Perfeccionista
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Alice estava sentada em frente ao computador, encarando atentamente a tela deste, como se fosse a coisa mais intrigante do mundo. Com uma das mãos, brincava distraída com seus cabelos presos em marias chiquinhas, enrolando-os entre os dedos.
Atrás dela, deitada de bruços na cama de casal, estava Francine, sua namorada. Ela fitava a inglesa com interesse, apesar dos olhos pesarem, devido ao sono. Já era relativamente tarde da noite.
— Ma chérie, por que não deixa isso pra lá hoje e vem dormir? — sugeriu, a voz demonstrando o cansaço que sentia.
Ao ouvir estas palavras, Alice, que antes estava atenta no que fazia, virou levemente o corpo para encarar a outra. Em seu rosto, estava a expressão mais indignada que conseguira fazer.
— Livros não se escrevem sozinhos, sabia?! — ironizou, apesar de não ter um sorriso sarcástico nos lábios. Seu tom parecia mais de descaso, como se a francesa não estivesse entendido o óbvio fato de que escrever era uma arte difícil.
— Eu sei, eu sei... — Francine revirou os olhos, entediada — Toda noite você me diz isso.
— Porque é verdade. Livros não se escrevem sozinhos. — bufou, voltando novamente o corpo para o computador.
As duas passaram algum tempo em silêncio. Alice recomeçara a encarar a tela e mexer no cabelo, desta vez variando entre digitar algumas frases e apaga-las sem dó logo depois. Quanto mais ela escrevia, pior parecia estar ficando, e a inglesa demorava muito, muito tempo, para montar algo que a agradasse.
Francine, por sua vez, tinha sentado-se na cama. Com uma das mãos, arrumara a alça da camisola, que insistia em cair de seus ombros, e com a outra, apoiava-se no colchão. Continuava a fitar intensa e atentamente Alice, refletindo.
— Você é muito perfeccionista, ma chérie. — comentou.
— Hum? Como assim? — a inglesa perguntou, sem desviar o olhar da tela do computador. Seus olhos estavam começando a arder devido ao tempo que passara encarando a luminosidade excessiva desta, mas ela parecia não se importar com isso.
— Apesar de escrever muito bem, — começou, levantando-se e parando ao lado da outra — Você apaga tudo o que digita.
Alice levantou o olhar para encarar a outra quando esta colocou suas mãos em seu ombro, chamando sua atenção. Encarou os olhos azuis da francesa, que demonstravam uma calmaria e compreensão sem igual, antes de virar o próprio rosto.
— Isso não me torna perfeccionista, Fran.
— Sabe, mon amour? — deu de ombros — Você não precisa ser tão dura consigo mesma.
— Eu não sou dura comigo mesma! — disse, indignada — Eu só tento dar o meu melhor quando escrevo!
— Querida, admita, passou do ponto de "apenas dar o seu melhor". — suspirou, como se estivesse explicando à uma criança o porquê dela não poder bater nos colegas.
— E daí se eu for perfeccionista?! — levantou-se da cadeira, ficando em pé na mesma altura que Francine e cruzando os braços — N-Não que eu seja, claro... — corrigiu-se.
— Você vai acabar ficando paranóica. Olhe, esta é a segunda semana que você passa a madrugada acordada, escrevendo, e ainda nem saiu do capítulo um.
— Não vejo problema nenhum em escrever durante a noite, se isso for contribuir para a qualidade dos meus textos. — empinou o nariz, orgulhosa.
— Ma chérie... — Francine levou uma das mãos à testa, cansada. Explicar coisas para a inglesa estava complicado — A gente não faz amor há mais de duas semanas por causa disso.
No mesmo momento em que entendeu aquelas palavras, Alice sentiu seu rosto esquentar. A fala direta e sem rodeios da francesa a constrangeu de tal forma que agora ela estava toda vermelha.
— N-Não culpe meu livro por isso! — gaguejou, envergonhada, virando o rosto para o outro lado.
— Eu apoio totalmente que você queira escrever um livro... — aproveitando-se que Alice estava de pé também, aproximou-se dela, fitando bem o fundo de seus olhos verdes, que insistiam em encarar o chão — Mas você está sendo perfeccionista demais quanto à sua escrita.
— Eu não sou perfeccionista! — teimou, dando um passo para trás e fechando as mãos em punhos —E-Eu só... Tenho que dar o meu melhor! E para isso eu tenho que tentar e tentar e tentar! O-Ou você acha que é assim tão fácil escrever?
— Mon amour, você tem o dom para com as palavras. Não precisa ser tão crítica quanto aos seus textos, relaxe... — voltou a se aproximar, desta vez vez chegando tão próxima da outra que seus narizes roçavam. Sua voz se tornava cada vez mais terna, ao mesmo tempo que rouca e sensual — Assim você nunca finalizará projeto nenhum...
— Você só fala isso pra me tranquilizar! — retrucou, chorosa, abaixando a cabeça. Seus olhos marejados indicavam que ela estaria prestes à chorar — E-Eu nem escrevo bem...
— Oh, pare com isso... — disse Francine, levando uma de suas mãos ao queixo da inglesa, para levantar sua cabeça e fazê-la a encarar. Com a outra, segurou-a firmemente pela cintura — Sua escrita é maravilhosa, você sabe disso.
— É mentira... — suspirou, com a voz muito baixa, enquanto uma lágrima descia pelo seu rosto. Seu olhar estava perdido nas íris azuis da francesa, que pareciam lhe tranquilizar pouco a pouco, transmitindo aquela sensação maravilhosa de ser amada.
— Não, não é. Não se deprecie assim... — enxugou, com um dos dedos, a lágrima solitária do rosto de Alice — Eu nunca mentiria para você, certo? Porque eu te amo.
E, antes que a inglesa sequer tivesse a chance de teimar novamente, Francine eliminou o espaço entre elas, selando seus lábios. Ambas haviam fechado os olhos neste momento, aproveitando do gesto casto, mas ao mesmo tempo tranquilizante.
Naquela momento, Alice percebeu que a outra realmente não estava mentindo. Ela de fato queria ajuda-la... E talvez, mas só talvez, o perfeccionismo fosse um problema...
Mas Francine decidiu que aquela não era hora para aprofundar o beijo, então, quando se separou lentamente da outra, apenas sorriu, abrindo os olhos. Alice também sorriu, abraçando a francesa calorosamente.
— Obrigada, Fran. —disse contra o ombro dela — Eu te amo.
Depois daquela noite, Alice tentou não mais escrever de madrugada. É claro que vez ou outra isso acontecia, porque a inspiração vinha nas horas mais improváveis, mas nada prejudicial ao relacionamento das duas.
Além disto, passou a se sentir muito mais segura com os seus textos. À aceitar o que escrevia, à deixar que suas idéias fluíssem, mesmo que nem sempre de forma impecável, como um grande autor clássico inglês.
Naquela noite, tinha deixado de ser tão perfeccionista.
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