Pessoa Certa
1 One-Shot
Notas iniciais
Estava planejando ela já faz muito tempo e não sei se saiu de acordo com o que imaginei. A capa foi minha inspiração. Espero que gostem.
Beep. Beep. Beep.
O barulho da máquina era a melancólica melodia que embalava os sonhos de Akashi Seijurou. O fato de não ser o som de sua pulsação apenas o inquietava mais, assombrando-lhe ainda que inconsciente. Imagens soltas, pequenos pesadelos passavam pelas pálpebras fechadas impedindo que o ruivo descansasse adequadamente, vestido num yukata amassado de tanto tentar dormir na cama de visitas daquele quarto. Quantos dias sem dormir tranquilo já tinham passado? Quantas noites mais teria que acordar assustado pela mínima mudança de ritmo daquele barulhinho insistente da máquina? Quanto mais demoraria para o dono daquela pulsação abrir os olhos e assim lhe permitir sorrir de novo?
Akashi estava exausto, mas não cederia ao cansaço. Vários de seus amigos tinham vindo ver como ambos estavam, insistindo para que o jovem fosse descansar em sua casa, prometendo ficar junto ao corpo desacordado sobre a cama de hospital. Até Aomine e Murasakibara o fizeram, preocupados com o estado do ruivo.Todos os que se atreveram a sugerir isso receberam um olhar penetrante dos olhos agora rubros, cobertos por um brilho estranhamente dourado ao pronunciar sua decidida e absoluta resposta. Não.
Ao lado do seu amado, apenas ele permaneceria. Até a mãe do castanho não insistiu em ficar junto ao filho: quando Akashi estava naquele estado, era melhor não pressiona-lo. O perigo de sua outra personalidade aparecer era um freio até para os médicos, que não pediam para que ele se retirasse durante o exame rápido feito três vezes por dia. O pai de Akashi sequer conseguira entrar ali: um olhar de ódio e um "não se aproxime dele" foi o suficiente para que o homem fechasse a porta e se conformasse apenas em pagar o tratamento de Furihata Kouki.
Ambos Akashis sentiam a culpa remoer-lhe a alma. O mais velho sentara-se junto a mãe do castanho, após ser expulso do quarto por seu filho, e desabafara sobre sua parcela de culpa. Tinha notado a felicidade do filho mesmo após a derrota na WinterCup, e sabia que não era apenas a personalidade do seu filho de olhos vermelhos. Havia alguém envolvido e os sorrisos sinceros de seu filho se deviam a tal pessoa. Até a relação entre pai e filho melhorara, após uma conversa sincera, na qual entendeu que estava pressionando demais seu primogênito. Soube depois que seu filho fora encorajado pela pessoa com quem parecia manter um relacionamento. Estava orgulhoso e secretamente contente por seu filho ter encontrado alguém que o fizesse feliz. Apenas não esperava que essa pessoa fosse um garoto. De familia pobre. E do time que derrotou Seijurou. Impulsivo, sem tentar entender o que levou seu filho a se apaixonar por aquele garoto, sem escutar sequer uma explicação, sem nem olhar direito para os olhos de Furihata, o mais velho despejou palavras ácidas na direção dos dois. Dizia palavras que, no fundo, sabiam estar erradas, mas não conseguia se controlar: o preconceito era algo que estava muito sólido dentro do maior e, embora se abstesse do assunto em público, dentro de casa não o fez. Insultou-os com palavras de baixo calão, em meio a um discurso de que seu filho deveria achar uma mulher digna, com nome e educação, que levasse sua linhagem adiante. Uma enxurrada de motivos para seu relacionamento dar errado e inclusive acusar o menor de estar seduzindo seu filho por dinheiro.
O resultado de sua impulsividade foi desastroso: Seijurou entrou na defensiva imediatamente, colocando-se frente ao castanho numa mostra clara de que o protegeria do pai, replicando e elevando pouco a pouco o tom de voz durante a discussão. Já Kouki abaixou a cabeça, aceitando submisso cada frase horrenda sobre si, como se já esperasse cada palavra que saía da boca do Akashi mais velho.
Minutos longos de discussão entre ambos, até que o estalo de uma mão sobre a face alheia encerrou a briga. Com o rosto ardendo pelo golpe, Seijuro caiu ao chão e foi amparado pelo castanho, que olhou assustado para o pai de seu amado. Seu medo passou rapidamente a ser pena, não conseguiu evitar um suspiro que declarava tamanha pena que sentia daquele homem. Conseguiu controlar o ruivo, sussurrando-lhe ao ouvido que iriam para a casa da mãe dele, uma casa onde eles seriam sempre acolhidos e amados. Saíram de mãos dadas e, antes de cruzarem a porta, o castanho disse, com voz trêmula: "Eu amo seu filho, Senhor Akashi. Me entristece que não se lembre o que é amar alguém". A Senhora Furihata entendeu o porquê daquele homem se sentir culpado, mas não entendeu porque o fazia a ponto de chorar sobre o ombro dela ou para pagar tudo que o melhor hospital de Tóquio exigira para manter Kouki internado no quarto mais bem equipado e luxuoso dali. Aquela briga não tinha colocado seu filho em coma.
Isso era porque essa parcela de culpa pesava sobre os ombros do Akashi mais novo. E as lembranças do que ocorrera dançavam em seus sonhos, pregando-lhe peças e fazendo-o acordar de hora em hora, em desespero, sussurrando o nome de seu namorado. Fora um descuido seu. Estava debilitado, as vozes em sua mente brigavam entre si, deixando seu corpo sem comando específico. Kouki o guiava pelo jardim, até a saída da mansão, com palavras doces e a voz tranquila que o ruivo não escutava direito. Pensou que tudo daria certo. Tinha sido sincero com seu pai uma vez e ele lhe entendera tão bem... Porquê não tinha aceitado o garoto que ele tanto amava? Não sabia e, após tão intensa briga e um tapa que derrubou mais do que apenas seu corpo, estava se sentindo abandonado outra vez. E era isso que os dois garotos dentro de si discutiam: um sentindo-se abandonado e o outro exigindo que este visse as demais pessoas que tinham agora.
Em seu transe, soltou-se das mãos gentis de seu namorado e passou a caminhar sozinho, tentando se concentrar, tentando controlar o que ocorria dentro de sua cabeça. Furihata o soltou, seguindo-o de perto, mas sem chegar a incomoda-lo. Akashi precisava de espaço e tempo para se recompor. Mas aquela decisão custaria caro. Não viu nem ouviu quando atravessou o portão e adentrou a rodovia que ficava de frente pra Mansão. Só notou o que estava acontecendo depois que um par de mãos o empurraram e receberam em seu lugar o duro choque contra um carro que vinha a alta velocidade.
Costelas quebradas, os olhos severamente danificados e um coma.
Um garoto que se jogara na frente de um carro para salvar seu namorado, merecia ser reconhecido como a pessoa certa para o ruivo. Ambos os Akashis estavam convictos disso agora, porém podia ser tarde demais. Existia a possibilidade de Kouki não acordar em anos e um futuro com seu filho sofrendo aos pés de uma cama de hospital não era o que o Sr.Akashi desejava, muito menos que aquilo que sua impulsividade provocou causasse tanta dor naquela senhora gentil e seu filho. Nenhum dos três merecia todo aquele sofrimento por uma atitude impensada sua. E seu único método para aliviar um pouco essa dor, era pagando o bom e o melhor para eles, até se conseguir se aproximar de seu filho e seu amado e se redimir devidamente. Ofereceu carona para a senhora Furihata, que agradeceu com aquele jeitinho tímido que também tinha notado no filho dela. Adorável... Enquanto amanhecia e eles entravam em um carro de luxo, o homem desejou com toda sua alma que o jovem acordasse. Só assim poderia dizer que os aceitava.
No quarto decorado com simplicidade, de modo a parecer um quarto de visitas, olhos rubis se abriram de uma vez, supresos pela luz do dia que entrava pela janela. E se iluminaram quando notaram o movimento do corpo que antes estava imóvel debaixo daquele yukata.
- Kouki? — sua voz estava fraca e rouca, mas foi o suficiente para que o castanho o reconhecesse. O sorriso mais amoroso que já vira na vida se abriu diante de seus olhos.
- Sei-chan — as mãos fracas se ergueram e Akashi se aproximou, sentando na cama, perto do seu amado. Com cuidado, ajudou as mãos do menor alcançarem seu rosto, completamente desconcertado. Porque Kouki sorria para ele? Era obvio que o menor tinha percebido as vendas em seus olhos e sua impossibilidade de ver, então porque continuava sorrindo tão alegre e aliviado?
- Sei-chan, Sei-chan... Ainda bem que não se feriu, não me perdoaria se algo tivesse acontecido com você — as palavras sinceras, ditas com aquela voz amorosa e sem nenhum traço de dor, abalou suas duas personalidades, o fazendo abaixar a cabeça até que esta se apoiasse sobre as pernas do menor. Lágrimas desabaram sobre o colo do castanho, que continuava sorrindo enquanto acariciava os cabelos de seu ruivo.
- Kouki... Kouki... — entre soluços, Akashi se desfizera de toda sua máscara de frieza e se tornara o garoto de 17 anos que tinha pavor a perder alguém que amava tanto outra vez.
- Eu te amo, Sei-chan. Te amo, te amo — o castanho repetia seus sentimentos uma e outra vez para que o ruivo jamais esquecesse. Sacrificaria sua vida pelo garoto que ama e seus agora inúteis olhos eram a prova disso. A prova de que amava Akashi Seijurou.
- Vou cuidar de você o resto da minha vida, Kouki. Nunca vou abandona-lo porque amo você, nada nem ninguém vai me tirar de você, eu prometo, Kouki. Acredite em mim, nunca mais soltarei sua mão. Meu Kouki... Kouki...
- Eu nunca duvidei disso, Sei-chan. Nunca duvidei.
Notas finais
Obrigada de novo!
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