Perjúrio
3 Capítulo 3
Notas iniciais
— Quer dizer que você é prima do Bruce Banner?
Alguns dias depois da primeira vez que encontrei Matt Murdock, nós descíamos um longo corredor que tinha o piso e as paredes completamente brancas, na expectativa de conversar com Darcy Lewis. Matt segurava meu cotovelo enquanto caminhávamos a passos lentos, conversando animadamente pelo caminho.
— Sou! E eu recebi uma transfusão de sangue dele depois que fui atacada por um chefe da máfia em Los Angeles. Foi assim que eu fiquei com poderes.
— Parece história de revista em quadrinhos. – Gargalhou Matt e, quando o encaro, ele dá de ombros, sabendo, de alguma forma, que minha expressão era de desaprovação.
— Disse a pessoa que consegue escutar o coração de cada pessoa que encontramos no caminho.
Dou um soquinho no ombro dele, aproveitando que estou como Jennifer Walters e não tenho nem metade da força que normalmente tenho, e Matt sorri.
— Você já trabalhou com direito super-humano? – Pergunto.
— Não diretamente, porém ajudei com a papelada do Edifício Baxter para o Reed Richards. Não sei se conta. – A expressão dele, por vezes, instiga o pensamento que ele mentia para ver minha reação. Acho que Matt nota isso, porque rapidamente acrescenta: – É verdade! Foi um dos primeiros trabalhos da minha firma.
Concordo com a cabeça enquanto faço um beicinho e levanto os olhos, incrédula.
— Isso é, no mínimo, inusitado. – Digo logo após. – Mas gostei. Já me chamaram para ser membro reserva do Quarteto, sabia?
É a vez de Matt achar que estou mentindo – e ele provavelmente ficaria um bom tempo sem saber a verdade sobre aquilo –, franzindo o cenho e olhando em minha direção, contudo, nos aproximamos da sala designada. Ele estica a mão direita para tocar a placa em relevo escura sobre a madeira, confirmando:
— Doutora Darcy Lewis.
— Exatamente.
Busco uma garrafa d’água na bolsa para melhorar a garganta seca, enquanto Matt suavemente bate na porta. Uma voz um tanto nasalada demora cerca de dez segundos para responder “entra”, permitindo nosso ingresso no cômodo, o qual era uma sala não muito grande, repleta de papéis espalhados e um computador com dois monitores sobre a escrivaninha. Uma mulher baixa, com longos cabelos negros e uma touca cinza, recebeu-nos com um sorriso com os lábios fechados, e indicou que nos aproximássemos.
— Bom dia. – Ela nos cumprimentou.
— Bom dia, doutora Lewis. – Pigarreio antes de continuar: – Meu nome é Jennifer Walters e esse é meu colega...
Antes que eu pudesse terminar, porém, Darcy abriu a boca em surpresa:
— Meu Deus, você é a Mulher Hulk! – Concordo com a cabeça. – Sou uma grande fã. Desculpa, eu não reconheci sem estar na... Forma... Você sabe.
Dou um sorriso que aparenta um gigantesco esforço para não parecer sem graça. Era cada vez mais comum as pessoas lembrarem da animada e extrovertida Mulher Hulk, e esquecerem da tímida e sem sal Jennifer Walters. O advogado ao meu lado continuou a apresentação de onde eu parei:
— Matthew Murdock. Somos os advogados responsáveis pelo caso Westview.
Darcy arregalou os olhos.
— Wow. – Disse após alguns segundos. – Tá aí um nome que eu não escuto há um tempo. Vocês estão do lado da Wanda ou do povo?
— Da Wanda. – Respondo. – Somos a equipe de defesa dela.
— Precisamos de algumas informações que possam nos ajudar. – Acrescentou Matt. – Sabemos que você esteve dentro da realidade criada pela Wanda. O que pode nos dizer sobre isso?
Há duas cadeiras em frente à mesa de Darcy, e indico à Matt que ele pode se sentar; ele tateia pelo braço da cadeira até conseguir se firmar, e me acomodo no assento ao lado dele. A moça morde os lábios e usa as mãos para brincar com o zíper do casaco, um colete preto aparentemente bastante leve sobre uma blusa de lã de mangas compridas. A primavera estava cada vez mais próxima, porém, Nova York sempre era um tanto fria, e a sala também possuía um grande ar-condicionado na porção superior, o qual às vezes me fez estremecer no período que estive na sala. Após um instante consideravelmente longo em completo silêncio, ela estalou a língua e disse:
— É... É uma história complicada.
— Tudo em direito super-humano é. – Dou um sorriso apaziguador, e vejo que Matt faz o mesmo, tentando demonstrar alguma segurança.
— O que eu quero dizer é – Darcy inclina o corpo para frente, posicionando os braços sobre a mesa –, existe uma chance razoável de vocês não acreditarem em mim, ou na Wanda, considerando que vocês nem conhecem ela.
Matt abriu a boca para dizer algo, mas rapidamente o interrompi:
— Nós acreditamos na Wanda. – Nesse momento, meu olhar é tão sério que eu mesma me surpreendo; ao menos, parece convencer a moça.
— Conte-nos tudo o que você sabe. – O lado mais racional, representado por Matt, se manifestou em seguida. – Até o que você julgar absurdo e impossível.
Darcy tamborilou os dedos na madeira da mesa, e, mesmo com a audição normal, e não sensível como a de meu colega, percebo que ela engole em seco.
— Eu fui chamada para participar de uma investigação nos arredores de Westview, Nova Jersey, tem alguns meses. Uma cidade inteira havia desaparecido, e era separada do restante do mundo por uma espécie de película mágica.
Ajeito meus óculos com uma das mãos, mantendo a cabeça abaixada para anotar alguns detalhes. Anos atrás, eu seria a mais cética do escritório, contudo, ter poderes fez com que notasse que nada era tão impossível quanto parecia.
— Comecei a procurar indícios do que poderia ser, meus aparelhos indicaram uma alta quantidade de radiação da época do big bang, aí pedi uma televisão de tubo, conectei e lá estavam a Wanda e o Visão em um sitcom dos anos cinquenta.
Nesse momento, sinto que franzi o cenho, e Matt provavelmente fez o mesmo, porque logo perguntou:
— Como assim, um sitcom?
— Basicamente, a Wanda criou essa realidade em que ela vivia com o Visão em uma espécie de seriado de televisão americano. – Darcy deu de ombros. – Nós temos tudo gravado.
— Gravado? – É a minha vez de intervir.
— Podemos ter acesso a isso? – Pergunta Matt, com uma fagulha de esperança.
Ela, porém, parece penalizada quando nega com a cabeça.
— Só com a chefe, Monica, mas ela está no espaço agora.
Por algum motivo, viro o rosto para meu assistente, o qual faz um movimento com a mão enquanto balbucia algo e pergunta:
— Quando vocês dizem no espaço, vocês querem dizer... – Ele aponta para o teto, indicando o céu. – Aquele espaço?
— Exatamente. – O tom de naturalidade que Darcy responde não causa nenhum efeito em mim, porém Matt parece estupefato.
— O que achou que eu queria dizer com “espaço”? – Pergunto em voz baixa para ele.
— Um lugar muito longe. – É o que ele me responde, e abafo uma risada.
— Você não sabe da missa a metade.
Tenho vontade de contar a Matt que Bruce me dissera sobre alguns Vingadores terem ido ao espaço para buscar as joias do infinito em outras linhas temporais, porém, se o mero fato de ir ao espaço já parecia absurdo para ele – o que era estranho, tendo em vista ter conhecido o Senhor Fantástico e presenciado o ataque Chitauri em 2012 –, espero mais um tempo antes de contar as aventuras que meu primo tivera, sendo herói há tempo consideravelmente maior que eu.
Darcy continua em seguida:
— A Monica ficou mais tempo dentro do sitcom do que eu, inclusive voltou para lá para ajudar a Wanda.
Folheio rapidamente as páginas do processo, procurando por um documento que lembro de ter visto: um testemunho de Monica Rambeau quando saíra do controle mental de Westview.
— Ela disse que era excruciante, e mesmo assim quis retornar?
— Sim. – Darcy deu um meio sorriso. – A Monica acreditou na Wanda até o final.
Matt, nesse meio tempo, estava em silêncio absoluto, repousando o queixo na bengala sinalizadora, até que resolveu se manifestar:
— Você mencionou que entrou no hex. Como foi isso?
— A Wanda expandiu as barreiras do mundo dela e eu estava acorrentada em um carro. – Quando eu arregalo os olhos, e Matt faz o mesmo por trás dos óculos, ela faz um movimento rápido com a mão. – Eu disse que a história era complicada. Enfim, eu entrei naquele mundo como parte de um circo... Algo importante que vocês dois precisam saber é que a Wanda transformava qualquer ameaça em algo inofensivo na realidade dela. Por isso eu e os canalhas da SWORD entramos como participantes de uma apresentação de circo.
Ela fez uma pausa.
— O Visão me ajudou a sair de lá.
Eu olho para Matt e ele vira o rosto para mim, lentamente concordando com a cabeça. O coração de Darcy deve ter permanecido no mesmo ritmo desde que entramos em sua sala, demonstrando que ela falava a verdade.
— E onde está o Visão agora?
— Muitas perguntas difíceis para uma hora só! – Riu ela, chacoalhando as mãos em frente ao corpo. – Não sei se vocês sabem, mas existiram dois Visões por um tempo, um que era vivo pela manifestação da Wanda, e outro que era criação do malvadão do Hayward, diretor da SWORD à época. Essa versão foi criada para ser uma arma, e está sumida há algum tempo. Já o que era manifestado pela Wanda desapareceu junto com o hex.
Anoto tudo o que Darcy fala em um bloco de notas para debater com Matt depois.
— Doutora Lewis, – digo lentamente – você iria se importar de depor em nossa causa?
Ela dá de ombros.
— Por que não? Só indicar quando vai ser a audiência de vocês. – Darcy enrola uma mecha de cabelo entre os dedos. – Eu mencionei que o irmão falecido da Wanda foi trazido para aquela realidade? Acho que foi a Agatha. Aquela mulher era uma bruxa...

Quando deixamos o prédio em que Darcy trabalha, respiro, aliviada. Depois de tanta conversa, consigo mais ou menos fazer uma linha temporal dos acontecimentos: um sitcom, começando nos anos 1950, que, a cada dia, aumentava uma década. Nossa cliente controlando tudo aquilo. Matt, mesmo não aparentando tanto quanto eu, também aparenta um pouco de cansaço em sua expressão
— Incrível, doutora Walters. – Ele tinha um excesso de formalismo comigo desde que nos conhecemos, mas estava exausta para corrigi-lo. – O coração dela não se alterou uma única vez. Tudo o que ela falou é verdade.
— E tudo bate com os documentos. – Admito, arrumando as anotações na pasta enquanto seguíamos juntos para o carro. – Se tivéssemos mais informações sobre esses episódios de sitcom... Porém, não seria ético exibir isso sem a autorização da Wanda. Apenas voltaríamos à estaca zero.
— A Maximoff também teve dois filhos que desintegraram junto com o hex? – Matt pergunta. – Isso é muito triste.
— E uma pessoa se fingiu como o irmão falecido dela. – Abro a porta para Matt e, em seguida, sento no banco do motorista. – Alguém se aproveitou do luto da Wanda. Duplamente.
Por um momento, paro e respiro, antes mesmo de ligar o carro ou colocar o cinto de segurança. Com os dedos ao redor do volante, aperto firmemente o material duro, um pouco frustrada porque, apesar das descobertas, não tínhamos nada de muito concreto para formar uma tese de defesa, não quando diversos moradores da cidade iriam depor contra nossa cliente na audiência que seria em algumas semanas. E o Visão estava sumido, para melhorar a situação, contudo, poderia pedir uma ajuda para o Bruce sobre isso, então não era exatamente a maior das minhas preocupações.
Sinto meu celular vibrar dentro da bolsa, mas ignoro. Estava trabalhando, afinal de contas; e a ligação coincidiu com o momento que tive uma ideia para tentar descobrir mais alguns detalhes.
— Matt, já foi até Nova Jersey?
— Eu nunca nem saí de Hell’s Kitchen. – Responde ele.
— Se quiser passar em casa pegar uma muda de roupas, avise. – Ligo o carro. – Vamos dar um pulo em Westview.
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