Capítulo 25: Preciso da sua ajuda

Naquela manhã o tempo estava nublado, mas como não estava chovendo, decidi manter a programação original de treinos. Eu decidi ensiná-lo combate corpo a corpo, já que nossos inimigos estavam a cada dia mais, se mostrando ser mais humanos do que bestas.

Eu criei um treino simples, apenas para testá-lo de início, pois precisava saber o que era mais fraco e o que precisava antes ser corrigido... Ou ao menos era o meu planejamento, até quando saímos de casa e minutos depois, Erwin apareceu para falar comigo, chegando de cavalo.

— Você precisa sair de dentro das muralhas o mais rápido possível — foram as suas primeiras palavras, antes mesmo de qualquer cumprimento. — Os superiores estão planejando um treinamento conjunto e querem que Jaeger participe dele — explicou o motivo de tanta preocupação.

Treinamento conjunto: Os militares trocavam recrutas entre os esquadrões para testá-los e para lhes dar mais experiência... Essa era a explicação oficial.

Treinamento conjunto: Um período de tempo onde os recrutas são forçados a viajar a outro esquadrão, no qual são maltratados, intimidados ou subornados para trair seus superiores... Essa é a realidade.

— Há dois treinamentos planejados. O primeiro começará em uma semana e o outro daqui seis meses. Eu disse a todos que você estava ocupado e que estava deixando a muralha amanhã, então eles permitiram que você só participasse no treinamento que acontecerá em seis meses.

As suas explicações eram rápidas e ele ainda estava montado no cavalo. Pelo que sabia dele, podia facilmente deduzir que estava extremamente ocupado, mas que ainda assim veio me avisar.

— Sinto muito, meu amigo. Não posso impedir isso. Treine-o o máximo que puder, o suficiente para que possa sobreviver longe de você por algum tempo. Te arrumei seis meses, não posso fazer nada além disso — explicou olhando-me com preocupação.

— Eu entendi... Obrigado pelo tempo que me arrumou — agradeci sendo honesto. Só aquilo já era muito, ainda mais quando muitos me detestavam e mais ainda gostariam de afastar o meu recruta de minha proteção.

— Eu iria pedir para que fosse embora hoje, mas ao anoitecer há uma festa na qual você deveria ir. Theo Becker estará presente. E além disso, se você sair sem se despedir dos superiores, irá fazê-los te odiar ainda mais... E não precisamos de mais ódio, não é? — brincou, puxando as rédeas do seu cavalo e fazendo-o dar a volta, partindo em alta velocidade, sem perder tempo com uma despedida.

— O que foi isso? — perguntou Eren ao meu lado. Ele estava surpreso, curioso e preocupado. Levei-o para dentro de casa e sentados na mesa, lhe expliquei sobre o treinamento e sobre o que acontecia nele.

— Eu nunca tive um recruta sob minha responsabilidade, então tinha me esquecido completamente disso. Mas é algo que acontecesse todos os anos e para piorar, não posso me recusar — expliquei sendo honesto.

A sua expressão era pensativa, mas a preocupação era visível. — Eu entendi. Vou me esforçar o máximo que puder nesses seis meses e quando for a outro esquadrão, prometo que não vou te envergonhar! — garantiu confiante, dando um sorriso verdadeiro, apesar da preocupação.

Olhando seu sorriso e sabendo que mesmo que quisesse sempre mantê-lo ao meu lado, não podia fazer isso, me lembrei do que aconteceu na última noite... Enquanto eu dormia, escutei Eren falar como de costume, de início eram palavras desconexas, então apenas fiz o que já estava virando profissional em fazer, ignorei-o.

Mas... ele começou a chamar meu nome. Não chamando por "Capitão", mas sim, por "Rivaille". Curioso, abri meus olhos e olhei discretamente para o pirralho que dormia apoiado em minhas costas, porém, ele dormia profundamente como sempre.

Me ajeitei e tentei voltar a dormir quando aquela frase passou por seus lábios. Alto e claro, assustando-me por alguns segundos, que pensei que ele estivesse acordado. Mas depois de verificar ao olhar para trás, percebi que ele ainda dormia.

Tentei esquecer, tentei mesmo, entretanto já não era mais possível. Não podia esquecer que ele me disse: "Eu te amo, Rivaille"...

— Capitão? Algum problema? — questionou o meu recruta, sentado em minha frente e olhando-me seriamente, não entendendo porque eu o olhava tão intensamente sem dizer nada.

— Eu tenho assuntos pessoas para resolver em Shina, então vou ficar o dia todo fora e ao anoitecer irei até a festa da qual Erwin falou. Só voltarei depois disso e amanhã pela manhã iremos partir. Avise Mya e arrume suas coisas e as delas.

— Devo arrumar suas coisas também? — perguntou calmamente. Sorri discretamente e concordei. — Entendido. Nos vemos a noite então — disse ao se levantar e deixar a mesa, enquanto eu pensava naquela loucura.

Ele pediu para arrumar minhas coisas, não parecia ser nada demais, mas mesmo assim fiquei tão feliz que até mesmo meu coração reagiu... Chegava a ser idiota o quanto eu estava sendo afetado por aquele pirralho.

Decidido a não pensar mais naquilo, troquei de roupa e fui para Shina. Visitei aquele lugar que eu ia vez ou outra, falei com os empregados e depois parti, não tinha nada em específico para fazer, então fui até o laboratório de Hange. Ela estava novamente ocupada, mas me recebeu como sempre.

Escutei suas piadas e aproveitei para pedir por peças para consertar o meu dispositivo de locomoção, que estava querendo quebrar. Adicionando ao pedido, que preparasse dispositivos novos, tanto para mim quanto para Eren, pois iria treinar muito naqueles seis meses e provavelmente iria danificar o restante do meu aparelho e também o dele, devido as suas constantes quedas.

Depois de comer algo em um restaurante barato, segui até o salão no qual aconteceria a festa, um dos salões que também ficava na cidade Shina. Lá havia, como sempre, comida e bebida á vontade, mas fiz questão de não tomar ou comer nada do que me era oferecido... Velhos hábitos eram difíceis de se livrar.

Cumprimentei aqueles que vieram falar comigo e percebi pelas conversas que ouvia, que muitos estavam interessados em levar Eren ao seu esquadrão. Fingi não ouvir e saí para a varanda, não só para fugir das conversas, mas também para tomar um pouco de ar, pois me sentia sufocado em eventos como aquele.

Com as mãos no bolso da jaqueta que eu estava usando, olhei para o céu agora estrelado e internamente almaçoei o tempo por ter melhorado... Eu queria que chovesse e ao lembrar do motivo, sorri discretamente, sem me conter.

Meus pensamentos seguiram para o recruta, antes mesmo que eu pudesse analisar sobre o que estava pensando. E aquelas palavras que me foram ditas, me fizeram parar pensar no relacionamento atual que tínhamos.

Eu definitivamente odiava soldados, mas odiava-os pois eles julgavam o que era certo ou errado, por razões como o dinheiro... e Eren não era assim. Também tinha medo de me envolver com alguém e esse alguém se machucar... Mas Eren era forte e talvez, algum dia, pudesse ser ainda mais forte que eu. Ele não era uma dama frágil e apesar de poder se machucar, tendo-o ao meu lado e em meu trabalho, tornava muito mais fácil garantir a sua segurança.

Tinha outros problemas também, mas sempre que eu pensava naquele sorriso ou no calor do seu abraço, dizia a mim mesmo que não era nada que eu não pudesse superar. E a parte mais importante... Desde que aquele pirralho entrou em minha vida, eu sinto como se o tempo estivesse passando, como se a vida estivesse realmente seguindo.

A cada dia ao seu lado era uma nova aprendizagem, uma nova aventura ou um novo problema. O meu "eu" naquele instante, não era o mesmo "eu" de semanas atrás, quando recrutei Jaeger... Algumas semanas em sua companhia e eu sentia algo que não tinha sentido em anos, sentia que estava realmente vivendo.

— O que há com essa expressão pensativa, Rivaille? — perguntou meu mais antigo e fiel amigo, andando até parar ao meu lado e observando as estrelas em minhas companhia. Uma rajada de vento passou entre nós e ao sentir um leve frio, lembrei-me do calor do seu corpo, o mesmo calor que me envolvia todas as noites.

— Erwin... Preciso da sua ajuda — disse pouco antes de explicar — Em algum momento no futuro, você receberá queixas dizendo que estou me envolvendo sexualmente com meu subordinado... Pode lidar com isso, sem que sejamos separados ou que eu acabe na cadeia por dormir com um menor de idade? — Fui honesto em minha pergunta.

Ele olhou discretamente para trás, vendo as dezenas de superiores no salão e disse sem conter o sorriso: — Sério. Quer falar sobre isso aqui? — sorri discretamente e ele balançou a cabeça em negação, reprovando meu ato, mas ao mesmo tempo achando divertido e isso ficava óbvio pelo sorriso ainda presente no canto de sua boca.

— Se quer realmente seguir esse rumo, faça as coisas direito. Eu vou preparar alguns papéis e dentro de alguns dias você deve vir pegá-los. Com tudo oficializado, podemos usar isso a nosso favor quando o seu relacionamento for exposto e também em outras ocasiões — disse parecendo estar planejando algo.

— Não sei se ele vai aceitar... — Era verdade que Eren disse que me amava, mas se eu havia entendido certo, o que Erwin estava propondo, estava em um nível muito diferente da relação que estávamos tendo no momento... Se é que aquilo podia ser chamado de relação.

— Não seja tolo, meu amigo... Você não saberá, se não perguntar — disse tocando minhas costas, em um incentivo de "vá em frente e tente". — O máximo que pode acontecer é você ser rejeitado e as coisas irão se tornar realmente estranhas entre vocês dois — disse sério, mas com aquele sorriso zombeteiro no canto dos lábios.

— Valeu mesmo, idiota! — disse socando seu braço discretamente e ouvindo um baixo riso. Erwin era um ótimo amigo, mas também era um babaca quando queria. Eu ali, desesperado e precisando de um amigo e ele vem e tira sarro da minha situação! Sinceramente, se ele não fosse meu comandantes, teria lhe dado um chute na bunda!!

Notas finais
Até mais. :-)