Persecutor
19 A Melhor Pessoa do Mundo
Notas iniciais
● Nathaniel Lambert ●
Hesitei. Meu maxilar estava rígido, era algo tão ruim assim Ambre ter visto toda aquela cena na festa? Analisando a situação, era um grande problema.
– Aquela garota — minha irmã para de lixar as unhas e me lança um olhar gélido — Ela é bem familiar.
Engulo seco. Será que ela se lembra?
– Tenho que certeza que já a vi antes.
– Não, ela…
Ambre me corta e continua a cuspir seu veneno em forma de palavras: — Dreux, não é mesmo? Acho que sei quem é, se for ela, Nathaniel Lambert, você está encrencado!
– Não é ela.
– Eu sei que é ela, tenho certeza absoluta. Não vou contar ao papai, apenas continue me encobrindo no colégio.
Ela havia feito algo. Colado na prova? Brigado com mais uma garota? Aprontado na festa? Respirei fundo.
– Sim.
– Ótimo! — um sorriso apareceu em seus lábios, ela se levantou e saiu da sala com os olhos grudados em mim, antes de sair completamente do local, Ambre parou e disse: — Seja cauteloso.
Respirei fundo mais uma vez. Preciso me afastar ao máximo de Lis. Eu deveria ter feito isso desde o princípio, era evidente que com a volta dela surgiria problemas. Não quero que as coisas se compliquem mais do que já estão.
Abri meu livro e iniciei a leitura, pelo menos eu ainda tinha um refúgio.
• ● •
Parei de ler quando já não conseguia me concentrar na leitura, fechei os olhos por alguns segundos. Ouvi passos vindo em minha direção, abri os olhos e me deparei com a silhueta de meu pai atravessando o lugar.
– Oi filho.
Meus ombros se encolheram, por um momento minha voz falhou.
– Oi pai.
Já havia um pouco de tensão entre meu pai e eu, se Ambre contasse sobre a festa e Lis, as coisas iriam de mal a pior.
Ele ficou muito irritado quando esse assunto de bullying veio a tona, juntamente com outros pais, ele e minha mãe foram chamados no colégio para uma conversa e reunião com a diretora e uma orientadora escolar, o assunto não era tão grave, mas do mesmo jeito atitudes foram feitas antes que aquilo tudo tomasse grandes proporções.
Os alunos que pegavam no pé de Lis e as vezes perturbavam-a levaram uma bronca dos pais, outros resolveram proibir os filhos de conversar com a garota, então aos poucos ela se isolou. Eu observava tudo aquilo em silêncio, não pude fazer nada por ela, além disso, também tinha sido proibido pelos meus pais de conversar com ela.
Um enorme pesar tomava conta de mim, parte de tudo aquilo foi culpa minha, eu poderia ter ajudado Lis, poderia ter feito algo para as pessoas deixarem de ser cruéis, eu poderia ter contado para a professora desde a primeira vez que formaram uma rodinha pra xingá-la. Eu poderia ter sido seu herói, como ela foi tantas vezes uma heroína para mim. Mas ao invés disso eu fugi.
– Algo novo? — meu pai disse, sua voz fria e firme quebrou minha linha de pensamentos.
– Não.
– Tudo tranquilo no colégio? As vezes voltar as aulas pode ser um pouco corrido.
Um filme passou pela minha cabeça: Lis na sala do Grêmio pedindo ajuda, nossa conversa na sala de aula, ela andando com Castiel, minha insegurança constante…
– Por incrível que pareça está tudo tranquilo. — menti.
Meu pai resmungou e voltou para seu escritório. Foi uma conversa estranha, ele estava amigável, nada de perguntas peculiares e afiadas como faca. Eu não deveria ter mentido para meu pai, mentiras tem pernas curtas, ele vai ficar sabendo, sei que vai. E quando se trata de meu pai um pequeno floco de neve é capaz de provocar uma avalanche.
● Lis Fontaine ●
Não sei por que as garotas insistiam em falar sobre rapazes, Rosalya contava sobre alguns momentos com Leight e Iris sobre seu ex-namorado e alguns ficantes. Na noite anterior Iris estava com um garoto, ela disse que era um amigo nada demais, Rosalya dizia que ela deveria investir nele. Eu não sabia muito o que dizer, não conheço muito sobre elas, mas assim que Rosalya mostrou fotos do tal rapaz eu tive que concordar, Iris deveria tentar fisgá-lo.
O dia passou rápido, liguei para minha tia me buscar, me despedi das meninas, entrei no carro e duas quadras depois minha tia despejou:
– Sua mãe me ligou o dia todo.
– Por que? Aconteceu algo?
– Não ela estava preocupada com você, não parava de perguntar se você já tinha chegado, se as meninas eram de confiança.
– Elas são de confiança tia, pode ter certeza, a mãe da Iris…
– Eu sei, eu conheço os pais dela. E também sei que você quer curtir essa fase da vida. Pode contar comigo. — minha tia pegou na minha mão e sorriu. — Como foi a festa?
Mordi o lábio, eu deveria contar tudo a ela?
– Foi legal, tirando a parte em que eu briguei com o Castiel.
– Brigou?
– Não. É que ele tava meio irritado, talvez eu tenha dito algo que ele não gostou, então ele ficou com os amigos dele e eu com os meus. Mas não que a festa tenha sido ruim. Foi… foi legal.
– Lis, você bebeu?
Arregalei os olhos, meu coração parou. Droga, droga, droga.
– Um pouco.
– Fique longe de vodka, tudo bem? Ela engana muito fácil, tome vodka apenas na batida. Nas minhas festas de colégio, as vezes eu passava da conta, mas nada muito grave.
O que? Minha tia? Não!
– Você deve saber aproveitar, e se estiver ao lado das pessoas certas, com certeza tudo vai ser muito mais intenso.
Sorri. Com certeza minha tia é a melhor pessoa do mundo.
• ● •
Chegamos em casa e ela pediu ajuda para tirar algumas sacolas do carro, levamos tudo para a cozinha. As sacolas eram diferentes para mim, não eram comuns como as de mercado. Olhei o conteúdo e a maior parte eram frutas frescas e outras coisas orgânicas.
– Eu comprei na feira.
Olhei para minha tia que tirava algumas frutas de uma sacola e colocava delicadamente sobre a pia da cozinha.
– Vou fazer uma torta de frutas vermelhas, fazer não, tentar fazer.
Ri com o ultimo comentário.
– Você pode me ajudar?
– Com certeza. Cozinhar é legal.
Ela elevou uma das sobrancelhas: — O que você sabe cozinhar?
Dei um sorriso bobo: — Como a maioria das pessoas na minha idade, o básico.
– E o básico seria apertar os botões do microondas?!
– Por aí…
O dia estava perfeito. Finalmente a vida que eu sempre sonhei para mim estava se iniciando, bem naquela tarde de verão francês.
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