Perpetua

1 Capítulo Único - Noivado Eterno


A luz fraca da lua minguante, que atingira seu ápice sobre o céu escuro e outonal sem qualquer estrela para lhe fazer companhia, fora a principal testemunha daquela atrocidade, seu brilho guiara a garota até sua entrada naquela mansão, nada mais justo que ser o único a acompanhá-la em sua saída. Agora, seu formato resplandecia em suas orbes esverdeadas, antes tão vívidas quanto verdadeiras pedras de esmeralda, representando sua vivacidade perdida, pupilas dilatadas como se observassem o infinito acima de si esperando cegamente por um mínimo sinal de clemência divina. Nada veio. Nada mudou.

Os galhos, em sua maioria secos, das árvores que rodeavam ambos os corpos tremularam com uma fria brisa seguida por um trovão alto, as folhas bateram-se umas contra as outras como se contrárias à saída forçada de seu estado de inércia anterior, algumas, mais fracas, caíram como gotas de chuva no solo arenoso formando um tapete interceptado apenas por algumas porções ainda descobertas e raízes das plantas mais altas, caso estivessem sob a luz do sol seus tons de amarelo a vermelho seriam mais nítidos e saturados, uma paleta de cores quentes naturais, um cenário perfeito, no entanto ali, e talvez isso fosse apenas culpa do bloqueio da já tenra iluminação da parte das copas, mais aparentava um clichê cenário infernal e aquele vermelho vivo podia muito bem ser confundido por sangue.

Com a única diferença de que não era tão rubro e delicioso quanto os filetes que deixavam os cortes da faca prateada em sua pele pálida colorindo suas vestes — seu vestido azulado e o terno marrom e luvas brancas dele -, o chão e plantas ao seu redor em desenhos disformes e manchados que cheiravam à cobre. Sua perna direita estava jogada de uma maneira irregular para o lado, fora quebrada pouco antes de sua saída daquele mundo para o misterioso consciente de um cérebro em colapso, enquanto a esquerda era aberta de maneira não muito profunda por uma faca pequena como se para ligar todos os pequenos cortes e furos espalhados por ela. Seus braços, abertos como se para fazer um anjo de neve, não eram vítimas da lâmina afiada, apenas das presas que mordiam um lugar por alguns segundos antes de saírem em busca de um outro ponto. Das duas uma: ou seu agressor estava desesperado em marcá-la ou deveras indeciso sobre onde mordê-la.

Os gritos noturnos estavam confusos, quase tanto quanto os sussurros chegando a inaudíveis feitos pelo Quarto Filho, este desejava apoderar-se aquele frágil lírio tanto quanto desejava destruí-lo, a sede era incontrolável e o tempo sequer parecia correr para o amante cruel. A cada novo ferimento na pele ainda quente, porém sem movimentos de respiração ou pulsação, lembrava-se de seu sorriso doce enquanto afagava seus cabelos durante aquela tempestade prometendo que jamais o deixaria. Arrependimento e raiva corroíam o seu coração. As mulheres eram baixas e vis, ele tinha consciência disso, sua mãe lhe mostrara junto ao seu tio que nenhuma delas valia algo tanto para as morais quanto os valores, pois apenas seduziriam os homens tolos de amor para o que lhes fosse conveniente.

Mas, inferno, ele a amara!

Dissera isto com todas as palavras naquela noite em que visitaram o cemitério, como pudera ser tão idiota? E aquela vadia ainda se atrevera a dizer com suas falsas lágrimas que tais sentimentos eram recíprocos! Certamente subestimou a sagacidade das moças, deveria ter sido mais atento aos sinais, aquelas declarações que fizeram um ao outro agora pareciam apenas rimas parnasianas treinadas como palavras de um roteiro teatral. Sua boca descolou-se do seu seio esquerdo para descer em direção á sua cintura mordendo agressivamente mais uma vez. Aquilo teria sido evitado se ela realmente o pertencesse, aquilo não teria ocorrido caso o seu sacrifício não houvesse sido tão inconsequente e oferecida ao conversar distraidamente com seu irmão mais novo. Seu coração apertou-se mais uma vez enquanto escassas lágrimas de puro ódio escorriam por suas feições manchando ainda mais a roupa abaixo de si. Por quê? Por que ela tinha que sorrir de maneira tão pura e gentil para outro? O que ganhara roubando o seu coração apenas para jogá-lo de lado como um brinquedo velho?

Não. Ele faria o que quisesse agora. Não era justo que fosse penalizado por tamanha falta de consideração da albina. Afinal, ele decidira no momento em que os viu juntos, certo? Faria seu doce e delicado lírio pagar por sua traição e a reivindicaria para si de forma que ninguém mais pudesse ser capaz de admirá-la além dele mesmo. Seus dentes deixaram a pele macia pela última vez enquanto, ofegante, admirava o seu trabalho.

Durante a perseguição tomara todas as providências para seu rosto fino e maduro não ser afetado, tanto que em contraste ao estado corporal e o facial eram tão grandes que poderia muito bem tratar-se de duas pessoas diferentes se tirassem a foto de apenas um, Kanato removeu suas luvas sujas e jogou-as para o lado assim que sentiu-se satisfeito, no fim se controlara tanto para nada. Seus cabelos platinados receberam uma última vez o toque das mãos geladas do rapaz antes que os afagos parassem, seu corpo ficou pouco a pouco mais rígido, enquanto a madrugada movia o sol noturno em direção ao seu descanso para que a estrela da manhã pudesse assumir seu lugar de direito.

Ele, particularmente, não gostava do sol, todavia precisava reconhecer que o que faria exigiria bem mais luz do que era permitido pelo céu rosado e violeta acima de si ainda sem estrelas. O cantor pensou em Teddy por um momento, deixara-o em casa ainda, sentado na sua cama em seu quarto, oferecera-o para que sua tão perfeita Afrodite tocasse-o com suas pequenas e sensíveis palmas humanas, naquele tempo seu sorriso parecera gentil e genuíno, contudo se assim o fosse ela não o direcionaria para outros, não?

Removendo uma pequena caixinha negra do seu bolso o rapaz apenas abriu-a quase que no automático pegando a pequena aliança de prata com uma pedra de esmeralda tão verde quanto seus olhos incrustada em formato de um delicado coração com seu nome escrito internamente em uma grafia tão refinada que quase ficava ilegível e colocando-a com cuidado no dedo anelar da mão direita da morta abaixo de si e mantendo a versão masculina deste dentro da caixa e voltando a guardá-la. Imaginava onde a colocaria depois que terminasse, o tipo de vestido que utilizaria e o quanto de maquiagem seria necessária para cobrir suas feridas.

Sem qualquer indicação ele ergueu a mão esquerda e, com um cuidado nenhum pouco condizente com a violência utilizada anteriormente, sua mão pálida fechou as orbes que ainda acompanhavam refletindo o reflexo lunar mesmo que não mais parecessem notar sua existência. Ele fora seu primeiro em todas as coisas, logo deveria ser o último também, a garota jamais deveria ver nada além de seu rosto enquanto portasse aquela aliança em seu dedo.

— Bons sonhos meu amor. Eu estarei aqui com você, para sempre. — os covos grasnaram ao longe, mas ainda assim nada veio. Nada mudou.

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