Perigo eminente...
37 Nós...
POV NICO
Pra variar eu não dormir noite passada. Muito menos a retrasada, nem na anterior a noite passada e também a anterior desta. Confuso não? Bem eu não consigo dormir a meses, não tiro nada além de cochilos de duas horas. E isso vem acabando comigo ultimamente... Talvez fosse a culpa que sentia em relação a Leo.
Não sei, só sabia que se não tivesse uma boa noite de sono em breve entraria em colapso. Bem nem mesmo o meu humor estava resistindo à falta de sono, e assim eu passei de um cara fechado para um completamente mal humorado e antipático! Até mesmo Jason havia perdido a paciência comigo ontem por uma resposta mal direcionada que eu lhe dei... Pela centésima vez no mesmo dia.
Agora no trabalho, a única coisa que consegue me distrair durante horas, ou pelo menos o necessário para não pirar e acabar atirando em alguém. Fui checar os registros de novos óbitos no hospital geralmente dias após o feriado é o dia de maior movimentação no necrotério...
Bem isso saiu meio mórbido.
Caminhei até a recepção, meu trabalho baseia-se em checar os corpos pouco antes do serviço funerário chegar para fazer os tramites legais para o funeral. Portanto eu tinha que abrir corpos, fazer uma analise da morte, escrever laudos e encaminha-los aos seus familiares para seu cortejo fúnebre. Ou seja, eu amava meu emprego!
– Bom dia Di Ângelo! – disse a recepcionista, Marie, era uma senhora agradável, talvez a melhor pessoa daquele hospital. Ela sempre agüentava a minha antipatia com um sorriso largo de orelha a orelha e de uns tempos pra cá acabei me tornando seu amigo.
– Bom dia Marie – falei forçando um sorriso. – Muito trabalho? – perguntei quando ela começou a procurar as papeladas para que eu pudesse dar uma olhada.
– Não, apenas dois casos – ela explicou me dando os papeis para que eu pudesse avaliar – E um já foi encaminhado! Ou seja, sem trabalho hoje – ela cantarolou animada. Não me animei, logo que, seria mais seis horas de puro tédio, lhe entreguei os papéis e comecei a andar pelo hospital a procura de algo pra fazer ou algum médico pra ajudar.
Não sabia mais o que fazer e nem como lidar com os meus sentimentos, tudo estava uma bagunça! Ignorei por tanto tempo os meus demônios que, agora que eles estão aqui para que eu possa lutar com eles, eu já nem sei que armas segurar. Peguei meu celular assim que ele vibrou. Ótimo uma mensagem de Jason.
Jason 08h45min
Está ocupado?
Nico 08h46min
Não.
Tenho um dia de folga, inteiramente grátis!
Jason 08h46min
Bom, acho que fiz algo horrível...
Meu coração disparou não sabia como reagir, Jason nunca faz coisas “Horríveis” à única pessoa que consegue dormir e acordar com um humor maravilhoso é ele. Sem falar que ele não dormiu em casa noite passada, sendo assim isso já me faz tremer da cabeça aos pés. Isso não é coisa típica que ele faz. Pensei em ligar, mas se ele quisesse falar comigo ele mesmo teria feito.
Nico 08h48min
Quer falar sobre isso?
Jason 08h49min
Acho que não...
Quando você chegar em casa Okay?
Nico 08h49min
Okay
Tentei não pensar sobre isso, talvez ele apenas quebrou um copo que eu gostava ou arranhou um disco meu. Jason não tem este temperamento “destrutivo” continuei caminhando até esbarrar em alguém no corredor. Olhei assustado e com muita raiva até ser filtrado por aqueles olhos verdes hipnotizantes. Tentei gaguejar uma desculpa ou algo do tipo, mas apenas arrumei o meu jaleco e organizei meus cabelos para poder finalmente encara-lo.
– Olá – falei com a voz baixa.
– Oi Nico – Ele murmurou.
– O que faz aqui? – questionei, mesmo sabendo a resposta. Não queria que o nosso breve encontro morresse ali. Queria ter mais um pouco dele, mesmo que fosse só o seu ódio.
– Primeira sessão de quimio de Leo – ele explicou apontando para o centro de tratamento de câncer logo à frente.
– E como ele vai? – perguntei
– Bem – ele disse aflito – E pelo que eu disse aquele dia... Me desculpa, não posso te culpar... – gaguejou em jeito pra falar, como aquelas palavras fossem acido em sua boca. Pensei em me virar e sair correndo pra algum lugar que alguém pudesse me amar e me aceitar pelo menos uma vez.
– Claro... Eu tenho que... – comecei a dizer, mas então sua mão acariciou a minha nuca, um arrepio percorreu todo o meu corpo por sentir seu toque quente novamente, muito tempo havia se passado desde que ele me tocou pela ultima vez, quase me esqueci de sua mão áspera, e seu cheiro de oceano.
– Eu realmente fui muito ignorante – ele murmurou com os olhos cheios de lagrimas.
Seus braços envolveram meu corpo e ele repousou a cabeça na curva de meu pescoço. Lembrei-me que há anos atrás era quase impossível fazer isso sem se curvar, mas agora que somos da mesma altura tudo ficou mais fácil. Fiquei paralisado por um tempo até enfim lhe retribuir o abraço era tão bom poder ter Percy em meus braços novamente mesmo que seja apenas por alguns segundos. Sentia sua respiração quente em meu pescoço e tudo que eu mais queria naquele momento era um beijo seu.
Ficamos assim por um tempo, de corpos colados, meu coração batendo rapidamente e o filho de Poseidon chorando em meu ombro até que ele suspirou e deu um passo pra trás.
– Desculpa Nico – suspirou olhando pro teto.
– Você não quer ir tomar um café? Parece meio cansado – perguntei-lhe, mesmo que ele dissesse não pelo menos eu tentei, não é?
– Claro – ele murmurou com as mãos no bolsos.
(...)
Pedimos dois cafés médios, embora soubesse que era uma má idéia por saber que não poderia conseguiria tirar um cochilo essa tarde, porém não me neguei a um expresso duplo com o Filho de Poseidon.
– Como vão as coisas? – questionei depois de um tempo. Seus olhos passearam pela cafeteria do hospital, como se soubesse que passaria muito tempo ali, cuidando de Leo, sabia que esse era o motivo das olheiras, do cabelo bagunçado alem do normal, dos ombros pesados como se sustentasse o peso do céu outra vez. Sabia que ele era forte, mas nem tanto...
– Eu estou bem, o problema é esse maldito câncer – sussurrou com um tom de humor mórbido enquanto seus dedos passeavam pela borda do copo.
– E como Leo vai?
– Muito mal – ele disse levando o corpo para trás, como se precisasse desabafar a muito tempo, sem ter que magoar os sentimentos de alguém – Ele não consegue dormir, sente dores durante a noite toda, e tenho que ficar horas com ele na banheira de água quente para que ele tenha algumas horas de paz – explicou Percy. Lagrimas novas se formavam, fazendo com que sua voz saísse embargada, ele tomou um gole de café e pude ver o quão tremulo estava.
– E o tratamento? – falei massageando a outra mão que estava repousada em cima da mesa.
– Falei como médico agora – suspirou, olhou pra cima e então voltou a me encarar com os olhos verdes tumultuados e assustados – O câncer consumiu seu fígado, ele precisa fazer um transplante antes que seja tarde demais.
Fiquei olhando pra porta, vendo as pessoas entrando e saindo enquanto eu tentava absorver aquilo. Leo estava com um grave problema, transplantes em sua grande maioria era acompanhada de remédios à vida toda. Fiquei imaginando como Percy se sentia com tudo quilo, ter que ser forte o tempo todo ao lado do filho de Hefesto, sem fraquejar, sem derramar uma única lagrima, não tinha noção de como era cuidar de uma pessoa com câncer, afinal eu só lidava com mortos! Apoiei minha mão em cima da sua sendo acompanhado com a surpresa de seus olhos, cruzei nossos dedos e tentei sorrir um pouco, mas acho que acabei me saindo como um megalomaníaco de ressaca...
– Se quiser conversar, estou aqui – murmurei.
– Obrigado – ele respondeu, e por um momento seus olhos ficaram em um tom de verde diferente, de um jeito que eu não via a alguns anos, lembro de ter visto essa tonalidade quando o beijei pela primeira vez, quando ele me deu uma flor da ilha de ogigia, quando nós nos amamos pela primeira vez. Fiquei perdido em meus pensamentos até quando uma mulher tocou em meu ombro, era Marie, que ficou vermelha com a situação, a recepsionista pigarreou suavemente até que finalmentes quebramos essa pequena ligação para que eu pudesse responder.
– Senhor Di Ângelo, telefone na recepção — ela disse alternando o olhar entre mim e Percy.
– Claro — Levantei ajeitando meus cabelos e dando um sinal para que Marie pudesse ir embora — Você tem meu telefone, pode me ligar quando quiser — murmurei saindo pela porta me odiando por essa crise que tive perto deste moreno.
Droga! Quem queria falar comigo essa hora?
Demorei pra achar a recepção, peguei o telefone e tudo que eu consegui ouvir era uma respiração ofegante do outro lado da linha. Meu coração falhou uma batida e eu me apoiei no balcão, minha voz ficou presa e depois de muito esforço falei.
– No que posso ajudar?
– Nico– sussurrou Jason do outro lado da linha, sua voz estava tremula, como se ele tivesse entre uma crise de choro, como se um sorriso se formasse em seus lábios ao ouvir a minha voz, podia sentir seu desespero, sua tristeza, podia sentir absolutamente tudo.
– O que houve? Onde você está? – murmurei com o tom de voz alterado, não queria chorar na frente de todos, mas o pânico estava me tomando, Jason não é de fazer besteiras... A não ser quando está sob efeito de drogas.
– Eu estou em algum beco – ele riu amargo seguido de uma crise de tosse. – Perto do central park...
– Fique ai não se mova – falei procurando as chaves do carro por meu jaleco – Estou a caminho.
– Tudo bem – ele disse com a voz fraca.
Fui a caminho de Jason, temendo que o pior houvesse acontecido.
(...)
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