Perdido em Solidão
1 Capítulo único
Era o terceiro dia da primavera e o segundo ano que eu me mantinha naquela fazenda, e o cheiro da natureza entrava pelas janelas da cozinha aromatizando o cômodo por inteiro. Passava pelas minhas narinas e penetrava em meus pulmões, permanecendo ali, me contagiando por completo e me animando para mais um dia de trabalho.
Imagino se no quarto de hotel da Nami ela também conseguia se sentir tão conectada ao ambiente. É mesmo uma pena eu ainda não ter tido coragem o suficiente para pedi-la em casamento. Até porque andávamos tão próximos e acho que ela quer aquilo muito mais que eu. Mas o caso é, e se eu estiver errado?
Conferi o calendário, checando os aniversariantes da semana, em especial, óbvio, do dia. Ah, é verdade, quantos anos será que Gustafa fazia hoje? Antes que eu preparasse algo para dar-lhe, resolvi algumas coisas que tinha para resolver.
Me espantei ao perceber uma névoa meio roxa pairando sobre o sítio. Respirei fundo, mas aquilo não tinha cheiro nem sabor, apesar de ter me deixado meio enxuto. Era como se fosse vapor de água com corante, mas tinha alguma coisa de diferente. Olhei para os arredores, vendo se alguém estava me pregando uma pegadinha, mas não vi nada além dos meus animais acabando de acordar e também se estranhando com aquilo, então vi que aquela fumaça estava mais intensa para o lado esquerdo da vila.
Antes de averiguar, segui até a casa de Takakura. Bati na porta algumas vezes e esperei por resposta. Ele costumava sair um pouco mais tarde dali, então imaginei que estaria livre para me acompanhar, mas não fui recebido por ninguém. Encostei na maçaneta e vi a porta se abrir sozinha. Chamei por Takakura antes de entrar, mas como vi que não havia ninguém me senti meio que responsável por trancar sua casa, porque apesar de eu conhecer todo mundo daquela vila e saber que ninguém seria capaz de cometer tal delito, eu não podia arriscar. Peguei a chave que ele deixava na janela do lado de fora e girei-a dentro da fechadura.
Realmente me preocupei com Takakura, pois ele era muito mais cuidadoso que eu e nunca em sua vida deixaria algo assim sem proteção. Algo estava errado naquele dia e eu precisava saber o que era.
Olhei para o relógio da casa de Takakura pela janela e o vi marcando oito e meia. Não era comum eu acordar por volta daquele horário, mas acontece que o dia anterior tinha sido muito duro. O inverno tinha acabado por ir embora, então eu precisava repor os meus campos de colheita, ará-los novamente e plantar novas sementes de nabo, morango, pepino, batata e outras coisas. Além de que ainda sobrara um pouco de neve nos arredores, então passei a noite inteira retirando.
Olhei para os campos e os vi todos secos, o que me deu uma grande agonia. Me segurei para não pegar o regador e começar a molhar e cuidar de tudo aquilo. Minha meta naquele dia, primeiramente era saber o que estava acontecendo.
Senti uma coceira no nariz, imaginando ser causa daquela névoa que apesar de ser inodora e insípida, com certeza tinha alguma coisa estranha em sua composição. Comecei a espirrar e meu nariz ficou totalmente irritado. Meus olhos se encheram de lágrimas e logo já não podia mais mantê-los abertos.
Com eles bem semicerrados, avistei uma forma de vida em minha frente. Era uma mulher pois possuía cabelos longos e enrolados, mas era impossível ver seu rosto. Pisquei algumas vezes e de repente me vi caindo no chão, imóvel e perdendo os sentidos.
De supetão, me levantei e senti uma tontura extrema. Me assustei por já ser fim de tarde, mas o bom era que a névoa tinha sumido. Talvez tivesse sido tudo um sonho. Talvez a tensão do trabalho pesado que eu tive me fez desmaiar e sonhar tais coisas. Melhor conferir, né?
Depois de tudo parar de girar, analisei o lugar percebendo que eu estava em frente à mansão da Romana. Eu estava um pouco molhado por causa da água que jorrava da fonte e respingava em mim, mas mesmo assim entrei dentro do casarão. Bati os pés no tapete e chamei por Sebastian. Fui até a cozinha e voltei. Subi as escadas e bati na porta do quarto de Lumina. Será que tinham saído?
Já do lado de fora outra vez, olhei para o céu e me relembrei do que havia acontecido. Aquela neblina estava vindo daqui, não estava? Justamente daquela... Finalmente! Era o Guts! Bem na curva da mansão, estava ali aquele duende que ajudava na contratação de outros. Me aproximei todo alegre, dando graças por tudo que aconteceu não ter sido real. Cumprimentei-o, mas não obtive resposta dele, fui completamente ignorado. Era como se ele não estivesse me vendo. Ele apenas ficava girando em torno de si mesmo, e seus olhos... também giravam incessantemente.
Um barulho de explosão me fez pular para trás, então voltando minha visão para o lugar onde eu estava olhando há alguns segundos. Aquela casinha. Se bem me recordava, era ali que a Bruxa da vila morava. Seria ela a responsável por tudo aquilo?
Vi que a porta estava entreaberta e a empurrei. Um cheiro de algo sendo queimado entrou por minhas narinas e indo direto aos pulmões, me fazendo tossir, chamando a atenção da bruxa que procurava algo em seus vários livros enquanto ao mesmo tempo com sua magia, jogava alguns ingredientes um tanto quanto estranhos dentro daquele enorme caldeirão negro, o qual continha um líquido lilás que parecia estar extremamente quente, já que borbulhava e deixava o local com graus elevadíssimos. Em consequência daquilo, comecei a transpirar imediatamente. Meus lábios ficaram secos, assim como o meu nariz.
Ela se virou vagarosamente e quando colocou seus olhos sobre mim, se mostrou surpresa e imensamente feliz.
— Jack! Finalmente você veio me procurar! Gostou da minha surpresinha? — ela falava com aquele seu sorriso enorme na cara e vinha na minha direção toda contente — Eu estava olhando nesses livros antigos da minha vó semana passada e achei esse feitiço. Então comecei a pensar. — ela agora já estava quase passando por cima de mim — Quando você veio para cá, você não ligava para ninguém, não se importava com o meio ambiente daqui, se lembra? Você era o cara dos meus sonhos por causa disso. Mas me senti totalmente culpada por não ter dado o primeiro passo antes de você se reconciliar com aquela deusinha sem graça. Ela apareceu, te fez repensar nos teus atos e você virou esse anjo em pessoa, mas eu nunca desisti de você. — ela respirava pesadamente em meu pescoço, me fazendo arrepiar por inteiro, da cabeça aos pés. Eu tentava me afastar, mas ela acabava sempre voltando a permanecer na mesma posição. Ela segurou na minha mão de maneira leve porém intensa e voltou a dizer — Por causa disso, joguei essa maldição na cidade inteira para sumir com todos, com a deusa e seus pupilos e todos os viventes, menos você, para que possamos viver juntos e felizes para sempre sem a interferência de ninguém.
— Tudo bem, ãhn... — falei enquanto afastava-a com as mãos e virava o rosto — Eu realmente não sei qual o seu problema, princesa, mas você precisa desfazer essa maldição imediatamente.
Ela começou a rir e a fazer charme para mim. Pegou na ponta de seu vestido preto e começou a balançá-lo, juntamente com a sua cabeça.
— Mas eu fiz com tanto carinho, você não vai fazer desfeita desse meu trabalho duro, vai? — e piscou.
— Você não está entendendo, não adianta fazer gracinhas nem charme, eu só tenho olhos para a Nami, e a quero novamente nesse vilarejo agora, está me ouvindo? Agora! — aumentei o tom da minha voz.
Seu humor mudou completamente. O sorriso que levava em sua boca e em seus olhos se desfez imediatamente, e o clima ficou muito mais tenso. Olhei pela porta que estava aberta e vi o tempo se fechando, várias nuvens escuras aparecendo e cobrindo o sol, deixando tudo mais escuro. O caldeirão meio que explodiu e levantou-se outra onda de névoa dali, porém logo se dissipou.
— O problema, meu Jack, é que isso não vai rolar. Eu gastei muita energia e muitas noites trabalhando nisso — ela dizia com sua voz seca.
— Trabalhou em vão, pois eu nunca terei algo com você — já ia saindo do lugar quando vi a porta se fechando sozinha e sendo trancada sem chave nem nada do tipo. Me virei e bati o pé para ela, mostrando estar nervoso e irritado com aquela situação. Eu só queria todos os meus amigos de volta!
— Acontece que eu não sou burra, imaginei que você não colaborasse com o nosso destino — Destino? Ela estava louca de pedra! — Por isso preparei esta poção aqui para que você sinta algo por mim.
Arregalei os olhos, comecei a balançar a cabeça em desaprovação. Soltei uma leve risada abafada.
— Você é completamente louca, eu já te disse isso? — comecei a esmurrar a porta, colocando toda a minha força para tentar arrombá-la. Vendo que não daria certo, me virei e passei a observar o caldeirão. Ela não iria mesmo me fazer amá-la à força. Corri para trás dele e o pressionei com minhas mãos. Elas queimavam mas tentei aguentar aquela dor. Enquanto isso, ela ria de mim e retirava a rolha daquele frasco.
Percebi uma leve movimentação no caldeirão, o que me motivou a continuar a empurrá-lo. Ploc. E então ele virou. Aquela panela enorme revirou e espalhou o líquido roxo e borbulhante nos pés da bruxa, que apenas soltou um lamento.
Subi em um banquinho para que aquilo não me atingisse e observei a bruxa desaparecer. Seus pés começaram a sumir e ela começou a gritar. Passou para as mãos e seus olhos já estavam cheios de lágrimas.
— Como você pôde fazer isso comigo? — chorava — Como você pô... — mas antes de terminar, ela desapareceu por completo. O silêncio reinou, e aquele líquido sumiu junto a ela.
Era só eu agora, naquela vila. Pensando bem, não devia ser tão difícil viver sozinho. Claro que todos iriam fazer falta, muita falta, mas eu superaria. Eu tenho meus animais, eles podem ser meus novos amigos. É isso. Vou viver como se nada tivesse acontecido e continuar fazendo meu trabalho.
Dei mais alguns chutes na porta, até vê-la estatelada no chão. O tempo estava aberto outra vez, lindo como sempre foi. Os passarinhos cantavam e o vento batia em minhas costas suadas, me refrescando.
Desci da casa de Romana e fui em direção à praia. Era estranho não ouvir o barulho das engenhocas de Daryl funcionando àquela hora da manhã e senti um enorme vazio naquele mesmo momento. Comecei a repensar se eu conseguiria mesmo viver sem toda aquelas pessoas que faziam dos meus dias mais alegres.
Parei bem na beirada do mar, retirei meus sapatos e deixei meus pés se molharem. Mais uma vez, Nami me veio à cabeça. Não sabia como ela conseguia passar todos os seus dias olhando para o mar, se fazendo a mesma pergunta de sempre. Era simplesmente incrível.
— Talvez nesse lugar em que eu esteja, eu finalmente descubra de onde as ondas vêm, Jack — eu ouvia ela dizer bem no fundo de meu inconsciente. Olhei para o lado e vi sua projeção quase real ali. Meus olhos se encharcaram e peguei em sua mão. Era como se ela realmente estivesse ali, mas eu sabia que não estava.
Me vi caindo de joelhos naquela beira-mar, me apoiando com as mãos enquanto deixava os pingos de lágrimas molharem a areia. Não tinha como desfazer o feitiço e eu estava sozinho outra vez, eu não tinha mais para onde ir. Me sentei, abracei meus joelhos e observei as palmas de minhas mãos que estavam vermelhas e já começavam a aparecer indícios de bolhas. Ela ardia por conta da areia, mas eu não ligava. Decidi ficar ali pelo tempo máximo que eu conseguisse. Meu corpo inteiro começava a tremer, eu estava surtando. Me arrependia e me orgulhava de ter feito o que fiz com a princesa. Era uma completa bagunça dentro de minha cabeça.
— Por que você não vem comigo, Jack? Podemos achar nossas respostas juntos — Nami continuava no mesmo lugar, agora olhando para mim e me oferecendo a mão. Olhei para o horizonte e pensei nessa opção. Naquele ponto, já não faria mais diferença, não estou certo? Me reergui, segurei outra vez em suas mãos lisas e macias e deixei que ela me levasse para dentro daquelas águas geladas e profundas.
Eu só queria todos os meus amigos de volta.
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