Perfume

16 Capítulo 16: A Testemunha


A imagem da mulher sendo assassinada na igreja de Nossa Senhora D’ Ajuda, surge nos pesadelos do delegado Valentim, que desperta com o barulho irritante do celular. Os principais meios jornalísticos continuam falando a respeito de Pamela Monteiro e a cidade deseja a resposta, referente ao caso. Ele admira a esposa dormindo ao seu lado, tem uma bela morada em um condomínio fechado na Estrada da Balsa, a cônjuge é americana formada em psicologia, conheceram-se acerca de cinco anos quando a dama estava de férias e apaixonaram-se posteriormente.

Ele tenta parar de pensar na vítima, mas as ideias parecem ser mais fortes que seus comandos, imagina a dor dos familiares? Também é pai de uma garotinha linda de três aninhos, um verdadeiro anjo. O smartphone começa a tocar novamente, o homem de cerca de um metro e oitenta de altura, se afasta dos aposentos e atende na varanda. O cachorro começa a iniciar alguns latidos, reconhecendo a voz do proprietário, sendo calado com uma ordem firme. No telefone, a voz feminina de Alice Jones, detetive da delegacia local.

— Encontramos a testemunha do caso Monteiro.

— Do que você está falando, Alice?

— Acabou de acordar chefe? Quer um café?

— Calma, garota.

— É sobre a Pamela, o que parecia inevitável ocorreu.

— Aonde você está?

— Na emergência, vem para cá agora.

— Certo.

Valentim desliga o telefone, retornando para o ambiente anterior, coloca uma vestimenta adequada, joga uma água no rosto para dar um pouco de ânimo, como se isso fosse preciso, cada detalhe referente ao assunto torna-se insigne. Ele beijou o rosto da amada antes de sair do quarto, ao passar pelos corredores antes de entrar no carro na garagem, acariciou a face da filhinha. O veículo sumiu em meio a neblina da cidade, estacionando na emergência.

Alice Jones observa o chefe um pouco impaciente, eram quase quatro horas da manhã.

— Alice...

— Valentim, finalmente você chegou.

— Como é a vítima?

— Essa é a pior parte.

— Sim.

— É uma criança, aparentemente muito apavorada.

— Ele conseguiu ver o facínora?

— Ele está com muito medo, Valentim.

— Você tentou conversar com ele?

O médico moreno e pouco arrogante, aproxima-se do delegado e pede para que o mesmo tome cuidado com as perguntas e seja o mais compreensível possível, trata-se de um garoto, morador de rua de aproximadamente doze anos de idade. Valentim é um dos melhores delegados da Bahia, certamente esse não será um obstáculo. Ele entrou no pequeno cômodo da emergência, depois que souberam a respeito da eventualidade, a equipe médica, resolveu por colocar o menino sozinho.

— Boa noite, amiguinho, tudo bem com você?

O garoto permanece deitado na maca, um pouco amarelado e com a voz mansa.

— Quem é você?

— Um amigo.

— Da polícia? O que fiz de errado?

Ele notou o distintivo de Valentim, por um instante o delegado renegou tamanha burrice, deveria ter guardado e mostrado depois.

— Não se assuste. Meu nome é Valentim, o seu é Douglas, não é?

— Isso.

— Tem quantos anos?

— Está me interrogando?

— Estamos conversamos, não podemos ser amigos?

— Podemos, claro, tenho onze anos.

— Você se machucou muito, não é?

— Sim.

— Posso saber um pouco mais daquele dia, do acidente?

— Eles tentaram me matar.

Os olhos do menino enchem de lagrimas.

— Eu não fiz nada de errado, mas eles fizeram isso comigo.

Os hematomas permanecem diante do corpo do garoto, que por um milagre conseguiu sobreviver, havia sido espancado brutalmente e ficado em coma durante sete dias consecutivos. As perguntas sem respostas ficam em cheque na cabeça do delegado.

— Quem fez isso contigo? Eu vou prender ele.

— Eu não sei, mas eu quero sair daqui dessa cidade amaldiçoada.

— Calma.

— Não posso ter calma, sou a única testemunha do assassinato daquela mulher, a pessoa que fez isso é muito influente nessa cidade, não entende? Eu sou menino da rua delegado, se eu morrer hoje ou amanhã, vai ser apenas uma estatística.

— Não fale assim, amiguinho, eu me importo contigo agora.

— Até descobrir uma informação, pensa que não sei?

— Não. Confia em mim, Douglas.

Valentim segurou as mãos do garoto e o encarou.

— Esquece isso delegado, a moça morreu.

— O assassino deve pagar pelos erros.

— A justiça vai ser divina.

O delegado levanta da cadeira, retirando-se do quarto, deixando o garoto sozinho. Douglas permanece fitando a parede branca, como aquele lugar é estranho, sem alma, sem diretrizes. Tira o caninho do soro das mãos, o sangue começa a sair lentamente, sendo limpado brevemente por um papel toalha. O garoto mira para a janela de vidro que é aberta bruscamente, uma pessoa transpôs no quarto e aponta uma bereta 635, para o corpo do menino que se afasta lentamente, caindo de volta na cama. Dos olhos começam a cair lagrimas de desesperos e os gritos por amparo, tomam conta do cômodo. Quando os policiais e médicos entram no conveniente, enxergam apenas Douglas chorando aturdido.

— Fique calmo menino.

Valentim abeira-se e limpa o rosto da criança e pensou na filha, nos momentos felizes ao lado da garotinha.

— Eu vi a pessoa! Entrou aqui!

— Verificamos todo o local, não tem ninguém Douglas. – Disse Alice.

— O que?

Douglas balança a cabeça negativamente.

— Isso é fruto de sua imaginação. – Valentim começa a falar. – É normal vítimas nessas circunstâncias, ter esse tipo de comportamento. Contemple ao redor, veja o tanto de policiais que estão neste momento trabalhando, para te proteger. Está se sentindo melhor?

— Sim, mas pareceu tudo tão real.

O delegado abraça o garoto, que continua em lamurias. A corrente de ar gelado infesta o quarto. O menino em seguida, descansa deitado de lado, aconchegando-se no travesseiro. Valentim fica sentado numa poltrona, apenas o observando, finalmente está prestes a dar um novo passo neste caso, mas tudo pode estar na linha de fogo.