Perdono
1 Capítulo Único
Notas iniciais
– Ludwig, Ludwig, Ludwig! – O loiro revirou os olhos e suspirou longamente. Soltou a caneta que usava para tracejar o plano de guerra que devia passar aos soldados alemães, japoneses e italianos; a guerra se aproximava e não decepcionaria Hitler, sabia que ele reergueria o país e estava disposto a ajudá-lo a transformar a Alemanha numa potência mundial, vingar-se da França por conta do Tratado de Versalhes e tomar novamente os territórios perdidos.
– O que você quer, Feliciano? – Suspirou cansado observando o comandante da Força Armamentista Italiana que estava consigo em território francês dominado pelos alemães. Descobrira que, apesar de sua simpatia extrema com a cultura italiana, aquele homem se tornara o motivo de seus cabelos brancos.
Não, Feliciano não era má pessoa, muito pelo contrário, era bom até demais. Um típico italiano, pregava a paz, escondia-se sob o exército alemão, adorava cantar e comer massas, falava que deviam parar de guerrear. Ludwig se perguntara mil vezes o motivo para ele ser um comandante se detestava guerras, mas, ao conhecer o resto do exército acabou notando que aquela personalidade não pertencia apenas a Feliciano.
– O que está fazendo, ve~? – Perguntou animado, sentando-se ao lado do loiro, puxando mais sua cadeira a ponto de ficar quase grudado ao comandante alemão, este suspirou cansado e voltou a traçar linhas e escrever o projeto de defesa da região.
– Um plano de defesa. – Resmungou tentando se concentrar no que escrevia. Ao seu lado Feliciano sorria sem qualquer motivo, o que acabou por irritá-lo; gostava de ficar sozinho e em silêncio enquanto trabalhava, mas sabia que seria impossível enquanto o italiano cantava baixo qualquer música em italiano. Suspirou cansado e largou a caneta. – Deixa para outra hora.
– Quer comer algo? Ou jogar algo? Quer ir ver o rio? Que tal irmos a-
– Feliciano, uma coisa de cada vez, sim? – Cortou-o passando as mãos pelo rosto. – Acho que vou comer umas batatas e tomar uma cerveja. – Murmurou com um leve sorriso só de imaginar um belo prato de bratkartoffeln com um pedaço de bacon, pediria para algum soldado comprar em algum mercado da cidade onde se instalaram.
– Vou fazer macarronada. – Sorriu o menor. – E tomar vinho, ve~.
– Ok, adeus. – O alemão se levantou, mas, antes que pudesse dar qualquer passo, sentiu sua roupa ser segurada e então olhou para trás, encontrando Feliciano com o rosto escondido pelo cabelo, já que seu rosto estava para baixo.
– Não diga "adeus". – Murmurou o de cabelos castanhos, apertando ainda mais sua roupa.
– Por que não? – Franziu a testa, voltando a sentar-se na cadeira que estava antes, procurando pela expressão no rosto do italiano, que escondia por tudo a dor que havia em seus olhos.
– Parece que nunca mais vou te ver quando fala assim. – Mordeu o lábio inferior, deixando sua cabeça bater contra o peitoral do loiro. – Tenho medo disso.
– Se teme tanto a guerra, volte para seu país. A Itália não merece um soldado que não lhe é leal. O Eixo não precisa. – O maior soou frio em suas palavras, mas o menor não se importou.
Sabia que Ludwig era considerado o soldado mais patriota de toda a Alemanha, sabia que não gostava de pessoas como ele, que temiam a dor e o sangue, sabia que detestava quando parecia que não queria defender a Itália. Ludwig amava a história de seu país, admirava as pessoas e seu jeito caridoso de ser, mas, por algum motivo, não havia simpatizado com o menor.
– Não é medo da guerra. – Sussurrou, sentia sua garganta se fechar, não queria chorar em frente ao outro. – Não é a guerra... se eu tiver que morrer pela Itália, morrerei.
– Então qual é o seu medo? – O alemão segurou seu rosto, observando os olhos castanhos brilharem mais por conta das lágrimas que começavam a se formar ali. – O que há?
– Meu medo... – O menor soluçou, colocando suas próprias mãos sobre as do maior. – Meu medo é te perder. Meu medo é ver um soldado correndo até mim dizendo que está...
– Morto? — O loiro riu fraco, soltando o rosto do menor e levantando-se de uma vez. Deixou as costas viradas para o outro, a fim de que o mesmo não visse a expressão triste em sua face, afinal compartilhavam do mesmo medo, porém jamais contaria ao menor sobre seus sentimentos da forma aberta como ele o fazia. – Se eu tiver de morrer pela Alemanha, morrerei com gosto, morrerei feliz e vou acreditar no futuro do meu país. Eu amo a Alemanha acima de tudo.
– Eu sei... – Escutou um soluço e suspirou. – Mas eu te amo acima da Itália, Ludwig. – O loiro corou, não era a primeira vez que o menor lhe falava sobre amor, sempre que lhe falava aquilo arranjava um jeito de fugir. E foi o que fez. Simplesmente caminhou para fora, deixando o menor perdido em suas lágrimas e medos.
Ludwig não conhecia aquele amor. Era um alemão treinado desde que se entendera por gente para defender a honra e a pátria, seu único, fiel e eterno amor seria a Alemanha. Conhecia cada mínimo detalhe sobre seu território e história, amava tudo em seu país, mas jamais se deixara conhecer mais que a história do país, nunca se apaixonara por alguém, talvez uma jovem garota que conhecera um dia, mas sabia que não era amor. Estava longe daquilo.
Mas, desde que Feliciano chegara, há mais ou menos quatro meses, a palavra lhe rondava pela cabeça a cada vez que o via. O italiano era animado, ria e fazia os soldados se animarem, era aquilo que o comandante alemão, que sempre estava sério, admirava no menor, ele conseguia fazer sorrir aqueles que foram treinados para ter coração de ferro. Ele fazia sorrir quem já estava pronto para a morte. Agradecia imensamente ao menor sempre que via seus soldados rindo junto aos soldados italianos, mas jamais fora capaz de assumir isso ao outro.
E jamais o seria.
Detestava ver Feliciano chorando, ou vê-lo triste. Era incomum e o machucava, principalmente quando sabia que era o causador da dor do menor. Mas o que podia fazer? Era culpa sua que o italiano estivesse apaixonado por si? O que podia fazer quanto àquilo? Ok, não era como se, às vezes, não sentisse vontade de estar com o menor também, mas não queria ferir os sentimentos do italiano apenas por uma vontade momentânea.
– Soldado Scheinder. – Chamou um dos soldados que conversava com outros, este logo se postou à sua frente e lhe fez uma reverência.
– Sim, senhor!
– Acabaram as batatas, não? – O soldado acenou, fazendo o comandante suspirar. – Seria muito indelicado se o pedisse para comprar algumas no mercado? Pode pegar minha moto.
– N-não é necessário, senhor. – Falou o soldado. A moto de Ludwig era simplesmente a moto mais desenvolvida e cara de toda a Europa, feita pura e simplesmente para viagens de longa distância, pronta para qualquer tipo de território, típica de guerras. Uma autêntica moto alemã.
– Bem, se diz. – Retirou algumas notas do dinheiro local e entregou ao soldado. – Aqui está, vou fazer bratkartoffeln para nós. Vá de carro, compre bastante batata.
– Sim, senhor.
– E bacon! – Falou rápido antes que o outro se afastasse muito. Olhou para as cabanas concentradas no meio da floresta e sorriu fraco para seus soldados, não eram muitos, apenas vinte e cinco alemães e quinze italianos, apesar da cidade simples que usavam como base estratégica, estavam numa zona que poderia entrar em intenso conflito com a França, por isso guardavam aquela entrada, prontos para destruir qualquer nave ou tropa inimiga.
Começou a caminhar por entre as tendas, acenando para seus homens, conversando com alguns, vendo os italianos cantando e rindo, animando os alemães sempre tão fechados. Até notar que os italianos começavam a se reunir em um canto mais distante dos alemães, pareciam ser uma reunião apenas deles, mas, ao seguir alguns, notou que estavam indo para uma espécie de clareira, que não era nada grande, mas abrigava confortavelmente aquele pequeno número de italianos. Sobre uma pedra estava Feliciano, seu comandante.
– Estão com saudades de casa? – Sorriu o homem aos seus subordinados, que suspiraram tristes e olharam para seu comandante. – Não se sintam assim, logo estaremos de volta à Itália e tudo estará bem, ve~?
– Sabemos disso. – Um deles falou com um pequeno sorriso. – Mas não torna tão mais fácil. Sinto falta de Veneza.
– Ah, Veneza... – O comandante suspirou. – E Roma. Do vinho, pizza, massa... – Os italianos suspiraram saudosos. – Vou fazer um delicioso penne para nós, que tal?
– Vou comprar os ingredientes! – Animou-se um, enquanto Feliciano ria e lhe jogava as chaves de seu carro. Ludwig viu o homem correr para o conversível vermelho do comandante, continuou ali, escondido, observando a reunião. Então Feliciano animava sua tropa assim? Conversando sobre a Itália?
– Querem cantar? – Os italianos exclamaram vários "ve~, ve~", que o alemão não entendia o real significado, já estava tendo de lutar para entender o italiano rápido e choroso deles, era tão diferente do que aprendera nos livros e escola. – Qual música?
– O hino da Itália! — Uma voz se sobressaiu e o comandante sorriu mais largo, animando-se com a escolha, começando a cantar. E Ludwig ficou admirado, a voz de Feliciano era linda, simplesmente linda! – Fratelli d'Italia, l'Italia s'è desta... – Ficou algum tempo admirando-o, sentindo sua voz acalmá-lo, até que o outro italiano apareceu dizendo ter comprado tudo e decidiu voltar para fazer o bratkartoffeln de seus soldados.
Tempos como aqueles poderiam acabar em breve e temia aquilo. Temia não poder escutar a voz de Feliciano, de não poder vê-lo sorrir.
Deus, que a Alemanha fosse salva. Que a Itália e o Japão também o fossem.
Ludwig sorriu fraco observando seus soldados comendo com saudades o bratkartoffeln, fazia realmente muito tempo que se deixaram comer algo como aquilo. Suspirou, que saudade sentia dos tempos de tranquilidade na Alemanha, embora nunca estivessem assim tão em paz com sua vida. O ódio pela França sempre esteve vivo como uma chama queimando o corpo de todos os alemães para que sempre lembrassem das humilhações as quais passaram.
O loiro soltou seu prato e passou as mãos pelo rosto, seu corpo tremia de raiva, sempre que pensava nos franceses ficava daquela forma, um desejo de morte o consumia. Respirou fundo, tinha de guardar todo aquele ódio para o campo de batalha, não morreria antes de ver a vitória de sua amada Alemanha e poder, enfim, apresentar-se à Hitler.
Ainda não conhecia o Füher pessoalmente, o vira em algumas palestras militares, apaixonara-se pelo nacionalismo do homem, embora soubesse que ele era um austríaco. Porém, logo depois da segunda palestra que vira, fora mandado para longe por um superior com alguns soldados e desde então não tinha muitas notícias sobre o que acontecia por lá além de que estavam conquistando territórios e tinham um novo tratado de paz com a Rússia.
Olhou para o colar em seu pescoço, um símbolo alemão que ele e seu irmão possuíam, ambos tinham um reserva, para dar à pessoa que amavam, ao que sabia, Gilbert, seu irmão, havia dado o seu à alguém, que não conhecia ainda, já que estavam em divisões diferentes naquela guerra. O seu colar reserva continuava guardado, até pensava em entregar para alguém, mas não tinha certeza se entregaria... não tinha coragem nem sabia se o que sentia era amor. Sempre acreditou que seria medo.
Jamais havia se relacionado com alguém, quando era adolescente estudara feito um condenado em um internato, tudo apenas para passar pelas provas militares, assim que atingiu a maioridade, entrou como um dos melhores e então seguiu sua carreira militar com afinco até explodir a Segunda Guerra Mundial e ser mandado para longe. Agora estava ali, observando seus subordinados e alguns italianos conversando e comendo penne.
– Humm, ve~, até que brat... brat... é gostoso. – Escutou uma voz baixa e melódica ao seu lado, nem precisou olhar para saber de quem se tratava, mas olhou mesmo assim, apenas para vê-lo. Feliciano sorria para si, seus olhos fechados de um jeito alegre, em sua mão o garfo que Ludwig estava usando para comer suas batatas.
– Que bom que gostou. – Falou, pegando seu garfo de volta para comer suas batatas. – Se quiser, tem mais lá dentro.
– Ah, obrigado, Lud. – Ludwig conteve um suspiro, era sempre estranho quando Feliciano estava tão alegre perto de si. Aquele seu ódio pelos franceses simplesmente sumia, era como se tudo aquilo não valesse mais a pena, como se nada fosse necessário, queria se afundar em paz e ficar ao lado do menor. Mas sabia que aquilo era errado.
– Bem... acho q-
– Não fuja de novo, por favor. – O alemão viu a expressão feliz do menor e tentou entender o que se passava por sua mente. – Fique mais um pouco.
– Preciso terminar nosso planejamento de batalha. – Falou e passou a anda rápido, seu rosto estava quente, qual era o problema? Suspirou ao escutar os passos do italiano atrás de si e virou-se quando já estavam na porta da sala que usava para seus planejamentos. – O que quer?
– Ficar com você. – Falou simplesmente. –Afinal também preciso saber o planejamento, não? Também vou lutar. – Por um momento, um frio extremo passou pelo corpo do alemão, sentiu seu peito pesar como se tivesse s tornado gelo e seus olhos encontraram os do menor. E se ele realmente tentasse lutar? Um medo atingiu todo o seu ser, não deixaria Feliciano morrer, por nada no mundo. O protegeria.
– Sim. – Respondeu simplesmente. – Mas não me atrapalhe, ok?
– Pode deixar. – E continuaram o caminho até a mesa de Ludwig. O loiro tentava por tudo se concentrar em marcar nomes e traçar rotas de emboscada, mas apenas a presença do menor ali atrapalhava seu ser. Feliciano mantinha-se quieto, olhava para cada anotação que Ludwig fazia, tentava aprender o máximo sobre o campo de batalha e os inimigos, o maior até se assustava com seu interesse repentino, mas não perguntou, deixou que Feliciano soubesse, assim ele poderia tentar se defender.
E ficaram horas e horas naquele lugar, planejando, traçando linhas e decidindo estratégias. Mas em momento algum Ludwig deixou de prestar atenção no menor, talvez gostasse mais do menor do que realmente pretendia.
– Quando irá começar a batalha? – Perguntou o italiano quando já haviam terminado todos os preparativos.
– Em dois ou três dias, amanhã já começamos a armar nossos canhões e preparar nossas armas. – Falou o loiro, virando-se para o italiano, que estava encolhido em sua cadeira. – Está com medo?
– Não sei... – Suspirou, aproximando um pouco sua cadeira ao loiro. Seus olhos se encontraram e ficaram em silêncio, não era incômodo. Várias coisas se passavam pela mente do loiro, queria abraçar o menor, mas sabia que não devia... e por que não? Sua mente sempre retrucava seus pensamentos. – Sabia que eu nunca quis servir ao exército? – Ludwig jamais havia visto Feliciano sério daquela forma, era tão estranho.
– Não...
– Pois é, foi mais necessidade... – Suspirou. – Eu queria ser cantor. – Riu baixo. – Mas cá estou eu. E você?
– Sempre quis. – Deu de ombros. – Acho que é a única coisa que sei fazer bem na vida. – Riu baixo, coçando a nuca, o que fez com que o menor sentisse seu coração acelerar um pouco, Ludwig era o homem mais lindo do mundo aos seus olhos, e tudo no loiro o atraía, até mesmo quando estava bravo e gritava com todos, achava-o atraente e até fofo, afinal o loiro em si era bem pacífico e tímido.
– Não deve ser. Talvez só não tenha tentado as coisas certas. – Deu de ombros. – Se eu sair vivo dessa guerra, vou abandonar a carreira militar e tentar seguir a carreira de cantor.
– E se não conseguir? – Perguntou o loiro franzindo as sobrancelhas, achava que aquilo era muito imprudente, abandonar uma carreira segura e bem remunerada por uma tão insegura.
– Vou vender na feira em Veneza. – Riu baixo, mas o loiro continuou sério. – Vamos, Ludwig, brincar faz bem, sabia? E não é como se eu estivesse feliz fazendo o que estou fazendo agora. – Um silêncio gélido se instalou entre os dois e o menor abaixou a cabeça, completamente arrependido de suas palavras.
– Você não é obrigado a estar aqui comigo, Feliciano. – Falou o loiro, sua voz saíra fria e um tanto magoada.
– Não, é você. – Falou baixo. – Por você eu fico até no inferno. – Ludwig arregalou os olhos para o menor, mas ele continuou com o rosto abaixado, impedindo que visse as novas lágrimas que molhariam seu rosto. – Meu medo é não estar perto de você.
– Pare com isso. – Ludwig apoiou os cotovelos na mesa, colocando suas mãos no rosto, não estava paciente para algo como aquilo.
– Por que sempre foge ou me manda embora? – Feliciano ergueu um pouco a voz, agora seu rosto cheio de lágrimas era visível ao loiro, que olhou para si assustado. – Qual é o problema em me dispensar de uma vez? Gosta tanto assim de me torturar?
– E espera que eu faça o quê?! – Ficou indignado, o italiano estava exigindo muito mais do que poderia ser.
– Que fale que não me quer, que fale que não sente nada por mim! – Exclamou, sem se importar se as lágrimas molhavam seu uniforme militar. – Eu não suporto isso, Ludwig! Eu... eu amo você! Não estou pedindo para me retribuir, mas para não me dar esperanças.
– Quando eu te dei esperanças? – Perguntou irritado. – Pelo que lembro, eu sempre me afasto quando fala essas coisas...
– Mas fica perto como se nada estivesse acontecendo. – Falou com a voz entrecortada. – Droga, já não aguento mais... – E os soluços tomaram conta de sua garganta, enquanto suas mãos tampavam seu rosto molhado. Demorou algum tempo, mas sentiu braços fortes passarem por seu corpo e estremeceu, abriu os olhos para descobrir que era o loiro o abraçando.
– Não te odeio nem quero te torturar. – O alemão falou baixo, apertando-o. – Eu só... só não sei como lidar com essas coisas, entende? Eu... – Mas já não sabia o que falar, então ficou em silêncio, sentindo o italiano tremer em seus braços.
– E-eu... – Feliciano tentou falar algo, mas sua voz ainda estava cortada. – P-posso te pe... pedir uma coisa? — Tinha muito medo, mas não desistiria tão fácil.
– Pode. – O menor se afastou um pouco, mas ainda se manteve nos braços do loiro. Segurou seu rosto entre suas mãos e respirou fundo, estavam tão próximos.
– Me beije. – Ludwig arregalou os olhos e corou, não sabia se devia fazer aquilo, não apenas pela sua inexperiência, mas... não estaria alimentando os sentimentos do menor? Entretanto, o que sentia por ele realmente? Sabia que havia algo, mas não exatamente o quê.
Ficou ainda algum tempo perdido em seus pensamentos, mas não soube quando nem o que o motivara a agir, mas logo seus lábios haviam tocado os de Feliciano lentamente, era um toque suave e carinhoso. O menor abraçou seu pescoço, juntando mais seus corpos e então passou suas mãos pela cintura do mesmo, continuando o beijo, que, infelizmente, acabou logo. O silêncio novamente os atingiu, mas seus olhos conversavam, indecisos e temerosos. Mas havia um acordo entre eles.
E, novamente, voltaram a se beijar, dessa vez com mais segurança. Seus lábios se moviam devagar, conhecendo os lábios opostos, suas línguas atreviam-se a tocar-se, causando arrepios em ambos. Ludwig suspirava em meio ao beijo, a sensação de beijar Feliciano era maravilhosa, era como aquela paz que vivia procurando, que sempre havia quando estava com o menor, porém mais intensa. Sentia que ali, com o menor em seus braços, poderia ser feliz para o resto de sua vida e nem mesmo a França lhe importava mais. O que lhe importava o Tratado de Versalhes agora? Ou o Corredor Polonês? Hitler ou Mussolini?
Puxou o menor para si, grudando mais seus corpos, intensificando o beijo, mas o menor o empurrou devagar, para olhar em seus olhos e sorrir fraco.
– Não precisa se forçar a tanto, ve~ – O maior sorriu fraco e suspirou, escondendo o rosto no pescoço do menor.
– Não estou me forçando. – Murmurou, apertando ainda mais a cintura do menor. – Eu também quero. – Sentiu o menor apertar seus ombros e estremecer um pouco, mantiveram-se em silêncio e, logo em seguida, Feliciano se levantou, pegando a mão do maior para puxá-lo consigo.
Caminharam daquela forma até o quarto ao lado da sala, apesar de ser um acampamento, apenas Ludwig e Feliciano possuíam um quarto na base, os outros ou dormiam em barracas ou nos motéis próximos que havia ali. Naquela noite, a maioria decidira passar a maior parte do tempo nos motéis, afinal não pagavam nada.
Feliciano fechou a porta e virou-se para o maior, seu sorriso era nervoso, porém, mais do que ele, Ludwig tremia com o que parecia que aconteceria agora. Era totalmente inexperiente naquilo, uma coisa era beijar, já havia beijado antes, não muitas garotas, mas talvez duas. Agora... aquilo... era outra história.
– Fe...
– Eu quero... quero ser seu. – O menor abaixou a cabeça e suspirou. – Eu tenho medo de que amanhã já não possamos abrir os olhos, tenho ainda mais medo de abrir os olhos e descobrir que não está comigo. – Fechou as mãos em punho e suspirou. – Então me deixe ser seu apenas por hoje... eu quero que sinta o quanto eu te amo. – O comandante alemão corou e virou o rosto, Feliciano era uma pessoa muito difícil de lidar para alguém como o alemão, que era extremamente tímido.
Escutou os passos do italiano até si e dirigiu seus olhos ao mesmo, que corava tanto quando a si. Feliciano sorriu e levou as mãos até o casaco de seu uniforme militar, começando a abrir a roupa do alemão, sem se importar se o maior o aprovaria ou não, apenas seguiu seu instinto e desejos. E então, sem pensar em mais nada, Ludwig imitou seus atos.
Aos poucos iam conhecendo mais do corpo oposto. O tom da pele, o calor, as curvas, elevações... O italiano observou bem o contraste entre a pele pálida do alemão e sua Ritterkreuz, a maior honra do maior. Sorriu e a beijou. Deslizou os dedos pelos músculos do maior, até alcançar suas mãos e o puxou consigo.
– Tem certeza disso? – Perguntou Ludwig após retirar a camisa do italiano, deixando-o na mesma situação que a si.
– Tenho... – Sorriu confiante e segurou o rosto do maior, tomando seus lábios em um beijo intenso, unindo seus corpos. Era como se a pele de Ludwig fora feita para ser aquecida pela sua. Sorriu em meio ao beijo com o pensamento bobo sobre as diferenças entre seus países. – Eu te amo. – Murmurou em meio ao beijo enquanto o alemão o deitava na cama.
Ludwig optou por ficar em silêncio e tomar os lábios opostos com mais avidez. Envolveu o menor em um abraço apertado enquanto os ajeitava sobre a cama, ficando entre as pernas do mesmo. Observou a expressão feliz do menor. Como parecia sereno com aquele sorriso bobo nos lábios, o rosto corado e os olhos brilhando.
Feliciano era um homem lindo.
E, naquele momento, como nunca antes, notava isso. E, ainda mais, notou o quão cego foi ao longo de todo esse tempo. Perguntava-se como conseguira tê-lo ali, tão perto, e não tocá-lo. Beijou suas bochechas e suspirou, não queria pensar em mais nada.
E, com sentimentos confusos e profundos, deixou-se envolver-se com o menor. Beijou-o com intensidade, tocou sua pele com carinho, apertou-o com desejo... Sabia bem que jamais esqueceria nada daquilo, nenhum toque sairia da sua memória. A forma como o italiano apertava seus ombros, arranhava suas costas e apertava as pernas ao redor de sua cintura tentando controlar suas sensações.
Ficaria com a imagem de seu rosto corando tímido, de como era lindo gemendo e puxando os lençóis gemendo seu nome. Sorriu em muitos momentos vendo-o tentando respirar. E sentiu ainda mais vontade de beijá-lo pelo resto de sua vida.
Eram sensações que desconhecia, mas estar ali, fazendo sexo com o italiano era algo totalmente mágico. Como se apenas aquele momento pudesse ser real. O prazer, as sensações, o sentimento, suas vozes ecoando, seus corpos chocando-se...
Passou o resto da noite observando o menor dormir com um sorriso, até que acabou adormecendo ao lado daquele homem que tanto o irritava, mas o amava como ninguém amara antes. Dormiu sorrindo também...
~x~
Ludwig respirou fundo e fechou os olhos. Tocou sua Cruz e saiu da casa. Estavam todos lá, sem exceção, Feliciano estava de costas para si, já em formação de comando. Suspirou e postou-se ao lado do menor, que o encarou rápido e sorriu, devolveu o sorriso e olhou para os soldados italianos e alemães.
– Hoje é o dia em que vamos fazer valer o sofrimento que os franceses nos causaram. – Falou alto, uma tensão se espalhou pelo local. – Vamos mostrar a soberania alemã e tornaremos nosso o que sempre foi nosso ao lado de nossos irmãos italianos! – Olhou para os italianos e respirou fundo. – Sei que todos temos medos, que todos sentimos falta de casa e nossas famílias... mas estamos aqui, unidos, agora somos a família um do outro. Estamos unidos por nossas bandeiras. – Olhou para Feliciano, que encarava os italianos com um sorriso encorajador. – Vamos ser vitoriosos, irmãos. Vamos brindar ao fim do dessa guerra e rir juntos. Haverá perdas, haverá momentos onde tudo parecerá perdido... mas saibam, estarei ao lado de todos.
– Estamos aqui para lutar. Não correremos nem nos acovardaremos perante o inimigo. Fortaleceremos nossos irmãos. Hoje não somos alemães nem italianos! Somos irmãos de uma mesma pátria! – Gritou o menor, espantando não somente o comandante alemão, mas a todos os soldados. – E morreremos por ela se for preciso! – Sorriu ao fim. – Sei dos seus medos, desejos, crenças e paixões... – Olhou para seus soldados. – Não deixarei que um soldado meu se vá sem a certeza de que estarei lá. Vamos juntos e fortes, nós podemos fazer isso.
– Sim, podemos! – Gritou Ludwig e esticou o braço direito no ar. – Heil Hitler!
– Heil Hitler! – Gritaram todos os outros soldados.
Estavam prontos para a guerra.
EE então todos começaram a ajeitar suas coisas, carregar tanques, correr para fazer tudo o que precisavam a tempo. Ludwig observou tudo e suspirou, estavam todos cientes da formação, tudo pronto. Após todos pegarem suas armas e mochilas estariam prontos para marchar em direção ao centro da França.
Olhou para Feliciano e segurou sua mão. – Vem aqui comigo. – Indicou a casa da qual saíra antes. O menor assentiu e o seguiu, mas foi surpreendido com um beijo de tirar o fôlego quando fechou a porta. Abraçou o pescoço do maior e tentou acompanhá-lo, rindo fraco em meio ao beijo. – Feliciano... tome cuidado hoje, ok?
– Não se preocupe tanto, ve~. – Murmurou passando um dedo pelos lábios finos do maior, depositando selos suaves em seguida. Sorriu e beijou a testa do loiro. – Vamos ficar bem.
– Você diz isso, mas sei que também está apreensivo. – Falou o maior, apertando-o num abraço forte. Feliciano sorriu, estava estupidamente feliz por conta da forma como Ludwig estava agindo consigo.
– Eu te amo, Ludwig. Eu te amo muito. – Sussurrou contra o pescoço do maior e aspirou seu cheiro. Ah, como amava tudo em Ludwig. – Vamos tomar vinho quando a guerra acabar, vou te mostrar o que é um autêntico vinho italiano... e vou te levar aos vinhedos da minha da família.
– Sim... eu farei isso. E você conhecerá as melhores cervejas alemãs... vamos tirar umas férias e viajar por muitos lugares juntos. – Riu baixo e suspirou. – Mas, por hora, vamos nos unir aos nossos soldados.
– Sim, senhor! – Brincou roubando um último beijo do loiro. – Até a linha de chegada.
– Até... – O alemão observou o italiano sair, sentindo o toque de seus dedos sumir de sua mão, os fios castanhos esvoaçando levemente junto àquele único e curioso fio em sua cabeça. Seu sorriso animado e seus olhos brilhando. É... talvez amasse o italiano.
O comandante alemão liderou as tropas até a linha de formação. Gritava e repassava o planejamento de batalha em sua mente. Mas, ao chegarem no ponto de formação de ataque, viu que as coisas estavam erradas. Os italianos estavam tomando a linha de frente.
Arregalou os olhos ao ver Feliciano armado liderando os italianos para a linha de frente até a próxima fortificação sob o ataque de franceses. Tentou gritar ao ver os alemães protegidos e notou que seu próprio tanque estava sendo movido para um lugar seguro, onde deveria estar Feliciano. A formação estava trocada! Era para os alemães tomarem a linha de frente com reforço italiano.
– COMECEM A REVIDAR, AGORA! – Gritou sem saber o que fazer. Seus atiradores não estavam tentando defender os italianos esperando por ordens suas. Olhou novamente para o campo de batalha e sentiu sua garganta secar ao ver as gigantes balas disparadas pelos tanques de guerra caindo sobre os italianos.
Mas eles não desistiam. Continuavam a correr com armas em punho, tentando eliminar o que pudessem do inimigo. Entrou em desespero. Desceu pelo tanque e olhou para o motorista.
– Mas que merda está acontecendo aqui?! Por que não estão seguindo a formação? – Perguntou cheio de raiva.
– Mas esta é a formação, senhor! – Exclamou o soldado mostrando o planejamento. Pegou-o e arregalou os olhos. Era a letra de Feliciano! Ele havia mudado o planejamento nos últimos dias sem que soubesse. Correu para cima e voltou a observar o campo de batalha, suas tropas avançavam.
Mordeu o lábio inferior e sacou sua arma, apontou-a para o campo oposto, mirando em soldados franceses e atirou. Observou os canhões e suas direções. Começou a gritar comandos de linha para que pudesse inutilizar os canhões opostos. Enquanto mantinha seus atiradores mirando nos franceses.
Não conseguia mais ver Feliciano. Mas via muitos italianos ainda vivos e lutando. Suas tropas avançavam pelas fortificações, estavam com vantagens, suas armas eram melhores. Conseguiram tomar uma das fortificações, o que facilitava o resto. E avançaram até um rio, tentou se acalmar ao ver a quantidade de mortos.
A guerra durou dias. Perdeu a conta do tempo na quarta noite. Estavam famintos, cansados, desolados, assustados... Mas ainda estavam vencendo.
E, foi em um desses dias cansativos com mortes e balas perdidas que os franceses assumiram sua derrota. Ludwig suspirou aliviado e correu para tomar todas as providências. Tomar a cidade e prender seus comandantes. E, após deixar o resto para seus soldados, correu para encontrar a pessoa que precisava ver.
Correu por todos os cantos, observando todas as pessoas. Estavam todos tão espalhados. Sua garganta estava se fechando.
– Droga, Feliciano, procure por mim também... – Murmurou contendo um soluço. Viu um homem que parecia ele e correu até o mesmo. – FELICIANO! – Puxou o homem pelo ombro, apenas para encontrar outro rosto. – Ah... perdão... – Ia correr, mas o homem segurou seu pulso.
– Eu sei onde ele está, senhor. – Falou o italiano. Sua expressão não era boa, as lágrimas em sua face entregavam sua dor. Mas não podia ser...
Caminharam em silêncio pelo território. Medo. Era o sentimento que o arrancava o coração naquele momento. Jamais havia sentido tanto medo na vida. E imaginou como fora para o menor sentir aquilo tantas vezes. Fechou os olhos por segundos tentando não pensar o pior.
Mas não foi o que aconteceu quando abriu os olhos.
Tudo estava queimado, destruído. Havia corpos jogados, alemães e italianos, cheios de sangue; o rio estava com trechos de vermelho, correndo lentamente. Armas jogadas... mas não fora esse cenário que o fez cair de joelhos e soltar todas as lágrimas que havia prendido.
Rastejou até um dos corpos caído na orla do rio e puxou-o para si. Abraçou-o forte. Iriam tomar vinho agora, certo? Tirar férias e viajar juntos. Beijar-se-iam e sorririam com a vitória. Ele abandonaria a carreira militar e se tornaria um cantor... e cantaria o hino da Itália com fervor e paixão. Sorriria e falaria “eu te amo” sem pensar.
– Feliciano... vamos... – Choramingou balançando o menor sem seus braços. Por que ele não se movia? Por que não falava “ve~” como se tivesse um grande significado? – Vamos... você tem que me mostrar os vinhedos. – Chorou alto, o soldado já não estava lá. Olhou para o rosto pálido do outro, sujo de sangue e terra. Havia sangue em seus lábios. – Feliciano...
Apertou o menor contra si e gritou em angústia. Deixou sua voz despejar tudo que seu coração sentia enquanto seus braços mantinham aquele corpo inerte colado ao seu. As lágrimas quentes molhavam seu rosto e caíam na pele fria do menor. Frio não combinava com o italiano. A falta de um sorriso também não.
Fechou os olhos com força e deixou-se cair com o corpo sem vida de Feliciano. Estranhamente, a Alemanha parecia a coisa mais sem significado de sua vida. Queria fechar os olhos e jamais acordar novamente.
Não havia vencido a guerra...
Havia perdido da pior forma possível... e descobriu que a perda era o pior sentimento do mundo.
Observou o rosto do italiano e o abraçou forte, deitados daquela forma era como se estivessem dormindo após fazer amor.
– Feliciano... — Sussurrou sem obter resposta alguma. Não queria acreditar que, daqui para frente, jamais escutaria sua voz cantada. Olhou ao redor, Feliciano detestava guerras e, agora, ao olhar aquele cenário, descobriu que aquele seria seu maior pesadelo.
Viu soldados correndo de um lado ao outro, carregando corpos, chorando, gritando de dor. Como pudera incentivar aquilo? Como pudera ser tão frio com Feliciano? Como conseguiu olhar para seus sonhos como se fossem pequenos?
Lutar por seu país não era um orgulho... como poderia? Quantos irmãos a Itália perdera naquela guerra?
Olhou para Feliciano e encostou sua testa à do menor, deixando que suas lágrimas escorressem pela pele fria e murmurou "perdão" na língua materna do italiano.
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