Perfect Places
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Notas iniciais
Every night, I live and die
Feel the party to my bones
Watch the wasters blow the speakers
Spill my guts beneath the outdoor light
It's just another graceless nigh
Jovens podem ser absurdamente previsíveis e eu nunca fui uma exceção à regra. Sexta à noite e eu estava testando os limites do meu fígado tal qual qualquer cara da minha idade. Incluído naquela parcela de pessoas que pareceram excessivamente promissoras durante a primeira metade da vida e que pegaram passe livre para um declínio sem volta depois da infância, eu estava garantindo mais uma camada de desgosto no rosto endurecido do meu pai em um pub sujo de uma Londres igualmente suja e trouxa com Rose Weasley, outrora candidata a melhor-qualquer-coisa que você possa imaginar, inclusive namorada.
Vendo-a virar uma long neck sem sequer uma pausa para respirar, senti a velha sensação de admiração arrebentar na boca do estomago. Para mim, seguia sendo a melhor pessoa existente.
Eu definitivamente a amava.
Só não do jeito que achava aos quatorze.
[Cuidado. A vida pode ser uma bizarrice do caralho.]
Ela me encarou com os olhos brilhantes e desvairados que denunciavam uma mente ansiosa, produtiva e inteligente por trás daquela fase perdida. Era lindo e triste vê-la dançar. Se eu pudesse apontar um caminho para fora da adolescência e das crises existenciais para Weasley, se eu pudesse simplesmente catapultá-la para o momento em que o mundo se torna fácil e simples de segurar... Se eu pudesse ao menos garantir que esse tempo chegaria de fato, então eu acho que poderia dormir a noite. Como nada disso parecia sequer tangível, eu continuava passando todas as madrugadas livres escapando com ela para qualquer lugar que não parecesse real.
I hate the headlines and the weather
I'm 19 and I'm on fire
But when we're dancing I'm alright
It's just another graceless night
Rose me puxou pela mão e eu agradeci a Merlin. Às vezes eu tinha a sensação de que se ela não fizesse isso eu ficaria parado para sempre, congelado no tempo e espaço, aterrorizado com tudo e com nada, sufocando e desaguando em um mar de vazios existenciais até não sobrar nenhum vestígio de mim.
— Malfoy! — gritou como uma auror (bêbada). Eu ri e mexi a cabeça o mais rápido possível ao som da musica, torcendo para que o movimento físico bagunçasse os meus compartimentos mentais o suficiente para que eu não me fixasse tanto nos pensamentos esquisitos, mórbidos e recorrentes. — Isso! — A gargalhada dela era um analgésico. Nós rodamos e giramos e dançamos de maneira ridícula juntos.
Dançar pateticamente era o que fazíamos de melhor e isso ficou claro desde o nosso desastroso terceiro encontro amoroso no quinto ano. Felizmente Rose já ia bastante com a minha cara nessa época, de modo que nós continuamos nos vendo pelo ano inteiro e quando — depois de já termos arriscado todas as cartas e inclusive desvirginado um ao outro — ficou claro para nós dois que eu passava tempo demais pensando e, bem, vivendo em função de Albus, pelo menos já éramos o que estávamos destinados a ser: melhores amigos.
All of the things we're taking
'Cause we are young and we're ashamed
Sends us to perfect places
All of our heroes fading
Now I can't stand to be alone
Let's go to perfect places
— Ah, merda. — Eu a ouvi dizer baixinho, o que é incrível considerando o barulho que fazia na espelunca que estávamos. Engoli a seco antes mesmo de vê-lo. Eu ainda era extremamente sensível a presença de Potter.
Ele acenou de longe, carregando o mesmo sorriso ressentido de sempre. Nós não éramos tão próximos como em Hogwarts, mas eu havia convivido tempo o suficiente para supor com uma certa margem de certeza que Albus nunca entendera muito bem nosso afastamento. Ele era tão cheio de si que as vezes conseguia a façanha de ser realmente burro.
Rose acenou de volta enquanto eu ponderava se podia me manter de pé. Em uma história, eu claramente não seria a pessoa mais inteligente também. A resposta o incentivou a se aproximar, o que me fez correr para pedir a coisa mais entorpecente disponível no bar. Quando eu voltei, os dois tentavam conversar amenidades gritando com a mão em concha no ouvido um do outro.
Albus nos convidou para tomar um ar do lado de fora e Rose olhou para mim, incerta do que responder. Consciente de que não havia nenhuma razão para recusar a cordialidade, eu encolhi os ombros e assenti com a cabeça.
— Então, o que você faz por aqui? — Rose puxou conversa enquanto Albus recostava-se em uma parede.
— Ah, você sabe. Indicação do James. — Era a mesma razão para estarmos ali. O primo mais velho de Rose conhecia todos os lugares perfeitos, bruxos ou não.
Por alguma razão, isso me fez rir depois de longos cinco minutos silenciosos. Eu já estava alcoolizado naquele nível em que não havia uma situação segura o suficiente para que eu não passasse vergonha.
Albus e Rose me encararam.
— Não é um pouco engraçado toda essa nossa disposição em encontrar alguém para despir? — Eu perguntei, me justificando.
— Só se você tem garantias, imagino. — Al me respondeu com sinceridade, lançando um olhar rápido para Rose e pra mim. — De resto é só cansativo.
Essa era a conversa mais longa e franca que tínhamos em anos. Eu me dei conta do quanto sentia falta dele.
— Garantias? — Foi a vez de Rose rir por conta da pressuposição dele de que nós tínhamos um ao outro. Nós até tínhamos mesmo, mas não desse modo.
— Não? — Ele perguntou, sinceramente surpreso e depois acrescentou rapidamente: — Desculpem. Eu não queria parecer intrometido.
Eu arqueei uma sobrancelha. Intrometido era uma boa síntese para o Albus que eu tinha conhecido. E ele nunca fora tão rápido em ter senso de espírito. Ou em pedir desculpas.
— Ei, eu vi isso. — Ele apontou para a minha expressão provavelmente desconfiada.
— Desculpa. Eu precisaria estar mais sóbrio para disfarçar melhor. — Avisei.
Albus sorriu pela sinceridade.
— Sinto falta desse cara. — Ele murmurou para Rose, como se eu não estivesse ali.
— Eu também. — Ela respondeu. — Nos últimos meses o único jeito de fazê-lo falar qualquer coisa que seja é deixando-o bêbado.
— Sério? Eu achei que...
— Você é uma gracinha, mas acha muita coisa, Albus. — Rose o cortou, lançando um olhar perigoso para mim. — E quase sempre tá errado.
Me beijando na bochecha e sussurrando um "desculpe", ela se despediu rapidamente com uma desculpa esfarrapada.
Albus e eu nos encaramos, sem jeito.
— Então vocês não estão num eterno negócio aberto ou coisa assim? — Ele perguntou de novo.
— Ah, não.
— Estranho. Quero dizer, sei que Rose volta e meia está com caras e garotas que não são você, mas...
— É. — Encerrei o assunto. — Qual o problema?
— Nenhum. — Ele se apressou em explicar. — Nenhum mesmo. Eu entendo Rose. Eu me identifico com Rose, na verdade, eu acho que estou só... Surpreso.
Eu apalpei o bolso da calça, de repente desesperado por um cigarro. Foi a vez dele de franzir o cenho.
— Eu vi isso. — Repeti sua fala.
— Desculpa. É só que não parece com você.
Eu assenti com a cabeça e soprei fumaça para cima.
— Pedir desculpas tantas vezes também não se parece com você. — traguei, antes de concluir — É de se imaginar que talvez você não me conheça mais. E vice versa.
Ele assentiu em silêncio.
— Nós já...? — Ele perguntou com um fio de voz, me forçando a encará-lo.
— O que? — Eu quis saber, um pouco de raiva reprimida saindo pelo canto da pergunta.
— Nós já nos conhecemos? Alguma vez? — Os olhos muito verdes e muito sérios não se desviaram dos meus.
Eu me lembrei da primeira vez que nos vimos no vagão. E do primeiro HQ que dividimos. O modo como eu nunca me sentia sozinho perto dele no castelo ou como eu o seguia cegamente em qualquer ideia estúpida só por confiar nele com a minha vida. Me lembrei de como ele me abraçou depois de quase termos fodido tudo voltando no tempo. E da primeira vez que senti um comichão na barriga por vê-lo sorrir de manhã. E ainda como sempre misturávamos suco de abobora com cerveja amanteigada. E todas aquelas inúmeras horas estúpidas passadas em conjunto e eu soube, soube de verdade, que ele estava pensando em coisas parecidas.
All the nights spent off our faces
Trying to find these perfect places
What the fuck are perfect places anyway?
— Já. — Eu disse com a voz embargada e coração crepitando igual o cigarro na minha mão.
Algo no meu rosto ou na emoção incontida deve ter me denunciado, porque Albus cruzou a distancia entre nós com uma quase-segurança comovente.
— Tudo bem se eu me apresentar de novo? – Ele perguntou e havia tanta coisa no meio dessa pergunta, e tanto de mim esperando por ela que eu não consegui dizer nada por muito tempo. Nós continuamos nos encarando daquela distancia mínima em que a respiração dele tocava meu rosto e eu podia contar as discretas sardas que constelavam suas bochechas, uma herança charmosa da família materna. Quase certeza que ele também podia ver dali com quantos tons de roxo se faziam as olheiras típicas dos Malfoy.
— Tudo bem. – Eu disse por fim quando a vontade de lhe tocar o rosto se tornou insustentável e todas as releituras já haviam sido feitas. E me surpreendi porque, de fato, tudo estava bem. Não para sempre, obviamente. Talvez nem por um dia inteiro. Mas naquele instante, durante os segundos gloriosos que Albus levou para tocar a boca na minha, eu vislumbrei aquilo que desejava pra mim, e pra minha melhor amiga, e pra todo mundo que eu me importava: aquele entrelugar do que se é e o que se deseja ser. A paz de espírito. O lugar perfeito dentro de mim.
E aí eu o beijei de volta, fechando as mãos em torno do cabelo preto nunca penteado. Porque jovens podem ser absurdamente previsíveis e eu nunca fui uma exceção à regra. Sexta à noite e eu estava testando todos os limites de felicidade possíveis.
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