Perdition
4 Capítulo 4 – Luke Gale
Notas iniciais
A tela ficou preta, e bem ao meu lado surgiu um arco e flecha com uma aljava vazia. Segurei-os em minhas mãos. Ainda processava as informações.
Apertei um botão no canto esquerdo inferior da aljava, e flechas luminosas brotaram do fundo.
“O que pretende fazer agora?” – Tinha esquecido que Hanna estava ali.
Minha resposta foi curta e simples.
“Encontrar Ellisa Graham.”
As palavras do meu pai ecoavam em minha mente.
“Nada é como antes.”
“Hanna? Hanna” – Um Matt, totalmente branco, entrou no quarto.
“WOW! Onde arranjou isso aí?” – Disse, apontando para minha nova arma.
“Longa história...”
“Matt... parece que eles estão vindo pra cá!” – Agora foi a vez de uma Zoe,totalmente pasma ,entrar no cômodo.
Não gostei, nem um pouco, de como ela disse eles. Aquilo não estava cheirando bem.
“Eles? Eles quem?” – Foi à vez de Hanna se pronunciar.
Vi que Matt e Zoe se olharam.
“Veja você mesma” – E saiu do cômodo, se dirigindo para a entrada da casa, onde havíamos estacionado os carros.
Eu não estava entendendo muito bem o que ele queria, mas quando vi os rostos completamente chocados de Rick e Claire encarando, não só uma, mas centena daquelas coisas, tive vontade de vomitar.
Cambaleei para trás e senti braços fortes me segurando, Matt. Fiquei tonta por alguns segundos e fui escorada no carro.
A passos lentos e rastejantes, pude calcular mais de 100 daquelas coisas, vindo diretamente do centro. Talvez nosso cheiro tenha atraído-os, eu na sabia explicar ao certo.
Claire já estava em prantos, enquanto Zoe a abraçava e parecia que iria desabar a qualquer momento. Matt estava sério, mas podia sentir que estava com medo, e Rick estava da mesma forma. Já Hanna... Está estava incompreensível, ilegível, eu não conseguia distinguir direito suas emoções.
Ela olhou para mim e pude entender que estava perdida, não sabia o que fazer em meio aquela situação.
Hanna estava com medo.
Olhei de novo para onde aquelas criaturas se encontravam, no alto do morro, que descia até minha casa, a última da rua. Talvez 15,20 minutos se tivéssemos sorte.
“O que vamos fazer?” – Zoe perguntou. Olhei para Hanna.
“Comida, mantimentos. Peguem tudo que conseguirem, sejam rápidos, pelos meus cálculos temos 15 minutos para que aquelas coisas cheguem aqui.” – Eu começava a me movimentar – “Matt,Rick,corram até essas casas vizinhas,não se afastem,peguem tudo que conseguirem: Roupas ,comida, remédios e armas,se encontrarem alguma.” – Eles me olharam,mas logo saíram,levando consigo dois grandes pedaços de madeira.
“Claire,Zoe,coloquem os carros para dentro da garagem. Podemos colocar algumas coisas dentro, no caso de precisarmos de um Plano B.” – Eu falava rápido, na mesma medida em que calculava tudo.
“Ér... Rachel, eu não acho que Claire esteja nas condições exatas para dirigir.” – Hanna disse.
Realmente não tinha condições. Ela estava encolhida nos braços de Zoe, chorando e tapando os ouvidos, enquanto a amiga sussurrava para que só ela pudesse ouvir.
“Tá tudo bem Clary, estou aqui, não vou a lugar algum. Eu vou te proteger.” – Zoe levantou o olhar, e pude ver que seus olhos estavam marejados. — “Ela é tão inocente, tão doce, não merece isso. Temos que protegê-la, não podemos deixar que nada aconteça.” – Olhei para Hanna,e ela fez um sinal de “Deixa Comigo”.
Dirigiu-se as duas garotas e disse :
“Ei Claire, por que você não vai com a Rachel, ajude-a conseguir comida, roupas, faça o que puder, está bem? Rachel irá te proteger, ela é corajosa. Prometo que quando sairmos desse inferno iremos tomar sorvete, como antes, lembra? ” – Ela falava tão calmamente com Claire,como se já a conhecesse à algum tempo.
Vi que Zoe e Hanna trocaram alguns olhares, e Claire se levantou enxugando as lágrimas.
“Sorvete de Morango?” – Claire perguntou.
“De Morango!” – Afirmou Hanna. Não pude deixar de sorrir com aquilo.
Zoe se afastou, indo para o carro, dando espaço para que eu e Hanna ficássemos a sós.
“Você vai ficar bem?” – Perguntamos ao mesmo tempo.
Rimos.
Levantei meu arco.
“Eu sou corajosa, lembra?”. – Ela apenas riu.
“Certo.”
“Certo.”
“Ei, meninas, temos apenas 11 minutos agora.” – Zoe adorava nos interromper.
Virei-me para onde aquelas coisas se arrastavam... 10 minutos. Dirige-me em direção a porta de entrada, quando senti alguém segurar meu pulso.
“Tome cuidado, espertinha.” – Hanna disse, com certa preocupação na voz.
“Você também.” – E entrei na casa e Claire estava parada, me esperando.
Olhando-a agora pude entender a preocupação de Zoe. A garota parecia incapaz de machucar uma mosca, mesmo que nos dias de escola ela mostrasse uma pose totalmente firme. Ali, parada a minha frente, Claire Lokewood parecia a pessoa mais frágil do mundo, e eu jurei que iria protegê-la do que fosse.
“Claire, pode pegar mantimentos na dispensa? Junte tudo que estiver lá, enquanto pego algumas malas e caixas. Temos que ser o mais rápido possível. Vou pegar algumas roupas também, Papai não levou tudo o que era nosso.
Algumas roupas dele devem servir nos meninos, temos roupas da mamãe e as minhas, que devem servir em vocês.” – Eu dizia, enquanto mostrava a Claire onde era a dispensa.
Em menos de minutos, conseguimos juntar tudo em caixas e algumas mochilas. Hanna e Zoe pegaram a maioria do que juntamos e colocaram dentro dos dois carros que tínhamos.
Os garotos voltaram rapidamente, com uma boa quantidade de comida e algumas roupas.
“Rachel, temos muito, muito pouco tempo, 3 minutos no máximo. Conseguimos bastante coisa, e eu achei essa arma naquela casa em frente.” – Ele nos mostrou um rifle. — “Nós subimos no telhado de uma delas, e as notícias não são boas...” – Matt falava, enquanto eu sentia, novamente, a sensação do alicate.
“A rodovia principal, para sair da cidade, está bloqueada.” – Rick continuou – “Sabemos agora onde todas as pessoas se enfiaram. Está um caos para aquele lado, se tivermos que sair daqui, terá que ser pelo lado de lá.” – Ele terminou, abaixando a cabeça.
Acontece que o “lado de lá”, era justamente o lado que aquelas coisas se encontravam, ou seja, estávamos ferrados.
“Droga, droga.” – Eu tinha que pensar em uma solução.
“Rachel? Deveríamos permanecer aqui. Talvez, com um pouco de sorte, eles não nos notem.” – Hanna estava tentando arranjar um plano rápido. – “Poderíamos bloquear as entradas com os móveis, e se as coisas ficarem apertadas demais, podemos pegar os carros e dar um jeito de sair daqui.” – Ela tinha ficado louca,mas era nossa única chance.
“Isso é loucura, mas é nossa melhor chance até agora.” – Eu balançava a cabeça. – “Tudo bem, façam o que Hanna disse. Matt, quanto tempo ainda temos?”
Ele olhou pela janela e se virou para mim.
“Nós não temos mais tempo Rachel.” – Corri para a janela, e pude ver que eles estavam a uma casa de distância.
“Droga! Okay continuem bloqueando as entradas. Façam o mais silenciosamente possível e não se apavorem.” – Eu dizia, com a voz um pouco trêmula.
Conseguimos bloquear todas as entradas, menos a porta que dava para a garagem, já que precisaríamos de uma fuga rápida.
“O que vamos fazer agora, Rachel?” – Zoe me perguntou, enquanto estava com Claire em seus braços. Se não estivéssemos à beira da morte, diria que aquela cena era tão agradavelmente fofa.
“Acho que temos que ficar totalmente quietos, e arranjar algum tipo de defesa para vocês duas, já que eu tenho meu arco, Hanna têm o bastão, Matt tem o rifle e Rick arranjou esse taco.” – Eu dizia, enquanto procurava algo para as duas. “Acho que meu pai tem algum tipo de machado no andar de cima, no porão. Meninos fiquem vigiando aqui em baixo, enquanto nós vamos verificar lá em cima.”
Subi as escadas, com as garotas em meu encalço. Segui para a portinha que levava ao porão.
“Hanna, pode me ajudar a descer a escada?” – Era uma droga ter apenas 1,57 de altura. Hanna conseguiu descer a escada, rindo. – “Por que está rindo? Você nem é tão alta assim, deve ter 1,65.” – Odiava quando riam da minha altura.
“Quase senhorita sabe tudo, na verdade eu tenho 1,68 de altura.” – E piscou para mim, enquanto me dava passagem para subir.
Subi a escada que levava até o porão, algo estava errado ali e pude sentir, de novo, a sensação do alicate. Olhei para trás e vi que Hanna arqueava as sobrancelhas, como se também desconfiasse de algo.
Continuei a passos lentos, fazendo o mínimo de barulho possível. Estava um pouco escuro, iluminado apenas pela luz que adentrava de uma pequena janelinha no fundo do cômodo.
Um barulho.
Algo veloz passou pelo meu pé, me assustando. Soltei um pequeno grito de desespero e Hanna me conteve.
“Tudo bem, é só um rato Rachel.” – Hanna tentava me acalmar. Mas não era apenas um rato, era algo maior.
“HANNA!” – Zoe gritou. Em reflexo, eu a empurrei para longe, fazendo aquela coisa vir totalmente para cima de mim.
Ainda bem que coloquei meu arco na frente, ou eu teria levado uma feia mordida no braço.
Dragger,era do que papai os tinha chamado.Bom,eu tinha um em cima de mim,que estava tentando me estraçalhar.
“RACHEL!” – Hanna percebia o que tinha acontecido. No processo em que a joguei para o lado na tentativa de protegê-la, acabou batendo a cabeça na parede e ficou tonta.
“ZOE, AJUDA ELA!” – Ela ainda parecia meio tonta e eu não tinha Zoe no meu campo de visão. Era melhor alguém fazer algo rapidamente, ou eu viraria comida de Dragger.
Senti algo se chocar contra a lateral do corpo daquela coisa e o peso se aliviar dos meus braços, rolei para o lado respirando pesadamente. Ainda não havia acabado, o dragger se dirigia para quem o tinha afastado de mim: Claire.
“CLAIRE!” – Ela tinha largado o bastão de Hanna, e agora se encolhia na parede, encarado aquela coisa. Ela não iria fazer mais nada, e eu temi por isso.
Algo cortou o ar e atingiu bem em cheio a cabeça do dragger,fazendo sangue espirrar por todos os lados possíveis.Fechei os olhos para que não fosse atingida.
Quando os abri, pude ver Zoe parada com uma espada enterrada na cabeça do dragger. Ela a puxou de volta e correu para Claire.
“Clary? Clary? Você está bem ?” – Ela analisava a garota de cima à baixo.Pude ver lágrimas e um sorriso se formarem em seu rosto. “Ah Clary, está tudo bem, já passou, você foi tão corajosa. Tudo bem Rachel?” – Fiz que sim com a cabeça, enquanto observava Zoe embalar Claire em seus braços.
“RACHEL!” – Hanna gritou e veio cambaleando em minha direção, mas consegui pega-la antes de cair.
“Para de gritar Hanna!” – Eu a alertava.
“Tudo bem com você” – Ela afastou uma mecha de cabelo do meu rosto, enquanto eu dizia que estava bem. “Por um momento achei que...” – Mas nesse instante, Matt e Rick entraram correndo pelo porão.
“O que aconteceu aqui?” – Matt olhava em volta, com seu rifle em punho.
“Viemos aqui para pegar o machado, o que parece não ser totalmente um.”- Olhei para Zoe e ela mostrou a espada. — “Mas uma daquelas coisas estava aqui e me atacou. Claire a afastou, mas logo em seguida ela se assustou, e se não fosse por Zoe...” – E ela abraçou, mais uma vez, Claire.
“E Hanna?” – Ele agora olhava para a garota loira em meus braços.
“Eu a empurrei, para afastá-la. Ela bateu a cabeça e ficou tonta, mas já acabamos com o problema.” – Eu dizia, enquanto Hanna me apertava em seu abraço desajeitado.
“Ér, Rachel... acho que o “problema” verdadeiro está lá fora.” – Rick estava na janela, onde se dava pra ver a rua. — “Acho que o grito que deram, atraiu a atenção deles.”
Soltei-me de Hanna e fui em direção a janela, o que vi fez meu estômago revirar. Centenas de draggers estavam parados, olhando fixamente para a casa, e alguns faziam movimentos como se farejassem o ar.
Eles começaram a dirigir-se para a casa, alguns batiam nas paredes, estavam tentando entrar e algo me dizia que nossa barreira de móveis improvisada, não iria aguentar por muito tempo. Estávamos ferrados!
“Estamos ferrados!” – Matt dizia, olhando para mim, enquanto esperava uma solução.
“É impossível sair com os carros, são muito deles.” – Eu fiz uma bela e desesperadora observação.Nosso Plano B já era.
“Podíamos tentar.” – Rick estava com medo, e isso era perceptível pela voz.
“Não dá, eles são muito. Suficiente para manter um carro parado. Não teríamos chance.” – Zoe se pronunciou.
Todos olharam para mim, esperando que eu inventasse um plano de fuga, mas a verdade é que eu não tinha nenhuma idéia do que fazer. Sentei-me no chão e comecei a chorar.
“Nós vamos morrer aqui. Sou um fracasso!” – Eu só pensava que não iríamos sair dali, e que eu não iria conseguir achar Ellisa Graham, muito menos salvar todos.
A salvação foi dada a mim e ela morreria comigo, eu era uma piada, sempre fui.
“Hey, Rachel, você não é um fracasso. Você foi a mais corajosa, se não tivesse ido me salvar, eu estaria morta agora.” – Hanna tinha sentado ao meu lado e me abraçava. – “Você é nossa líder, fomos corajosos, vamos lutar até o fim Rachel! E se tiver que morrer, morreremos juntos!”
“SIM!” – Todos disseram em uníssono.
Levantei-me e fui em direção a porta de entrada. Todos me seguiram, parei e puxei uma flecha da aljava, posicionei-a no arco, pronta para meu primeiro tiro.
Todos fizeram o mesmo: Matt empunhou seu rifle, Rick levantou seu taco, o mesmo fez Hanna e Zoe, com sua espada, posicionando Claire atrás de si.
Era a maior loucura, mas eram nossos corações e vidas em jogo, mesmo que não vencêssemos.
Olhei para Hanna, e meu coração deu um pulo, ela estava tão linda daquele jeito, séria, corajosa. Naquele momento senti algo no meu estômago, e não era o alicate.
Pela primeira vez me peguei imaginando se eu e Hanna poderíamos conviver tranquilamente algum dia, só eu e ela,sem draggers ou tristeza,apenas nós.
Ela olhou para mim e abriu um sorriso, ficamos nos encarando algum tempo.
Sim, eu poderia conviver com ela, quanto tempo fosse, e jurei bem ali, que se escapássemos, eu não a perderia, nunca.
Seríamos eu e ela.
Nós.
“Hanna...” – Mas eu não cheguei a falar o que queria, por que no mesmo instante ouvimos barulhos ensurdecedores como bombas e tiros. Durou talvez cinco, ou mais minutos, não sei.
Ficamos ali, parados, até a porta ser totalmente arrebentada por algum tipo de explosivo, que tivemos que nos proteger.
Quando finalmente virei o rosto, vi um homem, não muito mais velho do que eu, talvez uns 18 ou 19 anos.
Ele era alto, 1,80 de altura. Cabelos castanhos escuros e olhos terrivelmente verdes, mas não os verdes quentes de Hanna, mas sim verdes de um frio incomparável. Havia certo tipo de orgulho e maldade em seus olhos, e senti uma sensação esquisita.
Ele estava vestindo aquelas roupas de atiradores de elite, como em um filme que meu pai adorava assistir, tal de “Evil não sei o que’’. Possuía uma arma em mãos, e outras nos coldres.
Olhou algumas vezes em volta e nos notou ali, parados. Seus olhos foram diretamente para mim, e ele disse com uma voz um pouco grossa e rouca:
“Você é Rachel Carter?”– Fiz que sim com a cabeça –“ Ótimo,a Orbis nos mandou.”
“Quem são vocês?” – Eu perguntei.
“Somos o Esquadrão G.” – Ele disse.
Assenti com a cabeça.
“Sou Luke. Luke Gale.”
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