Perfeitos um para o outro... Ou quase isso
6 Opiniões iguais, igualmente loucas!
Notas iniciais
Capítulo 06: Opiniões iguais, igualmente loucas!
O braço do garoto melhorou, então aproveitamos para treinar por mais dois dias. Hange trabalhou rápido e logo o equipamento dele ficou pronto, então fomos buscar ao entardecer.
De minha base até o local de trabalho de Hange, levou quase vinte minutos, pois pegamos o caminho mais longo que não passava pelo meio da cidade e por ela morar na extremidade do muro que separava as cidade de Rose e Shina.
Quando chegamos lá, tivemos que esperar alguns minutos, enquanto um de seus subordinados ia acordá-la. De acordo com o que me foi relatado, ela trabalhou até desmaiar. — Oh! Eren, Rivaille. Vocês chegaram! — cumprimentou com um toque no ombro de Eren, antes de se jogar em mim e me abraçar de lado por cima dos ombros.
— Eu criei uma grande invenção para o dispositivo do garoto. Vai ficar muito impressionado — disse Hange, ajeitando seus óculos sobre o nariz e fazendo seus cabelos ruivos balançarem enquanto ela falava aquelas palavras com confiança.
— Se funcionar com segurança, já ficarei surpreso o bastante — devolvi, fazendo menção as invenções tão malucas quanto ela, que costumava inventar.
Seguimos até sua sala particular e lá estava o dispositivo de locomoção do Eren, com algumas modificações. Mais dois botões nas espadas e um dispositivo de cada lado do quadril com cabos de aço, assim como um dispositivo maior que ficaria na base das costas, que parecia-se com um motor mais potente do que o meu que soltava o gás, parecia ser mais pesado também.
A explicação veio com uma demonstração da "corda" que ela acrescentou a arma. Eram dois cabos de aço, com garras nas pontas e com cerca de trinta metros. Os botões serviam para atirar o cabo, fazê-lo puxar, e mover a garra nas pontas para "pegar" e "soltar" fazendo com que pudesse se prender em construções ou árvores.
Os controles estavam nos dos botões extras que estavam nos cabos das espadas e os comandos eram feitos com o apertar de botões ou o pressionamento deles por alguns segundos. Eren ouviu tudo com atenção e disse ter entendido, em seguida ela nos mandou embora.
— Por que está tão ocupada atualmente? — questionei estranhando aquele empenho todo no trabalho, que ela nunca tinha mostrado.
— Desculpe Levi, mas não posso te dizer — sussurrou baixinho para que só eu escutasse, enquanto me empurrara para fora da sua sala e fechava a porta. Hange só usava meu nome, quando o assunto era sério e ao dizer que não "podia" me contar. Significava que algo estava acontecendo, envolvendo-me e que em breve eu poderia ter problemas.
Se ela não podia falar, não insisti em querer saber, para não colacá-la em problemas. Afinal, mesmo sendo louca e muitos vezes um perigo para a humanidade, ela ainda era minha amiga.
Aproveitei que estava perto de Shina e fui resolver alguns assuntos pessoais. Deixei Eren no muro que dividia as duas cidades e segui para dentro da cidade, voltando apenas uma hora mais tarde e encontrando-o sério, observando um treinamento que podia ser visto muito longe. Parei ao seu lado e vi o treino de combate de novos recrutas de uma das unidades da Tropa de Exploração.
— Você acha que eu deveria te ensinar isso também? — perguntei tentando entender os seus pensamentos, ele continuou sério e respondeu:
— No momento, não... Combate contra humanos, não vai ajudar na luta contra as bestas. Mas, se fosse possível eu gostaria de aprender, mesmo que seja em um futuro distante — esclareceu, olhando com aquele olhar de determinação.
— Vou pensar a respeito — garanti enquanto acompanhava-o na descida pelas escadas internas, até chegar na base do muro, onde estavam nossos cavalos. Montamos e fizemos nosso caminho de volta. Para um caminho mais rápido, voltamos por dentro da cidade, sendo motivos de atenção, como eu já esperava.
Ao passar por um aglomerado de pessoas e ver uma besta acorrentada no meio da cidade, ele parou seu cavalo. Parei de cavalgar e voltei até ele, vendo com surpresa, um recruta que ele talvez conhecesse, sair correndo da fera.
— É um teste de coragem — expliquei chamando a sua atenção para mim. Apontei para a arena e continuei a explicação: — A besta de nível um, está acorrentada por uma corrente que possui exatos vinte metros. Alguém vai até a jaula atrás da besta, aciona o dispositivo com um número e depois diz esse número ao outro que fará o teste — Com meu cavalo parado ao lado do seu, pude ver o seu interesse enquanto eu seguia explicando.
— Aquele que fará o teste é em sua maioria um recruta e aquele que lhe diz o número é um de seus oficiais superiores. O número representa a quantidade de metros que a besta poderá percorrer. O recruta precisa ficar parado um passo atrás do número indicado e permanecer parado enquanto a besta segue até ele. É preciso confiar que o animal não irá alcançá-lo se ficar parado — encerrei vendo compreensão, enquanto outro jovem seguia alguns passos para dentro do círculo.
— Aquelas marcações vermelhas no chão, são as marcas de cada metro? — perguntou ao ver o garoto andar três linhas e parar.
— Exatamente. A maioria escolhe um número acima de quinze, deixando o recruta perto da borda limite, para que sinta um pouco de segurança, mas mesmo assim, são poucos que não fogem — encerrei no mesmo instante em que mais um falhava. Ele deu dois passos atrás e não correu, mas falhou ao se mover.
— Rivaille! Há quanto tempo não nos vemos! Por que não aproveita e testa seu recruta? — perguntou um homem em cima da jaula da besta, enquanto o animal era puxado para dentro da caixa de metal novamente. Assim que meu nome foi mencionado e eles seguiram seu olhar, nos tornamos o foco da atenção.
— É a primeira vez que você tem um recruta. Não quer saber como ele realmente é? — perguntou fazendo alguns murmúrios começarem na roda de pessoas que já nos cercava. Ele não estava nem aí para mim ou para o teste, só queria ver o meu recruta fugir para que eu me sentisse envergonhado. Apesar de não ser vergonha para os outros capitães, para mim, seria, pois seria certeza que isso se espalharia para todo lugar das três cidades.
— Vamos, temos que treinar — disse ao garoto, ignorando todos os demais. — Sim senhor — acatou enquanto andava com o cavalo ao meu lado, esperando que as pessoas nos abrissem caminho para que pudéssemos passar.
— Covarde... Parece que Capitão e subordinado compartilham da mesma característica. É por isso que se recusa a aceitar? — continuou a sua provocação. Segurei firmemente as rédeas em minhas mãos e fiquei feliz por não estar usando meu equipamento, ou poderia ter cortado-lhe a cabeça.
— Capitão, vamos fazer isso — disse o garoto para a minha surpresa e daqueles que estavam ao nosso redor. Encarei-o e vi ali aquele olhar de raiva. O olhar que apesar de estar em olhos verdes, passava a impressão de ser amarelos, assim como as bestas.
Desci do meu cavalo e ele fez o mesmo, as pessoas abriram espaço e nós chegamos até as marcações. — Você entendeu tudo? — questionei por precaução, ele afirmou e demos início ao teste.
Ainda mais pessoas apareceram e se espremeram entre os outros para ver a cena. Até oficiais do exército apareceram ali. O responsável por soltar a besta, perguntou-me o número e disse-lhe em tom baixo, fazendo-o me olhar espantado. Após confirmar por duas vezes que aquele era o número, estávamos prontos para começar.
Subi em cima da jaula, na companhia do idiota e encarei o garoto. — Eren... Número 04 — disse para uma surpresa geral que podia ser ouvida com um uníssono "oh!" Que todos soltaram. Até mesmo Eren ficou surpreso.
Olhei seriamente em sua direção e acenei afirmativamente, esperava que ele entendesse que fiz aquilo, porque confiava que ele não ia me decepcionar. O garoto acenou em afirmativo, como se tivesse entendido a minha intenção e começou a andar. Seus passos eram lentos, mas pouco tempo depois ele estava ali perto, há quatro metros de distância. Deu um passo para trás e olhou para mim com olhos cheios de coragem.
— Solte — disse ao homem que comandava a corrente e os olhos de Eren se fixaram na fera enquanto ela corria em sua direção e ele não se moveu, mesmo quando a corrente parou o animal há poucos centímetros de seu rosto, mostrando que a marcação feita no chão, não possuía 100% de precisão...ele não deu um único passo e nem sequer vacilou, fazendo um sorriso divertido brotar em minha face. Pela primeira vez naqueles dias, tive uma garantia de que fiz certo em escolhê-lo.
A multidão ficou em silêncio, antes de explodir em gritos e elogios ao meu recruta. Os meus sentimentos foram de mãe preocupada, para pai orgulhoso. A besta foi colocada de volta na jaula, desci e segui até ele. Ao parar em sua frente, vi um olhar esperançoso e sabia o que ele queria.
— Bom trabalho — elogiei vendo aquele grande sorriso. Aquele que apareceu quando agradeci o chá. Um sorriso de felicidade sincera e que parecia vir de um coração puro.
Com o teste encerrado, voltamos para casa e lembrei que em breve estaríamos indo para a outra base. Eu não queria que ele morresse, não só por ter gastado meu tempo para treiná-lo, mas porque estava começando a acreditar que ele poderia se tornar um bom parceiro, mesmo que talvez demorasse alguns anos até que suas habilidades se aproximassem das minhas.
— Troque de roupa e depois venha dormir no meu quarto — avisei quando chegamos no corredor do segundo andar. Vendo a surpresa em sua face, percebi que talvez ele tivesse entendido errado e resolvi calmamente explicar.
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