Personal Fairy Tale
1 Eleanor Rigby
Notas iniciais
Já deve ter feito um tempo desde que me declarei à ela. Na época nem me importei com respostas, porque, afinal, "eu gosto de você" não é uma pergunta. Claro que, como todas as declarações de amor, essa ferrou com a minha vida. Talvez porque a gente quase nem se falasse, mesmo que fôssemos do mesmo ano. Talvez porque Rose fosse mesmo fria, e é sempre assim que eu a vejo — nunca está com amigas, só sentada num canto, lendo, ouvindo música, mas nunca rindo. Talvez, depois disso, todos meus livros tenham se rasgado porque eu o fiz. Talvez eu tenha bebido mais uísque de fogo do que eu deveria, mas é só um talvez, já que eu não me lembro de mais nada. Talvez minha mão esteja coberta de sangue de tanto bater na parede, mas ainda sim é só talvez, nunca a certeza.
Acho que, na época, Rose me via dando aqueles olhares suplicantes de quem quer uma resposta, mesmo que eu tivesse dito que eu não a queria. Na época, ela nem olhou em meus olhos, mas através de mim. Ela me perfurou tanto com as suas íris, parecidas com uma manhã de outono, que eu pensei que tinha sumido. Olhei para minhas mãos duas ou três vezes para confirmar minha presença. Talvez meus olhares suplicantes tenham a feito acreditar que, de fato, eu era tão insignificante, incrédulo e inseguro quanto ela achava antes mesmo de eu ter sequer pronunciado uma palavra para ela. Ela, às vezes, dava um sorriso irônico, cético, um sorriso que faria meu pai aplaudi-la de pé e minha mãe esboçar uma careta de orgulho da cria dos ex-inimigos de seu marido. Logo depois de um desses sorrisos, ela me disse, sorrindo de lado:
– Cresça Peter Pan, então nós conversaremos.
Claro, eu não tinha a menor ideia de quem era Peter Pan, mas com aquele sorriso torto, aquele sorriso de Rose Weasley, aquele sorriso de quem diz que não quer nada com ninguém, não podia ser algo extremamente bom. Depois de muitas pesquisas, eu queria poder voltar no tempo e dizer:
– Só se você for minha Wendy.
Provavelmente Rose daria risada, diria que eu era um romântico ridículo, e falaria alguma coisa sobre o amor ser apenas uma pétala murcha caída no asfalto, como está escrito em um de seus poemas que eu li sem querer quando ela saiu da mesa da biblioteca para procurar um dicionário qualquer em uma das centenas de estantes da sala. Os poemas de Rose quase sempre falam de chuva, neve e granizos. Algumas vezes eu me peguei lendo uns sobre ruídos e anjos. Alguma coisa sobre ruídos gritantes entre murmúrios da sala, dores de cabeça e demônios que habitam o seu redor. Nunca entendi bem o que ela quer dizer com isso, mas nunca fiz questão de entender poesia (meu eu lírico nunca teve vontade de gritar). Sei que só o artista tem respostas para o quadro que faz, então apenas passo os olhos entre as letras cursivas e procuro ser rápido, com medo de ser descoberto. Não leio seus rascunhos para entendê-la, para achar qualquer vestígio de Rose gostar de mim. Leio-os para ter um pouco mais dela comigo. Um pouco mais do que sorrisos tortos e olhares vazios.
Rose me dá dor de cabeça e dias cansativos. Não penso nela o dia todo, nem é quase isso. Tem dias em que minha saudade só chega de noite, sorrateira, na forma de lágrimas ou pensamentos. Às vezes tento me distrair com Quadribol ou estudos, às vezes com uma menina ou outra, com vestígios de Malfoy no meu sangue — olhos cinza, cabelos loiros; é o que quase todo mundo diz. Sei que de domingo a domingo eu pareço ser um cara objetivo e confiante, mas eu queria saber qual seria minha reputação se pudessem ler minha mente. Eu queria dizer à Rose que eu posso jogar o jogo dela. Posso começar a ignorá-la e dar sorrisos tortos, como eu fazia antes. Eu já estive no lugar dela, já fui eu o cara frio que ignora as pessoas que gostam dele. Que sorri meio de lado para encantar cada garota bonita que passa e que de noite se divertia com Roxanne Weasley pelos cantos de Hogwarts. Não é uma vida de se jogar fora, sabe?
Ainda assim, tem dias em que volto dos treinos com minha vassoura em mãos, dando risada com meus amigos e ela aparece no canto de minha visão, meio pra baixo, e eu só tenho vontade de abraçá-la. Às vezes sua dor é palpável, mesmo que eu não saiba pra quê. Às vezes ela conversa com Hugo, às vezes com Lily. Também já a peguei beijando James Sirius ou Albus em um dos corredores depois de uma final da Grifinória contra a Corvinal. Não me importei, e ainda não me importo. Rose faz o que ela quiser, e todos deveriam entender essa liberdade. Não cabe à mim ter ciúmes de alguém que deixa bem claro odiar qualquer vestígio de apego. Ela pode se esquecer de mim se quiser. Eu mudo minhas certezas por ela. Rose não é minha vida, e eu não sou a dela. Na minha cabeça, isso parece certo, mas se eu pronunciar parece tão errado. O dia vai nascer e quem sabe eu acorde achando que ela realmente é minha, ou ela acorde pensando que deveria me ter.
Rose é bonita, devo dizer. Não vou dizer que ela roubou toda a beleza da Terra, porque eu ainda acho a Holanda um país bonito. Ela me lembra fogos de artifício, porque ela tem sempre a certeza do que fazer antes de realmente explodir. Rose é mais bonita do que deveria, mas ela não sabe ainda. Seus olhos (sei que já disse algo sobre eles antes) parecem o céu engarrafado e seus cabelos me lembram a Rose, simplesmente. Ela não entende o porquê, mas tem o mundo nas pontas dos dedos, afiando as estrelas com suas unhas. Seu mundo é um carnaval eterno, e enquanto o for, ela sabe aproveitar. Pergunto-me se ela me amaria se eu soubesse mentir. Se sim, Rose, eu não te amo. Tudo o que eu disse era uma mentira. Eu só estava tentando achar uma maneira de passar o tempo, quem sabe dizer para alguém "eu transei com Rose Weasley". Seus cabelos são o inferno, mas ainda acho que seus olhares me são o Paraíso.
Diz a lenda que ela trocou seus amores por certeza.
Antes de me declarar, Rose ainda não estava presente em cada arco das janelas de Hogwarts. Ela ainda não me olhava como se eu não tivesse noção do alerta de radioatividade que suas mãos ecoam a cada batida na mesa de carvalho. Acho até que ela se diverte com meu amor, ou só me acha muito retardado mesmo. Depois de minha declaração eu devo ser, de fato, mais um babaca na lista dela. Mais um cara que gosta dela, mais uma declaração. Talvez um nerd, ou só um jogador de quadribol da Corvinal. Alguém diz pra ela que eu sou só eu?
Ela se sentou do meu lado na grama. Eu estava deitado, escutando alguma música que talvez eu nunca lembrasse o nome.
– Olá, Malfoy.
Olhei para o lado, estranhando a sombra que eu via. Quando a reconheci, sentei-me.
– Oi, Weasley?
– Tentando esquecer as mágoas?
– E você quer resgatá-las?
Não sei se ela entendeu, mas Rose sorriu de leve, perdendo um pouco da postura, cruzando as pernas e colocando a mão sobre elas.
– Quero ajuda em Feitiços.
– Sua mãe não é tipo, uma gênia nisso?
– Ah, claro, eu poderia simplesmente mandar uma carta pra ela falando que eu não estou entendendo nada do que o professor está dizendo e ela poderia me mandar um berrador dizendo para eu não desonrar o nome Granger dela, dizendo que eu puxei meu pai nessa questão. Bem mais fácil. Ou será que você quis dizer que eu não sou inteligente o suficiente para ser filha da grande Hermione?
– Não! Eu só quis...
Ela riu um pouco.
– Eu só estou brincando, Malfoy.
– E por que eu? Tem o Albus, ele é muito mais inteligente que...
– Se você quiser, eu vou embora agora.
– Não, não... Deus, não. Quando quer começar?
– Que tal agora?
– Tudo bem.
Rose realmente não sabe nada de Feitiços. Ela disse que a escola trouxa é milhões de vezes mais fácil. Ela disse que qualquer coisa é milhões de vezes mais fácil, mas duvido que ela conheça muita coisa do mundo. Ela me perguntou várias coisas, o tempo todo. Sobre o que meu pai disse sobre a Batalha de Hogwarts, sobre o que eu sabia de transmutação. Ela me perguntou se eu sentia falta de alguém, e eu disse que minha vó morreu há alguns anos. Ela me disse que sente falta de um tio que nem conheceu porque "o tio George está louco e nem consegue fazer um Patrono mais. É o que diz a vovó Molly, pelo menos", e eu disse que meu pai nunca pôde fazer um Patrono. Ela ficou triste por algum tempo, mas disse que essa era a vida. Ela sempre dá um sorriso fraco, ou dá uma risada curta. Mesmo com todos os motivos do mundo para ser feliz, ela escolheu viver escondendo seu rosto sob lágrimas, mesmo que nem sempre fossem lágrimas. Às vezes eram só caras sérias e olhares fixos em uma parede que não tem nada.
Ela sorriu ao me ver virar e procurar o que havia atrás de mim, como naquele dia. Ela disse que não era nada e pediu para repetir o que eu havia dito. Ela se concentra muito no que faz, e eu nunca havia percebido isso. Às vezes ela põe seus cabelos ruivos atrás de sua orelha direita. Às vezes ela morde o lábio inferior com a presa esquerda. Às vezes ela batuca a unha vermelha no papel, fazendo um barulho irritante, mas agradavelmente familiar. Ela tinha a mesma mania com a ponta da pena. Eu queria poder dizer a ela que ainda é dia lá fora, ela não precisa ficar tão preocupada. Feitiços ainda não é tão importante assim. O mundo dela não se resume em N.O.Ms e N.I.E.Ms, se ela quiser eu resumo ele em sorrisos e suspiros de saudade entre uma pausa e outra. Eu posso mudar o fim do livro. J.M. Barrie provavelmente não se importaria, se fosse por você. Eu posso querer crescer, Rose, e ficar com você até meu amor se esgotar.
– Minha mãe conseguia fazer esse feitiço no primeiro ano de estudos.
– Então você também consegue. — Zombei. Ela me olhou e fez uma careta de quem finge gostar da piada.
– Lacarnum Inflamare. — Ela disse, em um suspiro de uma chuva de verão, mexendo a varinha, e fez o papel entre nós dois queimar em um fogo azul.
Rose deu um grito, primeiro de susto, pondo-se a alguns passos de distância de onde ela estava sentada, depois de emoção, olhando pra mim. Eu ri ao som de seus repetidos "meu Deus, meu Deus".
– Por Merlin! Obrigada, Malfoy!
– É sempre um prazer, Weasley.
Ela bagunçou meu cabelo, como se eu fosse mil anos mais novo do que ela. Eu devo ter emitido um "ei!", que a fez dar risada, e eu fiquei feliz.
– Meu pai me disse que eu herdei o cérebro da minha mãe.
– Ele estava certo, no fim das contas.
– Nem tanto — ela olhou para mim, encolheu os ombros e deu risada. — Ele me disse isso depois de dizer em bom som para eu não me meter com o "pequeno Malfoy".
Dei um sorriso para ela, olhando para cima. Suas mãos ainda estavam em minha cabeça, o que me fazia sentir infinitamente pequeno, mas imenso em questão de sentimentos.
No dia seguinte tivemos aula de Poções juntos. Era como se nada tivesse acontecido. Ela olhava para o professor e escrevia no pergaminho tudo o que ele dizia. Ia misturando ao caldeirão que provavelmente pertenceu à mãe tudo o que deveria, mexendo com precisão. Rose passou dias sem sequer olhar para mim. Ela ainda lia seus livros de nome estranho. Às vezes estudava Runas perto do lago, às vezes via seu irmão jogar quadribol na quadra, rindo dos seus erros. Rose é meio de lua. Já a vi fazer nascer plantas do chão e no dia seguinte matá-las. Talvez ninguém nunca a entendesse e acho que essa é a graça. Rose Weasley não queria ser compreendida.
– E aí, Weasley? — Estava de pé, sorrindo ironicamente para a garota sentada nas escadas.
Ela bateu na escada, ao seu lado, indicando para eu me sentar. Sentei e a observei olhar para os bruxos que estavam lá embaixo. Esse era meu único horário livre que batia com o dela. Limpei minha garganta, tentando puxar assunto:
– O que está fazendo?
– Hã... Observando os alunos do primeiro ano — ela falava, enquanto se virava pra mim. — E você?
– Observando você a observar os alunos do primeiro ano. — Sorri.
Ela deve ter ficado envergonhada, pois se encolheu. Se você me perguntasse há alguns anos atrás, eu nunca diria que Rose Weasley viraria minha amiga. Na realidade, seria a última coisa que eu pensaria, principalmente se você dissesse que foi logo após uma declaração de amor que ela praticamente me ignorou, e que não foi muito elegante. Foi, na realidade, à base de gritos e suor frio. Era noite. Estava quente, ou talvez fosse minha impressão. Ela gritou, eu gritei. Nunca quis me declarar desse jeito também.
Meu pai me disse em alto e bom tom no primeiro dia de aula: se quiser que seus anos em Hogwarts valham a pena, atormente uma Weasley. Achei que adiantaria. Eu praticamente a ignorava, mas nas horas vagas eu tinha alguma coisa na ponta da língua para falar. Naquele dia eu exagerei. Meio-sangue, puro-sangue, sangue ruim. Na realidade, eu nunca me importei.
"E qual a diferença que isso faz em minha vida, Malfoy? Ainda sou uma bruxa melhor que você", ela havia dito, e eu sabia que era verdade. Ela sempre seria uma bruxa maior que eu, e nada disso jamais importaria.
– Por que, exatamente? — Ela sorriu?
– Ah, sabe, é que eu penso em fazer isso nas terças-feiras, sabe? Perseguir um Weasley e tal. — Sorri de lado e ela riu.
– Ah, sim, claro — ela balançou a cabeça -, só às terças feiras? Acho que vou começar a fazer isso também, parece interessante.
Rose Weasley ainda me traria muito trabalho.
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