos desconfiados de Juvia, ele só queria vê-la ou ter alguma notícia dela, independentemente de quão triste fosse.

A porta ainda demorou a ser aberta, mas ao ser, revelou a figura da ruiva séria e de cabelos longos; a tal Erza.

— Gray?... — ela estranhou, juntando as sobrancelhas. — O que você...

— Cadê ela? — Gray a interrompeu ao entrar na casa dando alguns passos para frente, fazendo-a recuar. — Onde Juvia está?!

— E-Ei! — Erza o seguiu e segurou em seu braço, parando-o. — Você não pode!

— Erza, o quê... — o outro de cabelos prateados se retirou de um dos quartos, abaixando a máscara descartável hospitalar que cobria sua boca e seu nariz, e ao encarar o homem à frente, cortou suas palavras.

— Lyon...

— Você...! — o homem trincou os dentes de fúria. Aproximou-se e elevou o Fullbuster pela gola do casaco branco. — O que diabos você está fazendo aqui, maldito?!

— Eu vim vê-la! — respondeu em um tom igualmente grosseiro, utilizando-se do mesmo olhar aborrecido ao puxar seu braço bruscamente, fazendo Erza soltá-lo, e empurrar o outro.

— Ela não precisa de visitas da pessoa que a deixou desse jeito! — exclamou cuspindo notadamente o desprezo que sentia pelo outro no final de cada uma das palavras.

— Do que você está falando? Eu não fiz nada! — retrucou empurrando-o novamente e seguindo em direção ao cômodo que acreditou ser o da Lockser.

— Você não vai entrar! — Lyon esbravejou ao segurá-lo pelo braço e o trazê-lo para trás.

— Eu vou! — retrucou, empurrando-o violentamente.

— Calem-se os dois! — Erza os interrompeu, diminuindo seu tom de voz após conseguir chamar as atenções antes que a iminente briga física começasse de fato. — Como acham que Juvia pode se recuperar se ficam gritando desse jeito?

Os dois a fitaram silenciosos, estabelecendo suas respectivas calmas.

— Gray — olhou-o, cruzando seus braços —, você pode vê-la. Mas não demore, Juvia precisa descansar.

— Erza, você não pode deixar! — Lyon objetou irritado assim que o Fullbuster passou por ele, batendo em seu ombro rudemente.

— Eu sei o que estou fazendo — afirmou, vendo-o entrar no quarto. — E também, vai ser bom para ela.

Gray engoliu em seco e abriu a porta do quarto devagar, com discreta ansiedade.

A pintura era branca; a iluminação do recinto era baixa e poucos eram os móveis arrumados no lugar. Ao lado da porta, sobre um pequeno móvel tinha seringas, luvas descartáveis, máscaras e toalhas brancas; entre o guarda-roupa branco de madeira e a poltrona acolchoada próxima a uma mesa de café baixa, estava a única janela do cômodo com somente uma brecha clara deixada pelas cortinas grossas. Perto da cama, do outro lado do quarto onde Juvia repousava na cama de hospital inclinada em um ângulo que a deixava confortavelmente sentada com o soro sendo aplicado sobre o dorso da mão direita, além de uma cadeira, tinha um criado-mudo com uma rosa branca dentro de um humilde vaso de vidro, uma caixa de lenços de papel aberta e alguns desses mesmos lenços sobre a peça, com destacados vestígios de sangue.

— J-Juvia?... — ele se aproximou em passos lentos, sentindo sua garganta secar mais.

— Gray-sama... — a Lockser sorriu contente ao vê-lo se sentar na cadeira próxima a si e analisá-la minuciosamente.

— O que aconteceu? — inquiriu atônito. — Por que você está desse jeito?!

— Parece que meu corpo não está conseguindo suportar muito bem o fruto da nossa primeira tarde de amor... — ela o respondeu calmamente, observando-o.

— Hã? — fitou-a mais confuso. — O fruto...? O que você quer dizer com isso?!

A Lockser pediu uma de suas mãos e a pousou devagar sobre seu ventre. Tornou a mirá-lo e alargou o delicado sorriso.

— Gray-sama — ela apertou a mão suavemente, com os olhos marejados —, eu estou grávida...

Gray a mirou com os olhos arregalados, incrédulo.

— V-Você...

— Sim... — uma lágrima de felicidade escorreu no canto de seu olhar sereno. — Tem um pouco de você... crescendo dentro de mim...

O Fullbuster ficou estático. Buscava palavras para expressar um pouco do grande misto de suas confusas emoções, alternando entre observar o local onde sua mão estava depositada e o rosto contente dela. Ficara tão surpreso que ao menos reagiu quando Lyon o retirou do quarto frio arrastando-o pelo casaco, derrubando a cadeira na qual estava sentado e fazendo a garota que começara a chorar reprovar a atitude em pedidos desesperados para que o deixasse ficar por mais tempo, mas fora em vão. E de tal forma continuou a ser levado até a saída, onde fora bruscamente empurrado.

。。。

Ainda se lembrava bem do susto que sentiu quando ouviu sobre a gravidez. Afinal, tinha apenas dezenove anos, esperava o resultado de sua carta de recomendação e jamais havia cuidado de um bebê antes! Contudo, mesmo que pensasse em todas as dificuldades e contras da delicada situação na qual se enquadrou, sentiu-se feliz.

No entanto, a felicidade sentida não durou por muito tempo. Uma das últimas coisas que Juvia disse naquela cena foi para aguardá-la no ponto de encontros, pois ela voltaria. De início, não entendeu o motivo de ela dizer aquilo, até porque, mesmo que os fiéis amigos não o permitissem, não desistiria de tentar ficar ao lado dela. Porém, assim que foi de novo à residência, no dia seguinte, compreendeu o que ela quis dizer.

A garota enferma não estava mais lá.

Erza somente lhe disse que, na noite anterior, a Lockser voltou ao hospital, tendo que ser internada às pressas. Não revelaria em qual hospital ela estava e ou daria o endereço. A mando dos pais dela, era para ele deixá-la e esquecê-la.

Gray terminou por contar a verdade para seus pais que, além de observarem-no horrorizados, criticaram-no cruelmente todos os dias e a qualquer momento por sua falta de responsabilidade; foi afastado do trabalho e, sem alternativas, tornou a comparecer ao carrossel abandonado diariamente, passando horas absurdas no lugar, esperando-a voltar.

A bebida desceu mais amarga por seu esôfago e o sabor do tabaco parou de agradá-lo.

。。。

O final do décimo mês de encontros estava próximo e trazia consigo um outono mais frio, anunciando que, em breve, o inverno chegaria.

Ele se levantou e colocou as mãos nos bolsos da calça, conservando no rosto inclinado para baixo uma expressão séria. Era a hora de se retirar, já que, novamente, Juvia não havia comparecido.

Gray ergueu a cabeça. Mas, ao longe, diferentemente das outras vezes, em vez de uma paisagem desabitada, enxergou a vinda de uma pessoa. Espremeu os olhos, procurando reconhecê-la. Ainda estava distante, contudo sabia que não era a Lockser. Ele andou na direção da figura desconhecida e ao enfim conseguir distingui-la, surpreendeu-se.

Era Erza.

— Não imaginei que o lugar onde vocês se encontravam fosse... assim — comentou com um sorriso ameno ao se encontrar com o Fullbuster, parando à sua frente.

— O que está fazendo aqui e como descobriu esse lugar? — inquiriu logo — Juvia falou?

— Eu sempre soube.

— O quê?! — espantou-se.

— Ela me contou sobre você, sobre onde vocês se encontravam... Sobre tudo — Erza sorriu mais largo. — Como você acha que ela conseguia fugir? Eu proibia Lyon de entrar no quarto e inventava algumas desculpas enquanto ela estava aqui com você. Mas como ela engravidou... Juvia acabou tendo que contar toda a verdade e, agora, todos já sabem.

Ele a encarou pouco mais calmo.

— Como ela soube que está grávida?

— Quando Juvia foi internada na vez anterior, alguns dias antes de você aparecer, foram feitos uns exames, e dentre eles, algo estranho foi visto em uma das radiografias pedidas. Após um exame de sangue mais preciso, a gravidez foi confirmada — ela o fitou mais séria. — Mas não vim para falar sobre isso.

— Sobre o que veio, então?

— Na verdade, eu vim pedir para ir vê-la — respondeu com seriedade. — Ela... está muito mal, Gray.

Os olhos do Fullbuster imediatamente se arregalaram.

— O que aconteceu com ela? — perguntou nervoso. — E com o bebê?!

— A verdade é que o bebê está piorando drasticamente a saúde de Juvia, e mesmo com os médicos e uma psicóloga conversando com ela diariamente, ela recusa o aborto. Além disso, embora a dosagem maior dos antigos medicamentos estivesse surtindo efeitos positivos, eles precisaram ser substituídos por mais fracos porque prejudicavam o desenvolvimento do feto — a amiga da Lockser fez uma breve pausa. — Infelizmente, eles não estão sendo eficazes, e por causa disso, o quadro dela está se agravando a cada minuto e as chances de sobrevivência, tornando-se mínimas. Depois de amanhã, Juvia será transferida para o hospital de outro estado, um mais avançado, para ver se algo ainda pode ser feito.

— Quem falou isso para você, foram os médicos?! — exaltou-se. — Eu pagarei o melhor hospital do país!, médicos melhores!...

— Os médicos falaram para ela e, depois, ela me contou — Erza respirou fundo. — Gray, Juvia me pediu para avisá-lo sobre isso, e para pedir que vá vê-la pela última vez.

— Última... vez? — repetiu, cerrando os punhos fortemente. — O que quer dizer com “última vez”?!

— Esse é o endereço — Erza o entregou em um pedaço de papel —, os pais dela voltaram para casa para arrumar as coisas antes da mudança. Quem passaria essa noite ao lado dela seria Lyon, mas ele não irá impedi-lo caso decida ficar lá, acredite.

Gray pegou o pequeno papel e o leu. Era no melhor hospital da cidade. Olhou uma última vez para Erza que fitava o chão com os lábios apertados e se retirou do lugar correndo.

Pegou um táxi até o local indicado no papel, o que mesmo assim demorou vários minutos para chegar por causa da grande distância. Ao chegar, falou com a recepcionista que chamou uma das enfermeiras para conduzi-lo ao apartamento onde sua amada estava.

A primeira pessoa que encontrou quando a porta fora aberta foi Lyon, e este o encarou fixamente, visivelmente aborrecido. Rebateu-o com o mesmo tipo de olhar enfadado, vendo-o se retirar devagar e claramente contra a própria vontade.

O Fullbuster voltou seu foco para Juvia quando o outro saiu do recinto. Ela estava com os olhos fechados, mais pálida e pouco mais magra, com um cateter nasal tipo óculos preso às narinas e ligada ao soro pelas costas da mão esquerda. Aproximou-se vagaroso, assustado com a visão da garota, e mirou o ventre muito pouco crescido coberto pelo cobertor branco. Repousou a mão sobre ele e o acariciou com gentileza.

— Gray... -sama?... — ela murmurou fraca abrindo lentamente os olhos.

Os olhos aflitos do mencionado direcionaram-se ao rosto dela.

— Você veio... — a Lockser esboçou um pequeno sorriso contente.

— Vim ver como vocês estão — respondeu, sério.

— Nós estávamos com muitas saudades... — Juvia soltou um pequeno riso após suas palavras, olhando a mão que a afagava.

— O que foi?

— Parece que tenho três meses... — ela colocou a mão carinhosamente por cima da dele. — Mal posso esperar para ver minha barriga crescer ainda mais...

Gray parou de acarinhá-la ao sentir seu coração apertar e segurou a mão feminina com um pouco de força.

— Gray-sama?

— Hnm?

— Poderia nos fazer companhia esta noite? — ela aumentou seu sorriso, entrelaçando seus dedos com os de seu amado.

O Fullbuster assentiu em silêncio, soltando-se da mão dela e sentando-se na cadeira ao lado, sem parar de olhá-la. Juvia suspirou exausta, tornando a fechar as pálpebras pesadas.

— Desculpe-me, Gray, mas... — sua voz soou calma e baixa — ...Estou me sentindo tão cansada...

— Repouse — tentou sorrir. — Amanhã passarei o dia com você e nosso filho.

— Isso me deixa feliz — Juvia sorriu novamente. — Estou ansiosa para passarmos o dia juntos...

Ele inclinou seu rosto para baixo, escondendo o olhar levemente marejado que denunciava a sua indesejada tristeza.

— Gray...

— O quê?

— Eu amo você...

。。。

Infelizmente, o amanhã não chegou.

Gray adoraria dizer que Juvia milagrosamente se recuperou, que alguns meses após aquele terrível episódio seu filho nasceu saudável e, poucos dias depois, Juvia e ele se casaram. Adoraria dizer, principalmente, que fazia sete anos que moravam juntos no apartamento amplo que comprou, e que, apesar de sua esposa ainda ter algumas complicações de saúde, ambos desfrutavam da ansiosa espera pela chegada de um segundo bebê. Mas, simplesmente, não podia.

O Fullbuster pisou na bituca de seu último cigarro após terminá-lo, um segundo depois que uma pétala das rosas brancas trazidas caiu ao lembrar-se da última frase dela.

Enquanto a Lockser dormia, pousou outra vez uma de suas mãos sobre o lugar onde seu filho se desenvolvia e monitorou-a. Contudo, em um segundo; em um maldito segundo, acabou pegando no sono sentado e não percebeu quando ela faleceu.

Desde então, a culpa jamais parou de atormentá-lo. Afinal, se não tivesse dormido naquela noite, teria chamado por algum médico ou enfermeiro que conseguisse evitar aquela grande perda. Mas junto a tal culpa, outra também continuava a perturbá-lo, e de maneira ainda maior. Era a culpa de nunca ter respondido a sua amada de maneira apropriada quando ainda tinha tempo; quando ainda podia apreciar a alegria em seus sorrisos, o brilho de seus olhos, o calor de seus carinhos e o seu recíproco amor...

Ele respirou fundo.

— Eu também amo você, Juvia Lockser — Gray disse melancólico a única frase que sempre proferia antes de se levantar do carrossel e, solitário, retornar ao seu outro mundo.

Notas finais
Particularmente, gostei desse meu primeiro U.A. Muito obrigada por ler & bgs. ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!