Pessoas ajudam pessoas
1 Estou aqui
Notas iniciais
"Pessoas ajudam pessoas"
Eu me sentia como uma engrenagem, rodeado de outras pessoas semelhantes a mim mesmo, cheios das mesmas angústias e alegrias, mas onde eu terminava, eles começavam, com soluções para aquele martírio incômodo: tristezas que sumiam em sorrisos e abraços confortáveis. Gostaria de poder esquecer tudo isso que me assombra, não gostaria de jamais descobrir o que havia de errado comigo. Não gostaria de incomodá-los, uma criança tão jovem como era.. talvez tivesse vindo com defeito.
Era fácil demais falar, eu prometia a mim mesmo, na hora de dormir, agarrado ao travesseiro com o cheiro familiar que minha casa possuía, aquele cheiro familiar que embalava meu sono, eu prometia mudar, procurar uma felicidade, ser de sorrisos fáceis, ser eu mesmo por dentro e por fora.
Algo sempre me parecia errado com tudo aquilo.
Cresci como um efeito automático. Tornei-me o que eu temia anos antes.. eu descobri meu defeito, eu descobri que mesmo com minhas promessas não me livraria de tudo, que minhas memórias e ideias tempestuosas não teriam um final bom.
Eu queria ir para casa. Agarrar meu travesseiro, aspirar aquele cheiro familiar, pedir desculpas a minha família, quem sabe enganando-me com mais uma promessa.
Eu só não queria olhar para baixo. Tenho medo, tenho curiosidade de como minha vida teria sido se eu não estivesse “defeituoso”. Eu gostaria que alguém ouvisse meu pedido de socorro, alguém que percebesse que algo não está certo, e que eu não era de ferro, tampouco algum dia fui, eu simplesmente não tinha resistência alguma, era apenas uma casca de sentimentos auto-depreciativos.
E mesmo assim eu continuava ali, esperando que alguém viesse ao meu socorro. Se ao menos o cheiro salgado do mar não estivesse – agora – impregnado no meu ser, se não estivesse a um passo daquilo que era uma “vida comum” à uma morte precoce.
— Pare. – Senti uma mão segurando-me firme. O ar em minha garganta doía ao ser puxado. — Desça, não vai valer a pena depois.
— Como sabe? – Perguntei-lhe.
— Você não encontrou a pessoa certa que virá ao seu socorro, e se ela não vier, seja você mesmo seu salvador. – Respondeu. — Desça, deixe-me ajudá-lo, tenho certeza que precisa de um bom ombro amigo, sou um bom ouvinte.
— Não tenho muito para me arrepender depois mesmo. – Admiti, fingindo uma calma em frangalhos, descendo de encontro ao meu “salvador”. — O ar parece tão pesado.
— Ele é leve. Assim como tudo a nossa volta. – Sorriu gentilmente. — Hoje está frio, vamos a um lugar que tenha chocolate quente, você está congelando!
— É. – Segui ao lado daquele homem, “espontâneo e falante”, tão diferente de mim. — Como devo chamá-lo?
— Sem formalidades. Viktor está bom para mim. – Avisou. — Devo chamá-lo de padshiy angel, anjo caído?
— Yuuri, esse é meu nome. – Respondi-lhe, com o olhar ao horizonte daquele lugar tão cheio, cheio de vida e um ar contaminado das mais variantes emoções.
Eu gostaria de viver, mesmo estando defeituoso.
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