Notas iniciais
Olá pessoinhas!

Esse conto surgiu através de uma brincadeira num grupo de rpg no facebook.É minha primeira tentativa com o gênero de terror, então espero que gostem. Beijinhos!

Era uma noite tranquila, perfeita para um passeio pelo bosque à luz da meia noite. Estava acampando com meu irmão assim como fazíamos antes da morte de nossos pais, recordando a infância e dando um tempo de toda a correria do dia a dia. Lucas havia saído para buscar lenha enquanto eu organizava nossas barracas, mas passado vinte minutos de sua ausência peguei a lanterna e segui a trilha preocupado.

Caminhei uns bons cinco minutos e nada, estava prestes a voltar para o acampamento quando ouço um barulho estranho ao longe por trás das árvores. Ignorando toda a cautela e sendo guiado pela curiosidade, saio da trilha adentrando os confins do bosque, seguindo o barulho que a cada passo se torna mais audível e horripilante. Guinchos e gritos misturados ao som de metal se misturam e não consigo identificar se é animal ou humano, um alarme em meu cérebro me manda voltar, mas meus pés não obedecem e sigo cada vez mais adiante sentindo os pelos dos meus braços e os cabelos na minha nuca eriçarem.

"Mau sinal" penso eu, e como se o pensamento não fosse o suficiente, o crocitar de corvos se une à cacofonia de sons revoando ao meu redor como as aves negras que me cercam num redemoinho de penas e bicos afiados. A lanterna cai de minhas mãos ao passo que me abaixo tentando me proteger do ataque repentino; o facho de luz não ilumina mais que um palmo à frente dificultando minha visão. Corro assustado, tropeço e caio.

Ouço um barulho e me escondo atrás de uma árvore tentando controlar a respiração ofegante para não evidenciar minha presença e dou uma espiada ao redor usando a árvore como escudo. Não há nada além de sombras projetadas pela luz da lua e vultos a distância; os guinchos e gritos cessaram dando lugar ao silêncio ainda mais perturbador. Penso em meu irmão e tenho a certeza de que ele se perdeu no meio do escuro.

"Tenho que procura — lo. Tenho que encontrar Lucas"

O instinto de preservação me impede de gritar por ele e vou me arrastando para longe dali. Os ruídos ficam mais distantes conforme procuro o caminho de volta. Quanto mais me afasto mais pareço adentrar a escuridão, tendo apenas o som de meus passos pisoteando os galhos velhos e putrefatos como companhia. A temperatura começa a cair e vejo minha respiração condensar conforme me aproximo do que parece ser um lago. O cheiro de enxofre e podridão permeia o ar e levo apenas alguns segundos para entender de onde vem o odor fétido.

Semicerro os olhos tentando enxergar melhor a superfície do lago e todo sangue gela em minhas veias com o que vejo: corpos ensanguentados e mutilados começam a emergir da água e um grito estridente soa através dos carvalhos como o grito da própria morte

"Lucas!"

Era ele, eu sei!

Saio correndo pela escuridão e logo vejo a cena mais assustadora de toda minha vida: um homem mutilado gemendo e se arrastando pela floresta, os órgãos caindo de seu peito aberto e sendo pisoteados por seus pés que se encontravam em carne viva expondo parte dos ossos.

Mais corpos rastejantes foram se aproximando deixando uma trilha de sangue e lodo por onde passavam e eu corro desesperado torcendo com todas as forças para não reconhecer o rosto de meu irmão em meio a todos aqueles cadáveres. Os guinchos se tornam mais altos e ensurdecedores e o pensamento de que seja tarde demais para sair vivo desse bosque se instala em minha mente e mesmo estando apavorado, continuo a procurar Lucas em meio aqueles corpos que se arrastavam. Eu precisava sair daquele lugar assustador.

Vejo algo se mexendo nos arbustos em frente e o encaro petrificado indagando o que mais falta aparecer naquele cenário bizarro e horripilante, e sou surpreendido quando uma jovem moça aparece radiando uma beleza estonteante, contrastando com tudo aquilo que me cercava. Quando estou prestes a me aproximar movido pelo desejo de proteger tal bela criatura, um sorriso de escárnio se forma em seu rosto e um brilho demoníaco toma seus olhos de rapina; o riso de deboche percorre o bosque, um sussurro insano e sádico revelando sua verdadeira natureza, e o pânico me toma de vez quando ela ergue às mãos ensanguentadas carregando a cabeça de Lucas toda desfigurada, com o olhar vítreo e aterrador refletindo o verdadeiro inferno.

Outro grito ecoa pela copa das árvores, e levo um tempo para compreender que o grito na escuridão era meu. Sinto a energia ser drenada de meu corpo e tudo começa a girar ao meu redor, até que sou tomado pelo breu e desabo no chão frio.

O toque cálido e repentino me faz acordar num sobressalto fazendo minha cabeça pulsar com o movimento rápido. Ergo o olhar e sou tomado pela confusão quando vejo meu irmão são e salvo ao meu lado. Vasculho o bosque em busca de qualquer coisa fora do comum e não vejo nada além dos imensos carvalhos.

"Teria sido tudo um pesadelo? Uma visão distorcida de minha mente deturpada?"

Foi difícil não pensar em meus pais e de toda a aflição em seus últimos instantes de vida. Minha mãe que acometida pela doença foi perdendo o senso de realidade até o ponto que o corpo e mente parou de resistir e se entregou aos demônios que a fizeram atentar contra a própria vida. E meu pai que desolado por não conseguir impedi — lá se entregou aos mais diversos vícios que no final o levou ao mesmo desfecho. Estaria eu sendo acometido pela mesma loucura de minha amada mãe?

Me livrei de tal pensamento e levantei sendo amparado por Lucas e só então me dei conta do sangue em minhas mãos.

— Você bateu a cabeça — explicou meu irmão indicando o talho sobre minha têmpora.

— O que aconteceu? Por onde esteve? — Perguntei desconfiado, observando atentamente o homem ao meu lado.

— Estava procurando lenha como disse que faria — respondeu o obvio dando de ombros — Mas então o ouvi chamar meu nome logo depois que um revoado de pássaros passou por mim…

— Pássaros? Corvos você quis dizer.

— Que diferença faz? — Ele debochou e me devolveu a lanterna — Os segui até aqui e o encontrei desmaiado, provável que tenha sido atacado por eles. Venha, quero te mostrar uma coisa.

Algo revolveu em meu estômago e dei um passo atrás, desejando retomar logo meu estado anterior antes de todo aquele pesadelo. Respirei fundo e segui Lucas tentando me livrar da agonia que queimava em meu peito e das imagens assustadoras impregnadas em meu cérebro. Caminhamos em silêncio ouvindo a respiração um do outro e logo chegamos em uma clareira onde havia uma simples cabana e um celeiro velho.

Nos aproximamos e subimos as escadas que davam na varanda, inspecionando o casebre que apesar da aparência desgastada estava em ótimas condições. Testei a fechadura e a porta se abriu com um rangido dando as boas vindas ao lugar. Liguei o interruptor perto da porta e demos de cara com uma pequena sala de estar e uma escada que provavelmente levava aos quartos no andar superior. Mais adiante encontramos a cozinha onde a mesa estava posta para o jantar e as panelas descansavam sobre o fogão, tudo na mais perfeita ordem como se aguardassem o retorno de seus moradores.

— Curioso não acha? — Indagou Lucas me pegando de surpresa — É como se esperasse alguém para o jantar.

Encarei meu irmão de soslaio, incomodado com seu comentário. Era fato que compartilhávamos de uma conexão sendo irmãos, mas naquele ambiente suas palavras pareceram sombrias e suspeitas demais. Ele saiu pela porta dos fundos que dava acesso direto ao celeiro e eu continuei a verificar os cômodos procurando por detalhes a cerca daquele lugar. Subi as escadas e acendi outro interruptor, encontrando três portas fechadas. A primeira era um quarto simples contendo uma cama de solteiro e um criado mudo, e a segunda dava para o banheiro igualmente simples. Conforme fui me aproximando do quarto mais afastado um odor acre pinicou minhas narinas fazendo meu estomago embrulhar, e quando adentrei a terceira e última porta fui levado de volta ao pesadelo inicial da noite, meu sangue correndo frenético em minhas veias e o coração batendo desesperado querendo sair pela boca tamanho o horror que se repetia.

"Não pode ser…"

Deitado sobre a cama estava o homem do bosque, os braços e pernas estendidos amarrado às extremidades da cama e seu corpo aberto como se tivesse sido dilacerado por um animal, com os órgãos expostos e rompidos saindo para fora de sua cavidade. O sangue formava uma poça sobre o lençol branco contrastando com o cadáver pálido ali encontrado. Mas o choque maior estava no rosto, aquela mesma expressão mórbida e perturbadora que encontrei nas feições de meu irmão nas mãos daquela criatura em meu sonho.

A bile subiu queimando meu esôfago e eu vomitei na entrada do quarto completamente nauseado e quando vi o celeiro através das janelas desci as escadas correndo chamando por Lucas. Peguei a faca de carne ao passar pela cozinha e sai pela porta atravessando a clareira e adentrando o celeiro velho sentindo o cheiro de feno e esterco no ar e ouvindo o relinchar descontrolado dos cavalos.

— Fique aonde está! — Fui advertido por uma voz trêmula e assustada vinda de uma das baias, a má iluminação dificultando minha visão a cerca de quem estava ali.

— Saia daqui, agora! — Gritou Lucas alarmado ao meu lado empunhando um atiçar de fogo, mas já era tarde demais. Corro até as baias apenas para me deparar...

— Não.... Não! — Gritei agarrando meu cabelo e colidindo com a parede atrás de mim tentando entender que porra estava acontecendo. Outro corpo mutilado igual aqueles rastejantes do bosque se estendia no feno e ao lado, assim como o homem que estava na entrada do celeiro, me encarando assustado também estava Lucas, seu rosto e mãos sujas de terra e sangue, tremendo e empunhando um revólver antigo.

— Não se aproxime! — Ele advertiu novamente e a compreensão me atingiu. Não era comigo que ele falava, era com sua cópia! — Demônio! Assassino!

— Sai de perto dele Will! Não acredite no que ele diz — replicou o outro Lucas me arrastando para longe das baias quando um disparo cortou o ar.

— Você os matou… todos eles… — Lucas murmurou se aproximando com o revólver apontado, os olhos ensandecidos numa mistura de fúria e dor. Outro disparo se sucedeu dessa vez em minha direção e fui empurrado para fora do caminho quando Lucas atacou Lucas o desarmando.

— Fuja daqui! Vai embora! — Ouvi entre socos, grunhidos e o relinchar dos animais. Mas ao invés de fugir, peguei a faca e me aproximei pelas costas do Lucas ensandecido e o ataquei atingindo um golpe entre suas omoplatas e assisti seu corpo cair sem vida no chão de tábuas.

Larguei a faca que caiu próximo do corpo e encarei minhas mãos ensanguentadas, começando a tremer de repulsa e horror pelo que fizera.

— Precisamos sair daqui — murmurei desamarrado um dos cavalos para sair o mais depressa possível dali e ouvi Lucas rir, aquele mesmo riso gutural de deboche que assombrava os recônditos de minha mente e quando me virei para encarar meu irmão, senti o atiçador de fogo atravessar meu peito, rasgando minha carne.

— Humanos… tão previsíveis... — uma voz melodiosa soou e Lucas se aproximou de meu rosto, empunhando o atiçador mais fundo me fazendo cuspir sangue.

— Quem... é você? — Consegui perguntar com a força que me restava, e o vi se metamorfosear na criatura do bosque, só que mais cadavérica e maligna que antes, os olhos brilhando vermelho e uma carreira extra de dentes aparecendo.

— Diga olá para sua mãe por mim — a ouvi sussurrar em meu ouvido antes de cair na eterna escuridão e compreender que os demônios do qual minha mãe tanto falava eram reais e que tínhamos sido condenados a morrer pelas garras de um deles.

Notas finais
E então, o que acharam? Deixem seu comentário ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!