Pesta
1 We all fall down.
Notas iniciais
A morte vestia preto; Lukas podia jurar que vestia. Porque ele a vira, vira com os próprios olhos, e sabia que não seria fácil tirá-la da mente. Ela assombrava seus sonhos à noite e assombrava seu dia, como se estivesse preso em um pesadelo infindo.
O norueguês ouvia notícias sobre o continente. Talvez o mar fosse o suficiente para separá-lo da Morte Negra. Rezava por isso e, por alguns anos, fora atendido. Todavia, nem mesmo os quilômetros de água eram capazes de parar para sempre a bruxa, e um dia Lukas recebeu sua visita.
Baixa, torta, a pele doentiamente acinzentada, os olhos mortos, os trajes negros, a idosa ofereceu a Lukas um sorriso sem dentes e mostrou-lhe uma vassoura e um ancinho. O norueguês fez o sinal da cruz, mas a bruxa apenas riu tuberculosa e tocou-lhe o rosto. Imagens que Lukas nunca desejaria ter visto foram refletidas por olhos sem vida.
Para Noruega, cada dia se tornava mais difícil de suportar. Os corpos nas ruas se acumulavam e o cheiro fazia o estômago de Lukas dar voltas. As fazendas eram abandonadas e a comida rareava. Quem resistia ao poder da bruxa perversa fugia para o norte, o mais norte que pudessem alcançar, onde -segundo diziam- ainda era seguro.
A bruxa era impiedosa. Lukas imaginava que se alimentasse do sofrimento, das necroses, das feridas podres e da decomposição que se acumulava em pilhas.
Todos caiam perante à morte negra. A Noruega, só restava rezar.
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