Pernico - E.T.
1 Capítulo 1
Percy acordou antes do despertador mais uma manhã. Xingou baixinho, vestindo o pijama. Depois que começara o hábito de dormir nu, não conseguira mais parar. Seguiu para a cozinha, onde teve para o café da manhã a pizza fria de ontem. Sabia que, se quisesse manter esse corpo esculpido, teria que parar de comer essas porcarias ou passar mais tempo na academia, mas a natação já consumia muito do seu tempo. Além do mais, ele tinha licença poética pra comer besteira.
Havia terminado o namoro nesse fim de semana, afinal.
Recebeu um áudio de Grover — "E aí, cara? Tranquilo pra hoje ou precisa de mais tempo pra se recuperar?"— e suspirou antes de responder por mensagem.
— Terminei um namoro, não perdi uma perna. — comentou amargo para si próprio.
Não que pudesse culpar Annabeth por tê-lo trocado. Era o penúltimo ano do Ensino Médio, ambos estavam com a cabeça cheia de estudos, sem tempo um pro outro e tendo algumas discussões sobre falta de atenção ao longo do ano. E então vem Reyna, ajudando Beth em estudos avançados que Percy nem sonha em entender e convidando-a para sair nos fins de semana.
Ele só achou ruim ela nem ao menos ter esperado uma semana antes de assumir publicamente o namoro com a líder do conselho estudantil.
Tentou não grunir. Pensar nesse assunto o deixava frustrado por não ter percebido esses detalhes antes. Em sua defesa, estar presente para a família — sobretudo para sua mãe, que terminou seu primeiro livro e estava grávida de sete meses -, ser o melhor no time de natação da escola e tirar notas boas não era uma tarefa fácil. Fora que, mesmo antes de Reyna, Annabeth sempre preferiu passar os fins de semana com as amigas, enquanto Percy passava com os amigos.
Tomou o café da manhã e correu para o banho, tentando aproveitar o tempo para relaxar com a água envolvendo o seu corpo. Anos poderiam passar, ele nunca se cansaria da sensação, mesmo fazendo parte do time de natação. Escovando os dentes, notou círculos escuros ao redor dos seus olhos verdes. Passara a noite de sábado bebendo com Jason, para lidar com a situação, e seu domingo, embora tenha sido de ressaca na cama, foi cheio de pesadelos.
Essa jornada de estar presente para os entes queridos enquanto corre atrás do seu futuro, embora desse bons frutos, era muito desgastante. Por que a estrutura do Ensino Médio tinha que sugar tanto as energias dos estudantes? Percy até pensava em diminuir o desempenho nas matérias para aliviar a carga, mas todas as boas faculdades esportivas que lhe interessavam exigiam boletins com notas boas, sem se importar com seu TDAH e dislexia.
Se arrumou e dirigiu carrancudo. Ele realmente detestava segundas-feiras. Hoje era um daqueles dias onde se um buraco negro aparecesse e o sugasse para o inimaginável, ele agradeceria imensamente, porque qualquer coisa parecia melhor que ver Annie de mãos dadas com outra enquanto ele exalava dor emocional. Leo faria piadas completamente desnecessárias sobre o assunto e Frank o olharia com pena. Ao menos Jason, que já levou um chute seis meses atrás, o compreenderia de verdade.
Porém, enquanto dirigia, Percy notou um garoto que parecia estar pedalando em direção à escola, já que não usava roupas esportivas e tinha uma mochila nas costas. O garoto usava uma jaqueta de aviador, era quase branco como papel e tinha cabelos definitivamente pretos, já que nem a luz do Sol lhe dava reflexos castanhos. E então, as memórias vieram do garoto que perdeu a mãe a irmã quando eles ainda estavam no fundamental. Esse era Nico di Angelo, o pária social da escola.
Estudavam juntos desde o sexto ano e, se já trocaram alguma palavra, Percy não lembrava. O garoto só conversava com Reyna, Hazel e o zelador da escola, Bob. Também chegou a namorar aquele garoto fofo, Will Solace, mas desde que o loiro se mudou pra outro estado, Nico tem estado mais carrancudo e menos participativo nas aulas. Percy teve calafrios. Talvez ter visto Os 13 Porquês tenha o deixado meio paranóico com alunos assim.
Chegando na escola, foi surpreendido ao ver que Nico já havia chegado e trancado a sua bike, não muito longe de onde Percy estacionou o seu carro. Será que ele treina com o Hedge? Pensou. Era o único professor que não pertubava Nico quando ele não queria colaborar. Rolam boatos que eles e Reyna ficaram mais unidos depois que Nico se perdeu na floresta, durante o acampamento da escola, e Reyna e Hedge o resgataram. Percy estave gripado na época, então ele não pôde ir naquele ano.
— Alguns alunos descrevem que o olhar de Nico estava vidrado naquele dia, como se alguma coisa tivesse se partido dentro dele depois daquele dia. — Grover explicou, quando Percy perguntou sobre o garoto, já em sala de aula. — Reyna e Hedge também ficaram meio estoicos nos próximos dias. Também rolam boatos que Nico foi abordado por um urso e conseguiu matá-lo e quando o encontraram, ele estava nu, sujo com o sangue do animal, desmaiado em cima do cadáver.
— Quem seria louco de espalhar uma mentira dessas? — Percy duvidou. — Ele é mais magro que qualquer aluno da nossa turma e nunca arranjou uma briga aqui na escola!
— Quem costuma afirmar a história toda vez que falam de Nico é o Octavian. — sob o olhar crítico de Percy, Grover se engasgou. — N-não que confie no cara, mas metade das fofocas dele tem fundamento!
— De quem estamos falando? — Leo se intrometeu.
— Percy Jackson, Leo Valdez e Grover Underwood! — A Sra. Dodds interrompeu. — Detenção pros três pela conversa paralela! — direcionou o foco pra um aluno no canto da sala. — Nico di Angelo, vai guardar o telefone ou quer se juntar à eles?!
Nico deu de ombros, fazendo metade da sala arregalar os olhos e abrir a boca. A Sra. Dodds parecia capaz de criar chifres e tentar impalar o garoto com eles, mas apenas cerrou os punhos e voltou a escrever no quadro, quase afundando a caneta na parede. Percy nunca viu alguém calar a boca daquela professora insuportável e sair ileso dessa forma. O que Nico tinha que o tornava tão especial?
— Tira uma foto, dura mais. — Rachel balançou a mão na sua frente, fazendo Percy parar de olhar pro garoto. — Não sabia que jogava pros dois lados, Percy.
— Não tem nenhuma carta de tarô te mandando cuidar da própria vida, Rachel? — Percy sussurrou agressivamente.
Honestamente, o moreno não sabia dizer se gostava de homens da mesma forma que mulheres. Rolaram alguns momentos constrangedores com Jason no vestiário e Luke ainda era um tópico delicado de falar, tanto pra ele quanto pra Thalia e Annabeth. Mas Nico nunca foi uma possibilidade na sua cabeça. Contudo, tinha que dar o crédito a Rachel. Desde que encontrou di Angelo na rua, não tem tirado os olhos do garoto. Parecia hipnotizado por ele.
O sinal tocando interrompeu seus pensamentos.
— Ei, Grover! — chamou. — Vai pro refeitório hoje? — quis saber.
— Não, cara. — o castanho negou com a cabeça. — Júniper está super tensa com a família e eu tô super tenso com as provas. Ela vai me ajudar a revisar pra se distrair. Amanhã a gente senta pra almoçar, pode ser?
— Tranquilo. — Percy acenou, com um sorriso murcho. — Leo? — tentou, mas ele já estava saindo de mãos dadas com Calipso.
Jason não foi visto todo esse tempo, então Percy presumiu que estava em casa. Com a sorte que o loiro tinha, deve ter desmaiado de novo e quebrado os óculos. Jackson se dirigiu pro refeitório sozinho, antes de notar uma figura com jaqueta de aviador ir pra a sala de música, que ninguém — além dos zeladores — tinha acesso às segundas. Seguiu Nico, entrando na sala e se escondendo atrás das pilhas de cadeiras, esperando que o outro tirasse uma seringa do bolso. Pela magreza, Nico poderia estar se injetando e vomitando depois.
Ao invés disso, o moreno tirou o celular do bolso e colocou uma música da Lady Gaga — que Percy só sabia que era Dance in the Dark porque Piper é a maior little monster da escola e cantava direto nos rolês — pra tocar. Antes que Percy se perguntasse porque se dar ao esforço de ir pra uma sala de música só pra isso, Nico tirou a jaqueta, revelando com uma regata preta que deixava braços surpreendentemente desenvolvidos, embora ainda magros.
Prendeu os cabelos, que iam até a altura do queixo, com um elástico preto que deixava no pulso e começou a dançar. Mas não uma dança pessoal improvisada de quem está sozinho em casa ouvindo seu artista favorito. Nem uma dança interpretativa esquisita, o que seria a cara de Nico. Estava fazendo uma coreografia bem típica de música pop, não se deixando parar em nenhum segundo. Parecia sentir a letra da música ao dançá-la, como se só se sentisse livre dançando no escuro daquela sala.
Foi aí que Percy notou algo muito estranho. A pele pálida de Nico pareceu ganhar brilho próprio, como raios de plasma ziguezagueando pelo seu corpo. De início, pensou que era gotículas de suor, capturando os poucos pontos de luz do Sol que conseguiram entrar na sala, mas o próprio Nico parecia notar e se sentir assustado. Parou de dançar e, aos poucos, esses feixes arroxeados cessaram.
— O que tá acontecendo comigo? — ouviu o garoto perguntar pra si próprio.
Percy estava abismado. Nunca vira uma coisa tão peculiarmente bonita. Era como se a luz dentro dele quisesse escapar na dança. Mas também era bizarro. Nenhum ser humano, não importa o quão extraordinário, emitia luz própria daquela forma. Queria ter um meio de capturar a cena, mas sentiu uma estranha onda de empatia por Nico, como se ele também brilhasse. Não gostaria de ser gravado num momento frágil desses.
Um grunido o trouxe de volta para a situação em que estava. Viu Nico se ajoelhar e se apoiar nos antebraços, como quem se curva para uma estátua de uma divindade. E então, as sombras da sala começaram a se mover ao redor de Nico, deixando uma penumbra onde Percy pôde ver um par de asas gigantes, pretas como a de um urubu, se materializarem de sombras, nas costas do garoto. Essas sombras pareciam sussurrar, mas com uma voz e linguagem que não pareciam humanas.
— Uau. — Percy deixou escapar da sua boca, tampando-a logo em seguida.
Imediatamente, a imagem diante de si se estilhaçou e tudo voltou ao lugar. Nico se levantou rapidamente e foi em direção à voz de Percy. Não demorou pra achá-lo e agarrá-lo pela gola da camisa, mas antes que fizesse ou falasse alguma coisa, Percy soltou, aos berros:
— Elas são lindas!
E Nico hesitou. Percy estava de olhos fechados, esperando um soco ou ser evaporado só com um olhar de Nico.
— O quê? — Nico perguntou, com um tom agressivo, mas que não escondia seu medo.
— Suas asas... — Percy respondeu, tímido. — E-elas são lindas...
Inesperadamente, Nico largou Percy e pegou a sua mochila, indo em direção à porta da sala. Ao olhar no rosto de Nico, Percy viu uma expressão atordoada, confusa. Parecia tão arrebatado pela situação quanto o atleta. Quando abriu a boca, Percy pensou que Nico diria Cai fora! ou Para de me seguir!, mas o que ouviu foi:
— Obrigado.
E logo depois, Nico deixou o lugar. Quando Percy conseguiu fazer o seu corpo voltar a lhe obedecer, tentou seguir o garoto, mas o perdeu no amontoado de alunos passando pelo corredor. O sinal acabara de tocar e era hora de ir pra a próxima aula.
Percy ficou tão quieto durante os próximos tempos que até o professor estranhou. Seus amigos ainda mais, tentando conversar com ele e falhando. A imagem daquelas asas magníficas não saía da sua cabeça, assim como as luzes percorrendo o corpo de Nico. Mas principalmente, o seu hálito doce e a sensação da sua mão no peito do atleta pareciam ter sido marcadas a ferro no seu cérebro. Pareceu hipnotizado pelo resto do dia, enfeitiçado por aquele garoto, se é que podia chamá-lo assim.
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