Perturba-me | Segundo Livro

3 soluções de problemas ?


Notas iniciais
Este capítulo estava programado. Acredito que até então eu tenha respondido os comentários. Curtam a leitura ◕‿◕ nos vemos lá embaixo.

—Jesus Cristo Salvador da Silva... Gonzalez Santiago! —Gritei aturdida enquanto recorri à minha mania de inventar sobrenomes para dar mais ênfase a bronca.

O homem negro e grisalho que abria a porta riu com escárnio.

—Não sabia que Jesus tinha um nome tão extenso. —Falou se contendo. —Por que gritou dessa maneira?

—Porque esse lindo vaso de aço aqui da varanda me odeia, e simplesmente surgiu na frente do meu dedinho. —Reclamei chorosa.

—Farei questão de sumir com o objeto mal. Mas antes, esse velho aqui gostaria muito de um abraço. Seria pedir demais?

—Ah, vovô! —Praticamente me soltei em seus braços, e ele apertou-me com o máximo de força que tinha. —Senti tanto sua falta.

—Minha pequena. —Vovô beijava minha testa com ternura. —Sua mãe me contou que chegou ontem de tarde. Estava planejando ir vê-la depois do almoço.

—Não consegui esperar. —Sorri.

—Venha! Sente-se no sofá. —Ele me conduziu, ainda abraçado, em direção da pequena sala.

—Adoro o cheiro daqui. —Constatei, enquanto sentava e observava ele acomodar-se em frente no sofá solo.

—Eu também. —Tivemos o trabalho de olhar em sincronia toda a extensão do ambiente; cada móvel e cada enfeite antigo, que remetia a delicadeza da Vovó. —Fale! Diga-me como está?

—Estou bem. —Respondi sem pensar.

Eu havia aprendido que, dizendo rápido demais aquilo que não é verdade, os sentimentos não tinham tempo de ser acessados, e, com isso, poupava as pessoas do aborrecimento de perceber.

—Como foi estar internada pela segunda vez? —Vovô nunca fora conhecido por sua discrição.

—Angustiante. —Revelei.

—Sua mãe devia ter me escutado! Eu avisei que seria melhor pra você estar cercada da família, não presa num lugar de loucos.

—Lá não é lugar de loucos, vovô. —Tentei explicar, mas estava claro que não adiantaria.

—Ora, melhor não falarmos sobre isso. —Ele apoiou sua bengala na mesa de centro. —Eu estava lendo as notícias, e acabei tirando um cochilo.

—Te acordei? —Perguntei chateada.

—Acredite, foi uma benção você ter aparecido agora. Estou proibido de dormir durante a manhã ou á tarde, senão de noite eu não prego os olhos.

—Sendo assim... —Pisquei.

—Minha cabeça oca! —Ele balbuciou. —Já estava esquecendo seus presentes.

—Presentes? —Repeti surpresa. —Vô, não precisa. Sério!

—Todo natal eu ia até sua casa, fiquei em divida contigo este ano.

—Claro que não está. —Tentei, novamente, convencê-lo de ser desnecessário.

Ele não dera ouvido. Caminhou lentamente com o apoio da bengala até a cozinha, e voltou de lá com uma caixa fina e média.

Então, primeiramente, estendeu um lírio branco à minha frente. Senti-me corar com tamanha gentileza, encolhi meus ombros e aspirei profundamente aquela flor.

—Pensei em ti quando avistei este lírio.

—É lindo! —Beijei sua bochecha como agrado.

—Minha neta favorita merece tudo que há de melhor nessa vida.

—Vovô! —Repreendi. —Não diga que sou sua neta favorita.

—Ora, mas é claro que sim. —Ele sentou-se. —Teu primo raramente me visita.

—Eu também!

—Você mora em outro continente. Já o inconsequente do meu neto, vive no bairro luxuoso ao lado.

—Wells é ocupado. —Tentei defendê-lo.

—A culpa é toda do meu filho. Não sei a quem puxou, porque a mim e sua vó que não foi. Sua mãe, que é adotada, tem mais carinho pela minha pessoa. Tanto que liga pra saber como estou todos os dias.

—Isso é verdade. —Constatei.

—Infelizmente meu filho só pensa em enriquecer. E o garoto se tornou mimado demais.

—Mas eles o amam. Todos nós amamos o senhor, mesmo sendo rabugento. —Brinquei e ele correspondeu com uma careta séria, seguida por um sorriso.

—Vou buscar o terceiro presente! Abra esta caixa enquanto isso.

Pensei em dizer que era exagero, no entanto, ele já estava dando as costas para qualquer argumento.

Coloquei o lírio na mesa de centro, e retirei o laço que amarrava a caixa com o maior cuidado. Lentamente abri a embalagem, e dentro continha um pijama roxo com bolinhas douradas.

A princípio, não me surpreendeu e eu não pude considerar novidade. Afinal, todo fim de ano era exatamente um conjunto parecido a este que eu ganhava dele. Entretanto, uma leve dor na alma foi a minha reação. Porque a única pessoa que pensei, era aquela que eu costumava chamar de melhor amigo.

Uma lágrima independente escorreu por meu rosto, e cada minuto daquela noite em que Jasper e Monty abraçaram-me na lanchonete e juraram que estariam sempre ao meu lado, afirmando que era um absoluto erro eu me nomear de maluca. Quando voltamos de carro e o magrelo zombou do pijama que eu havia usado inconsciente no pátio da escola. E não demorou em que eu defendesse a roupa como um artefato sagrado.

Há quantos anos éramos amigos e há quantos anos compartilhávamos praticamente todos os momentos importantes de nossas vidas? Há quanto tempo Jasper tinha se tornado a pessoa em quem eu pensava para ligar e compartilhar as novidades quando coisas boas aconteciam comigo? E há quanto tempo ele era sempre o primeiro que surgia em minha mente para pedir ajuda quando eu estava em um momento de necessidade? Simplesmente não fazia ideia, apenas sabia que não podia lembrar-me de minha vida sem que o Jordan exercesse um papel fundamental nela.

E de repente, as companhias parecem não se encaixar mais comigo. Os papos constantes desapareceram. Todas aquelas palavras de apoio se destoam de quem eu sou agora, de minha essência e de minha realidade.

Sinto que se eu for além deste fluxo de pensamento, vou acreditar que o mundo continuou igualzinho e todas as mudanças aconteceram em mim. Mesmo que tenha sido o contrário, não importa... nada se encaixa.

Esta solidão que me faz querer se isolar. Porque parece que, ao redor de todos aqui, o meu corpo transbordou e começou a vazar. É igual ficar com uma roupa molhada quando está frio: nós esfriamos.

—Minha pequena, este ultimo presente é muito mais do que um simples pijama de cor diferente. Este presente é pra supri-la, e ao mesmo tempo, dar-lhe um motivo para entreter-se. —Vovô apareceu tão depressa, que eu só tive tempo de respirar fundo e secar a lágrima quase perceptível. —Se decidir aceitar, precisa saber que não é um brinquedo. Você precisa ter responsabilidade, compreende?

—Acho q-que sim. —Respondi confusa.

—Minha vizinha é uma jovem solteirona que tem o estranho vicio de colecionar animais. —Ele tirou um pequeno cobertor de cima do cesto que segurava. —Bem, eu diria: o estranho hábito de resgatar qualquer cachorro que passa por ela na rua.

O pequeno e peludo filhote revelou-se após o cesto ficar exposto sem o cobertor. O cachorrinho cinza, – da raça que eu não soube identificar –, coçou sua orelha pontuda e emitiu um som muito baixo para um latido estridente.

Minhas pupilas, sem duvida alguma, deveriam estar dilatadas. Coloquei a mão na boca por alguns segundo até a ficha cair, e, rapidamente, fiz o fácil esforço de segurá-lo no colo.

—Não acredito! —Exclamei.

—Uma das cadelas deu cria semana passada, e embora eu não seja muito de socializar com aquela mulher... Não resisti em pedir um dos filhotes. —Ele abandonou a bengala novamente, e sentou. —Imaginei que estaria solitária. E de um fato eu sei: não existe um ser vivo mais fiel do que estes animais.

Meu corpo inteiro arrepiou-se com sua fala. Se até um minuto atrás eu estava lamentando a saudade de meus melhores amigos, vovô viera com um novo. Pensei na metáfora da blusa molhada que me deixara fria, e como aquele pequeno cachorro em meus braços parecia ser a solução para que eu me sentisse aquecida finalmente.

Sorri, pela primeira vez desde que cheguei em Londres, não só com a boca, mas com o coração também.

✤✤✤

Almoçamos e conversamos até bem tarde. Havíamos chegado ao acordo de que o melhor nome para o meu novo companheiro seria: Hector. Vovô não se limitou a diálogos de quando vovó ainda era viva, ou perguntas nada educadas sobre os possíveis motivos de eu ter ficado transtornada. Ele abrangeu nosso papo para verdades sobre a guerra que lutara na juventude, os dramas com o racismo, dias difíceis sob a crise econômica e o amor que sua esposa e seus dois filhos lhe deram como cura depois de uma grave depressão.

Nos despedimos com um caloroso abraço, e enquanto eu saia pelo jardim repleto de flores e observava a humilde casa amarela, fiz uma promessa intima de que um dia eu formaria minha família num lar parecido, senão igual a este.

Os dois seguranças da mansão ficaram encarando o pequeno Hector, e relutaram um pouco até abrir o portão e deixar que eu entrasse. Caminhei despreocupada e distraída, adentrando a luxuosa residência em passos calmos. Brincava com o filhote e deixava-o morder meus dedos. Mas foi quando subi a escada, e passei pelo corredor em direção do quarto, que duas vozes se sobrepondo tiraram-me da serenidade e ganharam a minha atenção.

—Não podemos ficar falando sobre isso! —Reconheci que um dos participantes daquela discussão era meu padrinho.

—Thelonious, isto me cansa. —E a outra era minha mãe. —Estou presa em cima do muro, e nada me garante.

—Pra mim é bem simples.

—Exatamente! Pra você é simples porque não está no meu lugar.

—Posso não estar em seu lugar, mas saiba que sou eu quem está te apoiando desde o principio. E não é só porque somos irmãos. Eu quero vocês duas melhores. Sempre desejei que estivessem bem!

—Acha que eu não quis, durante todos esses anos, voltar pra cá? Foi aqui que cresci, aqui é meu lar. Caramba! Esta situação é tudo, menos simples.

—Ela está começando a fase adulta. Vai demorar um pouquinho, mas tenho certeza que em breve estará novamente adaptada.

—Eu conheço minha...

O latido descontrolado de Hector fez minha mãe interromper o que ia dizer. Entrei num pânico sem sentido, e avancei três passos corridos, fingindo estar apenas andando pelo corredor.

—Clarke. —Ela disse abrindo a porta e saindo como se nada estivesse acontecendo. —Não te vi o dia todo! Estava com Wells?

—Ah, eu... Não. Na verdade, ele saiu com um amigo de manhã. Disseram que iam jogar golfe. E talvez ir pra outro lugar, já que ele ainda não voltou. Pelo menos eu acho que ele não voltou, porque vocês teriam percebido. V-vocês não... digo, você.

Minha mãe ficou me analisando com os olhos semicerrados, e eu não soube definir se era porque ela desconfiara da minha tagarelice.

—O que é isso enrolado no cobertor? —Perguntou.

—Um presente. —Sorri torto.

Ela se aproximou e antes mesmo que eu pudesse exibi-lo, contraiu-se.

—É um cachorro! —Praticamente berrou.

—Fui ver o vovô. Nós passamos o dia juntos, matando a saudade... e ele me deu de presente. —Puxei a caixa que estava enrolada junto ao cobertor. —E também esse pijama.

—Querida, eu fico muito feliz que tenha ido visitar meu pai. Mas, me perdoe, ele só pode estar ficando caduco! Vocês dois sabem muito bem que eu não sou fã de animal.

—Não! —Me impus. —A senhora não pode me privar de adotá-lo. Eu já dei um nome a ele. —Respirei fundo, acalmando os nervos. —E não é só isso... Vovô quis me dar uma companhia. Prometi que cuidaria e me responsabilizaria pelo Hector. Não pode fazer isso comigo.

Ela abaixou a cabeça como se um peso de culpa lhe atingisse. Assim que começou a mexer na aliança, eu entendi o seu sinal de desconforto. Afinal, ela sempre girava a aliança – que fora incapaz de tirar – quando ficava incomodada.

—Onde irá coloca-lo? —Perguntou, cedendo.

—É só um filhote, por isso vai ficar comigo no quarto. Por enquanto! —Completei. —Ele vai chorar se ficar sozinho, e pode ser perigoso lá fora. Principalmente depois que eu vi aqueles três Rottweiller presos nos fundos do jardim.

Minha mãe estava ponderando. Ela deu uma rápida olhada na porta do escritório que havia saído, e eu imaginei que em sua mente ela bolava um modo de avisar meu padrinho sobre o novo hóspede.

—Filha, deixando esse assunto de lado... nós poderíamos conversar sobre tudo. O que acha? Eu falei que precisávamos ter essa conversa, sobre o que aconteceu; mudou, o que o doutor me disse a seu respeito. Enfim, tudo.

—Mãe, desculpa, mas eu vou ter que dizer não de novo. A gente brigou todas as semanas que você me visitava, e quer saber? Hoje me senti leve na casa do vovô. A senhora me disse que viemos pra Londres com o intuito de eu me sentir tranquila e tirar umas “férias”, então me poupe dessa conversa. Foi mal!

“Aleluia! Emitiu respeito na coroa!”

—Cala boca. —Bravejei irritada com a voz que retornara apenas para ajudar na desgraça do meu fim de tarde.

—O quê? —Minha mãe perguntou descrente.

—Me perdoe. Ah, eu... Droga! Não foi pra você, mãe. Eu disse isso ao Hector, porque ele está rosnando.

Ela molhou os lábios, como se não soubesse mais o que estava acontecendo aqui. E eu recuei, segurando firmemente o cachorro e a caixa, e dando um leve aceno de indicação que entraria no quarto pra nunca mais sair.

—Querida. —Chamou novamente. —A cozinheira daqui serve o jantar ás sete e ponto. Não se atrase, por favor!

—Ok. —Respondi, antes de trancar a porta atrás de mim e suspirar.

✤✤✤

Não trouxe muitas roupas comigo, e me acerquei de que o jantar não seria especial. Prendi o cabelo num coque, vesti uma calça jeans e uma blusa qualquer após o banho demorado, e pedi – com a maior timidez – para uma empregada que passava pelo corredor, algo que pudesse alimentar meu filhote canino recém-adotado.

Desci, sem confiança, até a sala de jantar. Aquela sensação de desgaste, sufocamento e tristeza estiveram voltando a me corroer depois que ouvi o insinuante dialogo entre os dois naquele momento. No entanto, quando cheguei ao ambiente já preenchido por ambos, fiquei intrigada com a mulher em pé que reclamava algo com a mesma empregada doméstica que me ajudara há pouco.

Ela se destacava, não pela beleza singular, ou pelo macacão elegante e vermelho. E sim, pela maneira autoritária que se portava na casa que não era dela.

—Ei Clarke. —Wells parou ao meu lado. —Conheça a noiva do meu pai.

Ao ouvir “noiva” a mulher me notou. Deu uma piscadela para minha mãe e meu padrinho, e caminhou de nariz empinado.

—A famosa Griffin que ninguém parou de falar o mês inteiro. —Poucos poderiam perceber a milimétrica analisada que ela deu em mim. —Mas adivinha, meu casamento está ganhando de você em comentários. Aliás, sua mãe disse que escolhi você como uma das damas de honra? —Ela despejara aquelas informações sem pausa. Entretanto, a mulher notou que havia esquecido o básico. —Ah, claro! Eu devia me apresentar, não é? Meu nome é Alie.

Ela esticou os lábios em um dificultoso sorriso. E eu correspondi.

“Posso anotar o nome dela na lista de pessoas medonhas?”

A voz da consciência, dessa vez, tinha razão.

Notas finais
Será que lemos certo? Fuck A.L.I.E chegou mesmo na história? ٩(͡๏̯͡๏)۶ E então minhas anjinhas, oq acharam do vovô fofo/rabugento? É natural querer o Hector mesmo sem ele existir? Ahhh eu amo filhotes ❤ Não me perguntem do pq eu coloquei esse banner. Acho que foi as lembranças da Clarke. Eu iria reclamar e ameaçar todos vocês como sempre fiz hehe - muuuitooo menos da metade dos leitores apareceram por aqui na segunda temporada. E os poucos que favoritaram a fic preferem me deixar alone e não comentar também ●︿● MAS, eu fiz uma promessa a mim mesma de que postaria mesmo que ninguém aparecesse e deixaria que dessem o ar de sua graça por livre e espontânea vontade.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.