Perdoe os Vícios pelo Amor
10 Cartas na Mesa - PARTE 2
Notas iniciais
Eu era pateticamente clichê, e fazer guerra de comida só comprovava isso ainda mais. Meu raciocínio resolveu tirar a tarde de folga no momento em que eu mai precisava dele, e apelei andando de um lado para o outro, ignorando a imagem da dinossaura com uma faca na mão.
― Nany, ainda tem o número daquela empresa de limpeza que sua avó me indicou? ― Edric indagou.
― Tenho. ― Respondi lhe mandando um sorriso aliviado por sua solução obvia, mas literalmente brilhante.
― E a comida? ― Leila choramingou colocando as mãos sobre a barriga.
― Você só pensa nisso? ― Edric provocou debochado.
― Eu vou morrer desnutrida e a culpa é toda sua cenoura ambulante.
Nota mental: Nunca deixar Edric e Leila em um mesmo ambientes sozinhos, para evitar possíveis homicídios.
― Vocês duas. ― Interrompi a discussão apontando para as minhas amigas. ― Usem o banheiro do meu quarto e do de hóspedes se quiserem banhar logo.
― Nem precisava oferecer. ― Anya resmungou. ― Já que a comida italiana não deu certo, vou pedir a mexicana.
Phoenix conta com grande influencia da gastronomia mexicana, com pratos carregados na pimenta e entradas que levam guacamole e nachos, totalmente diferente dos pratos que eu comia em San Diego que geralmente eram frutos do mar, mas com o tempo passei a apreciar. Acenei em concordância enquanto as duas saiam correndo apostando o shampoo.
― Irei tomar banho na minha casa e sujar meu bebê.
Revirei os olhos.
― Problema seu. ― Rebati. ― Se fosse menos psicopata leproso não teria guerra de comida.
Um sorriso malicioso passou pelo seus lábios de forma sutil, ainda sim o suficiente para me fazer recuar.
― Deveria tomar mais cuidado com a sua língua solta.
― Nem pense nisso bambino. ― Grunhi me colocando na defensiva.
― Pense duas vezes antes de me ofender, três se necessário, lembre que sei o seu ponto fraco.
Filho da mãe chantagista.
Serrei os olhos para o imbecil e minha mão coçou com vontade de dar um tapa no seu rostinho bonito.
― Me socar também não funciona, use o cerébro, talvez consiga encontrar uma solução.
Puxeio-o pelo braço e abri a porta da minha casa, com uma vontade descomunal de chutar-lo porta a fora e esfregar sua cara no chão.
― Saia. ― Ordenei entre dentes.
Ele ainda teve a ousadia de gargalhar.
― Você fica fofa zangada.
Bati a porta dando adeus a seu sorriso debochado com satisfação e voltei para a cozinha tentado aliviar nossos estragos até a chegada da equipe de limpeza que não esconderam o espanto com seu estado deplorável, um engasgou murmurando ´´Santo Deus´´.
O preço final foi bem caro, mas nada que não pudesse ser pago de maneira tranquila. Eles mereciam, o resultado final estava impecavél.
Resolvi banhar na casa da dinossaura e passei uma hora tentando tirar toda a comida do meu corpo. Me vesti e fui para a sala encontrando Leila e Anya deitadas preguiçosamente no sofá.
― Seu irmão foi embora? ― Anya questionou assim que sentei ao seu lado.
― Sim. ― Respondi. ― Sobre nosso parentesco, desculpa não ter falado antes é que nós não pretendemos anunciar publicamente por enquanto, então preciso que guardem esse segredo pra mim.
― Sem problemas. ― Responderam em uníssono.
Na verdade não queriamos manter em segredo, estavamos apenas protegendo a minha mãe de outro enscândalo, por isso meu pai 1 (adotivo) e pai 2 (biológico) criaram um falso laço de amizade explicando as minhas vizitas aos Lamartine. Falso no ínicio, porque depois se tormaram de fato melhores amigos.
― A cozinha ficou novinha em folha. ― Leila elogiou e mudou de assunto. ― Vamos assistir nossa série?
― Claro né fofa. ― Anya a imitou com a voz três vezes mais fina me fazendo rir.
E a outra expressando toda a sua maturidade lhe mostrou a língua antes de ligarmos a TV aproveitando a tarde com nachos e pizza.
***
Dinah propôs a Emily Campbell que as suas dormissem na nossa casa naquela noite e lá estava eu apoiando a cabeça sob as mãos com as pernas me Leila esmagando a minhas costas.
― Então? ― Perguntei ansiosa para Anya.
― Então o que? ― Devolveu.
Suspirei impaciente.
Essa sabe enrolar quando quer.
― Conta logo criatura. ― Leila resmungou tomando metade da cama. ― Sobre o Águia.
Águia era o simbolo da seleção de futebol americano na nossa escola e se o Scott era o capitão...
― Espera. ― Interrompi. ― Vocês criaram um codinome pro Scott?
― Claro.― Revirou os olhos. ― Como acha que conversamos em público?
Dei de ombros.
Eu nunca tinha precisado fazer isso.
― Posso começar? ― Anya perguntou e gesticulei para que ela continuasse. ― Desde pequena eu sempre acompanhei minha mãe em suas reuniões disfarçadas de festa.
― Sei bem como funciona.
― Eu também estava sempre presente, Alex, Scott.― Leila complementou.
― Não foi dificil virarmos mais ou menos amigos, já que Alex com seu jeito intransponível deficultava essa relação.
Novidade.
Balancei a cabeça focando na parte realmente importante da história.
― Scott era meu melhor amigo,acho ele sabia mais sobre mim do que eu mesma, mas a sua amizade não foi suficiente.
― Você já gostava dele antes disso?
― Sim. ― Ela suspirou parecendo arrependida. ― Isso foi me sufocando. Ele me pedindo concelhos para ficar com outras garotas e não demonstrar que aquilo estava me incomodando.
― E porque não falou para ele?
Leila sorriu amarga.
― Ela falou.
― Eu liguei para ele, decidida a marcar um lugar para contar tudo, pensei que ele iria entender. ― Os seus olhos se encheram de lágrimas e fungou baixinho. ― Scott atendeu o telefone irado, gritando que o meu plano desde o início era usa-lo porque não tinha conseguido me aproximar do Alex.
Como alguém pode ser tão estupido?
Leila abraçou-a e segurei a sua mão tentando conforta-la.
― Eu só quero que essa dor passe. ― Anya fechou os olhos e grossas lágrimas desceram pelo seu rosto.
A sua mágoa era como um iceberg o que eu via era apenas a menor parte. Eu não entendia o que ela estava sentindo, eu tinha gostado de Nathan, mas se apaixonar...não.
― Anya você é uma pessoa incrível. ― Murmurei sincera e ela assentiu enchugando as lágrimas. Eu não queria me meter mais do que já estava, porém algo não encaixava nessa história.
No início pensava que os pais dela eram separados ou algo do tipo, mas a minha amiga era na verdade fruto de uma produção independente, e viveu sem uma figura paterna. Eu admirava a força das Campbell.
Há dois anos eu não me importava de verdade com os meus pais, eles tinham defeitos e cometiam erros como em qualquer família, mas faziam de tudo pela minha felicidade. Foi necessário que eles se separassem para que eu pudesse valorizar pequenos momentos. E mesmo com eu sentia que tudo começava ver o a se resolver.
Três meses.
Pensei olhando pela última vez as estrelas que enfeitavam o céu em Phoenix antes de fechar as persianas e dormir.
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