Perverso

1 Capítulo Único - Perverso


Era um dia qualquer de primavera, o sol apontava no horizonte como uma grande força a sobrepujar até mesmo as árvores de copas mais altas da grande floresta, que ficava a apenas alguns quilômetros daquele pedaço descampado, com um casebre singelo construído com troncos e pedras, pronto a suportar o mais rigoroso inverno.

A grama alta que balançava suavemente ao vento escondia ali a pequena imagem da garota morena, que, estendida no chão, apreciava com seus puros olhos verdes o rubor do céu da manhã. Era impossível dizer o que se passava sob aqueles suaves cabelos ondulados, sua expressão amena carregava uma paz espiritual que faria até mesmo a mais feroz das bestas acalmar-se de fronte a seu sorriso.

Conforme a estrela diurna caminhava no céu. A jovem pôs-se de pé, os raios mornos do dia que iniciava banhavam-lhe a pele clara, mal oculta por um simples vestido branco, de aparência velha, surrado pelo tempo, como se não fosse trocado a dias, este contrastando diretamente com a beleza descomunal da garota que, de forma desapressada e descompassada, arrastou-se para dentro da simples construção.

Assim passaram-se muitos sóis, nenhum sinal de movimento dentro ou fora do casebre, como se aquele pedaço de mundo estivesse esquecido pelo tempo.

Certo dia, ninguém sabe ao certo quando, um jovem rapaz da aldeia próxima, que estava a aventurar-se pela floresta, encontrou o tal descampado.

Bisbilhoteiro como só, aproximou-se daquela cabana. Tamanha escuridão interna, não foi possível discernir o que havia lá dentro da escuridão disforme, pensou então que devido a aparência da casa, ela deveria estar por muito abandonada.

Tomado pela curiosidade, forçou a porta tosca que cedeu sem dificuldade e adentrou aquela região de trevas, sem perceber a grande mancha vermelha que banhava todo o chão do casebre.

Começava a anoitecer, escutou-se um grito agudo, em seguida voltou o silêncio absoluto.

Horas mais tarde, já noite alta, a garota, da mesma forma desapressada e descompassada, arrastou-se para fora da casa velha.

Com suas mãos e sua boca sujas de sangue e um sorriso malicioso revelando seus dentes afiados, próprios para separar a carne dos ossos, deitou-se na grama, de barriga para cima, satisfeita.

Limpou suas mãos na grama, seu vestido branco, embora surrado e antigo, não tinha sequer uma mancha de sangue. Ainda que inumana, era vaidosa a criatura. Feliz por finalmente ter encontrado uma refeição depois de tanto tempo.

Adormeceu no relento, com um belo sorriso no rosto, aguardando tranquilamente o amanhecer, para retornar ao seu covil e esperar, sem pressa, o próximo viajante desavisado cair em sua armadilha...

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!