Persona

13 Capítulo Onze


Depois de passar o dia todo tentando “lembrar” coreografias e músicas, eu senti meu corpo (ou melhor, o corpo de Jungkook) começar a pedir arrego. De tanto eu recorrer às novas “estagiárias”, chegou-se num consenso de que eu estava com “perda de memória recente” devido ao estresse e cansaço. Isso mesmo, virei a própria Dory em sua essência. Não que eu esteja reclamando, agora não preciso mais fingir que sei as coisas.

O boato começou com Han Mi Mo fingindo que estava preocupada comigo — a mando do próprio JK — enquanto tomava café com o faxineiro que achava que era tudo culpa de drogas. Uma observação: Han Mi Mo odeia café, mesmo assim lá estava ela, usando seu crachá de estagiária assistente, fingindo que não sabia nada sobre mim ou o BTS.

O senhor Jung, o faxineiro em questão, começou sua ladainha sobre o efeito da maconha no organismo jovem e a capacidade da erva nos fazer esquecer as coisas mais importantes. Outra observação: o super-poder, se é que podemos chamar assim, da minha melhor amiga é abstrair qualquer coisa que não a interesse. É assim que ela consegue boas notas mesmo sentando ao meu lado em todas as aulas, ela escuta só metade do que eu digo e eu passo a aula inteira num monólogo sem fim apenas porque eu não consigo mesmo ficar quieta.

Voltando ao assunto. Han Mi Mo deixou o senhor Jung tagarelar à vontade, fazendo “hmm” e “ah” sempre que fosse pertinente – ela é mesmo boa nisso – para que ele não perdesse o interesse quando fosse a vez dela falar.

— É por isso que eu acho que esse garoto anda fumando maconha por aí… – concluiu ele depois de enumerar todas as tatuagens sem sentido que tinha visto de longe. – Que outra explicação teria? – questionou virando seu copinho de café instantâneo num único gole.

— Ah, não sei, oppa… – começou ela chamando-o de oppa apenas para massagear o ego. Ele sorriu satisfeito. – Pode ser perda de memória recente. Já ouviu falar? – estrategicamente ela desviou o olhar e me encarou de longe. Eu estava tentando – a duras penas – pegar a coreografia de Boy With Luv e não vi.

— Perda de memó…. o que é isso? – perguntou em tom conspiratório. Uma doença mental era ainda mais interessante do que drogas, pelo visto.

— Ah é tipo quando você esquece coisas importantes e recentes. Já vi acontecer com quem faz muita coisa ao mesmo tempo… e o Jungkook-oppa é do tipo que faz de tudo, não é? – comentou o encarando e sorrindo gentil.

O combo sorriso, tom conspiratório, chamá-lo de oppa quando ele é velho o suficiente para ser chamado de tio e o charme fizeram seu trabalho e ele logo estava sorrindo feito bobo, balançando a cabeça num pesar fingido por JK.

— Tem razão!! É bem possível que seja isso, senhorita! – concordou ele. – Isso explica por que ele não se lembrava como dirigir!

Ela bebeu seu café instantâneo com calma enquanto a narrativa final era criada pela mente do faxineiro. Estava quase chegando ao fim dele quando o homem finalmente deu um soquinho na própria mão e soltou um suspiro.

— Aigoo, tudo faz sentido agora. Pobrezinho.

— Pois é, coitado…

Em pouco tempo a notícia já havia chegado até aos membros mais velhos do grupo. Soube que o plano havia funcionado quando Taehyung me puxou para um canto, depois de me ver quase chorar porque não conseguia cantar e dançar sem colocar o pulmão para fora. O rosto dele transparecia a pena e a parceria que tinha com o mais jovem do grupo. Senti meu coração apertar de tão doce que aqueles olhos me olhavam. Pela terceira vez naquele dia eu senti uma vontade imensa de me pendurar em seu pescoço e pedir ajuda, mas me controlei. Não estou no meu corpo e preciso ficar constantemente me lembrando disso.

— Jungkook-ah, é verdade?

— O que?

— Que não se lembra de nada por causa de cansaço e estresse? – desviei o olhar do dele e vi Han Mi Mo e o verdadeiro JK fazendo sinais de positivo e ok de longe, como se soubessem do que se tratava.

— Co-como assim? – perguntei insegura.

— Não se lembra de ter me mostrado uma música da sua mix-tape semana passada? – perguntou aproximando o rosto do meu, como que querendo ver mentira nos meus olhos.

— Eu tenho uma mix-tape!? – perguntei em choque. O lado army falando mais alto de novo. Ao invés de me julgar, no entanto, o olhar de pena aumentou e ele me abraçou. Fiquei ali, parada em choque, enquanto sentia os braços firmes dele passarem ao redor dos meus ombros e a mão dele dando tapinhas leves hora nas minhas costas, hora na minha bunda. Sim, minhas amigas army, Kim Taehyung passou a mão na minha bunda. Bom, na do JK, mas isso é um mero detalhe técnico. Mais rápido o que eu gostaria, ele se afastou e apoiou as mãos nos meus ombros, ainda me encarando de perto.

— Vamos te ajudar, Jungkook-ah. No que precisar, pode contar comigo!

Só depois de muito tempo, quando fui me despedir de JK e Han Mi Mo que eles me explicaram o plano. A ideia tinha surgido sem querer, enquanto, disfarçado pelo meu corpo, o garoto andou por entre a equipe tentando descobrir o que diziam sobre essa mudança brusca de personalidade. Uma das maquiadoras mostrava a decoração da festa de 100 dias do bebê da irmã, cujo tema seria Procurando Nemo, com direito a balões azuis e laranjas e peixes de verdade como lembrancinha para os convidados.

Quando questionei do motivo para não me contarem do plano, eles simplesmente argumentaram que eu poderia estragar porque ficaria nervosa quando me questionassem. O que não é mentira, visto que eu realmente fiquei nervosa quando Taehyung veio prestar solidariedade ao meu problema.

Em troca, ensinei todo os truques para que JK convencesse meu pai a deixá-lo ficar na casa de Han Mi Mo por pelo menos um mês. Também expliquei como agia em determinadas aulas para que ele não se destacasse demais.

— Tudo bem se quiser aumentar minhas notas, mas não exagere ou os professores vão começar a abusar.

— A professora Kang que o diga… – sussurrou JK.

— Por que? O que ela fez?

— Ah, nada… agora eu faço parte do clube de dança e…

— VOCÊ O QUE? JUSTO O DE DANÇA? MAS É SUICÍDIO SOCIAL! Han Mi Mo!!! – gritei para ela.

— O que? Eu ainda não sabia que era você! Não tinha como avisar! – respondeu ela na defensiva.

— Relaxa, vou ficar só como apoio… não vou precisar dançar nem nada… – interrompeu JK.

— Você que pensa! – falamos Mi Mo e eu em uníssono.

— A professora Kang não descansa enquanto não consegue o que quer. – expliquei. – E no momento o que ela quer é que o clube de dança ganhe alguma competição.

— E isso é ruim?

— É, quando a escola inteira tira sarro e odeia dança… Mas você não entende, sempre foi o glorioso Jungkook…. Bom… acho que não tem jeito, né. Eu meio que mereço por ter feito você parar no Dispatch a toa.

— Sobre isso… – começou ele.

— JIMIN! AMIGO! PRECISO DA SUA AJUDA! – gritei quando vi passando. – Se cuidem e não deixem meu pai descobrir. Vejo vocês amanhã a tarde. – falei piscando um olho e mandando beijinhos no ar. Enquanto eu puder evitar de brigar com ele, vou evitar. Me julguem.

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Notada autora: agora vai!