Pesadelos
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Mensagem: “A aula terminará às 21h30min. Pode me esperar em frente à igreja?”
Era Rose. Mandei uma mensagem concordando e fui para o local combinado.
É uma igreja bonita e grande. Fica no centro da cidade. Tem quatro torres grandes e varias outras pequenas, além de várias estatuas no telhado.
Eu nunca quis me aproximar de igrejas, odeio todo a hipocrisia que tem la dentro. As únicas coisas que me chamam a atenção são a estrutura e as histórias sobre demônios, nada mais.
— Olá, menino.
— Olá, menina. – Rose apareceu.
— Me leva para casa?
— Sim. – começamos a descer a rua. A casa de Rose ficava a 30 minutos de caminhada. Era um caminho escuro e longo. Não deixaria ir sozinha.
— Você estava me dizendo na escola que teve um sonho parecido. – lembrou.
— Ah sim. Espero que não ache que estou louco.
— Com certeza não acharei.
— Eu tive um sonho como o seu, mas no meu caso era uma garota. Uma garota incrivelmente forte que me deu uma bela surra. – dei uma pausa e a olhei para saber se estava acreditando ou não. Acenou com a cabeça como sinal de aprovação — Era uma garota relativamente baixa e magra. Parecia uma pessoa normal, a não ser pela raiva, brutalidade e força. – parei de andar e me empolguei – ela quebrou vários ossos do meu corpo sem nenhum esforço. E aquilo tudo acontecia como se fosse real, eu podia sentir cada pancada, cada osso quebrado, cada gota de sangue.
Ao final do sonho ela me jogou do segundo andar, durante a queda pude ver seu sorriso e quando cheguei lá embaixo acordei. Depois desse sonho essa cicatriz apareceu. – Rose ouviu a tudo como uma criança interessada em algo. Não piscou, nem discordou. Ficou imóvel esperando eu terminar. – diz algo, por favor.
— Não sei o que dizer. – disse ela olhando para baixo.
— Eu sei, é difícil acreditar. – me arrependi de ter contado.
— Não, não é. – seus olhos brilharam – na verdade meu sonho foi idêntico ao seu.
— Como assim? – perguntei intrigado.
— Eu também apanhei em meu sonho, mas de um homem negro, alto e horrivelmente deformado. Ele colocou as mãos em meu rosto e de alguma forma me queimou. Ardeu, doeu. Chorei e me debati, mas ele não me soltou. – Rose parecia espantada, falava alto e gesticulava – Quando eu ja não tinha mais forças ele quebrou meu pescoço. – ela diminui o tom de voz e passou a mão sobre seu pescoço como se estivesse sentido a mesma dor naquele momento. – Acordei na mesma hora ofegante e molhada. Levantei-me eu fui ao banheiro, quando me vi no espelho estava com essa marca no rosto. – ela passou a mão no rosto e ficou quieta.
— Isso é quase impossível de acreditar. – continuei andando e Rose me seguiu.
— Não sei. Mas não é algo normal. Estou com medo desde então...
Continuamos andando sem dizer nada um para o outro. Ficamos perdidos em pensamentos. Por que nós dois tivemos esses sonhos e acordamos com esses hematomas?
-Tem algo que eu ainda não disse – Rose parou de andar e olhou para mim.
— O que faltou me dizer?
— O homem em meu sonho, — ela pausou e olhou para o lado como se quisesse lembrar-se de algo – o nome dele era Ater.
— Ater? – eu já ouvi este nome.
— Sim, Ater. O nome que eu nunca tinha escutado até você fazer aquela brincadeira estupida comigo. – Rose parecia nervosa.
— Rose, calma. Não precisa ficar nervosa assim. É só um sonho. – eu queria acalma-la, mas estava tão nervoso quanto ela. Como ela pode ter sonhado com algo assim?
— Tem mais uma coisa para dizer.
— O que? – esperava qualquer coisa agora.
_ Ater repetiu para mim as mesmas palavras que você disse quando nos conhecemos: “Cristãos só...”
_ “... acreditam em demônios quando estão em igrejas.” – uma voz atrás de nós continuou a frase – Lindo... Estão descobrindo tudo juntos.
_Thomas, é o homem de meu sonho – Rose sussurrou em meu ouvido e segurou meu braço enquanto o homem vinha em nossa direção.
Ele estava com um casaco marrom, parecia pesado. E mesmo estando a uma boa distancia, eu podia sentir um cheiro forte e estranho vindo dele.
Eu realmente não sabia o que fazer. Como assim um homem, que provavelmente seria um demônio, sai do sonho de Rose e aparece assim na nossa frente?
— Boa noite, jovens. – disse ele com um tom sarcástico
— Rose, vamos embora – peguei no dela.
— Não, Thomas. – ela se soltou.
— O que?!
— Vamos ouvir o que ele tem a nos dizer.
— Como?! – que merda ela pode estar pensando? – Ele não tem nada a nos dizer, Rose.
— Pelo contrário, senhor Thomas. Tenho algumas coisas a dizer. – Ater voltou a falar – Deveria ser mais corajoso assim como a Senhorita Rose, Senhor Thomas.
— Quem é você? Como sabe nossos nomes e o que quer?
— Ahn? Eu achei que a Senhorita Rose já havia lhe contado sobre minha pessoa. Do mesmo modo que você deveria ter contado a ela sobre Lilith.
— Lilith? O que é Lilith? E Rose não me disse nada sobre você! – menti.
— Thomas, não minta. – disse Rose que estava atrás de mim apenas observando. – eu lhe contei sobre ele sim. Meu sonho...
— Sonho?! – eu já estava gritando – não confunda sonhos com realidade, Rose.
— Sinto lhe informar, moleque, mas o que vocês tiveram não foi um simples sonho.
— Você não sabe nem o que esta dizendo – peguei novamente no braço de Rose – Vamos, Rose.”
— Moleque! – Ater avançou sobre mim tão rápido quanto eu pude ver – Não me ignore assim. Deveria ter pensado que coisas assim poderiam acontecer antes de sair por ai fazendo brincadeira com o que não conhece.
— Mas de que merda você esta falando? – tentei falar. Minha voz quase não saiu pois estava sem ar.
— Solte-o – gritou Rose. No mesmo momento cai no chão.
— Não lembra, Senhor Thomas? – Ater continuo falando como se aquilo não tivesse acontecido. – Há 3 anos, pouco tempo depois de você ter conhecido a Senhorita Rose.
Aos poucos fui lembrando-me. Ha alguns anos eu gostava de fazer brincadeiras relacionada a bruxaria, maçonaria e satanismo, mesmo sem saber muito sobre o assunto e sempre desacreditando, apenas para assustar alguns amigos.
Uma dessas brincadeiras foi para assustar Rose. Eu tinha visto um pequeno ritual sobre satanismo e resolvi mostrar a ela que era a pessoas mais cristã que conhecia.
— Acho que consegue se lembrar agora. – Ater parecia um pouco nervoso agora – um pirralho que mal sabia andar fazendo rituais que nem tinha conhecimento. Resolveu usar o próprio sangue para fazer coisas que não tinha conhecimento. E ainda leva uma garota inocente. – olhamos para Rose.
— Mentira! – gritei – isso é impossível. Aquilo foi apenas uma brincadeira. Isso-não-acontece-na-vida-real. – falei pausadamente querendo me convencer também do que estava dizendo.
— Senhor Thomas, não tenho paciência com crianças. Por que não pode acreditar? Tem medo?
— Eu acredito. – mais uma vez falou Rose atrás de mim.
— Como acreditar numa palhaçada dessas, Rose?
— Eu acredito porque é verdade, Thomas. – ela me encarou firme. – ha alguns anos você acreditaria. O que acontece agora?
— Não sei...
— Droga! – Ater não me deixou terminar de falar e me acertou um soco no rosto. Senti uma dor horrível. – Se você não acredita vou te provar.
— Pare! – ouvi a voz de Rose e depois uma pancada. Ater a jogou para longe, ela caiu desacordada.
Toda aquela merda não poderia estar acontecendo. Não pode existir demônios que saem de sonhos e vão para a vida real. Uma pessoa normal não pode acertar outra como Ater fez com Rose.
Se isso realmente for real com certeza morrerei. Ater esta me acertando socos seguidos sem parar.
Mas se isso não for real, se for mais um sonho, nada acontecerá comigo se eu revidar.
— Do que esta rindo, idiota? – Ater parou com o espancamento quando me viu sorrir.
— Da sua cara de merda.
— Seu bosta! – ele tentou me acertar mais uma vez, mas eu consegui segurar sua mão. Tentou me acertou com a outra, mas segurei da mesma forma.
“Agora vamos ver o que acontece” pensei. Soltei suas mãos e acertei um soco em seu rosto. Aquilo doeu muito mais em mim do que nele. Meus olhos arderam.
— Por favor. É só isso que pode fazer? – perguntou ele parecendo nem ter sentido – faça melhor...
Não deixei Ater terminar de falar e acertei outro. Dessa vez foi forte o suficiente para fazê-lo virar o rosto. Antes que pudesse falar de novo acertei outro que o fez ir para trás. De alguma forma meus socos estavam ficando cada vez mais fortes.
Fechei meu punho novamente e acertei outro. Agora Ater caiu a dois metros de mim.
Não importa se isso é sonho ou realidade, por alguma razão eu pude fazer e a balança parece estar mudando de lado.
— Parece que esta aprendendo, moleque. – disse Ater enquanto se levantava. Não me importei com o que ele falava. Eu estava indo em direção a Rose. Tinha que ver se ele estava bem. – Onde pensa que vai? – gritou ele.
— Rose. Rose acorda, por favor. – tentei coloca sentada e a sacudi. – Rose acorda. Rose... – Ater ja estava perto de nós e me acertou um chute na cabeça.
— Não devia se preocupar tanto com ela. Você quem esta em perigo aqui. – apesar do forte zumbido em meu ouvido consegui ouvi-lo.
— Saia de perto dela! – gritei enquanto tentava ficar de pé. Tonto por causa da pancada.
— Você não esta nem conseguindo ficar em pé. Estou com pena de ti.
Fechei meus olhos e respirei fundo tentando parar a tontura. Melhorou um pouco, mas no mesmo instante senti meu rosto, meus braços e minhas pernas ficarem quentes. Talvez fosse a raiva. Meu coração estava batendo rapidamente e eu podia ouvir a pulsação nos meus ouvidos. Naquela hora senti uma vontade imensa de bater em algo ou alguém.
Corri em direção a Ater e o agarrei. Não sei como pude erguer um homem do tamanho dele, mas consegui. Continuei correndo sem perder a velocidade. Eu realmente estava gostando daquilo.
Senti uma parada brusca, Ater escorreu de meus braços e caiu no chão junto com alguns escombros.
Afastei-me para poder ver o estrago. Derrubei parte do muro, mas aquilo não parecia o suficiente, meu corpo ainda ardia e queimava.
Ater ja estava em pé e olhando para mim. Corri em direção a ele novamente com os punhos fechados. Acertei um soco em seu rosto, e outro e outro. Ele caiu no chão. O chutei, na barriga, no peito e na cabeça. Eu não queria parar com aquilo, estava bem e cada vez com mais vontade.
— Para! – um grito alto ecoou. Parecia ter vindo de todos os lados. Parei. Tentei encontrar de onde veio o grito. Virei-me. Rose estava em pé atrás de nós
— Rose – fui a sua direção. – Você esta bem?
— Sim. – respondeu rapidamente. – O que acha que estava fazendo? Você ia mata-lo.
— Era o que eu queria – Virei-me para vê-lo, mas não estava mais ali. – onde ele foi? Apareça! – gritei.
— Thomas. Thomas, ele se foi. – disse Rose enquanto me virava em sua direção – Ai! – Rose pulou para trás. – Você esta quente, queimando.
— Como?
— Quem são vocês? – uma voz veio de dentro da casa. – Vejam o que vocês fizeram! Vou chamar a policia seus bandidos.
— Vamos – disse Rose e saiu correndo na minha frente.
Eu a segui, corremos por 10 minutos. Achei desnecessário, mas aproveitei pra tentar desabafar. Paramos em frente a casa dela.
— Como assim... Estou quente? – perguntei enquanto tentava recuperar o ar.
— Você estava fervendo – disse ela colocando a mão em mim com receio. – mas não esta mais.
— Hm...
-Consegue aceitar agora, Thomas?
— Aceitar o que?
— Que tudo que esta acontecendo é verdade. – Rose mudou o tom.
— Aceitar? Como posso...
— É Thomas. Aceitar! – me interrompeu. – Você acha que é normal um garoto como você conseguir derrubar um homem daquele tamanho? Você acha que é normal você quebrar um muro como quebrou? Você acha normal seu corpo ter fervido daquele jeito? Você acha normal que depois de tudo isso nós estarmos intactos, sem nenhum machucado? – Agora que Rose disse eu percebi. Olhei para meus braços e seu rosto. Estávamos intactos. Sem nenhum machucado ou hematoma.
— Há muito para entendermos. – me rendi.
Parece que tudo isso é fato. Não tem como fugir. Terei que aceitar e tentar entender.
Olhei para os céus, a lua estava quase em cima de nós. Olhei para o relógio 22h56min. Estava um pouco tarde e eu tinha que ir embora.
— Vou entrar Thomas. – disse Rose, me despertando dos meus pensamentos.
— Ah sim, ok – respondi rapidamente – Você ficará bem?
— Acho que sim. E você, voltará bem? Será seguro?
— Não sei. – Eu estava com medo, mas tinha que ir – Ficarei bem. Beijos – me despedi com um beijo no rosto e a esperei entrar.
Assim que o portão bateu eu olhei para os lados. Só eu estava ali. Respirei fundo e comecei a andar. Cheguei ao ponto e não havia ninguém. O ônibus não demorou a chegar. Subi. Sentei longe da janela e evitei olhar para fora. Eu realmente estava assustado. Cerca de 30 minutos depois cheguei ao meu ponto. Desci e andei o mais rápido possível para chegar a casa. Assim que entrei meu coração desacelerou, fiquei mais calmo. A voz de minha mãe perguntando se estou bem me tranquilizou.
Fui direto para a cama. Sem janta, sem banho e sem sono. Peguei meu celular para ver as horas: 23h49min. Havia também algumas mensagens. Não as li. Estava pensando em muitas coisas. As imagens de hoje não saiam de minha cabeça. Uma brincadeira idiota, Ater, Rose... Dormi.
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