Personalidades Perdidas

1 O Primeiro Prólogo: Infortunium


Para um determinado grupo de pessoas, existe somente um tipo de barulho que as deixam extremamente irritadas: o alarme às 5:00 da manhã. Diana é uma das pessoas dentro deste grupo e, enquanto tentava criar forças para abrir os olhos e levantar-se da cama, um dos braços procurava cegamente o alarme de forma a desligá-lo. Não só isso, os seus muitos movimentos na cama acabavam por jogar os cobertores para bem longe durante o sono, deixando-a parcialmente despida e fazendo com que a brisa matinal fosse mais um fator determinante contra seu sono matinal.

Não é como se ela achasse tudo isso ruim, mas apenas que os astros místicos do universo (ou seja lá como as pessoas que gostam de horóscopos falam) sempre acabam por se organizar de forma que isso ela acorde à qualquer custo para ir ao trabalho. Entretanto, para ela com seu corpo atraente e no auge da beleza, dormir com as janelas abertas tem seus inconvenientes: após muitas diárias confusões, o vizinho do prédio ao lado levou uma multa condominial por vê-la somente com uma peça íntima (ou, pelo menos, não ter conseguido evitar bater o olho nos perfeitos seios de Diana de forma indiscreta).

Com o corpo extremamente preguiçoso e ainda meio embriagada pelo sono, ela finalmente se levantou, tomando um rápido banho quente e fazendo uma troca de roupas sem cerimônias. Um lado criança nesses 22 anos de Diana ainda prevalece: o ódio de tomar banhos. Ensaboar-se e escovar os longos cabelos castanhos tende a ser um trabalho tedioso e solitário, assim como se maquiar. A empresa a qual ela trabalha não requer nada disso, sendo apenas uma vaidade boba tomando conta dela que, por sua beleza, prefere usar uma maquiagem básica.

Na verdade, não existe um horário certo ao qual ela deva ir trabalhar: por ser uma física de um renomado laboratório e lidar com experiências relacionadas ao sobrenatural — principalmente à morte humana — ela possui uma grande consciência que esta ainda existe, mesmo estando distante dela, criando uma espécie decarpem diem. Umaliquanta carpem diem, para ser mais exato — ainda é necessário trabalhar para sobreviver, então não se pode viver o dia de hoje como sendo o último.

No ano de 2170, com os avanços das ciências básicas, as pessoas já conseguiam viver por tanto tempo que podiam ser consideradas imortais pelos seus próprios corpos. Apesar disso, elas ainda podem morrer: doenças, certos tipos de crimes, ou o próprio psicológico as afetam negativamente para que isso ocorra. As pessoas morrem quando querem e é comum que elas sofram quando estão em um estado vegetativo ou com algum grave problema social ao seu redor, o que as levam a desejar seu próprio fim.

Parando de pensar em todos os males do mundo, Diana simplesmente liga a torradeira e faz um leite achocolatado para tomar, como sempre. Aquele apartamento em que ela morava foi a coisa mais básica que conseguiu encontrar: um quarto, uma sala e uma cozinha, todos pintados de branco e com uma mobília que qualquer um diria pertencer a uma pessoa comum. Era o suficiente, mas ela também fez questão de instalar um espelho próximo a cozinha para sempre ter onde mirar a si própria durante momentos de espera. Vestia uma blusa branca e uma calça jeans simples, nada além disso. Após se observar, senta-se na mesa da cozinha e acaba por bater os olhos no retrato dos pais, e sente um pouco de saudades naquele momento. Até que o som da torradeira ecoa e ela vai desligá-la.

– Obrigada pela comida — diz Diana, mesmo não havendo ninguém na sala de seu apartamento, e começa a comer.

Viajar constantemente era um fardo enorme. Os pais moravam na Califórnia, e foi lá mesmo, no Instituto de Tecnologia da Califórnia, que Diana se formou com láurea. Considerada um prodígio na sua área de atuação, logo conseguiu um emprego no Fermilab, em Chicago, e fez constantes intercâmbios de informações entre este laboratório e o CERN — o Centro Europeu de Pesquisa Nuclear. Este último, diante às suas descobertas, conseguiu com que todos os países do planeta se tornassem seus associados, o que induziu a um orçamento enorme para esta organização, aliado a um grande poder político. Atualmente, Diana mora no Brasil, mais precisamente em Natal, coordenando as obras finais do Complexo do Paradoxo Temporal, sendo este um dos projetos mais caros da história e fruto de uma parceria entre a União Europeia e a União de Nações Sul-Americanas. A construção deste complexo também era essencial para a obtenção do grau de doutorado de Diana: graças à sua influência, ela que encabeçou o projeto desde o início.

Guardando um revolver no bolso de sua calça, apenas por segurança, e deixando tradicionalmente os pratos sujos para serem lavados à noite, ao chegar em casa, ela sai. Já fazia quase uma hora desde que ela tinha acordado, e o tempo não espera por ninguém.

Morar no décimo-oitavo andar de um prédio de 27 andares pode não ser interessante para quem tem medo de altura ou se considera apressado, já que o elevador pode levar mais de que alguns meros segundos para chegar, o que muitos consideram um desperdício de vida, mesmo que todos tenham atingido à imortalidade. A ideia de "tempo é dinheiro", o que implica trabalho constante, também tendeu a desaparecer. Excetuando-se as grandes corporações, ninguém mais liga para isso. Enquanto esperava o elevador, Diana se deparou com uma tremenda vista que poucas pessoas possuem o privilégio de ver: no límpido céu daquele horário, havia-se uma aurora astral, já comum devido aos movimentos de inversão magnética da Terra e à interferência humana no espaço. Explosões solares aconteciam com frequência, e ver por outra o nível de radiação no planeta tomava níveis alarmantes.

Independente de tudo isso, aquela aurora austral — uma das coisas mais bonitas que o ser humano podia enxergar — inspirava sempre um pensamento naquela Diana ainda sonolenta: vale a pena viver.

***

O caminho até o Instituto Internacional de Física era relativamente curto para se ir através de um veículo qualquer, mas suficientemente cansativo para ir a pé. Veículos terrestres e aéreos eram baratos em relação à outras épocas passadas, e o salário de Diana era suficientemente alto para que ela comprasse o que bem entendesse. Ir a pé sempre foi uma opção, não uma limitação – era inexistente a redução de veículos no trânsito, somente havendo cada vez mais um número crescente deles, de forma que era praticamente inviável andar por pequenas distâncias em um veículo, levar-se-ia muito mais tempo do que indo a pé.

Era solitário andar todo aquele percurso, ainda mais em um horário que muitas pessoas da idade dela estavam dormindo. Mesmo já sendo graduada, a maioria dos conhecidos de Diana eram universitários que odiavam os primeiros horários da manhã das segundas-feiras, assim também como os últimos horários do dia nas sextas-feiras. Mesmo poucas pessoas e veículos de fora da região passavam na Av. Rui Barbosa naquele horário.

– Uma padaria nova? – indagou-se a si própria.

A padaria possuía um anúncio para contrato de funcionários, então, provavelmente, era mesmo recente. Não que isso fosse realmente importante, mas ao menos haveria um local mais próximo de casa para fazer as compras da janta na volta. À medida que ela ia andando, passava por lojas com as quais ela já estava habituada: floriculturas, oficinas mecânicas, algumas lojas simples, inclusive de eletrônicos de origem duvidosa e alguns bares que estavam expulsando os clientes e sendo fechados a essa hora, faltando alguns poucos minutos para as sete em ponto.

Uma bifurcação também estava no caminho, e a mesma ligava aos principais pontos da cidade. É irrelevante, mas havia algum tipo de templo no final de uma das estradas, assim também como uma ligação ao centro da cidade e ao polo acadêmico, rota pela qual Diana continuou sua caminhada.

Presa nos seus pensamentos sem qualquer nexo, ela chega à entrada do Instituto Internacional de Física em alguns poucos minutos. Era sempre incrível admirar a construção do prédio principal em formato de ventilador e que, idealmente, remetia às dunas existentes na região. Ele refletia a quantidade de dinheiro investido naquela instituição, algo em torno de bilhões de reais, preço que chegava até mesmo a bater o produto interno bruto de vários países do planeta. Pesquisas naquelas linhas de trabalho envolvidas eram caras, e o pensamento comum dentre todos os pesquisadores era que “para se descobrir algo pequeno, mas precioso, deve-se mover montanhas”.

A recepção do Instituto era simples, mas possuía um ar imponente. Não havia ninguém por lá, só bastando fazer um reconhecimento de retina no aparelho e entrar em uma plataforma flutuante de formato circular, que existia aos milhares e sem deixar ninguém esperando, que automaticamente te levaria à sua sala de trabalho, ou ao departamento que você desejar. Parecia que se entrava em outro mundo naquele instante: o prédio tinha um projeto de jardim interno, de forma que a plataforma flutuante passava por dentro dele.

A sala, a qual ela tinha destino, era compartilhada por mais algumas pessoas de diferentes áreas, como físicos, biólogos, químicos, dentre outros, facilitando o acesso às informações a serem compartilhadas pelas diversas áreas que trabalhavam juntas em tarefas direcionadas ao departamento de pesquisa do instituto. Pouco mais de 20 pessoas não paravam por lá, e era um barulho constante, lembrando aulas de crianças no ensino fundamental que tagarelavam incessantemente, parando somente quando algum superior intervia e pedia a palavra. O local era repleto de telas com diversas interfaces para cada pessoa realizar as suas tarefas, só havia um único mainframepara processar tudo, e este ficava em outra localização do instituto. Mesas e cadeiras também eram abundantes, pois uma conversa entre duas pessoas de diferentes áreas tendia a levar horas até que o entendimento entre elas fosse possível. Tirando as raras confusões geradas por conflitos de ideias, Diana era feliz naquele local.

Ao descer da plataforma, havia um senhor de terno excêntrico, verde com bolinhas pretas, esperando por perto.

– Bom dia, Diana. – diz ele – Chegou cedo hoje.

William Oliveira, mas todos o chamam de Bill. Ninguém sabe o motivo, mas ele sempre foi chamado assim, até mesmo quando ingressou no Instituto. Uma das teorias conspiratórias afirma que ele era um vendedor e tendia a cobrar bastante seus clientes, e o pessoal avisava uns aos outros que ele estava chegando como “Lá vem a conta”. Portanto, de tanto uso, o apelido dele ficou a palavra inglês Bill. De qualquer forma, sendo tal história verídica ou não, ele era o chefe do departamento de perícia.

– Ah, bom dia, Bill. – responde Diana.

– Terminou os relatórios da perícia de ontem, Diana?

Os olhos verdes dele miravam a mesa quase vazia da sua subordinada, revelando uma indignação extrema.

– Bem... Não. Fiquei meio entediada com toda a papelada para fazer, e isso não é de minha responsabilidade, ou tampouco, interesse.

– Não importa, eles são necessários.

– Prometo terminá-los hoje, mas você TEM que fazer uso deles.

Aquele “TEM” já era tradicional na relação entre os dois. Papeladas ainda eram usadas para se imprimir documentos imensos que não tinham finalidade alguma, exceto para criar volume em algumas salas e, depois de algum tempo, irem para o lixo.

– Com certeza, serão bem usados – diz Bill mostrando certa convicção.

O senhor de terno excêntrico sai de perto e deixa Diana absorta em seu trabalho, dando vários “bom dias” mecânicos a quem passava perto dela. Em um físico invejável para sua idade, pouco mais de 50 anos, Bill gostava de ser excêntrico no que fazia, no que vestia e na forma de pensar, e deixar-se envelhecer naturalmente provava isso: sua pele branca já começava a enrugar e seus cabelos já eram praticamente brancos, coisa bastante incomum naqueles dias. Rumores indicam que Bill foi quem influenciou diretamente a construção do Complexo de Paradoxo Temporal naquela região, ou mesmo no Brasil. Ninguém realmente sabe o que ele costumava fazer em seu passado, exceto que ele era um pesquisador importante no cenário global, mas desistiu disso tudo quando sua mulher e filha faleceram de uma só vez.

De qualquer forma, Diana andava com ânsias, e era justamente por causa desta ânsia que ela se viu puxada para esse departamento no Instituto. Ela encontrou alguns cadáveres enquanto voltava para casa. O problema não é pelo fato dessas pessoas estarem mortas, mas sim totalmente esquartejadas, sem sangue nem olhos. A expressão delas era totalmente ilegível visualmente, mas a cena como um todo transmitia terror. Lembrar-se de uma cena tão surreal fazia com que ela se sentisse mal. E a mesma se repetia por toda a semana que prosseguiu àquele acontecimento.

O fato é que o governo federal começou a investigar esses casos, que sempre ocorriam na cidade em que Diana estava. Sempre eram encontrados rostos, sem qualquer expressão, e em estado de podridão, por estarem sem sangue. Tentou-se encontrar alguma relação entre todos os assassinatos, mas isso era simplesmente inexistente. Todas as vítimas eram pessoas aleatórias, sem qualquer discriminação por cor, status social ou econômico: simplesmente tiveram o azar de estarem na hora errada e no local errado.

Já fazia um mês desde que o primeiro assassinato ocorreu, e o governo foi forçado a decretar um toque de recolher, gerando pânico entre a população. Peritos que trabalhavam à noite para investigar foram sendo eliminados e brutalmente assassinados assim como as outras vítimas, um a um. Com o medo instaurado mesmo entre os órgãos governamentais, e com a mentalidade de que essas ocorrências possuíssem algum elemento desconhecido envolvido, que se especulava ser algo desde magia negra até um novo vírus, foi necessário pedir a colaboração do Instituto Internacional de Física localizado naquela mesma cidade, o único local capaz de lidar com algo que pode ser considerado “sobrenatural”, apesar da equipe envolvida rir disso internamente.

A náusea atingia Diana sempre que ela lembrava daquilo, e não é a toa que andava armada: ela era um alvo fácil. Aquelas mortes eram visivelmente implacáveis e os corpos, impossíveis de serem reconstituídos, de forma que eles sequer pudessem ter a possibilidade de reviver. Em uma época de imortais, ninguém queria morrer. Entretanto, o medo de perder alguém próximo dessa maneira fazia com que ela continuasse a fazer todo o relatório sem reclamar. Além do mais, a construção do CPT ainda iria demorar algum tempo até ficar pronta, então não tinha muito que fazer durante o dia senão ajudar com isso tudo.

Diana se vê pensando em buracos negros rotatórios e em teorias que possam levar a uma possível viagem ao passado. A ideia é que caso o tempo já tivesse ido ao futuro e viagens temporais tivessem se tornado possível, alguém já teria aparecido. Entretanto, a teoria de interpretação de muitos mundos poderia levar as pessoas para uma espécie de dimensão alternativa, onde o universo estava formulado segundo uma decisão alternativa. Já era consenso entre a comunidade científica que uma nova dimensão era formada a cada possível alternativa que o próprio universo dava. Se uma pessoa puder escolher entre “Sim” ou “Não”, independente de qual escolher, ele viveria naquela escolha, mas um novo universo com base na escolha oposta seria criado e seria orientado nela. A teoria da Imortalidade Quântica foi aperfeiçoada ao ponto de afirmar que a natureza não é determinística, e, por isso, não pode criar universos por si própria – somente os humanos podem fazê-lo. Mas tudo isso eram apenas pensamentos que ainda não poderiam ser comprovados, distrações inúteis.

– Bom, vamos lá – diz uma Diana meio entediada e voltando a ficar absorta no relatório.

***

Já eram quase 1 da tarde, e o barulho habitual daquela sala não havia parado sequer por um segundo, mas todos já estavam habituados a isso e continuavam suas rotinas normalmente. Já no final do relatório, Bill entra mais uma vez na sala.

– Estou encerrando o meu expediente por hoje, já terminei o seu relatório.

– Perfeito, quais foram suas conclusões?

– Nenhuma, assim como todos os outros que já fiz. – diz uma desapontada Diana. – Nem mesmo estendendo e cruzando os círculos sociais, dá pra achar uma pessoa em comum entre todos os casos.

– Entendo... – responde Bill após certo momento. – Até mais, então.

– Até.

Arrumando seus pertences e se retirando da sala rumo à plataforma flutuante e, novamente, dando vários “boa tarde” mecânicos ao pessoal, Diana quietamente indaga quem estaria por trás daquilo. É óbvio que existe uma ligação entre tudo. Seria vingança? Talvez. Poderia ser algum tipo de cobrança? Também. Realmente, qualquer motivo é possível, só não dava para se enxergar ainda.

O vento da tarde faz com que os longos cabelos castanhos de Diana se soltem ao ar, e ocaminho entre o Instituto e a sala de aula que ela se dirigia não era tão grande. Apesar de ser um prodígio, e ler livros constantemente, ela ainda precisa assistir aulas para obter seu doutorado formal. A aula de hoje era sobre Mecânica Estatística, envolvendo processos estocásticos. Sentada já em um banco, após uma pausa na caminhada, e simplesmente olhando para o céu, não percebeu que havia mais uma pessoa bem ao seu lado.

– Olá? Alguém nesse corpo? – diz a voz meiga de uma garota já conhecida.

– La-La-Lara?

De um pulo, Diana se assusta. Aquela garota branca, de cabelos castanhos e olhos da mesma cor, começou a tagarelar como se não houvesse mais amanhã.

– Puxa! Finalmente me percebeu aqui! Você acha que sou invisível?! Eu pareço invisível?! Quem você acha que é para pensar que sou invisível?! Ah, já sei, talvez você simplesmente me despreze! Sim, você me despreza desde aquele incidente em que derramei sem querer o suco de uva em você, não é mesmo?! Ah, mas não foi por mal, me perdoe! Não é isso, mas já sei o que deve ser, você quer atenção e eu sou bonita demais, então os olhares vão para mim, não é?! Admita! Admita! Admita! Ah, meu nome não é “Lalalalalara”, só “Lara”. Será que nem isso você percebe? Porra, Diana! Porra!

– Hã?! Faz quanto tempo que você está aí? – sussurra uma Diana, provavelmente ignorada.

– No que você estava pensando? Nos motivos de estar encalhada? Saudade de seus pais? No seu futuro? Ainda pretende dominar o mundo, do jeito que dizia quando chegou aqui? Mas como não pensei nisso antes: provavelmente está pensando no seu passado Você tem aquele tipinho de passado, do qual, as pessoas fogem de você após conhecerem?! Sofreu bullying na escola? Tinha medo de bicho-papão? Pensando quando vai se formar ou terminar aquele complexo-de-alguma-coisa? Qual é, conta aí!

Do nada, Lara calou-se. As duas ficaram em silêncio, olhando uma para outra perplexamente sem motivo.

– Ah, estou aqui fazem uns 20 minutos, mas você estava tão distraída que resolvi não perturbar – diz a tagarela – Estava passando por perto e te vi, daí resolvi sentar e te fazer companhia. Vez por outra eu ainda me mexia ou bocejava, falava o quanto estava tedioso, mas você realmente estava em outro planeta.

– Me desculpe. Estava só pensando em algumas coisas habituais. Envolveram-me em algumas coisas lá no trabalho, e isso não me agrada muito...

– Sobre “aquilo”? Até te entendo, então.

– E quanto ao que estava pensando... Estava pensando também em perguntas idiotas vinda de pessoas mais idiotas ainda.

– Grossa. – mostrando uma falsa indignação, como já era de praxe.

Aquela garota, que talvez fosse uma das mais lindas conhecidas por Diana, simplesmente fica olhando para o céu, assim como sua amiga. Lara Fujibayashi, talvez uma das garotas mais populares da universidade, conhecia tudo e a todos. Bonita, rica, filha de acionistas japoneses e que sempre tem papo para conversar com todas as pessoas.

– Você que pediu por isso, idiota. – fala Diana.

– Sim, sim, mas se eu sempre falo isso, já não era de se esperar?! Quando saímos, várias pessoas olham pra ti e você sequer dá bola! Já está apaixonada? Pretende virar uma freira ou uma mulher exorcista? Ou talvez isso tudo seja fruto de um amor frustrado? Vamos, me conta!

A relação entre as duas era de “ataque ou seja atacada”. Na prática, significava que você deveria falar mal da outra, antes que a outra pessoa fizesse o mesmo de você. Em muitas amizades, isso daria completamente errado e provavelmente renderia algum processo judicial, mas funciona com elas duas; foi uma forma encontrada para ficarem amigas e sempre terem o que conversar. Essa “condição” de amizade foi imposta por Lara, que quase sempre começa tudo e quase sempre termina se ofendendo bem facilmente. Tudo drama, obviamente.

Entretanto, além do seu corpo simplesmente fabuloso, mais duas coisas chamavam atenção em Lara: a primeira, seu sorriso contagiante. Não havia como alguém ficar triste ao lado dela, uma pessoa extremamente hiperativa e profunda conhecedora de piadas. A segunda coisa resumia-se a forma de se vestir. Com uma combinação de pele, cabelos e olhos claros, ela tinha o hábito de sempre andar com vestidos floridos — hoje ela estava usando um azul com estampa de cerejeira.

– É melhor eu não responder nada.

– Grossa.

– Poxa, precisa aumentar seu repertório, hein? Tá ficando sem palavras?

– Que nada, só falta do que falar mesmo. São quase duas horas.

– Eu passei todo esse tempo aqui, sem fazer nada?

– Ué, é o que parece.

Levantando-se e limpando um pouco a poeira trazida pelo vento, Diana olha um pouco para a árvore que fazia sombra nela, enquanto sentada, e logo depois para a sua amiga.

– Então, vamos? Temos aula agora. – diz Diana.

– Vamos pegar um ônibus, assim podemos conversar mais confortavelmente.

Apesar de tanto o Instituto quanto o setor de salas de aulas ficarem na mesma região, ainda era muito caminho para se percorrer naquele sol da tarde. Andar pela universidade no circular que passava a cada 15 minutos era muito mais confortável e rápido.

***

No setor de aulas, pessoas iam de um lado para o outro sem maiores problemas. Os corredores eram largos, apesar da estrutura da universidade em si ser muito antiga, mas tudo era bem conservado. A ambientação é desnecessária, pois se tem uma grande área verde ao redor, de forma que só o fato de estar no corredor – muitas vezes matando aula – é um fato agradável.

O estado de Diana dificilmente permitiria que ela ficasse acordada durante toda a aula, estava cansada e simplesmente não queria mais pensar em nada: motivos suficientes para dormir, e, enquanto ela estava sentada em um banquinho, Lara estava com o seu círculo de amigos.

– Ei, Diana – diz uma Lara que aparentava estar querendo falar algo há um bom tempo.

– Oi?

– Posso dormir contigo hoje?

A pergunta era uma surpresa, e ainda mais sendo falada em um tom bom e claro, chegava até ser constrangedor para quem estava por perto. Levou alguns segundos até que Diana conseguir a resposta para isso.

– Vai com calma, isso pode soar mal.

– Hahaha, eu sei. Foi proposital, mas a pergunta foi séria. Posso te fazer companhia hoje à noite?

– Ué, o que deu em você?

– Não posso ter uma “noite das amigas” sem minha melhor amiga, não é?

Não é difícil perceber a real intenção de uma pessoa quando a se conhecesse há muito tempo, fica-se propício a perceber quando aquela pessoa, a quem queremos tão bem, está mentindo.

– Eu pareço tão mal assim, Lara? – fala baixinho uma triste Diana.

– Sim, parece até que foi pisoteada por uma multidão enlouquecida.

– Quê?

Um cascudo de leve sai de uma para a outra, mas todas sabiam que aquela raiva era falsa.

– Doeu. – diz Lara mentindo.

– Isso é para nunca mais você gerar mal entendidos e, sim, você pode dormir no meu apartamento hoje. Tem uma cama extra lá. Depois da aula, nos falamos.

Convenientemente, o sinal que indica o início das aulas toca e toda a multidão presente no único corredor daquela área começa a ir para suas salas.

Na sala de Diana, particularmente, não havia muitas pessoas nela. Provavelmente pelo motivo de ser uma pós-graduação em uma área considerada complicada por muitos, e a matéria de Mecânica Estatística, em especial, era considerada chata por um grupo mais abrangente ainda. Habitualmente, ela senta-se na segunda carteira da segunda coluna e espera pacientemente a aula começar. O professor tem o hábito de chegar alguns minutos atrasado, mas ninguém se incomoda. Na verdade, dado que muitas pessoas da turma são mais velhas e, por trabalhar e fazer atividades não-acadêmicas, também chegam um pouco atrasadas, as pessoas até gostam que isso aconteça.

As cadeiras são cuidadosamente espaçadas, apesar de desconfortáveis. O quadro eletrônico estava marcado por dedos, devido ao uso e ao fato do tempo de estar lá, e as paredes, de alguma forma, estavam limpas. Havia uma impressão entre todos de que aquela sala de aula dava a ideia de que foi projetada para te dar tédio em qualquer direção que olhar, senão o quadro. As mesas eram feitas de um plástico duro o suficiente para não ser riscado, o que faz com que não se tenha o que ler de pichação, e o padrão regular das cadeiras pode ser interessante de início, mas logo enjoa. Assim como nas mesas, não existem pichações nas paredes e, desta forma, não se tem o que olhar. As janelas são todas de películas. O que sobra é somente o quadro com as anotações e projeções aleatórias do professor.

O professor chega e começa a fazer a chamada da própria porta, mesmo sabendo que isso não é necessário. De fato, ele é o único docente na universidade que faz uma chamada no início e no fim da aula, o que evita que as pessoas faltem muito a elas. Antes, passava-se uma lista para assinar, mas quando havia a assinatura de 30 pessoas e só 12 estavam na sala de aula, aquele processo chegou a um fim sem cerimônias. Por isso mesmo a turma, que parecia composta por membros de 15 anos, chegou à conclusão de que fazer isso consome mais tempo, mas ao menos o ego dele permanece intacto.

Entropia era o assunto dessa aula. Em suma, um valor capaz de medir a desordem de um sistema, e ela só tende a aumentar. Fornecer energia a um corpo implica aumentar o grau entrópico dele, fazendo com que ele acumule energia. Muitas pesquisas físicas apontavam para uma maneira ainda não testada de fazer com que a energia acumulada do corpo pudesse fluir para fora naturalmente.

Com a aula terminada após longas 4 horas, a turma começa a trocar diversos “até logo” entre si, enquanto Diana arruma seu material e uma feliz Lara entra na sala.

– Olá! Como foi à aula? – diz a pessoa de sorriso enorme.

– Foi tranquila, muito do que foi falado, eu já sabia. Mas pera aí, meu professor saiu 20 minutos mais cedo do que o horário normal, você não tem aula não?

– Meu professor apenas dispensou todo mundo antes do seu.

– Ou talvez você tenha matado aula.

– Ah, quem sabe. Mas minhas notas são boas o suficiente para que eu possa dizer que não preciso assisti-las.

Talvez não tão inteligente quanto Diana, mas Lara poderia ser considerada a senhorita perfeição daquele lugar. Pratica natação, mesmo não estando em nenhum clube, e consegue quase sempre ter as melhores notas nas turmas que frequenta. Um suposto fã-clube, que está mais para uma seita religiosa, existe em nome dela, e a quantidade de membros chega a ser surpreendente e não para de aumentar. Além de não perder a compostura na frente de nenhum desconhecido, ela tem uma discrição que provavelmente originou-se na família dela.

– Hã? Em quê você está pensando, Diana?

– Nada demais, só estava prestando atenção naquele cara ali no corredor segurando a última edição do ‘Diário Lara’ do seu fã-clube.

– Está com invejinha?

– Claro. Deve ser emocionante ter um monte de marmanjos que provavelmente sequer beijaram recitando poesias utópicas e imaginando atos com você enquanto tomam banho.

– Ao menos, sempre vou ter alguém que me queira, já você...

Aquele assunto era a melhor arma de Lara contra Diana que, por algum motivo, sempre ficava encabulada. Mas uma Lara estava falando sozinha naquele momento, já que Diana já havia ido para a parada do circular.

***

Para variar um pouco, existia o metrô, que ligava a UFRN até o final da principal avenida da cidade, a Hermes da Fonseca. Não era tão lotado às quase sete da noite, e também era confortável e mais seguro do que ir a pé – mesmo quando uma das pessoas andando estava armada. A lua brilhava em um céu de poucas estrelas e praticamente sem nuvens, e o que se dava para ver fora do vagão do metrô era basicamente o que era iluminado por alguns poucos postes. Devido àqueles assassinatos recentes, as pessoas perderam seus motivos para sair à noite. O toque de recolher instituído pelo governo começava às oito horas da noite e qualquer pessoa na rua fora desse horário era considerada suspeita, de forma que a maioria da população já estava em suas casas ou voltando do trabalho.

Já rumo ao apartamento de Diana e passando por perto daquela nova padaria, as duas estavam incrivelmente caladas. Em certas horas, bastam alguns gestos para se trocar palavras.

– Ei, Diana...

– Oi.

– Dizem que Deus é justo com as pessoas boas, não é?

– Eu não acredito muito em Deus, mas a bíblia diz que sim.

– Meu pai... hoje já faz três anos que ele morreu. Eu não fiz nada, fui uma boa garota. Minha mãe também foi uma boa mãe, então por quê? Por que a gente merece isso? Em um mundo que ninguém morre, por que Deus levou a vida dele?! Ele era um bom pai, se dedicava a mim e dava o melhor para ajudar a todo mundo! Eu... simplesmente... não entendo.

– Você nunca tinha me contado isso... Vamos esperar que ele tenha ido para um canto melhor.

Ao se virar para olhar a pessoa com quem falava com mais atenção, Diana viu um corpo que estava andando e escorrendo lágrimas há um bom tempo, só por causa dessa triste lembrança. Percebeu também que falou algo que não devia.

– Melhor?! Que lugar pode ser feliz quando se está longe das pessoas que ama? Quem é tão cruel para fazer isso com a própria família? Por que as pessoas morrem? Não nascemos para perder aqueles que amamos, queremos viver com eles eternamente.

Poucas pessoas poderiam responder algo confortante para uma cena como essa. Lara já estava histérica no choro. A lembrança de uma morte “milagrosa” de seu pai era algo que ainda a aterrorizava.

– Diana, desculpe-me. Sei que você já tem seus problemas, e foi por isso que vim dormir contigo, mas simplesmente não pude deixar de evitar pensar nisso. Me perdoe.

Um abraço envolve Lara. No conto do Rei Arthur, o mago Merlin dizia que, quando se estivesse triste, bastava aprender. Para Diana, a melhor solução para qualquer problema era um abraço e, a segunda solução, aprender algo.

– Lara, as amigas servem para isso. Não precisa ter medo de nada ou se desculpar por nada, estou aqui para isso. Não se preocupe, basta me contar seus verdadeiros sentimentos. Quando chegarmos em casa, farei um chocolate quente bem gostoso e poderemos conversar sobre isso.

– Obrigada.

Uma mensagem chega ao celular de Diana, e ela olha. Era incomum receber mensagens a essa hora.

– É do Bill.

– Quem?

– Aquele cara que estava de terno rosa, naquele dia que te levei ao Instituto.

– Ah, o que diz?

– Que tem algumas figuras suspeitas a mais ou menos 300 metros daqui. – diz uma Diana com a voz mais séria do que o habitual – Te acompanharei até a entrada do meu apartamento. Fique por lá que, quando eu chegar, farei o seu chocolate quente gostoso que prometi.

Sem delongas, as chaves do apartamento trocam de mãos e as duas seguem sozinhas até a entrada do condomínio do apartamento. O silêncio é rompido por uma Diana extremamente séria.

– Como estou na perspectiva de que só existe um assassino, não demorarei muito. Acha que consegue ficar por lá de boa? Aqui é seguro, não se preocupe.

– Tenha cuidado.

– Sim, terei.

Cada uma vai em uma direção diferente, e Diana retira seu revólver do bolso. Aquilo sempre era útil, mesmo quando era um alarme falso. Já distante da linha do metrô, a iluminação da região era fraca e o silêncio reinava praticamente absoluto. Ainda não eram oito horas, deveria haver pessoas na região, mas por algum motivo, não havia ninguém. Descendo uma ladeira familiar, cada ramificação da avenida principal era observada com tensãoseguida de um suspiro de alívio logo após verificar que não havia nada anormal. Mesmo assim, não havia ninguém naquela região. E, no momento em que ela parou para olhar mais uma ramificação da rua, Diana entendeu o porquê.

Bill estava certo. Não havia ninguém lá... porque todos já estavam mortos antes dela chegar lá.

Braços jogados para os lados, paredes e chão encharcados de sangue e fluidos corporais, deixando os corpos totalmente secos. Cabeças com ossos, mostrando que foram violentamente arrancadas de seus donos, e todas sem olhos. Em outros corpos, o crânio havia sido esmagado. Genitálias também se encontravam separadas de seus corpos, assim como fezes, o que implicava que os corpos também foram violentamente abertos. Havia algumas facas por todo aquele beco, que poucas pessoas perceberiam à noite, visto que só estava iluminado basicamente à luz da lua.

Diana vomita. Enjoo. Mais vômito. Náuseas. Uma dor de cabeça peculiar a atinge. Lágrimas. Diversas emoções ao mesmo tempo. Tudo isso de novo.

Pessoas mortas. Inocência. Maldade. Crueldade. Corrupção. Esquartejamento. Tortura. Morte. Ela conseguia ver a execução de cada pessoa dentro de si própria, e isso a atingia cada vez mais. Ouvia gritos pedindo por clemência e por ajuda. Sentia a carne sendo tocada e levada até a morte várias vezes, uma vez por pessoa. Sentia-se sendo consumida, estuprada, amarrada, dilacerada, estuprada novamente, pisoteada, torturada, chutada, soqueada, esfaqueada, chupada. Por fim, sentia a morte.

Quem seria tão cruel a esse ponto? Mais e mais sangue se espalhava por aquele beco, e a cada segundo que se passava, os corpos das pessoas eram cada vez mais irreconhecíveis. Todas deixaram suas vidas e seus parentes por estarem, assim como outras pessoas, no local errado e na hora errada.

Aqueles pensamentos fazem com que Diana fique simplesmente estupefata diante daquilo, e mais ânsia de vômito a atinge. Talvez ela gostasse daquilo? Talvez tivesse prazer em ver as pessoas sofrer? Seria tão hipócrita ao ponto de imaginar o sofrimento delas ao serem torturadas e imaginar o sofrimento causado pelas suas mortes? Ela se viu envolvida nisso, não era sua responsabilidade investigar nada. A dor de cabeça ficava cada vez mais forte e o cheiro repugnante do local começava a predominar, mas aquelas pessoas só seriam vistas pela manhã.

Um par de olhos mira em direção a ela e depois desaparece, e ela percebe isso. Mas aquilo já não importava mais. A mente dela já havia entrado em colapso.

Notas finais
Pessoalmente, eu gosto do latim. Nos dias de hoje, é uma língua que transborda mistérios, talvez até tanto quanto o élfico criado por Tolkien. Ao decorrer dos capítulos da história, haverão vários termos em latim. Para este primeiro capítulo, algumas clarificações: o título que abre este prólogo tem a tradução "Azar" e o termo "carpem diem" provavelmente já é de conhecimento geral, mas o "aliquanta carpem diem" significa apenas viver a vida com mais moderação. "Bill" significa "conta" em inglês e mainframe seria uma espécie de computador. Comentários são sempre bem-vindos, ainda mais porque este texto foi lido por pouquíssimas pessoas. Até o capítulo 2, que está previsto para o dia 30/01!