Perdido em outro mundo
20 Fora de controle
Notas iniciais
Severo Statham observou, impassível, Harry Potter ser arrastado para fora do gabinete do Primeiro-Ministro.
Permaneceu de pé no centro da sala, o rosto livre de expressões, ainda que em seu íntimo estivesse consternado. A situação fugira inteiramente de seu controle.
Quando decidiu começar a investigar os Parker, há dois dias, tudo o que queria era descobrir a verdade, tomado por uma vontade irrefreável de se envolver na vida de Lílian. No entanto, quando a oficial Campbell informou que o garoto saíra meio escondido para se encontrar com Alfonso Dumberton e que deixara a casa do físico carregando um livro ilegal, Statham soube que havia algo mais acontecendo.
Ele então viu uma boa oportunidade para se vingar de Tiago Parker.
Parker assistira os policiais pegaram Harry e levara um soco bem merecido no meio da cara de sonso antes de ser preso também. Já na cela, recebera a surra de boas-vindas, algo que era de praxe na prisão.
Statham iria interrogá-lo pessoalmente assim que terminasse com o garoto.
Aquela seria a revanche que aguardara durante anos e o destino de Parker já estava traçado. Statham iria interrogá-lo, condená-lo e sumir com Tiago de uma vez por todas. Ninguém nunca mais iria ouvir falar dele de novo. Nunca!
Quanto ao garoto, Statham possivelmente iria soltá-lo ao fim de tudo. Só precisava jogar a culpa toda em Tiago e o menino estaria livre. Já fizera aquilo para evitar que Lílian fosse presa, e podia fazer de novo. Aquela era uma das vantagens de seu trabalho: a verdade é única, mas ele podia decidir o que viria à tona ou não.
E ainda que não tivesse muitas esperanças, Statham não podia deixar de pensar que, sem Tiago por perto, talvez ele ainda pudesse ter alguma chance...
Mas todos os seus planos haviam sido arruinados!
A partir do instante que o Primeiro-Ministro interveio, Statham perdera toda e qualquer autoridade sobre aquele assunto. Harry estava sendo levado sob à tutela de outro, Parker não podia mais sofrer qualquer dano permanente e agora, sem dúvidas, Lílian também devia ser mantida em confinamento.
Aquilo fazia o estômago de Severo afundar e ele sentia-se impotente. Todavia, esforçava-se para parecer tranquilo diante do Primeiro-Ministro, e quando falou, sua voz soou inflexível:
— O senhor deseja falar comigo, Primeiro-Ministro?
— Sim, Severo. Sente-se, por favor.
Statham obedeceu.
O Primeiro-Ministro também voltara a sua habitual expressão acolhedora. Nem parecia que a pouco, fizera um discurso amoral, para não se falar lunático, à um garoto de dezesseis anos.
O ministro Thomas Ryder rodeou a mesa e se sentou em sua poltrona, ao mesmo tempo que Statham se acomodava na cadeira que Harry Potter acabara de deixar. O oficial ergueu os olhos para o homem atrás da mesa e esperou. Ryder lançou-lhe um sorriso afável em resposta.
— Severo — começou o Primeiro-Ministro —, em primeiro lugar quero lhe agradecer pelo serviço prestado..
— Senhor?
— Sem sua colaboração, jamais teríamos tomado conhecimento desta situação — afirmou Ryder, com satisfação. — Eu sempre soube que você era perspicaz. Por isso seu trabalho sempre tem excelentes resultados.
— Obrigado, senhor — agradeceu.
Statham, contudo, não se sentia nada grato. De realidade, o comentário o deixara desconfortável.
— Em vista disso, Severo — continuou o Primeiro-Ministro — gostaria de oferecer-lhe ma promoção.
— Promoção? — repetiu Statham, mais espantado do que contente.
— Isso mesmo. Tem prestado um ótimo serviço em seu departamento e não é a primeira vez que sua investigação gera frutos inesperadamente úteis ao Ministério. Mas, principalmente, você é mais inteligente que a maioria dos outros oficiais, e espero que seja mais esperto que seu antecessor.
— O que aconteceu com ele?
— Aparentemente, ele passou a acreditar que seu salário e os benefícios de seu cargo não eram suficientes e decidiu que seria muito lucrativo vender segredos de Estado à Germânia — o Primeiro-Ministro suspirou. — É uma pena que o dinheiro não lhe servirá de nada no lugar onde está agora.
Statham concordou. O tal oficial devia estar à sete palmos debaixo da terra naquele momento ou em alguma cela bastante parecida com um buraco de uma cova.
— Precisamos de um substituto que não seja susceptível à este tipo de erro grotesco. Você se encaixa neste perfil, Severo? — indagou o Primeiro-Ministro com um olhar penetrante.
— Sim, senhor — Statham apressou-se a responder.
— Ótimo. O cargo que ofereço é de Chefe do Departamento de Inquéritos. É um posto regional, sob às ordens do Ministério da Justiça.
— E em que região?
— No Norte. Em Oslo.
— No continente? — exclamou Statham, deixando transparecer uma pontinha de desapontamento.
— Algum problema?
— De forma alguma — emendou ele depressa.
— É um excelente cargo, devo dizer. Ficará responsável pela administração de todo um distrito. Recebera um salário e benefícios bastante satisfatórios. A menos que seja tão ganancioso quanto o oficial anterior, mas creio que já sabe que isso não seria muito prudente — o Primeiro-Ministro sorriu. — Então, o que me diz?
Statham hesitou um instante, antes de responder.
— Você não parece nada animado com a oferta — observou o ministro. — Há algum motivo para recusar o cargo?
— Não, senhor — respondeu Statham abruptamente. — Não há nenhum empecilho. Fico muito lisonjeado e aceito a cargo. Obrigado, senhor.
— Era isto que esperava ouvir. Você partirá dentro de uma semana.
— Sim, senhor — concordou Statham, entendendo que havia sido dispensado. Ele se ergueu, despediu-se formalmente e seguiu para fora da sala, fechando a porta atrás de si ao sair.
Mesmo que fosse um Inquisidor competente e achasse o trabalho relativamente interessante, Statham sempre desejara uma promoção. Achava que merecia, afinal de contas. Era um oficial comprometido, hábil e mais escrupuloso do que seus colegas. Portanto, se alguém tinha de ganhar cargo prestigiado, esse alguém era ele.
Entretanto, não conseguia ficar feliz.
Jamais havia cogitado deixar a ilha central, nem uma vez. Sua família sempre vivera ali, e todas as pessoas que gostava — na verdade, gostava apenas de uma.
Embora houvessem se afastado a muito anos e Lílian tivesse construído uma vida própria, Statham não conseguia deixar de pensar nela quando precisava decidir alguma coisa importante. Sabia bem que as chances de se reconciliar com ela eram mínimas, mas procurava sempre manter uma margem para aquela ínfima possibilidade.
Morando na mesma ilha que ela aumentavam suas oportunidades, muito mais do que colocar um mar de distância entre os dois.
"Não que faça muita diferença à esta altura", pensou Severo, com amargura enquanto descia as escadas até o andar térreo.
Statham tinha um salva guardas enquanto dispunha de Harry Potter. Se o entregasse mais ou menos inteiro à Lílian, ela talvez pudesse perdoá-lo pelo "inconveniente" de desaparecer com Tiago. Contudo, ele perdera o garoto.
Àquela altura, os oficiais Turner e Alissa Campbell deviam estar escoltando-o de carro até Baltazar Crowler e Statham deixara de ter qualquer autoridade sobre ele. Todo o seu planejamento desmoronara inteiro e não havia mais nada a se fazer.
O que diria à Lílian agora? Ela já estava brava, e depois disso ficaria possessa!
"Quer saber? Que se dane!", pensou Severo com desgosto. Talvez aquilo tudo fosse o estopim para que abandonasse a esperança de vez e seguisse em frente.
Atravessou o hall de entrada à passos largos e, quando chegou a porta, o guarda a abriu para que saísse. Ele pisou na calçada gelada e respirou fundo o ar frio, sentindo-se estranhamente vazio.
O que faria na vida senão amar Lílian?
Imaginou que teria de encontrar outro propósito dali em diante, enquanto fazia sinal para um dos carros oficiais estacionados ali perto. O veículo estacionou a sua frente e ele estava prestes a entrar quando viu uma estranha movimentação.
— O que terá ocorrido desta vez?
* * *
Harry estava novamente algemado na parte traseira de um camburão escuro, tendo Campbell e Markov como companhias, em uma cena que já estava ficando cansativa.
A situação, que até então era surreal, tomara proporções bizarras e horríveis.
Uma versão horrível de Tom Riddle governava o país e usava o caos da guerra em proveito próprio — para não mencionar as vantagens que as cópias baratas de Lúcio e Belatriz não deviam estar recebendo. Será que aquela gente não prestava em qualquer realidade?
E agora estava sendo levado para um lugar desconhecido, para algum outro Comensal da Morte tão pirado quando aquele psicótico que lhe arrancara as unhas. Contudo, se aqueles idiotas achavam que Harry iria facilitar desta vez, estavam muito enganados.
Após descobrir com quem estava lidando, o garoto não precisava ter mais cautela nenhuma. eram pessoas desvairadas e ele precisava fugir à qualquer preço. Depois tinha de esconder a Sra. Parker e, em seguida, achar o Sr. Parker e resgatá-lo.
Já estava decidido, com apenas um pequeno problema: Como faria tudo aquilo?
Harry deixou escapar um suspirou desolado. Foi quando algo aconteceu, abrupta e surpreendentemente.
O camburão sofreu um impacto monstruoso. Campbell, que estava a frente de Harry, foi projetado para frente, arremessado sobre o garoto, ao mesmo tempo que a lateral do camburão se inclinava perigosamente. Markov e Harry sentiram um solavanco absurdo e a foram lançados para trás, batendo na parede de metal às suas costas com um impacto estrondoso.
O que ocorreu em seguida foi difícil de entender: uma bagunça de pés, cotovelos e quepes voando de um lado para outro. Dor, confusão e uma escuridão esmagadora.
Precisou de alguns instantes para que Harry entendesse que era o peito de Campbell que estava e cima de sua cara, esmagando-o. O oficial desmaiara sobre ele.
Com as mãos algemadas para frente, o garoto moveu os braços e fez força para empurrar o grandalhão para o lado, mas como era demasiado enorme, só conseguiu movê-lo o suficiente para livrar o rosto e poder respirar.
Viu então Markov ao seu lado, meio zonzo e, fazendo força para erguer o corpo. Foi quando Harry notou pela posição deles e da porta que o camburão estava tombado de lado.
— Mas que merda foi essa?! — praguejou o oficial tentando se levantar com dificuldade, esfregando a parte de trás da cabeça, onde havia batido.
Quando estava quase de pé, alguém sacudiu a porta, forçando-a para que abrisse.
— É você, Turner? — indagou Markov, com raiva. — Que diabos aconteceu, porra?
A porta se escancarou de súbito. Todavia, não era a silhueta de Turner parada ali.
— Mas que...? — Markov fez um movimento para sacar a arma, mas antes que pudesse pegá-la, foi acertado bem no meio da testa por uma coronha de espingarda. Ouviu-se um baque surdo e ele caiu de lado, inconsciente.
O vulto de um homem entrou no carro e arrancou Campbell de cima do garoto com um grunhido de esforço, atirando-o de lado como uma boneca de trapos.
— Você está bem? — perguntou, ao ajudar o garoto a se levantar.
Harry Potter ergueu os olhos depressa para o homem parado à sua frente e soltou uma exclamação de surpresa:
— Moody?
— Quieto, moleque! — rosnou ele, entre os dentes. — Venha comigo, rápido!
Harry tentou olhar para o rosto do homem, mas tudo o que viu foi uma mascara de lá preta que deixava apenas seus olhos de fora. Todavia, reconheceu a voz de Moody. Tinha certeza que era ele — ou pelo menos a versão dele daquele mundo
Moody se abaixou, agarrou o braço do rapaz com a força de uma tenaz e o içou para cima com um puxão brusco. Harry sentiu o aperto no bíceps com uma careta de dor, mas este foi o menor dos desconfortos, pois ao se erguer, foi acometido por uma tonteira súbita e sua cabeça latejou. Ele sentiu algo quente e molhado no lado do rosto e percebeu que seu corte voltara a sangrar.
Saltando para fora do camburão, Harry pode ver o estrago que havia sido feito.
O blindado da polícia se encontrava tombado sobre a calçada, com um grande amassado na lateral que se mantinha para cima. Do lado, havia um grande caminhão, com a frente caindo aos pedaços, depois da colisão. O que acontecera era óbvio: o motorista da carreta batera propositalmente no camburão com o intuito de desgoverná-lo.
Aquilo não pareceu um bom plano para Harry, afinal, todos os ocupantes de ambos os carros poderiam ter morrido no impacto.
— Esse realmente foi um plano podre, Morgan! — disse uma voz familiar, traduzindo em palavras os seus pensamentos.
— É você, Sirius? — indagou Harry, ainda mais espantado, ao ver outro homem também mascarado sair de trás do caminhão, balançando a cabeça para o estrago.
— Não diga meu nome alto — respondeu ele, confirmando as suspeitas do garoto. — Viemos resgatá-lo, Harry...
— E agora que já o fizemos — interveio o Morgan encapuzado —, é hora de dar o fora daqui. Vamos!
Ele começou a correr para longe da batida e Sirius o imitou. Harry estava prestes a segui-los, quando olhou para a cabine do camburão e se lembrou de uma coisa importante.
Sirius já tinha alcançado o outro lado da rua quando olhou para trás e viu Harry escalando a cabine do camburão tombado.
— O que está fazendo?! — indagou ele, com um berro abafado pela mascara.
— Só um instante!
Harry tinha acabado de subir o carro e estava tentando forçar a porta, quando escutou os passos de Sirius se aproximando correndo.
— Temos de ir agora! A polícia logo estará aqui!
— Tenho de pegar minhas coisas! — explicou, desistindo de forçar a porta e metendo o pé no vidro trincado da janela para abrir passagem.
— O QUÊ?! — exclamou o homem. — Deixe essa tralha para trás!
— Não Posso! É importante...
O vidro enfim cedeu e Harry se espremeu de maneira meio torta pela janela quebrada.
Ambos os oficiais estavam desmaiados, os corpos inconscientes presos aos cintos de segurança, suas cabeças pendendo em direção ao chão. O nariz de Campbell estava quebrado e seu rosto exibia várias lacerações. Turner estava ainda pior, com um sangramento pelo ouvido bastante preocupante.
Apesar dos dois serem policiais a serviço do Primeiro-Ministro Ryder, Harry não pode deixar de lamentar a situação deles. Torceu para que uma ambulância chegasse rápido para ajudá-los, bem como os outros dois oficiais que deixara feridos na parte de trás do camburão. Eram pessoas, apesar de tudo.
Foi com este pensamento que Harry deslizou metade do corpo para dentro da cabine, e foi delicado ao empurrar da cabeça de Alissa para trás, abrindo espaço para que chegasse ao embrulho de papel preso entre o suporte do painel e o cambio de marchas do carro. Ao agarrar o pacote, ele teve a certeza de se tratava do pesado livro de magia que o Prof. Dumberton lhe emprestara e que Campbell arrebatara de sua mala.
Harry o segurou com uma das mãos, e com a outra ele retrocedeu com dificuldade para fora da cabine.
— Se já pegou o que queria, vamos sair daqui!
— Ainda falta mais uma coisa
— Você enlouqueceu por acaso?! — gritou Sirius, enquanto Harry entrava novamente no carro.
Mas desta vez, o objetivo de Harry estava bem mais difícil de alcançar: a caixa com a Pedra Elisiana escapara da mão da oficial Campbell e se encontrava caída ao lado do corpo do oficial Turner, bem entre o volante e a porta rente ao chão. Harry tentou entrar mais para pegá-la, mas assim que sua cintura passou pela janela, ele ouviu o barulho de sirenes de emergência se aproximando. A polícia e a ambulância estavam chegando.
O garoto estendeu mais o braço e fez força para se esticar em direção àquela caixa, mas sem sucesso. Tentou entrar mais, porém, o som de sirenes foi ficando cada vez mais alto e, de repente, ele sentiu a vibração de passos ao lado de suas pernas e, sem que esperasse, uma mãos o agarrou pelo cós da calça e o arrancou dali.
— Vem logo! Eles estão vindo! — bradou Sirius tirando-o do cabine e impelindo-o para fora do carro, antes de apanhar o pacote e pular atrás do garoto, disparando pela rua afora. — Corra!
Harry ouviu as sirenes cada vez mais altas e, sem olhar para trás, seguiu ao encalço de Sirius à pressas.
Algumas pessoas haviam se aglomerado nas calçadas e observavam a cena estarrecidas, com a boca aberta de espanto, enquanto Morgan, ainda usando uma máscara, acenava para Harry e Sirius em uma esquina próxima.
— Por aqui! Por aqui!
Antes que pudessem parear com ele, o homem tornara a correr. Harry reparou que não mancava, portanto, não devia ter uma perna de madeira como o Moody em seu mundo. Muito pelo contrário, desaparecera na esquina com uma agilidade impressionante, obrigando os outros dois a apertar o passo.
Eles o seguiram pela rua comprida, esbarrando umas duas vezes em alguns grupinhos de cidadãos desatentos que paravam para observar a cena confusa. Harry estava começando a achar aquela fuga a pé muito mal elaborada quando, sem mais nem menos, um carro preto de quatro portas surgiu desgovernado mais a frente.
O veiculo desacelerou para que Morgan tivesse tempo de abrir a porta e saltar para dentro e acelerou novamente até alcançar os outros dois cúmplices, dando uma guinada repentina que terminou em um fantástico "cavalo de pau" bem no meio da rua.
— Caramba! — exclamou Harry arregalando os olhos.
— Entrem logo! — ordenou Morgan.
Sirius e Harry pularam para dentro do carro, lançando-se de qualquer jeito no banco traseiro.
— Pé na tabua, Elisadora!
— Me chame, Brooks! — corrigiu uma mulher também encapuzada, cuja voz era idêntica a de Tonks.
— VAAAI!
O berro de Morgan ressoou acima das sirenes dos carros de policia, bem no momento em que dois deles surgiam correndo bem na esquina. Brooks viu-os pelo espelho retrovisor e meteu o pé no acelerador, fazendo os pneus cantarem, uma fumaça preta subir do asfalto e o carro sair desembestado pela rua de onde viera.
— Se segurem aí, pessoal! — mandou a jovem, fazendo uma curva fechada à esquerda, enquanto todos deslizavam pelos bancos do carro em direção às portas. Atrás deles os carros fizeram o mesmo e aceleraram mais, tentando interceptá-los.
Brooks então girou o carro para a direita de repente, seguindo por uma rua mais movimentada, desviando aqui e ali de alguns poucos carros estacionados e alguns pedestres que transitavam nas ruas aquelas horas. Harry deu graças aos céus por haver tão pouco movimento na cidade, pois se tivesse tanto quanto na Londres de seu mundo, varias pessoas já teriam sido atropeladas.
O carro desviou para a direita, depois esquerda, esquerda novamente e depois direita num zigue-zague frenético. E quando as coisas pareciam não poder ficar mais tensas naquela perseguição, o vidro traseiro se partiu. Harry deu um grito:
— Eles estão atirando na gente!
— Ah, que droga! — gritou Brooks, em resposta. — Esse carro nem é meu!
Ela acelerou mais e o motor roncou com verocidade.
O carro fez uma curva fechada e eles foram impelidos por mais estreita e com menos tráfico. Um segundo tiro acertou o espelho lateral de Brooks.
— Para o inferno, que dois podem jogar este jogo! — bradou Morgan.
Harry observou-o se abaixar e apanhar aos seus pés. Ao se erguer, o garoto viu que segurava uma espingarda.
— Uma arma? Vai atirar neles? — inquiriu, em tom de desaprovação, ao mesmo tempo que um tiro acertava a lataria do porta malas.
— Não vou só atirar... — rebateu Morgan com um olhar faiscante em seus olhos escuros, as únicas partes visíveis em seu rosto. — Vou acertar esses desgraçados!
Morgan engatilhou a arma e, colocando metade do corpo para fora, deu um tiro na direção de um dos carros da policia. O primeiro tiro não acertou, mas o segundo pegou bem no meio do para brisas, deixando-o com uma buraco enorme.
— Querem mais? — gritou Morgan, mirando de novo. — Eu tenho muito mais aqui!
E atirou novamente, e desta vez o tiro pegou no espelho lateral do lado carona.
— Olho por olho! — Brooks riu, acrescentando. — Isso até tão emocionante!
— Você só pode estar brincando! — retrucou Harry, com a voz mais aguda do que o normal, ao mesmo tempo que outros dois tiros acertavam a lataria do carro, obrigando-o a se abaixar no banco.
Morgan atirou novamente e desta vez acertou bem na roda dianteira do primeiro perseguidor, fazendo o veículo perder o controle, subir na calçada e capotar. A passagem para o segundo veículo foi obstruída.
— É isso aí! — comemorou Brooks, enquanto Morgan voltava para seu banco, com um sorriso enviesado e esticava a mão para o porta-luvas, de onde tirou uma caixa de munição. — É assim que se faz, velho!
— Não me chama de velho! Eu só tenho... CUIDADO!
Um outro veículo da polícia surgira de repente de uma rua lateral e se lançara sobre eles com ímpeto, obrigando Brooks a desviar com um gesto brusco e subir na calçada. Os pedestres gritaram e fugiram, muitos deles correndo para dentro das lojas ou se espremendo contra as paredes dos prédios. O automóvel seguiu assim pela quadra inteira, até que atropelou uma barraquinha de frutas, lançando maças para todos os lados.
— Ixiii! — exclamou Brooks.
— Mas onde aprendeu a dirigir? — questionou Morgan, segurando-se no banco, com os olhos arregalados.
— Com você, ué? — rebateu ela, girando o volante e descendo da calçada.
— O papo está bom, mas será que dá para despistar esses caras logo? — disse Sirius, com impaciência, seus olhos redondos de espanto.
— Tá, tá... eu já sei. Se segurem aí!
Brooks meteu o pé no acelerador e o carro avançou em alta velocidade pela rua. Atrás deles, outro carro se juntara a perseguição e agora havia dois deles em sua cola. Harry notou o olhar decidido de Brooks mirando os veículos pelo retrovisor. Por um instante, no entanto, ele pensou ter visto uma leve movimento para cima naquela linha dos olhos e imaginou se ela estava sorrindo...
Foi neste momento que ela deu uma guinada para a esquerda e eles foram todos arremessados para a direita. Harry caiu sobre Sirius e Morgan precisou se segurar no banco para não voar pela janela. O pneu cantou com a curva fechada e os carros da polícia quase não conseguiram segui-los.
Brooks continuou dirigindo loucamente pela ruas. Curvas fechadas, na contramão, sobre as calçadas. Os passageiros escorregavam pelo banco toda hora, tornando difícil para Morgan recarregar sua arma, mas por fim ele conseguiu.
— Sirius, tome! — disse, lançando um revolver muito grande para o colega.
— Já não era sem tempo — falou ele, agarrando a arma e a engatilhando. — Fique abaixado, Harry!
Sirius girou o corpo, apoiou o braço no banco e descarregou a arma no carro atrás deles. Os tiros pegaram no para-brisa e o motorista foi obrigado a desviar, mas não foi uma boa ideia, pois o carro acabou atravessando a rua e indo direto para um poste.
O segundo perseguidor tomou seu lugar, desta vez preparado. Olhando por cima do ombro, Harry viu a arma sendo colocada para fora da janela e o perseguidor atirou. Morgan também já estava pronto. Colocou o corpo para fora e apertou o gatilho da espingarda com vontade.
A troca de tiros foi intensa.
Brooks ainda dirigia como uma lunática e a polícia se mantinha atrás dela tão perigosamente que Harry imaginou que todos seriam condenados não por terem o ajudado a fugir, mas por saírem por Londres destruindo tudo em seu caminho.
Foi neste instante que Brooks deu um grito.
— Segurem-se!
Um carro da policia aparecera do nada à frente seguia direto para eles também atirando. Um tiro varou o para-brisa do carro e acertou o banco de trás, bem entre Harry e Sirius. Brooks acelerou e foi direto ao seu encontro, os tiros ainda batendo na lataria do capo.
Ela pisou no pé do acelerador com força, e faltando poucos metros para colidir direto com o outro, ela desviou. O carro em que estavam arrancou o retrovisor lateral do carro da polícia, e Brooks precisou de destreza para recuperar o controle do volante.
Harry observou o carro passar direto por ele, viu os homens lá dentro, mas não reconheceu nenhum rosto. Viu o veículo frear e uma fumaça preta subir do asfalto, e viu o carro que os perseguia repetir a manobra ao mesmo tempo que tentava evitar desviar do outro. Aquilo não impediu o impacto e os dois automóveis bateram quase de frente, peças e pedaços de metal voando para todos os lados.
— É agora, Brooks! Tira a gente daqui!
— Pode deixar!
Brooks guiou os veículo como se o mundo estivesse acabando às suas costas.
Eles seguiram pelas ruas à toda a velocidade. Mas ao longe, Harry ainda podia ouvir as sirenes da polícia aproximando-se, à procura deles.
Saíram do centro e avançaram para os bairros mais tranquilos, com ruas menos movimentadas. Harry não sabia mais onde estava.
— Estamos chegando ao ponto marcado, Sirius — anunciou Morgan.
— Ótimo — respondeu ele. — Lembrem-se do plano: escondam o carro na depósito, troquem de carro e desaparecem da cidade.
— Já sabemos. Boa sorte — disse, virando-se para apertar a mão de Sirius. — E nós não vamos parar.
— Entendi — Sirius se virou para Harry. — Eles só vão desacelerar o suficiente para saltarmos correndo. Eu vou na frente e você me segue.
— Certo — concordou o garoto, sem estar certo de nada.
— Até qualquer hora, pessoal — despediu-se Brooks, indo mais devagar ao se aproximar de uma esquina.
Não houve tempo para que dissessem qualquer outra coisa, pois quando Harry abriu a boca, Morgan gritou:
— Saiam, agora!
Sirius arrancou a máscara preta, antes de abrir a porta e pular fora, correndo para a esquina. Harry o imitou, saindo do carro já correndo, ainda que quase tivesse caído. Ele seguiu Sirius, vislumbrando o carro cheio de buracos de bala se afastar com os pneus cantando na direção contrária.
Os dois avançaram para um restaurante logo à frente, onde entraram às pressas. Andaram com passos rápidos pelo estabelecimento, que ainda mantinha as cadeiras acima das mesas. Sirius seguiu para a porta que dava para a cozinha, com Harry em seus calcanhares, e entrou.
Ninguém ali ergueu a cabeça para olhá-los nem perguntou porque estavam ali. Eles atravessaram a cozinha, desviando dos funcionários, que se mantinham ocupados com seus afazeres. Apenas um homem, que Harry suspeitou ser o dono, encarou-os quando chegaram a porta de saída. ele abriu a porta para que passassem e fechou-a às costas do garoto, sem dizer nada.
Havia um caminhão pequeno ali, com a porta traseira da caçamba escancarada revelando várias caixas de papelão. Sirius entrou ali depressa, puxando Harry para cima e acomodando-o à um canto, escondido pelas caixas. Sirius se posicionou no lado oposto, também bem escondido.
Harry ouviu os passos do lado de fora e se encolheu.
Um homem parou a porta um instante e olhou para dentro em silêncio. Depois de um instante, ele fechou a porta e tudo ficou na total escuridão.
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