Perspectiva
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Vitória se sentou no primeiro banco do ônibus, sem disponibilidade de pensamento crítico e seletivo quanto ao melhor lugar do transporte. Precisava digerir a notícia de sua demissão que viera a ela como um tiro naquela manhã. Não fazia ideia de como as coisas iriam se alinhar de agora em diante, já que a própria razão de suas contas existirem – e, principalmente, serem pagas – eram consequências daquele emprego.
Trabalhar em um escritório, lidando com licitações, era meramente a primeira fase de sua carreira, como era de seus traumas e injúrias: baseado na negação. Via-se presa entre as quatro paredes, consolava seu desânimo com frequentes idas ao banheiro e sofria humilhações não verbais da impressora que não sabia controlar.
Mas o salário era bom. Era nele que pensava quando notava que a cadeira em que sentava mal dava pé à altura da janela. Tinha aquela linda vista de enormes caixas de cimento por toda a extensão das ruas limitada aos seus topos. De onde ficava só enxergava o céu, que naqueles dias andava cinza demais.
A razão de sua demissão ficara pouco clara. Uma mistura de não te queremos mais com você jamais foi útil, diminuída com eufemismos falsos e frustrantes.
Vitória morava sozinha em um antigo apartamento cuja dona era sua mais rica tia. Como devedora de favores (e dinheiro, por incrível que pareça) ao seu pai, combinaram a moradia gratuita como sinônimo de apaziguamento pelos anos da faculdade da menina. Mas nem tudo era um mar de rosas. Mesmo não gastando com aluguel, Vitória estudava à noite e pagava o restante que uma bolsa de 50% da mensalidade não cobria. Somado as outras despesas, esse gasto era a recompensa das horas monótonas de seu trabalho.
Quando morava com seus pais, antes da faculdade, já nutria características de boa administradora. Mas agora, não era só por se dar ao luxo de sentir-se organizada ao notar que o final do mês trouxera consigo o prazer de ter conservado reservas da mesada. A vida morando sozinha a ensinara preciosas lições, além do dever de economia.
Lição número 1) É incrível a quantidade de coisas que você consegue sujar sozinha.
Lição número 2) Você vai ter que aprender a agir como se tivesse três mãos ou mais (por exemplo, se um móvel mal montado estiver caindo em cima de você e as únicas coisas que não puder fazer são soltá-lo ou pedir ajuda).
Lição número 3) O ingrediente nojento daquela comida gostosa, vulgo azeitona da pizza, não será mais doado à pai ou mãe; ou você come ou você põe fora (e se sente mal por desperdiçar comida).
A decisão por morar longe da casa dos pais foi aceita por estes sem grandes discussões. A condição da independência foi que a mudança fosse acompanhada da responsabilidade de viver por si. O consenso foi que não haveria ajuda a não ser em casos extremos, Vitória mostrava-se capaz de emancipação e deveria lidar com os seus efeitos.
São inúmeras as consequências, mas há poucas coisas mais divertidas. A não ser estudar inglês. Era essa a paixão de Vitória após o primeiro contato. Linguagens sempre a fez sentir-se apaixonada. Entrar em universos completamente diferentes pelas páginas de um livro a cativavam. Saber que o mundo é gigante e existe uma imensidão de pessoas distintas, mas que há a possibilidade de interação com todas por meio de seus idiomas soava sensacional. Não faltou inspiração na hora de decisão de seu curso na faculdade.
A proposta do local que escolhera como meio de ensino da língua soava convencional: a instituição proporcionava bolsas aos interessados trabalhadores da área industrial, bem como para seus filhos e\ou cônjuges. Como seu emprego classificava-se como tal, não hesitou ao contato com a informação.
Seu entendimento da língua era razoável, mas nunca investira muito tempo nela. O pobre inglês que havia aprendido na escola não sustentava as exigências da vida; e para estas, não conseguia mais camuflar-se por trás das línguas que já lhe eram familiares.
Vitória já dominava o espanhol e o italiano quando conversou com Gabriel pela primeira vez. Três anos antes de sua demissão, quando à recém aceitara a proposta de seu pai para escrever-lhe uma recomendação ao trabalho no setor de licitações da empresa de seu amigo, era seu primeiro dia naquela escola de inglês que cheirava a fluência. Já conhecia o moço, cruzara com ele algumas vezes no corredor de seu prédio, quando este visitava seu irmão, Nathan, vizinho de Vitória. Gabriel parecia simplesmente encantador.
Sem pensar muito, ao notar que seriam colegas, sentou-se ao seu lado, pensando em seus futuros filhos. A genética não poderia desapontar ao cruzar olhos azuis e cabelo cacheado.
Seu irmão, Nathan, também não era nada mal. Mas parecia sempre alheio, nunca sequer a olhara nos olhos, apesar de serem quase vizinhos de porta. Tudo o que sabia sobre ele era sua banda. Eles fizeram uma pequena apresentação em um bar que Vitória frequentou por um tempo. Nada mal.
Gabriel era um ser recluso de calças justas. Sua aparência indicava arrogância, e isso muitas vezes o limitava. Mas ele era gentil e esperto, qualidades notadas por Vitória nos primeiros quinze minutos de interação.
Há três anos sentavam-se lado a lado quando em aula; há três anos realizavam trabalhos juntos; e há três anos eram amigos. A maneira como a amizade cresceu pôde ser prevista, interesse nunca esteve em falta. O que morreu (ou deveria ter morrido) logo no começo foi a paixão platônica que a moça nutria. Gabriel assumiu sua homossexualidade quando ainda cursavam o Nível Básico II.
Vitória não escondeu certa surpresa quando o primeiro desabafo veio à tona. A tristeza que a divergência nas preferências a causava quando a colocava fora das expectativas do garoto que gostava não pode superar a simpatia que sentiu por ele naquele momento. Ele a contava de forma aberta sobre um último relacionamento; sexualidade era ali discutida por eles pela primeira vez.
Agora, a oralidade, a escrita e a escuta do inglês de ambos estava aperfeiçoada e sua amizade, mais forte. O garoto quieto que era Gabriel antes de Vitória se tornara um ótimo e enérgico amigo. Ela, que sempre fora insegura com a língua inglesa, falava mais abertamente e se sentia apta a amadurecer cada vez mais. O amor pelo idioma crescia e se fundia em piadas internas, noites de filmes sem legenda e leitura de livros clássicos ingleses em sua versão original.
A pequena e estúpida paixão (ela assim a classificaria algum tempo depois) que a garota um dia nutriu pelo amigo era agora purpurina. A convivência diária que faziam questão de manter diminui tanto a fronteira das intimidades que eram agora inseparáveis.
Mas certas coisas nunca mudam. Sentimentos fortes tornam-se intrínsecos com a convivência, Gabriel nunca foi enjoativo. Mesmo negando a si mesma que ele não passava de um irmão que amava, a solução para um dos problemas que sua demissão causou estava ali; um estopim inconsciente.
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