Perdition

9 Capítulo 9 - More Than a Secret


Notas iniciais
Olá leitores! Estou eu aqui, um pouquinho atrasada, outra vez. Desculpem-me, realmente fiquei meio apertada para postar esses dias, o que acarretou certo tipo de... "leitores insistentes". Mas é isso aí, irei postar apenas um capítulo hoje por estar agarrada com algumas coisas aqui. Tentarei postar o outro ainda essa semana. Aproveitem!

Aproximamos-nos mais, nossos lábios quase se tocando. Como se ela tivesse um momento de lucidez, se afastou um pouco, beijou o canto dos meus lábios e deixou um beijo em minha testa. Levantou-se e saiu caminhou para a porta. Novamente, ela tinha se acovardado.

“Intenso demais Rachel, me desculpe. Eu preciso de tempo.” – Ela disse, sem se virar para mim.

“Hanna?” – Ela parou. — “Você já se apegou, por que precisa de tempo?”

“Se apegar é um coisa Rachel.” – Ela parou e soltou uma pequena risada.

Dirigiu-se a porta e olhou para mim.

“Se apaixonar, é totalmente novo para mim.” — Meu coração tinha explodido e senti uma guerra dentro de mim.

E naquele momento eu tive uma certeza:

Eu havia me apaixonado por Hanna Mason, no meio de um Apocalipse.

Três dias haviam se passado desde que chegamos à Casa Grega, nome que dado ao nosso lar, devido as suas colunas de entrada. Nada de interessante tinha acontecido naqueles dias, tirando o fato de alguns draggers terem tentado ultrapassar o nosso perímetro de segurança. Nada que alguns tiros não resolvessem.

Vínhamos tendo aulas de como usar armas, armar e desarmar, remontar. Mas eu não fazia questão de aprender tais coisas, aquilo não funcionava comigo. Hanna era muito mais habilidosa e seus olhos brilhavam com seus novos brinquedos. Nossa relação tinha melhorado, ela não me evitava mais, mas também nunca permitia que ficássemos sozinhas em um mesmo cômodo por mais de 2 minutos, apenas na hora de dormir, quando nossos corpos se uniam e assim eu conseguia sonhar. Éramos obrigadas a escutar piadinhas dos gêmeos e Matt, sobre nossa “tensão sexual e amorosa estar estourando os vidros da casa”.

Matt tinha se tornando uma espécie de terceiro Connor, andava para cima e para baixo com os garotos, parando apenas para cuidar de Rick ou conversar com Dave sobre algum jogo em que eram viciados. Ele havia aprendido em uma questão de minutos a utilizar bombas e qualquer tipo de explosivo e eu temia por nossas vidas, já que ele queria explodir tudo que via pela frente.

Eu não falava com Zoe desde o incidente há três dias. Ela não trocava se quer um único olhar comigo e eu começava a me arrepender das minhas atitudes com ela. Tudo bem que a garota era irritante, mas ter a garganta estrangulada era demais. Estávamos em meio a um fim de mundo e eu deixando minhas intrigas pessoais tomarem conta da situação, tinha de parar com aquilo, afinal, eu era a líder agora.

Líder. Eu não sabia usar nem ao menos uma arma, muito menos tinha qualquer pista de Ellisa Graham.

Não havia parado para analisar qualquer coisa que estivesse no notebook de papai, fora a foto que eu havia achado quando eu e Hanna quase nos beijamos no posto de controle. Realmente eu não estava com cabeça para isso.

Estávamos todos do lado direito da casa, em um gramado extenso. A nossa frente estavam pendurados alguns sacos de cimento em estacas grandes de madeira que os meninos acharam no porão, provavelmente usadas para fazer algum tipo de cerca. Luke estava explicando alguma coisa sobre como mirar e controlar sua respiração, para que pudesse acertar perfeitamente o alvo.

Eu estava sentada na grama, arrancando alguns tufos do chão, aleatoriamente. Senti alguém se aproximar de mim e sentar-se ao meu lado. Esperei a pessoa começar a falar, mas nada veio. Levantei a cabeça para olhar uma Zoe, respirando com um pouco de dificuldade e o rosto brilhando de suor. Ela carregava a sua espada na mão e na outra tinha uma arma inutilizada. A garota olhou pra mim e percebi seus olhos mais escuros.

“Sabe, eles gostam de usar essas coisas.” – Ela levantou a arma em sua mão. – “Mas eu prefiro essa outra belezinha aqui, muito mais silenciosa e mortal. Sem contar que suas chances de errar o alvo reduzem muito.”

Esperei que ela me desse um tiro ou arrancasse minha cabeça, mas ela não fez nada. Relaxei meu corpo, que eu não havia percebido ter tensionado, acho que ela não me mataria, não ali.

“Ela gosta muito de você, sabe disso não é?” – Ela indicou Hanna com a cabeça. A loira agora estava realizando um sequência de tiros impecável em três alvos seguidos.

“Sim, eu sei.” – Voltei a olhar para a ruiva. –“Zoe, escuta, sobre aquele dia...”

“Tudo bem Rachel, eu reconheço que passei dos limites.” – Ela olhou para mim e não consegui decifrar o que se passava na cabeça dela. — “Mas... dói. Dói vê-la amar alguém que não seja eu.”

Meus olhos se arregalaram, junto com a minha boca. Eu a encarei, incrédula e toda aquela história sobre o seu passado, sua namorada, a amizade com Hanna, aquele olhar. Tudo se encaixava agora.

“Hanna... ela era sua namorada, não é?” – Eu perguntei.

“Sim Rachel, era ela mesma.” – Ela lançou um olhar a Hanna, para se certificar de que a loira estava bastante ocupada. – “Eu e Hanna sempre fomos muito ligadas, desde quando nossos pais se conheceram. Sempre andávamos juntas e em pouco tempo nos tornamos melhores amigas. Quando contamos uma pra outra que gostávamos de garotas, as coisas começaram a ficar... diferentes. Eu sentia um ciúme excessivo dela, vontade de tê-la apenas para mim. Até o dia que ela me correspondeu, passamos a namorar desde então, mas sempre escondido de todos. Não aguentei aquilo por muito tempo, ela zelava mais o status do que nosso relacionamento. Quando me assumi para meus pais, ela surtou e simplesmente me negou qualquer ajuda. E então nos nunca mais fomos como antes.”

“Zoe...” – Eu não conseguia formular algo para consolar a ruiva ao meu lado. A situação era estranha demais: A garota que ela amava, gostava da menina irritante.

“Hey, Rachel, traga seu arco aqui. Você precisa usá-lo.” – Luke gritou mais a frente.

Eu fiz um sinal negativo com a cabeça. Eu realmente não queria utilizá-lo. Eu queria saber mais sobre Zoe, mais sobre Hanna, sobre o passado das duas.

“Ah, qual é Rachel, venha. Eu quero ver você usá-lo.” — Matt falou, dando um sorrisinho um pouco malicioso.

“Eles não vão lhe deixar em paz. Acho melhor você ir.” – Hesitei um pouco. – “Essa conversa fica pra depois. Eu acho melhor Hanna lhe contar o resto.”

Eu me levantei e ofereci uma mão para Zoe, mas a garota negou dizendo que queria descansar um pouco. Peguei a minha arma e a aljava, por sorte Dave tinha me dado algumas dicas, ele ficara horas lendo os arquivos do computador de papai. Além de Hanna, ele era o único que eu confiava para mexer ali. Olhei mais uma vez para a inscrição ao longo do arco: Αρτέμη.

“Artémis.” – Me dirigi a passos lentos de onde o grupo se encontrava. – “Vamos lá, mostre seu poder.”

“Espero que saiba utilizar isso.” – Hanna murmurrou para que eu ouvisse.

“Mais do que você sabe utilizar uma arma.” – Eu rebati.

“Uhuu... acho que sabemos quem é o macho da relação agora.” – Jimmy comentou com ironia.

“Cala a boca, idiota.” – Hanna falou, com um leve rubor nas bochechas.

Retirei uma flecha normal da aljava e posicionei-a no arco, as flechas elétricas não eram necessárias agora. Aquela sensação que eu não sentia há muito tempo, como se eu pudesse acertar qualquer alvo a qualquer distância, me invadiu. Controlei a respiração e tudo começou a se movimentar em câmera lenta. Puxei a corda do arco para trás, fazendo a pressão necessária, realmente era favorável as minhas estaturas. Respirei mais algumas vezes e mirei bem centro do alvo, soltando a flecha em seguida. Esta atravessou o alvo com certa velocidade e precisão, fazendo um estrago enorme por onde tinha passado.

“CACETE!” – Vi um Matt exclamar. Mas as coisas não iriam terminar ali.

“Isso foi bom, muito bom por sinal.” – Luke disse, lançando-me um sorriso. – “Mas vamos dificultar um pouco.”

Ele fez um sinal para Kim e os gêmeos. Todos começaram a se movimentar e vi obstáculos e mais obstáculos serem colocados a minha frente, como um campo de treinamento feito de última hora. Vi Matt e Hanna se afastarem. A loira foi para o lado de Zoe e o garoto se posicionou do lado esquerdo de Dave.

Eu estava em uma mini-arena improvisada. Era um teste físico.

“Certo Rachel, temos aqui armas de choque, vamos usá-la contra você. Elas não matam, mas causam uma dor... chata. O seu objetivo aqui será chegar naquele pano vermelho, sem ser atingida ou tocada por um de nós. O toque simula a mordida de um dragger. Entendeu?” – Eu confirmei com a cabeça. – “Não irei pegar leve com você.”

“Eu não preciso. Mas, por favor, quando eu te pegar, não implore.” – Lancei um sorriso irônico.

Ele voltou o gesto e saiu andando em meio ao campo, sumindo logo atrás de um barril. Ouvi a voz de Kim gritar e preparei meu corpo.

“Quando eu disser três.” – Esperei. – “TRÊS!”

Levei alguns segundos para raciocinar, peguei uma flecha e posicionei-a em Ártemis. Caminhei lentamente, sempre atenta as minhas outras direções. Apurei o ouvido em busca de algum barulho. Papai havia me ensinado aquilo muitas vezes, de modo que eu tinha um pouco de noção do que estava fazendo. Antes de ser cientista chefe da Orbis, ele serviu no exército por 15 anos e assim adquiriu algumas habilidades em combate, que fez questão de passar para mim e James. Teria ensinado a Lewis também, mas tudo isso aconteceu e agora não teríamos mais chances.

Ouvi um barulho a minha esquerda, um rastejar de pés. Se eu estava certa, a pessoa estava se escondendo atrás de uma caixa de madeira a uns 2 metros de mim. Parei meus movimentos para que pudesse ouvir mais atentamente. Pela velocidade baixa em que se locomovia, era alguém grande e pesado, eu diria mais de 1,80 de altura. Calculei ser um homem. Eu era pequena e levaria vantagem em um combate corporal, se soubesse aonde acertar.

Aproximei-me devagar e puxei a pequena faca presa ao meu tornozelo. O arrastar de pés se tornou mais pesado, quem quer que fosse sabia que eu estava me aproximando e preparava-se para atacar. Antes que eu pudesse me movimentar mais um passo, a pessoa me atacou.

Vi um punho descer em minha direção, esquivei-me para a direita em uma perfeita cambalhota. Meu oponente, Jonnhy, estava agora de costas para mim, o que me dava uma grande vantagem. Comecei a me movimentar rapidamente, deixando-o sem rumo ao tentar me agarrar. Truque que papai havia me ensinado, vantajoso pela minha estatura baixa. O garoto estava ficando cansando e aproveitei o momento. Desequilibrei-o ao tocar a parte de trás de seus joelhos, segurei seu braço, fazendo com que ele largasse a faca. Apliquei um golpe, jogando-o no chão, parando quando ele levantou a mão em rendição.

Deixei o garoto ali e segui mais a frente, com Ártemis pronta para um suposto tiro. Em meu campo de visão surgiu Kim, com uma faixa verde amarrada ao braço, onde eu consegui ler a palavra dragger. Ela era uma daquelas coisas nesse simulador, eu teria de evitar seu toque. A latina veio para cima de mim, desviei com facilidade, aplicando-lhe um golpe paralisante e simulando enfiar minha faca em seu crânio. Ela caiu rendida.

Continuei meu caminho por alguns segundos e finalmente estava chegando ao pano vermelho, mas duas massas surgiram em minha frente: Luke e Jimmy.

“Elemento Surpresa.” – Ele sorriu e pulou para cima de mim. O mesmo fez o outro garoto.

Tudo bem que eu sabia alguma coisa de combate, mas dois ao mesmo tempo era covardia. Esquivava-me de seus golpes com facilidade, acertando-os à medida que chegava mais perto. Consegui derrubar Jimmy, que já estava exausto. Mas Luke era insistente e permanecia me bloqueando. Eu começava a sentir o cansaço tomar conta do meu corpo e cada músculo pedindo para que eu desistisse agora, mas eu sabia que se aguentasse mais alguns segundos, conseguiria achar o ponto fraco do garoto. Deixei uma abertura para que ele pudesse me acertar e foi o que fez. Prendi seu braço direito ao meu esquerdo, obrigando-a a girar, desequilibrando totalmente. O garoto caiu no chão e eu o prendi com as pernas.

“Nada mal garota. Nada mal mesmo.” – Ele sorriu e bateu suas mãos em minhas pernas. Sai de cima dele, dando espaço para que pudesse se levantar. – “Aonde aprendeu isso tudo?”

“Com meu pai, ele serviu o exército alguns anos.” – O garoto me lançou um sorriso.

“Wow, vocês viram isso?” – Matt vinha correndo em nossa direção. – “Rachel, se eu soubesse que você era esse mulherão todo, eu tinha te convidado para um encontro.”

“Aí, deixa Hanna escutar você falando isso. Ela te corta a língua garoto.” – Kim disse, aproximando-se de Claire e envolvendo-a em um abraço.

Olhei para os lados a procura da loira, mas ela não estava ali. Olhei para a entrada da casa e a vi conversando com Zoe. A ruiva estava olhando para frente, com cara de poucos amigos, enquanto a própria Hanna falava furiosa ao pé de seu ouvido. A menor me viu e fez um sinal para a loira que olhou em minha direção. Levantei minhas sobrancelhas em questionamento. Zoe entrou, enquanto Hanna via para mim.

Ela chegou perto e já ia se explicando, quando ouvimos um grito no andar de cima.

“Rick.” – Eu disse, apenas pensando no pobre garoto.

Todos nós saímos em disparada para o andar de cima da casa. Consegui chegar lá primeiro que todos.

Rick estava de pé, no canto do quarto, aos berros, enquanto Zoe tentava acalmá-lo. Eu não consegui distinguir o que o garoto dizia, mas ele apontava freneticamente para o lugar onde deveria estar seu braço. Entrei no cômodo, precisava tranqüilizá-lo.

“Rick, calma, vai ficar tudo bem.” – Eu levantei minhas mãos na frente do meu corpo, como um gesto de tranquilzador, mas para me proteger também.

“CALMA? VOCÊ AINDA ME PEDE CALMA.” – Ele gritava totalmente vermelho para mim. – “POR QUE ME PEDE CALMA? EU NÃO SEI O QUE ACONTECEU COMIGO? EU PERDI MEU BRAÇO E VOCÊ ME PEDE CALMA?”

“Rick, sente, vamos conversar.” – Eu me aproximei ainda mais dele.

“Rachel...” – Ouvi Hanna me alertando e pelo canto do olho pude vê-la entrar no quarto e preparar-se para intervir. Parei-a com um gesto.

“EU NÃO QUERO CONVERSAR.” – Rick continuava a gritar. – “O QUE VOCÊS FIZERAM COMIGO?”

E quando dei por mim, o garoto tinha me acertado no rosto. Hanna pulou em cima dele, imobilizando-o no chão, enquanto Luke vinha com uma espécie de agulha. Não vi muita coisa, tudo rodava e ficava escuro.

Senti dedos delicados passarem por meus cabelos, acariciando-os bem devagar. Soltei um suspiro e abri os olhos. Os verdes me encaravam curiosos, enquanto o carinho continuava em minha cabeça. Senti o lado direito latejar um pouco.

“Dói aqui?” – Ela pressionou e soltei um leve gemido de dor. – “Tome, beba isso, vai ajudar.”

Ela me deu alguns analgésicos e um copo com água. Bebi, enquanto ela observava cada movimento meu. Olhei em volta e percebi que estávamos na sala do piano, ouvi barulhos vindos dos cômodos ao lado, mas estávamos apenas nós duas na sala. Eu olhei para ela, esperando uma explicação.

“Ele te empurrou com força e você bateu a cabeça no chão. Não cortou, mas ganhou um belo galo.” – Ela riu, novamente passando a mão pelo lugar machucado, com mais delicadeza. – “Eu pulei em cima dele por instinto protetor e Luke aplicou algo que fez o garoto desmaiar. Zoe te trouxe aqui para baixo, com a ajuda de Kim e Claire. Ficaram cuidando de você até que tivéssemos certeza de que tudo estava mais tranquilo. Então eu desci e estou aqui desde as 15 horas.”

Olhei para fora e percebi que estava escuro. A garota me ajudou a levantar, para que eu pudesse me sentar. Senti uma leve tontura, fechei os olhos e seu aperto se fez mais firme na base das minhas costas.

“Tudo bem?” – Fiz que sim com a cabeça.

“Por quanto tempo eu dormi?” – Massageei minha têmpora.

“Por 7 horas.” – Eu olhei para ela, preocupada. As tarefas. – “Tudo bem, Claire e Kim tomaram suas tarefas. Foi até bom, assim elas passam mais tempo juntas, se é que isso é possível.”

Soltamos uma leve risada e voltei a encará-la. Aqueles olhos verdes eram o mar no qual eu sempre me afogava em busca de respostas. Talvez eu entendesse por que Zoe gostava tanto assim dela. Não pela sua beleza, ou pelo jeito de ser, mas o mistério que carrega naqueles olhos. Um mistério que faz você ir se perdendo cada vez mais.

“Rachel, eu falei com Zoe e bom... ela me contou o que vocês conversaram durante o treinamento hoje mais cedo.” – Ela uniu nossas mãos e voltou a me encarar. – “Preciso lhe explicar algumas coisas. Mas, por favor, diga algo somente quando eu terminar de explicar.”

“Tudo bem Hanna.” – Eu apertei nossas mãos.

“Tudo que Zoe disse é verdade, mas você também tem que entender meu lado.” – Ela me olhou e eu a encorajei a continuar. – “Eu era filha única. Meu pai era um viciado em bebidas e jogos. Chegava todas as noites bêbado, fedendo a cigarros e mulheres. Mamãe o amava muito e para esquecer tais coisas, se embebedava também. Por noites eu escutei os dois brigando e todo dia, ela aparecia com um hematoma diferente. Aquilo era o inferno para mim, mas quando íamos a reuniões, tínhamos de ser uma família modelo.

Zoe foi a primeira pessoa em que realmente pude confiar. Assim nos aproximamos rápido demais. Encontramos uma na outra, o que faltava em nossas famílias: amor. Mas meu amor por ela era diferente, era um amor desesperado, um amor que buscava aceitação. Quando ela me disse o que sentia, fiquei com tanto medo de perdê-la que acabei correspondendo. Foi bom nos primeiros momentos, mas aquilo me assustava muito. Eu não queria perder minha família, mesmo vivendo naquele inferno, eu tinha medo do que as pessoas iriam fazer com a gente. Tínhamos apenas 14 anos.”

Alguns filetes de lágrimas desciam pelo seu rosto. Levei minha mão e colhi alguns. Limpei seu rosto e beijei cada lado.

“Continue, você está indo bem.” – Eu disse.

“Quando Zoe contou para os pais, eu fiquei desesperada. Vi a reação de papai quando o Sr. Maves ligou para casa, contando tal situação. Vi-o ficar furioso ao telefone e berrar comigo, para que eu parasse de andar com ela, por que se eu fosse assim ele iria me castigar muito mais do que antes. Zoe apareceu na minha casa àquela noite. Mas eu apenas fechei a janela e voltei a dormir. Eu tinha perdido minha única amiga.

Eu parei de frenquentar a casa de Claire, enquanto Zoe estivesse lá. Acabei saindo das líderes de torcida, para me tornar uma ninguém naquela escola. Felizmente me encontrei nas aulas de piano, como um mantra, a única coisa descente que conseguia fazer. Até você chegar.”

Olhei-a, sem entender muito bem. Eu havia me mudado para aquela escola quando completei quinze anos. Exatamente há dois anos. Nunca tinha parado para conversar com a garota loira, apenas alguma troca de olhares.

“Como assim?” – Ela sorriu.

“Quando você entrou por aquela porta, Rachel, eu tive certeza de que anjos existiam.” – Ela sorriu para mim. O meu sorriso. – “Eu senti algo forte dentro de mim, mas nunca soube o que era. Até agora.”

“Mas, então por que você nunca conversou comigo? Por que nunca pediu para que parassem com as chacotas?” – Aquilo realmente me deixava irritada. – “Ah, claro, seu status. Não queria sofrer as mesmas coisas que eu.”

“Eu sempre fiz algo por você. Mas era de longe.” – Olhei em seus olhos. – “Aquela vez que te jogaram lixo. Eu que pedi para que levassem roupas limpas e um kit de higiene, para que você se limpasse no vestiário. Aquela última vaga para o jornal da escola... fui eu o tempo todo.”

Meus olhos agora brilhavam. Então tudo que eu achei ter sido sorte, tinha sido Hanna? Meu orgulho latejava, mas meu carinho falava mais alto. Eu sorri e a puxei para mim, colando nossas testas.

“Eu queria tanto te beijar agora.” – Eu fechei os olhos e sussurrei.

“Beije-me. Já não me importo mais.” – Ela disse, me puxando mais para perto.

“Não posso.” – Eu falei ainda mais baixo.

“Zoe?” – Ela disse.

“Sim.” – Eu respondi.

“AHAM.” – Matt estava parado na porta, esperando que nos virássemos. Mas eu não descolei nossas testas. – “Só vim avisar que o jantar está pronto.”

Ele saiu e Hanna fez menção em segui-lo, mas eu segurei firmemente sua nuca e vagarosamente rocei nossos lábios, para me afastar depois e sair pela porta. Não antes de escutar um muxoxo de insatisfação atrás de mim.

Jantamos normalmente, apenas conversando e relembrando coisas banais de um mundo que parecia ter ficado há bastante tempo no passado. Rick estava melhor e parecia ter aceitado o novo estado, tinha me pedido desculpas. Hanna e eu tínhamos agora uma troca de olhares intensas, o que levou a um comentário de Jimmy.

“Ah, qual é, se querem se comer, por favor, façam no quarto. Não na hora do jantar.” – Todos olharam para ele, contendo uma risada, enquanto nós duas ficávamos totalmente vermelhas. – “Meu Deus, vocês exalam couro.”

Isso foi o estopim, para que toda a mesa caísse na gargalhada, menos Zoe e Luke, que encaravam sua refeição como se ela pudesse fugir a qualquer momento. Assim que o jantar terminou, todos foram dormir exaustos pelo dia de treinamento. Hanna adormeceu rapidamente, com seus braços firmemente presos em minha cintura, mas eu, por algum motivo, não conseguia fechar os olhos.

Levantei-me, desvencilhando com cuidado de Hanna, que abraçou um travesseiro, murmurou alguma coisa e voltou a dormir. Depositei um beijo em seus cabelos e sai para o corredor. Passei em frente ao quarto de Claire e Kim e parei ao ouvir certos... Gemidos. Sim, elas estavam fazendo o que pensei. Levei minhas mãos à boca, para conter uma risada e continuei caminhando, até chegar à escada que levava para o andar do Centro de Comando. Os gêmeos estavam totalmente apagados, Jimmy na cama e Jonh na cadeira.

“Hey, Jonnhy, vá deitar, eu fico aqui agora.” – Cutuquei o garoto. – “Vamos.”

“Hey Rachel, obrigado.” – Ele se dirigiu para a cama, jogando-se sem nenhum esforço e soltando um ronco em seguida.

Olhei pela janela e tudo estava calmo. Chequei as câmeras do lado de fora e não tinha nada. Procurei algo que iria prender minha atenção por um bom par de horas. Abri o notebook, digitei a senha e comecei a vasculhar. Fiquei sentada um bom par de horas, procurando em um emaranhado de arquivos inúteis. Acabei relendo os arquivos de Ártemis, vi algumas fotos e quando estava prestes a desistir, percebi uma data abaixo de uma pasta de quatro dias atrás. Cliquei e um vídeo tomou conta de toda a tela. Vi o rosto de meu pai e sorriu se espalhou pelo meu rosto.

“Pai.” – Eu disse, com os olhos lacrimejando. Mas logo meu sorriso desapareceu ao ver seu semblante desesperado.

O projeto deu errado, o vírus se espalhou, achamos que poderia ser controlado, mas é ainda maior do que imaginamos. A Orbis mandou pessoas atrás de mim. Tive um último contato com Gregg,diretamente de Kansas City. Ele me disse que estava transferindo a menina para uma unidade segura dentro do prédio da Orbis. Ela ficará bem, eles nunca irão procurá-la por lá. Rachel está na escola, ela ficará segura longe de mim. Mandei minha esposa e meus filhos para o Acampamento. Eu estive preparado, serei levado para manter minha família bem. Ellisa e Rachel são a chave.” – Ele olhou para o relógio no pulso e parou, analisando alguma coisa. – “Eles chegarão. Desligando.”

A tela voltou a se fechar. Era o último contato de meu pai, mas ainda sim ele foi esperto o suficiente para me deixar uma dica e eu deveria segui-lá. De uma coisa eu sabia:

Ellisa poderia estar na cidade de Kansas, em algum lugar no prédio da Orbis.

Kansas era a cidade grande e aquilo indicava uma única coisa.

Draggers.

Notas finais
Espero que tenham gostado. As coisas irão começar a esquentar a partir de agora. Nos vemos no próximo capítulo. Queria deixar um beijo pras leitoras que pegam no meu pé: Nath, Dale, Sara... e as meninas que leem essa Fic. Até!