Perfect Creature
1 Prólogo
Notas iniciais
Eles me chamam de Lúcifer.
Sinceramente, nunca entendi porque me deram esse nome. Acredito que meus senhores gostam de acreditar que são deuses, criando e dominando um “anjo”. Acho que estou mais é para escravo. Um escravo da ciência. Não conheço o mundo em que vivo, apenas minha pequena cela e os laboratórios para onde me levam às vezes. Não me permitem sair, dizem que sou perigoso. Tento mostrar que sou confiável, que não quero machucar ninguém, mas não me dão atenção. Para eles, não passo de um animal a ser testado. Só existo para comprovar sua tese.
Eu fui criado com um único propósito.
Me tornar o ser humano perfeito.
Esse sempre foi o sonho dessas pessoas. Chegar ao auge de sua forma, utilizar todo o seu potencial. Então me pergunto, se são eles que querem ser perfeitos, por que sou eu quem tem que sofrer? Vejo a resposta todos os dias, refletida nos olhos de meus donos. Minha vida não é importante. Essa verdade sempre ataca minha mente, saltando como um predador, rasgando meus pensamentos fúteis com suas garras e abrindo espaço para a loucura me dominar. Infelizmente, não posso deixar que isso aconteça. Meus donos exigem de mim um comportamento submisso, e pago muito caro se os desafiar. A pouco tempo me contaram que eu não deveria ter sentimentos, pois isso limita meu verdadeiro poder e me restringe a uma condição humana.
Falando assim, deve parecer que sou um homem grade, ameaçador e muito perigoso. Ledo engano. Pelo meu corpo, acredito que eu tenha pouco mais do que dezoito anos, mas fica difícil saber quando meu desenvolvimento é anormal. Há muitos anos minha pele perdeu qualquer cor, deixando-me branco como um fantasma. Meus cabelos sofreram o mesmo efeito, mas ficaram mais fortes, fazendo com que meus donos desistissem de cortá-los e me permitissem deixá-los crescer, batendo hoje em minhas costas. Meus olhos, antes castanhos, hoje são completamente negros e opacos. Como nunca me alimentaram com comida, meu corpo é magro, mas não se engane. Sou mais forte do que qualquer ser humano que existe.
Você deve estar se perguntando “se ele não come, como sobrevive?”, não é? Bem, na verdade, eu fui alimentado na vida toda com Ormus. Ormus é um composto formado por metais em um estado chamado estado m. Explorado do modo certo, o Ormus pode ser usado para transformar o cérebro humano em um supercondutor perfeito e fazer seu corpo chegar ao total de seu potencial. E, expondo-me constantemente a essa substância, meus donos acreditam que me tornarei perfeito. É por isso que vivo com um aparelho atado em minhas costas com dois fios cirurgicamente implantados em minha garganta. Um deles injeta Ormus a cada hora em meu corpo, e o outro injeta a cada dez minutos fortes sedativos em mim. Como sou mais resistente do que um humano comum, os sedativos não me fazem desmaiar, e sim me deixam tonto e fraco. Incapaz de me impor contra meus senhores.
Minha vida, nos últimos anos, resumiu-se a ser estudado todos os dias. Os cientistas contratados por meus donos vêm algumas vezes por dia e me levam para estranhos laboratórios para estudar meu avanço. Me amarram em uma mesa de metal que antes eu achava fria (mas agora meu corpo perdeu quase todo o calor que tinha, de modo que não me incomoda mais), cortam-me, tirando algumas amostras. Depois começam os testes dolorosos. Expõem-me a sons altos e luzes fortes, testando meus sentidos aguçados. Geralmente estou atordoado demais quando esses testes acabam, e não me importo quando injetam substâncias estranhas em meu corpo. Algumas não tem efeito, outras me causam dor. Os últimos testes são psicológicos, me fazem perguntas, me deixam sozinho em salas estranhas para saber como vou reagir. Não entendo por que devo cumprir esse teste. Sei que devo ser submisso a meus mestres e obedecer a suas ordens.
Mas eles não confiam em mim. Continuam a me deixar preso, me drogar, me estudar. Antigamente, isso costumava me deixar com raiva, mas já não me importo mais. Aprendi a suportar a dor e a solidão. É o preço que devo pagar para ser perfeito. Não importa se foi escolha minha ou de meus senhores, devo segui-la. Apenas continuo a esperar por minha libertação, mas sei que isso só acontecerá quando eu me tornar uma arma. E então matarei pessoas. Essa é a minha vida.
Minha maldição.
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