Perturba-me
4 fumando minha paciência
Notas iniciais

Estava arrependida de ter saído de casa. Tinha a mania de me estressar fácil. Deixava qualquer situação me obrigar a fazer coisas sem pensar.
Demorou 30 minutos para eu chegar, era bem mais longe do que esperava, próximo à costa. Entrei no estacionamento atrás de um prédio que lembrava um bloco cinza, onde um visível letreiro luminoso piscava FLIPERAMA DO BO E SALÃO DE SINUCA DO LINCOLN. As paredes eram repletas de pichações, e havia um monte de guimbas de cigarro no chão. Sai do carro, e verifiquei três vezes se as portas estavam realmente trancadas.
Dirigi-me à entrada. Fiquei na fila esperando passar pelos cordões. Assim que um grupo pagou as entradas, me misturei a eles e caminhei na direção de um labirinto de luzes estridentes.
—Você acha que merece entrar de graça? —Um sujeito coberto de tatuagens, urrou com sua voz áspera de tabaco.
—Não estou aqui para jogar. Estou procurando alguém.
—Se quiser passar precisa pagar. —Ele abriu a palma da mão, e apontou para uma tabela de preços que indicava que mulheres pagavam 15 dólares.
Eu não tinha dinheiro. E, se tivesse, não o desperdiçaria com alguns minutos fazendo perguntas para aquele idiota. Então, antes de pensar melhor no que estava fazendo ou de juntar um pouquinho mais de coragem, fiz algo completamente fora do habitual: aproveitei que o homem ainda estava na entrada, e comecei a correr. Olhei em volta, procurando Bellamy por toda parte. Dizia a mim mesma que não conseguia acreditar que estava fazendo aquilo, mas eu parecia uma bola de neve rolando ladeira abaixo, ganhando força e velocidade. Àquela altura, só queria encontrar ele e sair dali.
Encontrei uma pequena placa, escrito: Salão de sinuca, que direcionava a uma escada. Continuei correndo, mas antes que pudesse descer o homem mal encarado da entrada segurou meu braço com força.
—Ei você! —Ele grunhiu.
—Já falei que não vai demorar, moço. Só preciso falar com Bellamy, ele esta lá embaixo jogando.
Parecendo prestar atenção quando me ouviu pronunciar o nome, um homem alto e muito musculoso saiu do bar e veio em nossa direção.
—Bo, deixa a garota. Ela está comigo.
O tal do Bo demorou alguns segundos lutando contra seu orgulho, até me largar totalmente bravo. Voltou para o corredor, nos deixando.
—Ele é um pouco estressado, não se importe com seu jeito mal educado. —O homem musculoso mesmo aparentando ser temido, tinha uma feição gentil.
—Obrigada. —Sorri, aliviada. —Só irei falar com meu colega de escola.
Ele assentiu, e desceu a escada. Comigo logo atrás. No fim, luzes fracas iluminavam diversas mesas de pôquer, todas ocupadas. A fumaça de charutos, quase tão densa quanto a neblina que envolvia minha casa, pairava no teto rebaixado. Disposta entre as mesas de pôquer, estava uma fileira de mesas de sinuca. Bellamy estava debruçado sobre a mais distante de mim, tentando uma jogada difícil.
—Blake, ela quer falar com você!
Então seu sobrenome era Blake?! Consegui mais uma informação para anotar.
Assim que o homem chamou, ele empurrou o taco acertando no tampo da mesa, virou a cabeça e me encarou com um sorriso debochado.
—Valeu, Lincoln. —Respondeu despojado.
Não tinha notado que havia vários homens. A maioria fumava algo, talvez seja por isso que Bellamy exalava aquele cheiro. Todos me encaravam como se me culpassem por estar atrapalhando o jogo, mas minha atenção se voltou para a única mulher no local. Bonita, pele morena clara, com o cabelo amarrado em um rabo de cavalo. Usava uma jaqueta vermelha e parecia não se importar com minha presença.
—Pessoal, a gente termina o jogo daqui a pouco. —Bellamy disse.
Houve um silêncio desconfortável antes que alguém se mexesse. Os caras largaram os tacos, e começaram a subir. Alguns esbarraram em mim de propósito, recuei para o lado.
A garota aparentava ter a minha idade, talvez um ano mais velha. Ela apoiou o taco na parede, e foi subindo por último. Antes de sair, parou ainda no degrau, e olhou para mim. Algo me disse que ela não foi com minha cara.
—Vê se não demora. Vou tomar alguma coisa no bar enquanto isso. Vou colocar na sua conta. —Falou olhando apenas para ele, ignorando-me.
Assim que ela saiu, me aproximei de Bellamy. Ele olhava em meus olhos. Vidrei por alguns segundos em suas orbitas negras, percebi que havia algo diferente nele, uma espécie de hostilidade, mais confiança. Senti-me bem, ao mesmo tempo em que não me sentia segura.
—Em quanto estão às apostas? —Perguntei tentando quebrar o gelo.
—Não jogamos por dinheiro.
—Que pena, ia apostar todo meu dinheiro contra você. —Coloquei minha mochila em cima da mesa e abri tirando meu caderno.
Ele ligeiramente leu na folha em que abri.
—Babaca? —Riu. —Câncer no pulmão? Morrer logo?... Isso é algum tipo de profecia?
Arranquei rapidamente a folha e amassei, jogando dentro de minha mochila.
—Você não me deu muitas opções. —O Blake com certeza estava se divertindo com isso. —Presumo que dê contribuição para esse cheiro aqui, quantos charutos fuma por dia? Um? Dois?
—Só fumo cigarro. Às vezes.
—Qual é o seu maior sonho? —Tentei mudar o rumo da pergunta, já que estava envergonhada por ele ter lido aquilo.
—Beijar você.
—Não tem graça. —Falei grata por não ter gaguejado.
—Não, mas você ficou vermelha.
Sentei-me na lateral, tentando controlar meu nervosismo. Cruzei as pernas, usando o joelho como apoio para escrever.
—Acredito que sua cor favorita seja preto. Acertei?
—Não tenho cor favorita. É infantil demais ter uma preferência por cores. —Ele encarou-me convencido, e acabou soltando um outro sorriso habitual. —Mas se fosse pra escolher, eu diria que prefiro o branco e preto.
—Jura? —Revirei os olhos.
—Sabe por que gosto destas duas cores?
Pensei em responder algo sarcástico, mas não precisei pensar duas vezes para raciocinar que o Blake contornaria a situação com algo duplamente pior. E eu não queria ter de passar vergonha novamente.
—Por quê? —Perguntei contra gosto.
—O preto e o branco, são cores completamente opostas. No entanto, ao mesmo tempo se completam. Não há combinação melhor.
Ele estava jogando uma indireta? Não! Impossível.
—Você trabalha? —Soei indiferente.
—Sirvo mesas no Borderline, o melhor mexicano da cidade.
—Religião?
Ele não pareceu surpreso com a pergunta, mas também não pareceu ter gostado.
—Por que essa pergunta?
—Só responda.
—Não é bem religião... É mais um culto.
—Você pertence a um culto?
—Sim, acontece que preciso de uma fêmea saudável para sacrifício, pode ser você.
Se ainda havia qualquer sorriso em meu rosto, foi embora naquele momento.
—Você não está me impressionando.
—Ainda nem comecei.
—Você parece ser mais velho que todos os alunos da sala. Por acaso repetiu de ano quantas vezes?
—Não frequentei a escola ano passado.
Seus olhos me provocaram. Isso só me deixou mais determinada.
—Como assim? Não tem como deixar de ir pra escola.
—Quer saber um segredo? —Disse-me em tom confidencial. —Eu nunca fui à escola. Outro segredo? Não é tão chato como eu imaginava.
—Estudava em casa?
—Não.
—Você está mentindo.
—Eu não estou mentindo.
—Claro que está, até parece que nunca estudou. E mesmo que fosse verdade, qual o motivo de você decidir frequentar agora?
—Você.
O impulso de sentir medo me atravessou novamente, mas disse a mim mesma que era isso que ele queria. Mantive-me firme, e precisei de alguns segundos para recuperar a voz.
—Por que menti tanto?
—Seus olhos Clarke. Esses olhos azuis são irresistíveis. –Ele inclinou a cabeça, se aproximando de meu rosto. –E essa boca carnuda...
Podia dizer que naquele segundo, sob o olhar luxuoso que ele lançava sobre meu corpo, que nunca estive tão envergonhada na vida. Em nenhuma situação senti-me esquentar tanto minha face, sabendo que se tratava da vergonha que me fazia corar. Nunca deixei que ninguém me visse tão naturalmente como ele estava me vendo agora.
Dei um passo para trás.
—Aquela hora na sala, como sabia aquelas coisas sobre mim? Você parece saber exatamente o que dizer para me deixar mal.
–Você ajuda.
—Por que gosta de me provocar?
—Diga “provocar” de novo. Sua boca fica provocante quando diz isso.
—Chega! Eu já tenho o suficiente. Pode terminar seu jogo.
Peguei minha mochila, e andei até a escada. Parei no primeiro degrau e o olhei. Bellamy sorria agora, maliciosamente.
—Não gosto de sentar ao seu lado, não gosto de ser sua parceira, não gosto do seu sorriso, não gosto de você. –Soltei tudo de uma vez, frustrada.
—Estou feliz que o professor tenha nos colocado juntos princesa.
—Não fique muito feliz. Estou tentando mudar isso.
—O professor não vai lhe mudar.
—Eu vou convencê-lo.
—Mais alguma coisa, Clarke? —Ele pegou o taco.
—Não.
—Então até amanhã.
Pensei em responder que ele nunca mais me veria, mas o moreno era bom no jogo das palavras. Acabei desistindo e subindo.
♣ ♠ ♣ ♠ ♣
Mais tarde, naquela mesma noite, acordei com um barulho. Com o rosto apertado contra o travesseiro, fiquei quieta com os sentidos alertas. Estava acostumada a ficar sozinha, mas às vezes tinha a sensação de ouvir sons. Sabia que eram apenas ruídos da velha casa e das arvores balançando. Mesmo assim, me encolhi debaixo da coberta, e fiquei ouvindo meu coração ressoando no peito.
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