Perdidos.
3 Ele salvou a minha vida
Notas iniciais
Julie já chegou a essa conclusão, que Daniel estaria apaixonado por ela. Mas descartou, não faria nenhum sentido. Ele sempre a detestou, sempre discutiram e ele quase nunca consegue ser seu amigo... '' Você não serve para ser cantora de rock. '' — Lembrava das palavras dele para ela, e das diversas vezes que discutiram. '' Eu nunca sentiria nada por você... '' — A vez em que os dois começaram a se dar bem. E ele revelou que não gostava dela, que jamais sentiria nada por ela.
– Nicolas. — Balançou a cabeça. — Você não conhece o Daniel como eu conheço. — Alisou o rosto do namorado. — Não precisa sentir ciúmes dele, tá? Ele não é apaixonado por mim.
– E como tem tanta certeza? — Emburrou a cara. — Ele me assombrou, me fez dizer coisas horríveis para você...
– Eu tenho certeza que ele não gosta de mim. Ele nunca demonstrou. — Disse com tanta certeza que fez Daniel abaixar a cabeça e encarar o chão. Talvez se ele demonstrasse teria alguma chance de ser retribuído.
– Viu! Ele gosta de você.
– Porque insiste nisso?
– Porque ele nunca demonstrou. — Julie o encarou sem entender. — Julie! Acorda! Acha que ele ia demonstrar? Do jeito que é orgulhoso... E também, ele é um fantasma, ele sabe que nunca teria chances com você.
– ... — Juliana não sabia como rebater, não tinha pensado assim antes.
– Ele é um morto. — Riu. — Um morto com uma viva nunca iria dar certo. — Continuou rindo, mas a namorada estava séria, não achava graça naquilo.
Daniel se controlava para não enforcar o Nicolas, não o suportava e não conseguia suportar o deboche.
– Tá Nicolas, encerrou o assunto. — Disse a menina, ainda corada, queria mudar o rumo da conversa, afinal, ela tinha uma sensação de que estava sendo observada. — Agora é sua vez de me contar. Qual é a surpresa?
Ele sorriu. — Amor, já estamos a quase quatro meses juntos. E eu queria algo muito especial para comemorarmos isso. — Julie ergueu a sobrancelha, começava a entender.
– Nicolas. — O olhou. — Você não está pensando em... A gente... — Não conseguia falar, estava nervosa.
– A gente ter nossa primeira vez? É exatamente isso. — Ela estava calada. — E então? O que acha?
– Acho... Acho... Le-gal.
– Ótimo. — Carinhou o rosto da menina, Julie estava um pouco tensa com a revelação. — Eu sabia que você ia aceitar, você me ama. — Beijou seus lábios.
Daniel já não se aguentava, aquilo foi a gota d'água para ele. Ele sabia que Julie não gostou da ideia, mas mesmo assim aceitou. Ele estava com raiva, na época dele, nos anos 80, os namoros não era assim.
Não pensou duas vezes antes de aparecer para ela, Julie arregalou os olhos e antes de Nicolas fazer qualquer coisa, levou um chute forte na barriga, ele caiu do tronco na árvore, ficou caído no chão, se contorcendo de dor. Assustada, a garota se levantou e foi ajudar o namorado, enquanto Daniel só assistia, ainda visível. Nicolas não se aguentava de dor, estava até de olhos fechados. — Nicolas! Você está bem? — Sacudia o namorado, até que viu Daniel se afastar, entrando em uma outra trilha, uma trilha estreita e estranha. — Daniel! — Gritou, deixando Nicolas de lado, se levantou e foi atrás do fantasma.
Daniel caminhava sem se importar para onde estava indo e para onde ficaria. Ele só queria ficar só, tentar esquecer de uma vez a humana.
Ouviu os gritos da Julie, ouvia a menina gritar por seu nome, mas continuou andando. Pensou até em ficar invisível, mas... No fundo ele estava gostando de se seguido por ela. É claro que ele ainda estranhava aquilo tudo: '' Ela deixou o namorado caído no chão só para vir atrás de mim... ''
– Daniel! Pare! Por favor! — Ela já estava quase o alcançando.
Mas Daniel era um orgulhoso, não pararia nem se quisesse. Continuou entrando no meio da mata. Tentava prestar a atenção onde pisava pois o lugar ali era um pouco perigoso, era alto, como se fosse uma montanha, a terra não era muito forte e poderia desabar algum pedaço. — Dani. — Conseguiu segurar a mão fria dele. O rapaz se virou e seus olhos se encararam.
Ele sentiu uma grande onda de tristeza invadir seu coração, ele sabia que esses olhos castanhos que o hipnotizavam jamais se apaixonaria por ele. — Me solte. — Disse grosseiramente e voltou a andar. Julie continuava atrás dele, ela sabia o quanto Daniel era orgulhoso, e com esse orgulho poderia fazer de tudo.
Ela via o fantasma se afastar, olhou em sua volta, as árvores altas tampavam a luz do sol, deixando o lugar escuro e assustador. Sentiu um frio na espinha e correu atrás dele.
A menina acabou pisando em falso, Daniel apenas ouviu seu grito e se virou. Não viu mais ela ali, atrás dele. Estranhou.
Julie havia escorregado. — Daniel! Me ajuda! — Ela gritou, segurava a raiz da árvore, sem olhar para baixo. Estava prestas à cair, assim como a árvore que segurava.
Daniel se aproximou, procurando Juliana. Ela gritou novamente e ele viu que a menina estava pendurada, prestes a cair.
Por fora a olhou com indiferença, mas por dentro estava tão assustado quanto ela, jamais se perdoaria se algo acontecesse com sua Julie. — Daniel, por favor, me ajuda. — Ela sussurrou, já fraca, sua mão escorregava, faltava pouco para ela não se soltar da raiz da árvore e cair dali.
Sem dizer nada, o fantasma se abaixou, se apoiando na terra molhada, a terra fraca que estava prestes a desabar também. — Me dê sua mão! — Disse esticando a sua.
Julie estava nervosa, olhou para baixo e viu o quanto aquilo era alto, poderia morrer. Ou até mesmo ser levada pela correnteza do riacho lá em baixo. — Estou com medo. — Disse com uma voz chorosa.
– Eu te puxo! — Ele se apoiava ainda mais na terra que já começava a esfarelar e cair nos olhos da garota.
Com dificuldade, ela esticou sua mão. Daniel conseguiu segura-lá, mas não sabia se iria conseguir ergue-lá. Sua amada estava entre a vida e a morte, e só quem controlava isso era ele.
Estava tenso, fazia força para ergue-lá, mas Juliana não tinha onde se apoiar para ajuda-lo. Ela encontrou um buraco e tentou encaixar seu pé ali para ganhar impulso, mas assim que se ajeitou, o pedaço de terra acabou desabando. Seu pé estalou com força, sentiu uma dor aguda mas na hora isso não importou. — N-não me solta. — Disse trêmula para o rapaz.
– Porque acha que eu iria te soltar, Julie? — Ela não respondeu, apenas pensou ''Porque me odeia...''. Fechou os olhos, deixando uma lágrima de medo cair sobre seu rosto, até que sentiu seu corpo ser erguido.
Abriu os olhos, ela estava sobre o corpo do fantasma, que segurava suas costas e cintura. Ele conseguiu ergue-lá para o solo. Puxou seu corpo, junto ao seu, e a tirou do perigo, pois aquela parte poderia desabar. A respiração da humana estava acelerada, a adrenalina a mil. Daniel tentava controlar a tensão e fingir que nada aconteceu. Tirou suas pernas de cima do corpo dela. Queria perguntar se ela estava bem, se estava ferida, mas seu orgulho não deixava. Ele se levantou. Agora Juliana sentia a dor no pé. — Levanta logo. — Disse já se afastando.
– Torci meu tornozelo. — Disse, fazendo com que Daniel parasse, ainda de costas para ela. — Não consigo andar. — Completou.
– O que está pensando?! A-acha que porque eu te salvei vou te carregar? — Se virou. Viu que Juliana realmente sentia um desconforto no tornozelo. — Hum, dê o seu jeito, ande sozinha, se apoie nas árvores... — Voltou a andar. Deixando a menina ali.
A cada passo sentia a culpa consumi-lo. Não ia se sentir bem deixando Julie ali.
Ele se virou, voltou em direção dela. Se olharam.
Daniel se agachou. Timidamente, a menina passou sua mão pela nuca do rapaz enquanto ele segurava suas pernas e costas. Julie olhava para os lados, ainda sendo carregada pelo fantasma. O lugar era tão silencioso que assustava. E era assim que ela se sentia.
Afundou a cabeça no peito do rapaz, estava com medo de algum bicho ataca-lá. Estava com tanto medo que nem percebeu que arranhava o peito de Daniel. — Dá pra parar? — Ele pediu. Julie o olhou.
– D-desculpe. — Daniel continuou andando. — Sabe para onde está me levando?
– Mais é claro. — Ele respondeu com um ar de superior. Porém, no fundo, Daniel não tinha tanta certeza assim. Tinha vários caminhos diferentes, várias trilhas estreitas.
Passou-se meia hora, Daniel continuava carregando a menina. Andavam em círculos e depois de passar pelo mesmo caminho três vezes, Daniel deixou Juliana sentada no chão. Estava cansado de carrega-lá. — O que foi? — Ela perguntou com a cabeça levantada, o fitando.
O fantasma passou a mão por seus cachos, olhando em sua volta, reconhecia aquele lugar de tanto dar voltas em círculos. — Estamos perdidos, Julie.
Notas finais
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