Perina Series
1 ANOTHER LOVE - Capítulo 1 - Perina Series #1
Notas iniciais
Another Love — Capítulo 1
É engraçado e até irônico, como nós, seres humanos, muitas vezes ao longo da vida nos achamos superiores uns aos outros. Nos achamos invencíveis e infinitos. Estamos, porém, tremendamente equivocados.
E isso é evidente para mim todos os dias. Eu vejo como nós podemos ser tão frágeis e tão pequeninos ao lado da natureza, dos oceanos, e de tudo de majestoso que existe. Podemos ser reduzidos a nada. Somos tão frágeis quanto o vidro. Todo mundo, um dia, deixa esse mundo para trás. Mas ás vezes, quando nos botamos em um pedestal desnecessário, nos esquecemos de que podemos partir ao atravessar uma rua e tropeçar. Podemos partir ao ser assaltado e levar um tiro. Podemos partir ao cair de um local muito alto. Podemos partir por doenças. E, acima de tudo, que podemos partir a qualquer momento.
Quando falamos assim, parece ridículo. Mas isso chega de tal maneira que é inevitável. Não se pode impedir. Como o câncer. Não podemos fugir dele. A grande ciência que nós temos ainda não chegou a uma brilhante cura para essa doença, que chega de fininho, e rapidamente nos leva do mundo em que conhecemos.
Eu vejo vidas irem e ficarem todos os dias. Muitas idas.
Há 19 anos eu perdi minha mãe para ‘’a tal coisa’’. Eu e meu pai chamamos o câncer desse jeito. Não gostamos muito de pronunciar ou pensar nele, o que é irônico, já que o vemos todos os dias. Meu pai, Dr. Gael, tem uma rede de hospitais que pertence a nossa família. Quando ele e minha mãe se conheceram, os dois eram jovens médicos formados. Casaram-se e, após alguns anos, ficaram felizes quando construíram tudo. Finalmente haviam realizado um sonho. O hospital em que meu pai trabalha como cirurgião cardíaco é o principal da rede, e ele passa praticamente o dia todo lá. Hoje ele tem uma equipe maior, então faz o mínimo de cirurgias, ficando mais na administração dos hospitais. Minha mãe era a psicóloga principal do mesmo hospital, ela e meu pai trabalharam juntos por muito tempo, até a tal coisa a alcançar e levá-la de nós.
No início, meu pai ficou sem rumo. Bianca, minha irmã mais velha me contou que se lembra do pai chorando todas as noites, suplicando para que Deus o levasse também. Quando nossa mãe se fora, Bianca tinha três anos e eu apenas um. Ás vezes ela me diz que tenho sorte, pois não vi a mãe no estágio terminal da doença, e apesar de ela não se lembrar muito, tinha a imagem da mãe naquele estado, no fim.
Por isso, para superar nossa dor e ajudar outras pessoas, quando eu tinha 10 anos meu pai decidiu abrir um novo ‘’hospital’’. Um só para pacientes com câncer. Desde pequena eu sempre sonhei em ser médica, seguir os passos dos meus pais e de minha irmã, que também se tornou médica. E sempre foi parte do meu sonho trabalhar no hospital de câncer do meu pai. Isso já estava nos meus planos, e assim que fui ficando grandinha, já sabia que iria terminar a escola, entrar na faculdade de medicina e trabalhar no hospital.
Dito e feito. Tive o apoio do meu pai e da minha irmã, que trabalha comigo no hospital. Bem, eu estou no começo ainda, vou para a faculdade de segunda á sexta de noite, e de manhã e a tarde trabalho no hospital fazendo o básico. Bianca é minha ‘’chefe’’, ela é a médica que administra tudo lá. Antes ela trabalhava no hospital principal, com meu pai, mas desde que comecei a trabalhar ali, meu pai transferiu Bi para lá, dizendo pra ela ficar de olho em mim. Não entendi o porquê na época, não sou mais nenhum bebê para ter que ficar aos cuidados de alguém. Mas eu vou provar ao meu pai e à Bianca que eu não preciso ser vigiada. Eu vou ser uma grande médica, e calar a boca dos dois.
Hoje é um grande dia lá no hospital, vai ter uma pequena festinha pra Bia, minha amiguinha de 6 anos. Ela foi diagnosticada com um tumor cardíaco quando tinha apenas 4 anos. Esse tipo de a tal coisa é tão raro (principalmente em crianças), que me lembro como se fosse ontem, quando Bianca deu a notícia aos pais da menina. Eu ainda não trabalhava seriamente no hospital. Na época eu tinha acabado de fazer 16 anos, mas ajudava lá sempre que podia. Eu ficava com as crianças e cuidava para distraí-las e fazer com que elas se divertissem o máximo possível, já que a tal coisa já as tinham condenado a um fim trágico.
A melhor parte é que eu adoro cuidar delas. Na verdade, eu adoro tudo que eu faço no hospital. Por mais que exista um clima tenso ás vezes, por ver algumas pessoas partirem, ainda sim eu me sinto bem de ter cuidado da pessoa, de ter feito os últimos dias dela serem os melhores possíveis. Eu espero fazer o melhor, pelo menos. Eu sempre me esforço.
Quando eu tinha 13 anos, por aí, conheci uma garota no hospital. Ela tinha a tal coisa nos pulmões. Ficamos tão próximas que nos tornamos melhores amigas. Passei a ir ao hospital todos os dias depois da escola só para ficar com ela. Fabi. A melhor amiga que eu já tive. Depois que ela partiu que eu percebi que o quanto queria fazer aquilo. Queria trabalhar ali, queria poder encontrar a droga de uma cura para aquela coisa miserável. Fiquei vários meses meio que em estado de choque/depressão por ter perdido minha melhor amiga. Foi uma das épocas mais horríveis que passei no hospital. Ainda lembro, porém, dos melhores momentos que passamos juntas. Uma vez, quando Fabi estava no estágio terminal, decidimos que iríamos fazer algo idiota que já tinha passado pela nossa cabeça, mas nunca fizemos. Então, a ajudei a sair do hospital, fugimos, pegamos um táxi e fomos para a casa de uma menina da escola em que Fabi tinha estudado.
Quando perguntei o porquê de estarmos ali, ela disse que essa era a coisa idiota mais sensata que ela já tinha pensado em fazer e nunca fez. Dei de ombros e tocamos a campainha. Sem saber o que Fabi iria fazer, ela me pediu para ajudá-la a levantar da cadeira de rodas. Me disse que queria fazer aquilo na altura dela, de olho para olho. Embora a altura minúscula de Fabi não a permitisse aquilo, mesmo em pé.
– Fabiana? Ahn...o que você faz aqui? – perguntou uma menina loira olhando de mim para Fabi, sem entender nada.
– Karina, quando eu disser vai, você corre e nos tira daqui. – sussurrou Fabi no meu ouvido
– Fabi, você não devia estar no hosp...
– Hospital? Para morrer e você não ter que ver nunca mais a minha ‘’cara de pamonha’’, como você mesmo dizia? Cale a porra da boca. Eu vim aqui especialmente para lhe desejar um grande, ENORME, VAI TOMAR NO CU. Eu espero, sinceramente, com todas as minhas forças que estou fazendo agora para tentar falar e respirar ao mesmo tempo, que você vá para o inferno. Sabe aquele twitter do Victor? O VICTOR ERA EU. SIM. EU TROLLEI VOCÊ ANO PASSADO PRA QUE VOCÊ PARASSE DE ME HUMILHAR NA FRENTE DE TODOS. Infelizmente perdi todo o resto, já que precisei ir para o último lugar que eu frequentaria na vida. ENTÃO UM ÓTIMO VAI SE FUDER PRA VOCÊ E QUE VOCÊ TENHA UMA BOA NOITE. – ela deu um chute na canela da menina, que caiu no chão de tanta dor, o que eu achei desnecessário, já que Fabi tinha a força de um ratinho.
– KARINA, VAI. – ela caiu sentada na cadeira de rodas agarrando o tubo de oxigênio. Finalmente saí do meu transe, já que estava sem reação pelo que havia acabado de acontecer ali, e sai correndo puxando Fabi. Saímos pela rua, eu correndo com uma menina na cadeira de rodas, todos ao nosso redor olhando para nós. Finalmente paramos em uma praça e decidimos entrar em uma cafeteria. Sentei em uma mesa no fundo e parei Fabi ao meu lado.
– FABIANA DO CÉU, O QUE FOI AQUILO? – disse ainda ofegante por ter corrido.
Ela fez uma pausa, pedindo pra eu esperar. Eu assenti e aguardei ela recuperar o fôlego.
– Ué, eu falei coisas idiotas que sempre quisemos fazer e nunca fizemos. Xingar a inimiga na cara dela não vale?
Comecei a rir descontroladamente, e Fabi me acompanhou. Depois de recuperarmos o fôlego mais uma vez, sugeri pedirmos algo pra beber. Tomamos dois cappuccinos, e em seguida decidimos voltar ao hospital antes que dessem conta da nossa falta. Estava pagando a conta no caixa, quando vi Fabi pegar uma caixa de cigarros do balcão e colocar debaixo da blusa. Olhei para ela com uma expressão interrogativa, mas ela me olhou como se nada estivesse acontecendo. Terminei de pagar a conta, e já ia perguntar o que ela pensava que estava fazendo, mas quando saímos do lugar, nada aconteceu. Mais uma vez tivemos que correr, para ter certeza de que não viria ninguém atrás de nós. Quando paramos de novo na pracinha, sentamos e olhei para ela pedindo uma explicação.
– O que foi? Em Brasília é permitido roubar? Eles não darão falta disto. – e pegou a caixinha de cigarros
– Fabiana, posso saber para o que você quer isso? – falei cruzando os braços e arregalando os olhos – Não me diga que você quer...
– O quê? Usar uma coisa que mata, quando eu já estou morrendo?
– Fabi...
– Eu sei. Humor negro. Adoro. – ela disse sorrindo
Não tive como evitar sorrir também.
– É, percebi.
– Na verdade, é um paradoxo.
– Não seria uma antítese? Ou uma metáfora?
– Ah, sei lá. Foda-se.
– E como você pretende acender essa coisa, senhora ‘’foda-se, não ligo pra mais nada, porque virei uma bad girl’’?
Ela olhou para mim e depois para o cigarro na boca dela.
– Verdade, acha que pode voltar lá e roubar um isqueiro pra mim?
Mais uma vez, comecei a rir.
– Vem bad girl, temos que voltar, antes que eu fique de castigo pelo resto da minha vida.
– Pelo menos você tem o resto da sua vida. – ela disse olhando para um ponto qualquer, e começou a chorar.
Engoli em seco, era horrível ver minha melhor amiga assim. No início, nós mal percebíamos o que acontecia. Mal percebíamos que ela tinha o tempo contado. Porém, agora, já estava evidente. Já estava evidente o que ia acontecer em breve. E por esse motivo, comecei a chorar também. Agarrei a mão dela e a olhei nos olhos.
– Fabi, me escuta. Você pode me deixar aqui, mas você não vai se esquecer de mim. Como eu não vou me esquecer de você. Tá me ouvindo? Não ouse me deixar aqui desse jeito.
– Do jeito que você é pentelha, nem minha alma vai esquecer de você. Pode deixar que vou dar uma passadinha no seu quarto toda noite pra dormir juntinho com você, gata.
– Cala a boca! – eu disse rindo em meio a lágrimas – Você não presta!
– Eu te amo. – ela disse apertando minha mão – Você é a irmã que eu não tive. Obrigada por ser meu pequeno infinito.
– Cala a boca. Ainda não tá na hora.
– Delicada como um cavalo...
– Eu também te amo. – eu disse a puxando para um abraço.
– Acho melhor a gente voltar. – ela disse
– Ok, vamos. – levantei e puxei a cadeira de rodas comigo, fazendo sinal para um táxi. Quando chegamos no hospital, meu pai nos esperava na porta. Olhei para ele esperando um sermão, uma bronca e um puxão de orelha, porém ele apenas nos olhou, beijou nossas cabeças e nos levou para dentro. Ele sabia que tinha valido a pena.
Sempre que me lembro disso, sinto uma falta enorme da minha melhor amiga. Senti uma lágrima quente escorrendo pela minha face. Sacudi a cabeça e limpei a lágrima, tentando afastar esses pensamentos. Decidi parar de ficar pensando nessas coisas e me concentrar no que eu tinha que fazer.
Meu turno no hospital começa ás dez horas. Levantei da cama e fui olhar a janela, tendo a visão de um dia nublado e chuvoso. Fui para o banheiro tomar banho, escovar os dentes e tudo mais. Quando terminei, voltei para o quarto e abri meu armário. Eu não tenho muitas frescuras para me vestir no dia a dia, gosto de roupas simples e confortáveis. Não tenho um estilo. Optei por uma camisa de manga bege bem soltinha, jeans e um par de botinhas. Passei a mão pelos meus cabelos, raramente os penteio já que eles são bem curtos. Não sei quando eles ficaram tão curtos, mas me lembro que quando eu era mais nova, a cada vez que eu ia no hospital, pedia pro meu pai me levar ao cabelereiro para cortar uns 3 dedos, sempre com a intenção de dar uma força para algum paciente. Até que eles foram ficando tão curtos que decidi cortar tudo. Acabei gostando do resultado, é mais prático. Só passava meus dedos pelas pequenas mechas e pronto. Saí do quarto em direção à cozinha, Bete nossa empregada e babá, que ajudou meu pai a cuidar de mim e da minha irmã depois que a nossa mãe morreu, não estava lá hoje, esse era seu dia de folga. Mas ela sempre briga comigo se eu sair de casa sem comer nada, e eu fico com a consciência pesada se não a obedeço. Então, tomei um copo de suco que acabei em alguns minutos e peguei uma maçã para comer no caminho.
Entrei no carro e fui direto ao hospital, que não ficava muito longe dali. Assim que cheguei, passei pelas recepcionistas cumprimentando-as, fazendo o mesmo com os médicos e todos que passavam por mim. Todo mundo já me conhecia ali, então várias vezes parava para dar abraços e beijos.
Fui para a sala de administração, onde deixei minha bolsa e tomei um copo de água. Em seguida abri meu armário para guardar algumas coisas e pegar outras. Vesti o jaleco e fui higienizar as mãos. Não importava o que eu fosse fazer, sempre lavava as mãos. Acho que acabou se tornando um vício, por eu estar no hospital. Em seguida fui para a sala da Bi. Bati na porta recebendo permissão para entrar.
– Bom dia, Bi. – disse dando um sorriso de lado
– Bom dia, K! – ela virou na cadeira atrás da mesa sorrindo. — Já tomou café? – perguntou, bebendo um gole de sua xícara.
– Já. Ahn...eu comi uma maçã.
– Hm, ótimo. Senta aí maninha. Vai ser rápido, eu sei que você quer ir logo pra festinha da Bia. – todos os dias, assim que eu chegava, Bi e eu repassávamos o que eu tinha que fazer no dia, e se tinha alguma observação de alguma tarefa específica que eu precisava prestar mais atenção, já que eu estava meio que em ‘’período de treinamento’’, pois não havia me formado na faculdade ainda, então eu tecnicamente não era uma médica. Me sentei na cadeira de frente para ela – Bom, K, hoje vai ser tudo normal, você vai fazer o que você sempre faz. Ajudar as enfermeiras, cuidar de alguns pacientes e, em geral, ficar com eles e com as crianças. A festinha da Bia vai ser daqui a pouco, os pais dela já chegaram, estão arrumando tudo no salão. Porém, hoje temos um paciente novo, ele chegou ontem á noite.
– Ahn... – gemi desanimada. A cada paciente novo, meu coração se apertava. Mais alguém que não estava muito sortudo em relação á vida. – E qual ele tem? – perguntei de cabeça baixa.
– É aí que eu quero chegar. Já tem algumas semanas que eu e o papai o acompanhamos, já que ele foi primeiro lá no outro hospital.
Assenti, pedindo que ela continuasse.
– Há uma semana, confirmamos o diagnóstico. Ele tem leucemia. E ele tem a sua idade. – ela me disse olhando séria.
Logo percebi o que ela estava pensando.
– Olha, Bi...
– K, eu sei que da última vez que você lidou com alguém da sua idade você acabou sofrendo. – automaticamente, a imagem de Fabi veio a minha mente. Engoli em seco, e senti um nó se formando em minha garganta, mas tentei afastar o pensamento. – Mas eu queria te pedir uma coisa.
– O quê?
– Que você cuide dele, assim como cuida das crianças e de todos os outros pacientes. Veja K, ele tem a mesma idade que você. Não está muito feliz de saber que possui uma doença fatal aos 19 anos. Quero pedir que você o ajude. Sei que pode fazer isso.
– Bi, eu não sei não...
Eu não aguentaria mais por muito tempo. Eu já podia sentir as lágrimas teimando em sair, me lembrando de Fabi e de tudo que nós passamos juntas. Ouvimos alguém bater na porta.
– Entra. – disse Bianca
– Oi, Bi. – disse Duca, um dos médicos do hospital, e meu cunhado. Ele e Bi já eram casados há quase 4 anos. – Bom dia, K.
– Bom dia, Duca.
– Bi, já está tudo pronto lá embaixo. E está lindo. – ele disse sorrindo.
Bianca ficou radiante e logo se levantou.
– Ótimo. Vem, K. Vou te apresentar a alguém.
– M-mas, Bianca...
– Vem logo – disse ela me puxando.
Descemos de elevador e saímos no imenso salão do hospital. Realmente, Duca não mentira, estava tudo lindo. A festa era toda colorida, com balões de diversas cores espalhados por todo o espaço. Diferente do padrão de festas, havia várias mini mesinhas espalhadas pelo salão com doces, salgadinhos e refrigerantes, e apenas uma maior no centro, que tinha o bolo e os mesmos doces, salgadinhos e refrigerantes. Apesar de Bia ser uma criança, não podia se exaltar muito, então o clima ali era bem calmo e aconchegante. Próprio para a situação. Ainda assim, havia mil cores espalhadas, relembrando a infância da menina. Os pais de Bia já estavam ali, algumas crianças, amiguinhos e familiares, todos sentados em cada uma das mesas. Algumas enfermeiras e médicos também estavam sentados em um canto, já que os pais de Bia fizeram questão de chamar toda a equipe do hospital que apoiava a filha. Assim que falei com todo mundo, com a equipe e com os pais da Bia, que já me conheciam e tinham um grande carinho por mim, e eu por eles, já que eu estava sempre com a Bia, Bianca me puxou enquanto Duca e outras duas enfermeiras iam buscar Bia para fazer a surpresa.
– O que foi, Bianca? – perguntei sem entender, e então eu o vi. Ela apontou para uma extremidade do salão. Ele estava tão apagado no cenário, que eu não havia notado sua presença no ambiente todo colorido. Parecia uma divisão de cores no salão, a maior parte cheia de cores, e uma pequena porção meio acinzentada no canto. Ele estava tocando piano, eu também não tinha me tocado de que havia música no ambiente.
– É ele, K. – disse Bianca
Fiquei observando-o, vendo seus dedos deslizarem pelas teclas do piano enquanto se concentrava na melodia. De onde eu estava, não conseguia ver seu rosto. Apenas o corpo, as mãos tocando o piano, e o cabelo cheio, com cachos castanhos. De repente, ouvi gritos, comemorações e senti fitas coloridas caírem por todo o ambiente. Bia havia chegado. Ela estava radiante, usava uma toquinha de pinguim na pequena cabeça careca e sorria enquanto tentava assimilar tudo que estava acontecendo ao redor dela. Voltei meu olhar para o pianista, e vi que ele iniciou outra melodia, dessa vez cantando a música.
(Ponham para tocar, abram em outra janela: Tom Odell — Another Love)
I wanna take you somewhere
So you know I care
But it's so cold and I don't know where
I brought you daffodils in a pretty string
But they won't flower like they did last spring
And I wanna kiss you, make you feel alright
I'm just so tired to share my nights
I wanna cry and I wanna love
But all my tears have been used up
On another love, another love
All my tears have been used up
On another love, another love
All my tears have been used up
On another love, another love
All my tears have been used up
Fiquei ali paralisada, apenas observando-o tocar e ouvindo a música que ele cantava. Saí de meus devaneios por um instante para falar com Bia, dei um beijo em sua bochecha e a abracei. Tiramos fotos e me sentei em uma das mesas, enquanto continuava o ouvindo cantar. E não conseguia tirar meus olhos das mãos dele tocando o piano.
And if somebody hurts you, I wanna fight
But my hands been broken, one too many times
So I'll use my voice, I'll be so f*cking rude
Words they always win, but I know I'll lose
And I'd sing a song, that'd be just ours
But I sang 'em all to another heart
And I wanna cry I wanna learn to love
But all my tears have been used up...
Depois de alguns momentos na festa, a música tinha acabado e observei ele parar de tocar e se levantar do piano. Ele virou-se de frente e eu pude vê-lo. Minhas mãos tremiam no copo de refrigerante, o que já estava começando a me irritar. Meu coração quase parou quando ele parou seu olhar em mim. Eu observava aquelas íris escuras me encarando de volta, e ficamos ali olhando um para o outro, como se só existíssemos nós dois naquele salão. Fiquei toda arrepiada, e devemos ter ficado assim por longos instantes, já que dei um pulo quando Bianca me cutucou.
– K? Tá tudo bem? – perguntou ela preocupada.
– Ahn...tá sim, Bi. – tentei sorrir de forma convincente.
– Então vem. – disse me puxando e indo em direção ao pianista.
Senti seu olhar me acompanhar a cada passo que eu dava em direção á ele, e quanto a mim, fazia questão de olhar para outro ponto.
– Karina, tem alguém aqui que quero que conheça. – Bianca parou ao lado dele, pousando sua mão no ombro do mesmo.
Coloquei minhas mãos nos bolsos do jaleco, tentando esconder o quanto elas tremiam.
– K, esse é o Pedro.
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