Capítulo 23: Nossa relação — Levi

Na manhã seguinte, dormimos até mais tarde e quando acordamos, Mya já tinha preparado o café da manhã. Ela me disse que ouviu tudo sobre meu trabalho e disse que ainda assim queria trabalhar comigo. Ela ficaria sozinha, mesmo em uma base sem barreiras, se isso significasse que poderia estar ao nosso lado. Quando perguntei o motivo de tanta dedicação a nós quando acabamos de nos conhecer, ela respondeu:

— Eu me sinto bem com vocês dois... É como se fôssemos uma família — Devo dizer que fiquei surpreso, mas não contestei. Cada um tinha uma preferência por um lar, e apesar de sermos os três diferentes, tínhamos uma vida cheia de sangue e batalhas, isso era o que nos reunia naquele momento.

Depois do café da manhã. Recebi um mensageiro que trazia uma carta de Erwin. Após ler o conteúdo, repassei minhas ordens aos dois que esperavam ao meu lado, curiosos para saber o que eu lia tão concentrado.

— Eu vou novamente até a cidade Shina. Mya, você irá comigo. Vamos aproveitar para comprar roupas e objetos pessoais. Eren, se prepare para receber visitas, seus dois amigos de infância virão visitá-lo — expliquei vendo a felicidade de ambos... Duas crianças.

Mya foi preparar nossos cavalos e Eren foi ao seu quarto. Subi atrás dele e depois de pedir permissão, entrei em seu quarto, ele estava procurando algo nas gavetas, sentado na cama. Subi em sua cama e para a sua surpresas puxei-o pela cintura fazendo-o deitar na cama e deitando minha cabeça em seu peito, abraçando seu tronco.

— C-capitão?

— Estou cansado. Seja um bom travesseiro e fique parado uns minutos — pedi calmamente, fechando meus olhos e escutando as batidas aceleradas de seu coração, enquanto sorria discretamente. Alguns minutos se passaram, até que senti sua mão acariciar meu cabelo. Ele parecia estar me confortando.

— Ainda não se recuperou completamente dos dias em que esteve acordado, devido a missão, não é? Desculpe ter sugerido aquilo na noite passada — pediu enquanto tentava camuflar a vergonha na sua voz.

— Tudo bem. Valeu a pena ficar um pouco mais cansado — fui honesto, ouvindo-o rir. Mais alguns minutos se passaram, até que Mya veio me chamar. Ao me ver deitado sobre Eren, ela não pareceu surpresa, apenas perguntou o que estávamos fazendo. Respondi a verdade, que estava descansando um pouco. Ela relatou que os cavalos estavam prontos e que tinha chegado dois jovens. Pelas descrições eram Armin e Mikasa.

Já estava me levantando quando ele me segurou e disse para a pequena. — Diga a eles para esperarem um pouco, só mais alguns minutos — disse Eren com voz decidida. Ao ver que não fui contra as palavras dele, ela disse "tudo bem" e saiu. Seus braços envolveram-me pelo pescoço e ele sussurrou:

— Pode não ser muito, mas descanse mais um pouco — pediu preocupado. Não vi problemas em acatar seu pedido e apenas fechei meus olhos, desfrutando dos minutos seguintes da sua companhia e dos seus afagos.

Eu estava acostumado demais com a sua presença.

Quando saímos da casa, Mya esperava em cima do cavalo e os dois estavam de pé, ao lado dos seus. — Lembre-se das regras e cuidado com o que fala — avisei, referente ao que ele viu e sabe. O recruta não pareceu bravo por eu desconfiar dos seus amigos e apenas acenou afirmativamente. Os dois me cumprimentaram com uma continência e acenei com a cabeça em respeito, deixando os três para trás e seguindo com a menina.

Eu a levei para comprar roupas, produtos de higiene pessoal e um novo cavalo, já que o que ela estava usando era o do Eren. Aproveitamos as compras e compramos mantimentos e o gás para as armas, assim como algumas peças que precisava trocar. Mya era habilidosa na montaria, então não me trouxe problemas, exceto a atenção que chamava ao me chamar apenas de Rivaille.

O terceiro cavalo carregou as nossas compras. No fim do dia, depois de ter tudo o que precisamos, eu a levei até um restaurante e deixei que comesse, pois ainda tinha voltas importantes para fazer. O dono do restaurante era um conhecido, então pedi a ele que cuidasse dela e pedi a ela que me esperasse ali.

Depois passei em uma loja pouco conhecida e comprei algo que já devia ter comprado há muito tempo, após guardar no bolso interno no meu casaco, segui até o quartel para falar com Erwin. A mensagem que recebi dizia também, que ele queria falar comigo. Após esperar em sua sala por quase vinte minutos, ele enfim apareceu. Sem enrolação, foi direto ao ponto, falando sobre o que havia descoberto a respeito de Grisha Jaeger.

Uma longa hora foi preciso para que ele me contasse tudo. Salvei em minha mente as partes mais importantes, sabendo que teria que contar aquilo ao garoto. Quando o assunto se encerrou já ia sair, mas ele me impediu, dizendo que ainda havia algo sobre o qual queria falar.

— O que é?

— Como vai a convivência com o recruta? — perguntou de repente.

— Por que essa pergunta do nada?

— É que você não fez reclamações e até mesmo tem levado-o nas missões. Para alguém que se recusava a trabalhar com um parceiro, você parece satisfeito com a presença dele. Só queria saber se meu raciocínio estava certo — explicou de modo calmo, cruzando os dedos e apoiando as mãos em cima da mesa.

Ele estava preocupado, essa é a verdade, mesmo que ele não fosse dizer. Preocupado com o fato de eu estar próximo do garoto ou de que venha a me machucar.

— Eu estou satisfeito com o trabalho dele. Eren tem evoluído gradativamente e em alguns anos, será um parceiro ideal para o combate. Até lá vou ensiná-lo. Não se preocupe, seu plano de colocar alguém em minha vida para me ajudar está dando certo, mesmo que pouco, ele me ajuda — expliquei lembrando daquela manhã, quando pude descansar com sua presença. Me levantei da cadeira e antes de dar um único passo para longe dela, entontei.

A minha visão ficou turva e me apoiei na mesa, sentindo minha garganta queimar e tossindo enquanto levava a outra mão até a boca e manchava-a de sangue. Erwin apareceu ao meu lado e me ofereceu um pano, seu rosto não expressava muito, mas seus olhos me olhavam em desespero.

— Estou bem. Na última missão eu fiquei muitas noites sem dormir e me esforcei mais do que o normal, é só isso — tranquilizei-o. Limpando a minha mão e depois indo ao banheiro e lavando os últimos resíduos de sangue.

Ao voltar, passei pelo comandante e acenei com a cabeça em respeito, já me retirando, mas detive minha saída ao ouvir suas palavras. — Parece que cuidar de um recruta está afetando sua saúde. Eu não levei isso em consideração. É melhor se eu transferi-lo para outro esquadrão, para que treine até ter mais habilidades, depois ele pode regressar para o seu lado. Até lá ele pode ficar no esquadrão onde estão seus amigos e...

— Pare com isso, Erwin! Ou vou ficar realmente bravo — disse deixando as formalidades de lado. Me virei e encarei-o seriamente.

— Você queria que eu recrutasse um soldado recém chegado e eu o fiz, assim como tudo o que pede. Mas, não vou permitir que interfira na minha vida. Se Eren é um problema ou não. Se ele me faz mal ou não. Se quero-o por perto ou decido mandá-lo a outro esquadrão, isso sou eu quem decide.

— Não force a barra Erwin. Eu não sou uma marionete que pode controlar. Não se meta mais quando o assunto é o meu recruta, pois de Eren Jaeger, cuido eu — fui direto ao ponto.

— Entendido. Peço desculpas pela minha intromissão. Mas me deixe esclarecer dois pontos... Primeiro: Estou perfeitamente ciente de que não és uma marionete, justamente por isso que é o meu melhor, pois ninguém pode controlá-lo — disse seriamente antes de sorrir.

— E segundo: Você pareceu um marido com ciúmes agora, devo me preparar para um casamento? — brincou enquanto o seu sorriso ficava evidente. Era o máximo que eu via ele sorrir, com seus lábios esticados e suas bochechas elevadas.

— Cale a boca! — disse alto, sentindo um pouco de vergonha. Pois aquele em minha frente, era o que mais me conhecia, então ele já deve ter percebido a verdade, mesmo que eu não quisesse admiti-la. Ouvimos uma discreta batida na porta e alguém com voz repleta de medo, relatou que o comandante era requisitado na sala de reuniões. Ele provavelmente pensou que estávamos brigando.

Ao passar ao meu lado, Erwin tocou meu ombro e sussurrou em meu ouvido: — Levi. Só quero que fique bem e feliz. Desculpe se as vezes exagero. Espero que as coisas melhorem em sua vida — desejou sendo honesto.

— Desculpe ter gritado— pedi e ele acenou. Saímos os dois juntos e alguns soldados que passavam ali me encaram com medo. Ignorei-os e voltei para casa, após passar no restaurante e pegar Mya. Quando chegamos, os dois estavam se preparando para partir.

— Capitão Rivaille, obrigado por ter dado permissão para virmos ver o Eren — pediu o loiro assim que me viu.

— Sem problemas — garanti, passando por eles e indo para dentro. — Eren, ajude Mya com as compras e depois suba, precisamos conversar — disse sem dizer sobre o que era

— Sim Senhor — confirmou, pouco antes de eu entrar na casa e não poder mais ouvir sua voz.

Ao chegar em meu quarto, olhei para a cama e lembrei da última noite. Andei até perto dela, joguei o que havia comprado dentro da gaveta e disse a mim mesmo que deveria parar de pensar em sexo, pois estava parecendo um adolescente.

Notas finais
Até mais. :-)