Perdidos em Vênus
2 I - Apresentando...
Notas iniciais
•D•
O desafio lançado na manhã de sexta-feira havia intrigado todos os estudantes do último ano de Peterson High, exceto um. Alex era uma pessoa misteriosa, corajosa e acima de tudo audaciosa. Gostava de enfrentar seus problemas da maneira mais complicada possível, atraindo a atenção daqueles que estavam em sua presença, um dos porquês de quase ter recebido uma expulsão no ano anterior. A adolescência confusa e cheia de paradigmas contribuiu para que Al, como seus amigos lhe chamavam, misturasse todos os seus sentimentos numa bola de neve e os empurrasse ladeira abaixo, indiferente a quem fosse esmagar. Talvez fosse esse o motivo pelo qual a pessoa mais problemática, mas ao mesmo tempo a mais misteriosa de seu bairro, movimentou a cidade inteira num desafio que ficou conhecido como “A busca do coração de Vênus”, mas essa é uma história que fica mais bem contada com o máximo de detalhes possíveis.
Na vida de Alex nada era coincidência, desde seus “acidentes” escolares a chamados parentais vindo de seu mau comportamento – como numa vez quê, ao descer as escadas para o térreo do colégio, empurrou seu próprio corpo contra o corrimão e simulou uma queda terrível, indo parar na enfermaria e ficando livre das aulas por uma semana — isso tudo porque havia planejado uma viagem com os amigos a Ohio, onde passaria cinco dias numa espécie de festival de música eletrônica. É evidente que seus pais não tinham ciência de suas aventuras secretas; não que eles não soubessem que a cria era o pivô dos problemas civis, mas a caçula da família, Luna, atraía a atenção dos responsáveis e sempre dava um jeito de cobrir os rastros do “pequeno probleminha”, o que lhe metia em algumas encrencas, mas concedia à garota a aprovação da pessoa que mais admirava. E quem era eu, que sabia tanto da vida de um alguém tão conhecido? Bom, ninguém de importante, pelo menos não por enquanto.
•A•
Amarrei os cadarços do meu Fall Star e pus minha melhor blusa – uma camiseta preta com uma grande rosa florescendo –, sempre preferi trajar um estilo mais íntimo e obscuro, nada que atraísse muito a atenção dos outros, o que por sinal ia contra a forma com que as pessoas me enxergavam. Passei minhas mãos entre os cachos rebeldes e os ajeitei levemente, fazendo com que caíssem sobre minha têmpora esquerda. Não queria que notassem que caprichei demais no visual, era pra ser algo básico e discreto, apenas bom o suficiente para prender os olhares de um garoto que estava de olho faz um tempo. Deixei a porta do quarto entreaberta após abrir o guarda-roupas, retirando uma grande boneca de pano feita à mão. Como de costume, coloquei uma touca de lã no ser inanimado e o vesti com um pijama velho, a boneca era estranha e tinha o tamanho de um adolescente comum, por isso sempre serviu como o disfarce perfeito. Ajeitei o corpo do chamariz em cima de minha cama e joguei meus lençóis sobre o pano velho; quem o visse de fora nunca pensaria quê, quem quer que estivesse dormindo naquele quarto, fosse um dos truques de Alex deMartel. Recolhi meus últimos pertences e atravessei o quarto com pressa, faltavam trinta minutos. A janela gasta já não era mais tão fácil de abrir – os feixes enferrujados dificultavam a abertura dos parafusos com uma chave de fenda, a única ferramenta que eu sabia usar –, mas é como diz o ditado: a prática leva a perfeição. Algumas voltas com o objeto foram o suficiente para que os pinos que trancavam a janela afrouxassem, fazendo com que a única coisa que me separasse das ruas de Vênus fosse uma queda de sete metros e meio. Felizmente, uma das minhas companheiras naquela casa estava sempre disposta a me ajudar, seu nome era Felícis, uma grande e antiga mangueira que provia frutas a toda vizinhança. Coloquei meus pés no parapeito da janela e me apoiei em sua parte superior. A distância de minha casa até Felícis era consideravelmente pequena, principalmente se for contar a partir do meu quarto. Estendi meu pé esquerdo até o galho mais próximo e respirei mais levemente ao sentir o tronco firme; já havia me acostumado a fazer aquilo, embora vez ou outra ganhasse alguns arranhões de presente. O passo final era relativamente arriscado, não que eu me importasse. Pressionei minhas mãos contra a parede descascada e empurrei meu corpo na direção contrária, me jogando sem medo contra a folhagem de primavera; a casca da árvore não era tão dura, e as muitas folhas ajudavam a amortecer o impacto do salto. Agora que pisava no tronco seco tudo ficava mais fácil – estendia meus braços e pernas em direção aos galhos inferiores, descendo cuidadosamente a cada passo que dava –, não levou mais de trinta segundos para que eu sentisse meus pés tocando o gramado fofo, estava feito.
•D•
A decoração da festa era bem... diferente. Estátuas e totens tribais podiam ser vistos por todo o local – a única fonte de iluminação vinha de tochas improvisadas, que permaneciam presas às cabanas de palha –, os organizadores haviam caprichado no Buffet; as mesas contavam com uma grande variedade de frutos do mar, vegetais, doces, carne, e muita, mas muita vodka com água de coco. O quintal da casa dos Gateway, uma das famílias mais ricas da cidade, era abençoado com um enorme lago privado, acompanhado por uma nada humilde casa que aparentava ser de veraneio, o lugar perfeito para dar uma festa de fim de inverno. Não que Sarah e Amber Gateway precisassem de motivo para esbanjar sua riqueza, pois sempre que sentiam vontade as irmãs se juntavam e deixavam a cidade “sem adolescentes”, pelo menos por uma noite. Os convidados? Nada mais nada menos que noventa por cento dos “descolados” de Vênus; sim, noventa por cento, pois se tinha uma coisa que os Gateway odiavam mais do que pobreza, era a escória da população. Eu estava bem no meio entre as duas classes sociais da cidade, nem popular demais nem invisível demais, apenas alguém que tinha alguns amigos e sabia de algumas coisas.
Saindo da garupa de uma Yuzuki recém-lançada, estava o destaque das festas do pequeno condado de Louisiana – seus cabelos negros e cacheados balançavam a medida em que o vento passava por seu rosto, concedendo-lhe um aspecto ainda mais poderoso, se é que isso podia acontecer. O figurino, embora simples, era conhecido o suficiente para fazer com que todos soubessem quem estava por trás daquela bela silhueta; roupas pretas com um toque avermelhado em destaque, a marca oficial de Alex deMartel. Como sempre acontecia quando chegava nos lugares, Alex receba cumprimentos de senão todos, uma boa parte dos alunos de Peterson High, parecia uma daquelas estrelas de Hollywood desfilando no tapete vermelho, exceto pela parte da estrela e do tapete vermelho. Poucas pessoas notavam o pouco de tolerância que Al carregava no olhar, sair dando ‘oi’ para todos nunca foi uma coisa que lhe agradou, mas era um dos fardos que tinha de carregar se quisesse manter seu título de Pilar da Sociedade Juvenil. Poucos minutos depois de sua chegada eram o suficiente para retirar aquele belo sorriso de seu rosto, pois apesar de ser bastante amigável, se tinha uma coisa que Alex não suportava era ficar perto de gente falsa, e se contava de dedo quem dessa festa não tinha essa característica peculiar. Já sentada em um banco de madeira natural, próxima às águas do Lago Gatessipi, olhei para o até então lugar vazio que restava do meu lado, espaço que havia acabado de ser ocupado por nada mais nada menos que a pessoa mais interessante do meu ciclo social, a estranha e envolvente presença de Alex.
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