Perigo Desconhecido
1 Perseguição
Hugo corria por uma travessa deserta próxima ao centro da cidade de São Paulo. Havia barulho de veículos em alta velocidade na avenida paralela a travessa. Algumas poucas luzes brilhavam nos últimos andares das partes de trás dos prédios.
Poças d’água se espalhavam bem distribuídas pelo calçamento antigo. Hugo quase tropeçara muitas vezes. Havia lama em suas roupas desgrenhadas. Usava uma blusa azul agora com manchas em marrom, uma calça jeans desbotada e nos pés um tênis Nike.
O garoto estava assustado. Algo o amedrontara. Poderia ser algo ou alguém que viu. Corria tão rápido, suspeitava, quanto aqueles carros na outra rua. Uma chuva fina caía, e Hugo invejava imensamente as pessoas que ocupavam o interior quente, confortável, e, acima de tudo, seco, dos veículos. Corria não somente por correr.
Hugo fugia.
Havia algo atrás do garoto que não possuía a mínima pressa de alcança-lo. Simplesmente sabia que ia conseguir fazê-lo. Andava calmamente, com ar imponente e um sorriso malicioso no rosto.
Quando Hugo entrou em um beco escuro que não possuía saída, viu que estava cercado. Viu a silhueta cortada pela luz de um poste da pessoa que o perseguia. Era alto, com ombros largos, cabelos compridos. O perseguidor virou o rosto para a direita, permitindo a Hugo vê-lo em perfil; seus cabelos não eram simplesmente longos, eram enormes. Se estendiam até os joelhos pelo menos, e seu nariz era tão comprido quanto um dedo indicador de um adulto, e tão fino quanto.
Aproximava-se de Hugo lentamente, e, quando estava a alguns metros dele, levantou um pouco a mão esquerda, mostrando uma adaga de fio duplo com uns quarenta centímetros de comprimento. Sua respiração era arfante, os braços, musculosos, e havia algo nele que dava a Hugo a certeza de que era um homem, não uma mulher.
O que diabos é isso?!, Hugo pensou, e em sua cabeça a sua voz soava tão apavorada quanto imaginava que sairia se falasse isto em voz alta. Virou as costas para o homem, que baixou a lâmina e continuou sua lenta perseguição.
Hugo encontrou uma porta de ferro enferrujada que era provavelmente a saída dos fundos de um prédio que lhe pareceu muito alto visto daquele ponto. Levantou os olhos para uma placa acima da porta onde estava escrito “proibida a entrada”. Observou rapidamente as pichações na porta, que era uma mistura de avisos apavorantes; conseguiu ler algo como “não entre”, “mantenha distância”, “só entre se for corajoso” e coisas do tipo.
Nada assustador.
Porém, esta era sua única saída, e quando irrompeu pela porta, arrependeu-se infinitamente de ter entrado no mesmo momento. A iluminação da sala em que acabara de entrar era muito fraca, não era possível enxergar nada que estivesse a mais de cinquenta centímetros de distância. Hugo foi tateando o chão com os pés encharcados e imundos, e pisou em algo mole e de consistência cartilaginosa que emanava um cheiro acre pelo aposento. Recuou alguns passos, e pisou em mais uma coisa igualmente malcheirosa, mas desta vez era dura como pedra.
Tateou desta vez as paredes, a procura de um interruptor. Tocou em algo que parecia um interruptor de luz daqueles que aumenta e diminui a intensidade da lâmpada. Girou no sentido horário, aumentando a iluminação da sala. Estava de olhos fechados, mas sabia que a sala estava iluminada pois uma claridade invadiu seus olhos através das pálpebras cerradas.
Abriu os olhos com medo, e gritou a todo pulmão. Era uma espécie de matadouro humano. Haviam corpos espalhados pela sala, alguns somente com leves hematomas, outros sem a camada superior da pele, deixando alguns músculos a mostra. Haviam vísceras nojentas espalhadas pelo chão, e algumas cabeças separadas de seus corpos colocados em cúpulas, como se fossem prêmios. Haviam moscas voando ao redor dos corpos, e aquilo que Hugo pisara que era de consistência rochosa, era um crânio, que estava jogado ao chão.
O medo invadia-o por completo. Precisava respirar, mas receava que, se fizesse isto, talvez morresse intoxicado. Porém, como já aspirara aquele cheiro forte, destampou as narinas e inspirou profundamente, tossindo para não sufocar com o terrível odor. Quando viu o cenário de filme de terror, suspeitando que talvez houvesse realmente invadido um filme de terror, lembrou-se dos avisos na porta. Não notara a cor, mas tinha certeza que haviam sido feitos em vermelho. Não, não com tinta vermelha. Com sangue, e pior, sangue humano.
Desejou intensamente que estivesse tendo alucinações ou dormindo. Beliscou o braço, mas não aconteceu nada. Por que isso funciona nos filmes?, pensou ao mesmo tempo com medo e raiva.
Andou pelo aposento, e descobriu que era muito maior do que imaginara. Possuía algumas portas que davam para quartos bem diferentes da sala na qual estava. Eram bem organizados e limpos. Em todos eles dormiam pessoas em um profundo sono. Alguns roncavam sonoramente, outros simplesmente assoviavam ao soltar o ar.
Virou a direita num corredor, e se viu em uma enorme passagem, na qual não via fim. Como é que aquele prédio poderia ser tão grande, Hugo não compreendia. Sabia que não havia espaço o suficiente nele para que houvesse um corredor daquele tamanho lá dentro. Talvez o fato de parecer tão enorme fosse somente uma ilusão de ótica. Porém, ao sair correndo pelo corredor, descobriu com infelicidade que realmente precisava correr todos aqueles metros, talvez quilômetros. Não sabia quão grande era o corredor, então simplesmente desatou a correr com imensa velocidade.
Parou bruscamente na metade do caminho. Deste ponto, era possível ver uma porta no fim do corredor. Forçou os olhos, e enxergou, não sabendo como, que estava escrito “SAÍDA” em cima da porta. Começou a correr com mais velocidade. Porém, após dez metros, ouviu um sibilo agudo, como o de uma cobra.
Virou de costas tão rápido quando decidira entrar no prédio. O homem que o estava perseguindo agora estava atrás dele no corredor, desta vez muito bem iluminado, permitindo a Hugo enxergar seu rosto e corpo.
Sua face era cortada por um longo sorriso, que exibia dentes pontiagudos. Seus olhos eram completamente negros, sem a parte branca habitual que se vê em pessoas comuns. Seu nariz agora era claramente grande, maior até do que vira antes. Seus cabelos loiros eram sujos e emaranhados.
A lâmina era suja de sangue.
O homem ainda a carregava. Hugo parou um momento para pensar. Naquele momento estava óbvio para ele que o matadouro era de seu perseguidor. Voltou a sua corrida em direção a tal porta no fim do corredor.
Como já era de se esperar, tropeçou em algo no meio do caminho. Não havia nada em que tropeçar, então concluiu que tropeçara no próprio pé. O homem que o perseguia agora não era mais lento como antes, desta vez, corria tão rápido quanto Hugo, talvez até mais rápido.
O homem logo o alcançou, e desferiu um golpe com a lâmina ensanguentada. Faltavam dez metros para alcançar a porta. Nove. Oito. Sete. Seis. Cinco. Quatro. Só mais três. Agora dois. Um. E irrompeu por mais uma porta de ferro enferrujada.
Desta vez, ao invés de sair em um beco escuro, saiu na larga avenida apinhada de carros e gente. Passavam das nove da noite, segundo o relógio na torre comercial no lado oeste da avenida. São Paulo durante a noite era tão movimentada quanto de noite.
Sentiu os olhares voltarem para si. No mesmo momento em que saiu do prédio, virou para trás. O homem ainda não saíra, e o prédio nem a porta eram velhos como vira no beco e pelo lado de dentro. Era um imponente hotel de luxo com iluminação forte. A balaustrada das sacadas dos quartos eram de mármore branco, e a porta de entrada era grande, com vidro na frente e a vista de madeira polida.
Estranhou o que estava vendo, obviamente. O homem saiu pela porta. Ninguém pareceu nota-lo. Ele simplesmente passava pelas pessoas, e elas passavam por ele. Hugo apostava que se fosse em circunstâncias normais, as pessoas com certeza notariam, e até se assustariam, se um homem de cabelos longos e sujos, com aparência como se tivesse saído direto de um dos filmes do Jack, o Estripador, tivesse saído calmamente pela porta de um hotel de luxo que com certeza não combinava em nada com ele. É, um pensamento bem longo, mas correto.
Atravessou a rua correndo, desviando dos carros, que buzinavam, e guinchavam ao frear bruscamente. Alcançou o outro lado da larga avenida, ainda seguido pelo homem aterrorizante. Sentiu o medo correr em suas veias. Para que continuaria fugindo? Uma hora se cansaria, e esta hora já estava claramente próxima. O homem o alcançaria então, e faria o que quisesse. Preferia ficar ali, esperando o homem. Talvez, se estivesse descansado quando o homem o alcançasse, pudesse lutar e resistir. Esta era sua única esperança de sair vivo.
O homem alcançou-o. Desferiu mais um golpe em Hugo, arrancando um pedaço de sua camiseta azul. Hugo contornou-o, desviando de um segundo golpe, porém, quando se virou novamente para o homem, ele o agarrou pelo cangote com a mão direita. Com a esquerda, apontou a lâmina para sua garganta, e ameaçou cortá-la.
– Eles vão te pegar se você fizer isso! – Hugo berrou para o assassino.
– Você não entende, não é? Somente... – cortou a pele de Hugo, e um fio de sangue escorreu pelo pescoço – você... – mais fundo um pouco – pode... – agora Hugo sentiu sua respiração cessar – me ver! – E a lâmina atravessou seu pescoço.
Hugo acordou em seu quarto escuro. Reconheceu a decoração familiar, e respirou aliviado. Por mais que soubesse que havia sonhado, ainda havia algo em seu peito o agoniando. Olhou ao redor, estava tudo escuro. A cortina estava entreaberta, deixando um fio de luz entrar no quarto, que iluminava uma parte da parede em frente a sua cama.
Sentiu como se houvesse engolido uma bola de golfe, e como se alguém houvesse apertado seu cérebro contra seu crânio. Na parede onde havia iluminação, estava escrito algo, e desta vez Hugo percebeu com o que havia sido escrito; seu próprio sangue brilhava em vermelho vivo na parede, onde uma frase estava escrita, logo acima de uma lâmina ensanguentada, que estava junto um pedaço de tecido azul, da mesma cor que a camiseta que Hugo usava no sonho e atualmente. Olhou para a parte da camiseta que havia sido cortada. Faltava um pedaço.
Levantou-se rapidamente e pegou o tecido da blusa. Encaixou-o na parte que estava faltando, logo ao lado do umbigo. Era isso. O sonho não havia sido mera ilusão de seu cérebro. Havia acontecido, ou quase. Ah!, pensou Hugo, Isso é confuso!
Correu para acender a luz no quarto e o fez. No mesmo momento, olhou para a parede. A frase que vira agora podia ser lida por completo:
“Somente você pode me ver!”
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