Notas iniciais
Mais um capítulo com muito amor, esse aqui dá um gostinho das confusões que estão por vir. Boa leitura !

VIRTUDE NÚMERO 1 — Comedimento: Saber como se mostrar para os outros.

― Bem melhor. ― Eu estava olhando para Dinah furiosa desde que ela começou a passar um finalizador no meu cabelo.

― Ei dinossaura, solta o meu cabelo. ― Resmunguei dando um tapinha em sua mão.

― Estúpida estou arrumando essa moita que você chama de cabelo. Mas, já que não precisa da minha ajuda cuide dele sozinha!― Ela saiu do quarto batendo os pés, irritada com seu apelido.

A verdade é que depois de dois dias eu comecei a lidar melhor com o gênio da Vougan, e poderia até arriscar falando que ela estava começando a gostar de mim.

Ou talvez, com a convivência eu esteja ficando louca também.

Era o meu primeiro dia na nova escola e ela tinha cismado em me deixar impecável, e depois que Dinah dizia que pau era pedra não adiantava discutir, mas eu tinha que admitir que ela tinha feito um ótimo trabalho.

Estava usando uma calça jeans skinny azul escura, uma blusinha de renda branca e uma sapatilha preta, simples, mas bonita, era assim que eu me sentia. A maquiagem era básica, passei um batom rosa claro por insistência da dinossaura e claro os acessórios.

Conferi meu material uma última vez e desci as escadas. Eu estava estranhamente calma para o primeiro dia de aula em uma cidade completamente diferente da que eu vivia.

― Vamos? ― Questionei observando Dinah arrumar seu fios curtos.

― Sim. ― Seus olhos encontraram os meus demonstrando algo que eu não conseguia decifrar...

― Está aprontando alguma coisa dinossaura? ― Ela evitou contato visual saindo rapidamente da casa. ― Dinossaura, estou esperando uma resposta.

― Claro que não, e passe de usar esse apelido ridículo, me respeite. ― Era óbvio que ela não sabia mentir.

Permaneci calada quando Mark abriu a porta do carro para que entrássemos, assim como no resto do caminho.

― Chegamos Nancy.

― Obrigada Mark. ― Mandei-lhe um beijo no ar e me virei para a dinossaura, como sempre desdenhando de mim.

― Não se esqueça que deve pegar um metrô, Mark passará o dia comigo. ―Avisou pela milésima vez.― Ou pode ir andando, pelo que sei você fez atletismo não é mesmo?

― Sim, fiz atletismo e sim não vou esquecer okay? Bom trabalho.

― Boa aula, desmiolada.

A curiosidade estava me corroendo, eu precisava saber o que a dinossaura estava planejando, aquela velha era completamente maluca e ao morar durante um mês com ela descobri sua mania de se intrometer na minha vida. Balancei a cabeça me concentrando na construção a minha frente.

A fachada da escola possuía longas colunas no estilo Greco-romano, me dando a impressão que estava entrando em um templo, mas ao entrar nela vi que aquele lugar tinha muitos corredores.

Isso parece um labirinto gigante.

― Mas que inferno! ― Esbravejei impaciente ao ver que nunca encontrava a sala de aula sempre esbarrando em alguém , e para completar a escola ia lotando aos poucos.

― Ei você! ― Uma voz feminina gritou, e continuei andando achando que não era comigo, até sentir um puxão no meu braço.

Virei-me esperando um pedido de desculpas pelo engano, mas ao invés disso uma expressão de reconhecimento passou pelo rosto da garota na minha frente.

― Você é a Nancy certo?

Maneei a cabeça assentindo.

― E você quem é? ― Questionei. Ela era mais ou menos do meu tamanho, com cabelos castanhos lisos na altura do ombro, e olhos também castanhos, seus traços eram delicados e tudo em seu comportamento passava uma serenidade fora do comum.

― Que falta de educação a minha. ― A garota bateu levemente na testa sorrindo, e em seguida me estendeu a mão. ― Prazer meu nome é Anya Campbell. Sua avó é muito amiga da minha, então soube que iria vir para cá quis te fazer companhia. Vi uma foto sua, não é difícil achar um cabelão cacheado feito o seu por aí. ― Completou.

Agora eu entendi o comportamento da dinossaura.

― A vovó está sempre tentando me ajudar. ― Sorri, sabendo que não era bem isso. ― Mas não se prenda por minha causa, posso me virar sozinha.

Anya passou seu braço pelo meu e começou a me puxar pelos corredores confusos da escola.

― Imagina Nancy, adoro fazer novas amizades.

Ela me guiou enquanto falava sobre como a cidade tinha ótimos parques e shoppings, e eu respondia que havia ido em apenas alguns por ajudar Dinah no St. Domingos a maior parte das férias. Sorri ao ver que tínhamos muitas aulas em comum.

Poderia até agradecer a Dinah por me apresentar uma ótima companhia.

Poderia.

Analisei cada pessoa que passava e concluí que eu independente da escola as panelinhas sempre estavam lá, tentando te empurra goela a baixo uma forma de etiquetar os alunos. Era clichê, mas infelizmente uma realidade.

Em qual eu me meti?

― Nancy, quero te apresentar minha melhor amiga.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa ela me puxou em direção a uma menina sentada no banco mexendo furiosamente no celular.

― Anya sua quenga, eu te mandei cinco mensagens e você não respondeu nenhuma! ― Ela berrou ao ver Anya do meu lado. ― Custava responder? Mandar um sinal de fumaça? ― Aos poucos, percebeu a minha presença e me encarou.

― Leila essa é a Nancy, a neta da Dinah. E Nancy essa é Leila Oakley, minha melhor amiga retardada.

― Muito prazer Leila. ― Acenei para ela e sorri com sinceridade. Acho que ela não foi com a minha cara de primeira, mas seja lá qual tenha sido sua conclusão sobre mim, ela retribuiu o sorriso.

― Bem vinda à equipe Nancy.

Elas me perguntaram sobre absolutamente tudo. Meus gostos, onde morava antes de vir pra cá, e o que eu fazia nas horas vagas. Era realmente divertido em alguns momentos, e completamente constrangedor em outros, Leila não tinha filtro o que rendia muitas risadas.

― E os namorados?― Anya perguntou limpando as lágrimas das mais recentes gargalhadas. ― Deve ser uma lista grande.

― Nenhum. ― Respondi ficando tensa.

― Fala sério. ― Leila criticou incrédula enquanto íamos para a sala. ― E os ficantes?

― Tive alguns, claro, mas nenhum em especial.

Encerrei o assunto, esperando chegar logo na sala e me sentei na última cadeira ao lado das meninas, e assim que me sentei meu celular vibrar com uma mensagem.

Papai: Estou com saudades, boa sorte no seu primeiro dia de aula. E cuidado com esses garotos delinqüentes.

Eu: Quando vem me visitar?

Papai: Você pergunta demais. Irei te ver quando a empresa permitir, você sabe disso.

Era sempre assim, ele nunca me respondia direito, fazia seis meses que não via meu pai e meu coração apertava com saudade dos seus abraços. Mas sempre que lembrava dele, lembrava da minha mãe e céus eu estava muito preocupada com ela.

Queria saber como ela estava naquele momento, em uma clínica de reabilitação para alcoólatras, muitos metros de distâncias de mim e não podia falar com ela até que os médicos autorizassem visitas.

*** FLASHBACK ***

Passei pela escada eufórica para contar para Ashley o que tinha acontecido comigo quando escutei sussurros vindos do quarto dos meus pais e um choro.

Dane-se a educação.

Algo estava errado, e eu precisava descobrir, por isso encostei a lateral do meu rosto na porta e minha respiração ficou acelerada, se me pegassem ali seria meu fim.

― Estou decepcionado com você Daisy, não te reconheço mais, e nosso casamento está afundado. ― A voz do meu pai saiu triste e sua dor apertou meu coração.

― Não diga isso. ― Minha mãe soluçou. ― Se me der mais uma chance eu prometo mudar.

Papai gargalhou.

― Eu não acredito em você. ― Um silêncio se instalou por alguns segundos. ― Eu quero o divórcio, você é cínica, mentirosa e eu não consigo mais olhar na sua cara. Devia contar logo pra Nancy que ela não é minha filha.

Naquele instante eu senti um abismo sobre os meus pés, e as lágrimas escorriam pelo meu rosto. Como assim? Eu não era filha dele? A minha mente não processava aquela informação, ou melhor, não acreditava. E como um peso morto me arrastei até o quarto e ao fechar a porta deixei a escuridão me inundar.

***

― Entraram poucos novatos esse ano, e nenhum realmente interessante. ― Leila resmungou quando saímos da sala para o refeitório.

―Atirada. ― Anya provocou enquanto eu ria da cara de não-me-enche-o-saco-monga que a outra lançou como resposta.

―Estou apenas comentando.

Revirei os olhos andando tranquilamente pelos corredores e vez ou outra alfinetando Leila. A fila do refeitório ainda estava vaga e tentei não vomitar quando colocaram a comida no meu prato.

― O que é isso?

― Eles chamam de ´´a moda da casa``, pra mim está mais pra ´´a morte da escola``. ― Leila comentou empurrando o prato para longe de si, limitando-se a tomar o suco.

― É uma macarronada muito ruim, mas não é a pior refeição daqui. ― Anya deu de ombros sorrindo da minha cara.

Credo, não quero nem ver a pior.

― Okay, prefiro ficar com fome.― Decidi, também empurrando minha bandeja. Eu realmente não ia comer aquilo, mas meu estômago protestou e abaixei a cabeça frustrada, sem comida meu humor piorava, e muito.

As garotas na minha frente se entreolharam e puxaram suas bolsas que eu nem me lembrava que estava com elas.

― Vá aprendendo as manhas queridinha. ― Quando ia retrucar o queridinha, Leila me mostrou que tinha na bolsa e qualquer linha de raciocínio na minha mente apagou.

Eram vários petiscos, doces, chocolates e barrinhas de ceral, continuei olhando aquela quantidade absurda de comida nas duas bolsas enquanto Leila tirou uma barra de chocolate e Anya uma barra de cereal.

― Vai ficar só olhando ou vai comer alguma coisa? ― Anya perguntou arqueando as sobrancelhas.

― Dá pra alimentar a escola inteira.

― Não, é apenas o suficiente para um dia. ― Leila riu.

Estávamos em um clima descontraído quando o olhar de Anya se fixou em algo atrás de mim, ou melhor... alguém, seus olhos castanhos ficaram sombrios e Leila mastigava seu chocolate com olhos semicerrados, como se isso pudesse fazer a pessoa se explodir.

Olhei para trás e comecei a tentar entender a situação.

Notas finais
Espero que tenham gostado do caítulo Abraço de urso !